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terça-feira, 11 de novembro de 2008

As palavras dos bispos e a Igreja hoje

Os pronunciamentos dos bispos são muito divertidos. Após o «puxão de orelhas» de Bento XVI, a quando da última visita Ad Limina, o ano passado, os bispos só agora se lembraram que a Igreja tem que mudar e encetar novos caminhos de evangelização.
O Arcebispo de Braga, actual Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, dirigiu uma importante comunicação aos seus pares sobre a necessidade da mudança e sobre os caminhos novos que a Igreja deve inventar para comunicar a sua mensagem ao mundo de hoje. O bispo Emérito de Aveiro escreveu um texto muito interessante na Agência Ecclesia, onde refere que os principais responsáveis pelo atraso da Igreja em Portugal são os bispos, que não têm coragem nenhuma e que continuam a alimentar-se de uma Igreja sob o regime de «cristandade». Todos falam da necessidade de preparar e formar leigos para se empenharem mais na vida da Igreja. Como se o centro da mudança estivesse exclusivamente aí!
Tudo isto é muito bonito e interessante, mas nem o Papa, nem os bispos reunidos em Fátima e nem o antigo bispo de Aveiro nos revelam o «como se faz» para que a Igreja mude. Todos sabem fazer o diagnóstico da doença, mas ninguém aponta as formas de tratamento da mesma.
O Papa está no centro das decisões, lê bem os acontecimentos, faz apelos e dá até «puxões de orelhas», mas depois o que nos ensina quanto aos métodos para mudar e quanto às coisas que são prioridade mudar agora? - Mantém-se irredutível e apresenta um pensamento fechado e até por vezes conservador e retrógrado.
O antigo bispo de Aveiro, esteve muitos anos à frente desta Diocese, em que se destaca a sua antiga Diocese? E braga? E Lisboa? E Funchal? E todas as Dioceses do nosso país? Apontar alguns problemas é fácil e fazer os diagnóticos das doenças também não me parece ser tarefa muito difícil. Porém, a prática é um desastre. Os bispos não têm coragem, rodeiam-se de figuras da Igreja conservadoras e pouco esclarecidas quanto aos assuntos da vida e do mundo. Os bispos não ousam afrontar o poder político em nada e se o fazem numas pequenas coisas, fazem-no com pezinhos de lã e logo depois sentam-se à mesa do poder político para se banquetearem com o festim dos subsídios e das benesses do poder do mundo.
Os bispos são muito bons a fazer considerandos e apelos, mas pouco agéis quanto à tomada de decisões, porque vivem do medo ou da falta de coragem. Porque não querem divisões nem gostam do confronto de ideias, procuram rodear-se só daqueles que lhes fazem vénias e afastam o mais que podem os que os confrontam e os que ousam contrariar alguma coisa.
A meu ver a Igreja precisa de mudanças, mas mudanças sérias e profundas. Nunca a Igreja mudará eficazmente enquanto os apelos à mudança se centrarem apenas na formação dos leigos, como se a culpa do atraso da Igreja estivesse apenas e exclusimente nisso. A Igreja precisa de mudar a sua estrutura clerical (deixar de vez o clericalismo absurdo e anacrónico), tem que deixar de ser um poder, religioso, mas poder. A Igreja precisa de mudar o pensamento e o seu ensinamento quanto a tudo o que diz respeito à vida, tem que valorizar a vida em todas as suas dimensões, tem que ter um discurso positivo quanto à sexualidade, isto é, a sexualidade não pode ser vista como um meio só e unicamente para gerar filhos. Daí a necessidade urgente de considerar os contraceptivos como meios para evitar doenças (o SIDA, por exemplo) e meios que ajudam a melhor viver a sexualidade como dom de Deus para o prazer e para a festa do amor. É esta mensagem positiva que a Igreja deve transmitir ao nosso mundo, porque é isto que os homens e mulheres esperam da Igreja. Óbviamente, que tudo isto requer responsabilidade e muita seriedade. Por isso, cabe à Igreja, às famílias, às escolas e todos os lugares de educação ensinarem estes valores às gerações mais novas.
A Igreja, tem que valorizar as opções de todas e de cada pessoa, não pode considerar que a fé verdadeira radica nos que estão dentro dela e os ditos de fora estão já no inferno ou são diabolizados. Não pode defender o celibato dos padres tal como existe há mais de mil anos, não pode recusar o sacramento da Ordem às mulheres, não pode ser Igreja-mãe para uns e madrasta para outros. A Igreja tem que ser mais transparente quanto aos seus bens móveis e imovéis, o que é de todos não é só de alguns, não pode querer os leigos só para as tarefas menores, têm que participar no governo das contas da Igreja, na escolha dos bispos e dos párocos, numa palavra têm que ser chamados à vida toda da Igreja e não apenas a «coisecas» que não fazem mossa nenhuma no poder absoluto da hierarquia. E a burocracia que consome a Igreja e que tanto mal faz aos cristãos, porque os coloca numa roda vida de padre para padre e algumas vezes são banidos da participação dos sacramentos e da vida da Igreja em geral? (...) A meu ver é disto que os bispos têm que começar a diálogar entre si e logo depois ousar com coragem mudar a Igreja para o bem de todas as pessoas e para o bem do futuro do mundo.
As mudanças de que se fala não podem ser só num sentido, têm que ter a ver com o interior da Igreja, porque se se fala de singelas maquilhagens aqui ou ali, então, estamos falados, nada disto não passa de propaganda para inglês ver. Oxalá me engane redondamente.

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