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terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Comentário à Palavra de Domingo

04 Janeiro 2009
Domingo da Epifania do Senhor – Ano B
Todos recebem a mesma herança
Ef 3,2-3a.5-6
Entre todas as orientações que o Concílio Vaticano II encaminhou ou pôs em relevo, uma das mais importantes e significativas é indubitavelmente o apelo à unidade fundamental da família humana (cf, por ex., GS 24; 26; 27). Este é o sonho de Deus e que, por sinal, nós também tomamos como nosso, porque o apelo da unidade deve sempre aquecer o nosso coração como um sonho ou meta que queremos atingir um dia. A humanidade tende a um universalismo até agora nunca atingido e que produzirá um novo tipo de homem, cuja cultura não será mais limitado à da sua civilização e cujos meios técnicos serão património de todos. Este dinamismo impressionante é tão característico da esperança contemporânea, que os que manifestam exclusivismo racial, nacional ou cultural são considerados ultrapassados. Interessante como o Apóstolo Paulo, se refere ao mistério de Cristo, como uma realidade oferecida a todos. A salvação de Deus é para todos. Por isso, todo o exclusivismo, todo o narcisismo e toda a altivez perante os outros redundam num absurdo muito grande perante o acontecimento de Deus. Israel recebeu a missão de reunir todos os povos na descendência de Abraão e de realizar assim a promessa do universalismo. Israel acreditou, erroneamente, poder formar essa unidade com certo numero de práticas particulares: a lei, o sábado, a circuncisão. Só a fé de Abraão teria sido capaz de reunir todos os pagãos, e os judeus não souberam desligá-la das suas práticas legais. O anúncio de um novo povo de Deus, de dimensões universais, prefigurado e preparado no povo eleito, realiza-se plenamente em Jesus Cristo, para quem converge e que recapitula todo o plano de Deus (Ef 1,9-10). Nele, tudo o que estava dividido encontra de novo a unidade. Convocando os magos do Oriente, Jesus começa a reunir os povos, a dar unidade à grande família humana, que se realizará plenamente quando a fé em Jesus Cristo fizer cair as barreiras existentes entre os homens, e na unidade da fé todos se sentirão filhos de Deus, igualmente redimidos e irmãos. povo é a Igreja, comunidade dos que crêem; ela realiza e testemunha, através dos séculos, o chamado universal de todos os homens à salvação, pela obra unificadora de Cristo. É significativa a visão final do Novo Testamento (Ap 7,4-12; 15,34; 21,24-26): uma multidão de raças, povos e línguas, que saúdam a Deus, orei das nações, e que habitarão a nova Jerusalém, onde a família humana encontrará a unidade.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Dia Mundial da Paz. O que é a Paz?

A paz é uma realidade interior e exterior que todos os homens procuram. Alguns autores separam uma paz da outra, mas outros, numa perspectiva mais conciliadora, entendem que uma não é sem a outra. A doutrina da Igreja sobre esta matéria, também entende claramente que a paz exterior é fruto da paz interior. Ou seja, uma não é sem a outra, estão ambas as dimensões da paz ligadas entre si. Santo Agostinho, no Livro 19 da «Cidade de Deus», deu-nos a primeira definição de Paz, que vai influenciar todas as definições posteriores: «A Paz de todas as coisas é a tranquilidade na ordem». Depois procurou exemplificar com nove casos, que vão desde «a paz da alma racional» à «paz dos cidadãos», passando pela «paz doméstica». Em tudo, há que fixar e lidar com dois elementos cruciais: a harmonia e a ordem. A primeira, é a tranquilidade desejada nesse estado de alma que todas as criaturas anseiam. E a ordem, como diz Santo Agostinho, é «a disposição que segundo as semelhanças e diferenças das coisas confere a cada uma o seu lugar». Assim sendo, definiremos, hoje, a paz interior como a tranquilidade do espírito individual, proveniente da ordenação das coisas do mundo e da vida. Sem deixar de mencionar que os aspectos da consciência em comunhão de amizade com Deus, com os homens e com o Universo, são elementos essenciais para esse pleno encontro com a harmonia interior da pessoa. A paz exterior (social) será a boa e tranquila convivência com todas as coisa para tal ordenadas. Porém, o entendimento sobre a paz nem sempre foi pensado desta forma. Se nos remetemos à antiguidade descobrimos em filósofos como Heraclito, «que a guerra é a mãe de todas as coisas», dá logo a ideia, entendida e defendida por muitos que a novidade só é possível com os conflitos e que a história humana não se faz sem as guerras, mesmo que a morte e a destruição sejam o preço que muitos tenham que pagar. No entanto, não foram menos incisivas as teorias de Maquiavel (séc. XV) com a sua «arte da guerra» e por Nietzsche (séc. XIX) as «guerras» que justificam o Super-homem, até a mais sofisticada, mas não menos violenta «luta de classes» de Marx e de Mao Tse Tung (séc. XX), sem nunca deixarem de ser perseguição de estratégias para unir os opostos. Como se percebe nem sempre a paz foi entendida do mesmo modo. A cultura Ocidental, também tem conceitos distintos para entender a paz e que muitas vezes dependem dos diversos entendimentos sobre a guerra e sobre os conflitos. Se na cultura ocidental, surgiram diversos modos de conceber a ideia sobre a paz deveu-se ao judaísmo, aos gregos, aos romanos e ao cristianismo. Os diversos termos da paz são os seguintes: 1º «Shalom», no meio de guerras e conflitos o povo de Israel desejou esta paz como benção. Shalom, significa plenitude, que é o conjunto de todos os bens. Mas nesta forma ideal de pensamento sobre o valor da paz inventou-se a «Guerra Santa». O termo grego para a paz é «Irene», o ideal do irenismo, seria alcançar o bem estar entre homens e cidades. Também diante deste patamar ideal sobre a paz, criou-se um contra-ponto, o da «Guerra Justa». Os gregos entendiam-se autorizados a combater os outros povos destinados à escravatura. Havia ainda um outro ideal para os gregos «Ataraxia», que significava não sofrer com nada, quase nada sentir, exactamente, o mesmo ideal do Nirvana oriental. O termo latino é o seguinte: «Pax». Este termo tem a mesmo raiz de «pactum». Estabelece-se um pacto, uma trégua, uma ordem que impõem «a pax romana». Esta paz durava pouco, pretendia estabelecer a paz para o imperador, mas estava de mão dada com os exércitos que dominavam e subjugavam a Roma as outras nações. A doutrina cristã também criou um significado para a paz, que radica na palavra de Jesus Cristo: «a minha paz...não a dou como o mundo a dá...». A definição do termo paz, para o cristianismo está contida na pessoa de Jesus: «a Paz de Cristo». Estamos perante uma realidade nova, fruto da justiça e dom do Espírito Santo, que inclui todas as outras definições de paz, mas acrescenta-lhes uma característica essencial: é uma relação de amor. Também tem ajudado a justificar guerras e opressões sempre que se esqueceu que era dom gratuito de Alguém e se convertia em prepotência e autoritarismo religioso chamado «clericalismo». A paz, é um dom que Deus concede a todos os corações humanos que se predispõem ao seu acolhimento. E por ser essa realidade, dom de Alguém, é sempre precária, isto é, está sujeita aos condicionalismos e interesses mundanos. Assim, não devemos esquecer, a paz é trabalho nosso e dom de Deus. É sempre tarefa e encontro. Por isso, devemos entender a paz como Missão e Graça. Ou ainda, como acolhimento e desejo de encontro com Alguém que deseja sempre e em todas as circunstâncias a salvação. Onde estão os pacíficos, os que promovem a paz. Segundo Jesus, pacífico é aquele que é «fazedor de paz». E as Bem-Aventuranças anunciam que bem-aventurados são os que constroem a paz, «porque serão chamados Filhos de Deus». Deste modo, promover a paz é ser «Filho de Deus», isto é, «ser amado», ser fruto da relação. E no amor está a Bem-aventurança, a Plenitude, o Shalom. Um ano de 2009 cheio de paz para todos!

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

OS TEMPOS DA LAPINHA. LEMBRAM-SE?

Outro tempo e outra inocência que remetia para o saudável reconhecimento de Deus como Pai, Irmão e Amigo, estava bem patente no ambiente da Festa (o Natal). A memória recorda-me esse retracto de simplicidade e pobreza, como imagem da família toda. Por exemplo, a cerimónia da transformação do recanto do quarto onde se erguia a Lapinha, era simples, mas carregado de significado e de fé. O Oratório saía do seu local habitual e durante a quadra da Festa colocava-se as escadinhas, cheias de frutos variados e searinhas. No cimo, lá estava o Menino-Deus de braço em punho anunciando, os novos tempos da paz e do amor em todas as famílias do mundo e, naquela, em particular, onde o desejo de paz e compreensão familiar, bradava aos céus em todos os momentos de oração. O momento dos “brindeiros” - era assim que se chamava a sofisticada troca de presentes que temos hoje - revestia-se de uma expectativa muito grande. O Menino Jesus não tinha mãos a medir, abria os cordões à bolsa e a todos alegrava com lembranças simples mas densas de sentido. As frutas da Lapinha, eram do Menino Jesus, porém, se as nossas tias estivessem em horas de boa disposição, podíamos pedir a peça de fruta desejada e logo tínhamos a permissão do Menino. Não posso esquecer que as frutas do Menino Jesus eram sempre as melhores da árvore, eram escolhidas uma por uma para o efeito. Todos desejavam por demais aquelas laranjas, os pêros Domingos, as mais variadas maçãs, as castanhas secas… Estávamos perante um verdadeiro manancial de frutas belas e apetitosas. O Menino-Deus merecia o melhor das colheitas. Este encanto simplório, fez parte de um tempo, cuja inocência seria reflexa de uma fé antiga, que passava de geração em geração. Porém, era tudo saudavelmente natural e espontâneo. No nosso tempo, tudo se compra, mesmo até os artigos inúteis e vazios de conteúdo: os jogos de guerra para as crianças; as árvores de Natal de papel ou de plástico; os presépios artificiais com figuras tristes e deslocadas do imaginário e todas essas variedades incalculáveis que o mercado oferece. Tudo se reduz a plástico artificial sem magia e sem encanto. Usar e deitar fora, eis a regra deste tempo. A inocente pobreza do tempo dos meus avós acabou, para dar lugar à abundância das muitas e variadas coisas de Natal sem conteúdo, sem interioridade, sem tradição (sem memória), sem espírito e sem fé. O reino do plástico, que se compra, usa e deita para o lixo, está no meio de nós. Hoje, a nossa mentalidade descobre um mercantilista “Pai-Natal”, que está mais de acordo com esta sociedade do bem vestir e o bem falar, que são a regra número um da convivência social. A vaidade da aparência, da imagem artificial e hipócrita são os caminhos mais visíveis dos homens e mulheres do nosso tempo. Os “grandes” do mundo, são os orgulhosos, os que ostentam poder e fama que contrasta de forma desconcertante, com a simplicidade, a pobreza e a inocência do grupo de pastores que Deus escolhe para dar a boa notícia em primeira mão, sobre o nascimento do Deus-Menino. Deus deveria estar “louco” ou enganou-se redondamente, porque escolheu o pior que há na sociedade, um grupo de marginais andrajosos que não tinham onde cair mortos. Esta gente que Deus prefere não sabe vestir, são ladrões, mal cheirosos, incultos, com uma aparência pouco digna, nada atraentes pelo que se vê e, como não podia deixar de ser, são gente acima de tudo, de pouca fama na sociedade em geral. Então que Deus é este que transmite a notícia do nascimento do Redentor a este tipo de pessoas? - A nós, sem dúvida, longe de nos lembrar convidar essa gentalha para um acontecimento tão importante. Escolheríamos logo talvez os sacerdotes, os políticos e todos os que a sociedade considera senhores bem vestidos e perfumados. Que Deus nos perdoe, mas tínhamos melhor gosto, porque saberíamos escolher melhor e, sem dúvida, que se arranjaria gente mais bonita, mais bem vestida, mais bem falante e mais bem comportada do que pobres e simples pastores. E ainda, que nos perdoe Deus, mas também se arranjaria melhor lugar para o Menino-Deus nascer!... Uma clínica cheia de bons médicos, com muita luz, boa cama, roupa quente e cheirosa. No fim, depois de tudo correr bem reuniríamos numa sala majestosa de um qualquer palácio ou hotel de cinco estrelas, para fazermos uma festa com a melhor gente da sociedade, com boa música, danças de qualidade e a melhor ostentação da nossa praça. Então alguém com bom senso, pensaria em colocar um Menino-Deus na frieza de uma gruta envolto em palhas, respirando o bafo de animais sem tino, sujeito a sobressaltos constantes por causa dos berros desmedidos dos bem-aventurados animais. Mas afinal que Deus é este? - Um Deus radical e extremo que, quiçá, por teimosia ou birra infantil fez nascer o coitado do filho numa manjedoira. Ah!.. Se fossemos nós, não olharíamos a medidas. A festa melhor e a maior do ano seria a festa do Menino-Deus. Meu Deus, não deves estar admirado nem surpreso com a nossa vaidade, a nossa tendência para a luxuosidade e para as grandezas. Somos, provavelmente, numa perspectiva humana um caso perdido. Pelo teu lado, descobrimos que continuas, mesmo passados tantos anos, envolvido numa mesma causa, ora com alguns resultados positivos, ora com muitos resultados negativos, a preferir a simplicidade, a pobreza e a marcar encontro com todos os abandonados, porque não desistes de ser um Deus da vida para todos, sobretudo, para aqueles que diante dos olhos do mundo a perderam. A tua insistência impressiona e desconcerta-nos sempre. Por isso, perdoa-nos porque continuamos preferir a vaidade e fazemos sempre as melhores escolhas convencidos que com isso mudaremos o mundo. Para onde vamos? E Onde chegaremos, afinal, com esta mentalidade desenfreada assente no orgulho, na vaidade pelas coisas grandes e faustosas? - A simplicidade de Deus, que todos os anos faz nascer sempre nova, a luz da pobreza e da humildade, para nos relembrar que não faz sentido nenhum, estarmos minados pelo gosto do chique, a avidez das modas e a atenção constante nos bens materiais de último modelo. Até parece que tomámos gosto pela violência da vida e que o nosso coração se torna dia para dia cada vez mais sofisticado. A nossa recusa acentua-se na ausência de um coração simples, livre de preconceitos, sem medos absurdos sobre o futuro e sem nos inquietarmos sobre o que parece bem ou sobre o que parece mal. Para quando a riqueza de corações livres de manchas negras que aprisionam a criatividade? E para quando o assumir da humildade que nos conduz à entrega de serviços humanos que edifiquem aqui e agora o reino da fraternidade? - A resposta, lê-se no rosto alegre e confiante das figuras da Lapinha. Ainda assim, parece-me, ser o quadro mais apaixonante que embeleza a casa do nosso coração. BOM NATAL PARA TODOS OS MEUS LEITORES...

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Porque é tempo de Natal….

Porque é tempo de Natal…. Tempo da família… A nossa família… E a família de Deus… A família. Como se faz? - A família, faz-se mediante um contrato social, jurídico, canónico ou religioso, entre um homem e uma mulher que desejam ser procriativos. A família tem uma base antropológica. É um homem e uma mulher, em ordem à procriação (atenção: a aqui a palavra procriação não tem só em vista a geração dos filhos, mas procriação no sentido de felicidade que o amor produz sempre), numa relação estável e segundo a óptica da Igreja, para toda a vida. A família. As ameaças? - O discurso sobre o respeito, a fidelidade e a castidade, é, hoje, muito complicado, porque facilmente se apelidam as pessoas que o defendem ou o vivam no seu dia a dia, de retrógradas e de tradicionalistas. Hoje, o que dá é ser o que o momento proporciona, porque não interessa a estabilidade emocional e a fidelidade aos valores. O que importa é viver a ocasião intensamente. A instituição, como valor perene e estável, sofre muito com esta forma de pensar e viver dos tempos actuais. A família. Importância e o futuro? - A família, continua a ser uma forma de crescimento humano e de educação fundamental para a pessoa humana. Todos reconhecemos que a família actual está a atravessar uma crise muito grave. É certo que assim seja, porque os problemas que advêm daí estão à vista de todos. Porém, requer-se uma acentuada intervenção na educação para que a família retome o seu lugar na sociedade. Mais reconhecemos que a família em crise arrasta consigo toda a sociedade. Cada vez mais, reconhecemos que se todos os pais e todas mães fossem verdadeiramente responsáveis pelos seus filhos a nossa sociedade estaria melhor e os problemas não seriam tão graves no que diz respeito à convivência social. A todos é pedido que se empenhem na educação para que a família continue a ser a principal escola de crescimento e de educação de todos os homens e mulheres, dentro dos parâmetros que a antropologia a definiu. Caso não exista esta consciência entraremos no caos e na perversão geral que tanto nos comove ou escandaliza. Mas, mesmo que estes considerandos sejam um pouco negativos no que diz respeito à família, gostaria de salientar que existe uma multidão de pais e mães muito responsáveis e preocupados que gostaria de homenagear e incentivar.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

O maior drama da humanidade

Pelo estado a que chegou o mundo, o maior drama da humanidade, é a sua incapacidade para se organizar equitativamente. Por um lado, este é um drama fruto da má governação do mundo, das péssimas opções da humanidade quanto ao desenvolvimento e da exploração desenfreada da natureza. Por outro, não creio que a diferença da humanidade seja um impecilho à justiça, pelo contrário, a sua diferença é uma mais valia, uma riqueza essencial. Porém, a humanidade não é capaz de conjugar essa diferença e mais facilmente se deixa contaminar pela divisão do que pelo entendimento.
O caminho da fé, na realidade sempre nova que celebramos no Natal, devia ser um caminho interessante para a humanidade resolver todos os seus problemas. Mas, que temos no que diz respeito ao caminho da fé a humanidade caiu numa confusão geral. São múltiplas as formas de ver Deus e todos os seus contornos. Os valores da fé quando levados à prática muitas vezes tornam-se contra valores. Quer isto dizer que a fé, no verdadeiro sentido da palavra, quando não é crença num Deus da vida, da paz e do amor, é uma forma de domínio para fazer guerra. A fé quando tomada com interesses mercantilistas e quando se mistura com o apetite do poder torna-se uma arma de fogo muito poderosa e destrutiva. E não são só os fundamentalistas do mundo islâmico, também a nossa Igreja Católica, de outro modo e com outras formas de combate, está impestada de fundamentalismos e terrorismos muito preocupantes.
O caminho da fé é um só, a sua expressão é que ganha muita diferença e muitos contornos essenciais para ser manifestação da riqueza de Deus. Mas, se se converte numa arma de combate ou numa manifestação do poder conduz a humanidade para a desgraça. Podíamos lembrar aqui muitos momentos e figuras da Igreja Católica, quando quiseram impôr uma fé que nada tinha que ver com o Deus do Evangelho, mas antes com o deus pessoal, o deus do poder deste mundo.
O desconserto do mundo actual, que ganha expressão maior na insegurança ou medo global, é consequência das muitas fezadas que alguma humanidade fabricou a partir de si mesma. Daí estarmos perante um mundo sem desgovernado, sem equilíbrios de ordem humana e ecológica, dizimado pelas doenças, a fome, a guerra, as divisões a todos os níveis que provocam uma mortandade generalizada, uma grande insegurança quanto ao futuro e muitos milhões de pobres sem lugar nem vez neste nosso mundo saturado de injustiça.
Seguindo este raciocínio, não são as muitas formas de «ateísmo» ou «recusa de Deus» que são as mais preocupantes, mas antes a mutiplicidade de fezadas e pensamentos aburdos àcerca de Deus que nos devem preocupar. As guerras mais destrutivas e os maiores conflitos não aparecem de gente que diga não crer em Deus, mas de gente e de momentos históricos ditos de muito próperos no que diz respeito à fé.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

«A revelação do mistério mantido em silêncio»

21 Dezembro 2008 Domingo IV do Tempo Advento – Ano B
Rom 16,25-27
A palavra grega «mysterion» (Mistério) é uma palavra significativa na teologia de Paulo, ocorre vinte e uma vezes ao longo dos seus escritos. Ela refere-se ao conhecimento que vai além da compreensão de pecadores, mas, que agora tem sido graciosamente revelado por meio do Evangelho. A ênfase do conceito está no facto que esta informação agora pode ser conhecida, que explica a sua associação em comum com palavras como apokalypsis, ‘revelação’ (Rom 16, 25; Ef 3, 3), apokalyptein, ‘revelar’ (1 Cor 2, 10; Ef 3, 5), gnorizo ‘dar a conhecer’ (Rom 16, 26; Ef 1, 9; 3, 3, 5; Col 1, 27), e phaneroo, ‘manifestar’ (Rom 16, 26; Col 1, 26) … Com a excepção de uma ocorrência do termo, o mysterion é o Evangelho (1Cor 14, 2 refere-se aos mistérios). A equação de Mistério com o Evangelho é algo implícito (1Cor 2, 1; 2, 7; 4, 1) e às vezes explícito (Rom 16, 25-26; Ef 6, 19; Col 1, 25-27). Às vezes mysterion refere-se a um aspecto específico do plano de redenção de Deus como o endurecimento dos judeus (Rom 11, 25), a inclusão dos gentios na igreja igualmente como os judeus (Ef 3, 3, 4, 9; Col 1, 26-27), a mudança a ser experimentada pelos crentes na parousia (o fim dos tempos) (1Cor 15, 51), a união de todas as coisas em Cristo (Ef 1, 9), e o Mistério da iniquidade que será revelada na parousia (2Tess 2, 7-8). Este mistério que Paulo proclama é a revelação do plano de Deus, e no entanto, sem amor, este conhecimento de nada valerá (1Cor 13, 2). Não há dúvidas de que existem coisas encobertas e pontos difíceis a serem entendidos na Bíblia (Deut 29, 29; 2Ped 3, 16). Dependendo na maneira pela qual os pontos estão aplicados ou entendidos podem colaborar para o nosso aperfeiçoamento (Ef 4, 12; 2Tim 3, 16s) ou levar-nos à perdição (2Ped 2, 1; 3, 16). Deus não pode ser completamente entendido, pois Ele é um ser infinito e nós finitos (Is 55, 8,9; Rom 11, 33s). As Escrituras são revelações de Deus, todavia, para o nosso entendimento (Deut 29, 29). A Bíblia não deve ser deixada de lado por Ela tratar de assuntos divinos e sublimes. Devemos procurá-la para termos o ensino de Deus. Só assim teremos esperança (Rom 15:4) e gozo completo (Jer 15, 16; 1João 1, 4). Somente vivendo adequadamente a Palavra de Deus podemos ser encaminhados a realizar boas obras (2Tim 3, 16). Se não tivermos uma Bíblia ou se fizermos da Bíblia um objecto de ornamento não procurando o Seu ensino seremos «crianças inconstantes, levados para todo o lado pelo vento de qualquer doutrina» (Efés 4, 11-14). As verdades que conhecemos hoje, nem sempre foram reveladas. Há assuntos que entendemos hoje, que por anos, muitos profetas e reis desejaram entender (Luc 10, 24; I Ped 1, 10). Os segredos que não foram entendidos no Antigo Testamento mas agora explicados no Novo Testamento são os que a Bíblia chama «mistérios». A própria palavra traduzida «mistério» ou «mistérios» no Novo Testamento (e estas palavras só se encontram no Novo Testamento) significa «segredo». E diante do Mistério, resta-nos o silêncio e uma verdade elementar, é mais o que não sabemos sobre a essência de Deus, do que aquilo que sabemos. Por isso, deixemos o nosso olhar interior contemplar essa realidade e isso é suficiente, para que a nossa fé encontre todo o sentido para ser útil à vida.

O poder da oração

A oração está para a vida do cristão, como a respiração está para a existência biológica. A vida não é possível sem a respiração. A vida espiritual não é possível sem a oração.
Mas, afinal o que é a oração? - logo de imediato podemos dizer que rezar é viver. A oração é vida e a vida é oração. Muitas vezes somos tentados a compartimentar os momentos de oração, torná-los momentos estanques do viver. Mas está errado fazer isto. Os momentos ditos de oração, que são aquelas ocasiões de encontro íntimo com a realidade que se acredita, devem ser um ponto de chegada da vida e depois também um ponto de partida para a vida. A vida é oração e a oração é vida. Jesus Cristo é o modelo por excelência desta formulação sobre a oração.
Os tais momentos ditos de oração, não devem reduzir-se a um rol de petições ou a um monólogo, mas devem ser antes momentos de entrega apaixonada à verdade do Reino que Jesus nos propõe. Caso não seja essa entrega a Deus e ao seu projecto, então entramos no domínio da oração puramente mercantilista, o autor Saint-Exupéry chamou a atentção para essa tentação: «A grandeza da oração reside principalmente no facto de não ter resposta, do que resulta que essa troca não inclui qualquer espécie de comércio».
Face a esta realidade, muita da oração está contaminada logo à partida, porque se reduz a uma procura de interesses pessoais, egoístas. O Apóstolo São Paulo vai ser muito claro ao coloacar a oração no domínio do «exame», para que seja uma forma de discernimento espiritual sobre a vida, para que as verdadeiras escolhas sejam feitas com verdade: «Examinai tudo, guardai o que é bom» (1Ts 5, 17). Neste domínio e de acordo com esta ideia Friedrich Novalis dirá «Rezar é para a religião o mesmo que pensar para a filosofia. Rezar é criar religião».
Por fim, resta-nos o seguinte ensinamento sobre a oração: «Como o corpo se não for lavado fica sujo, assim a alma sem oração se torna impura» (M. Gandhi). Mas, não haverá melhor mestre do que Jesus Cristo, Ele que na prática movimenta a oração e na oração movimenta a prática para Deus Seu Pai.
Tudo está no como cada um se encontra com Deus e consigo mesmo. A oração, os tais ditos momentos de intimidade, de silêncio e de diálogo interior, são uma forma sublime de se descobrir a si mesmo para logo depois se doar para a vida através do trabalho ou das tarefas do dia a dia. E «A melhor oração é a mais clandestina» (Edmund Rostand), exactamente como ensinou Jesus, a melhor oração seria aquela que se faria na «intimidade do quarto». E mais não ensinou sobre a oração senão o magnífico «Pai-Nosso», porque para a oração quis dar-nos a maior das liberdades. Boas orações para este mês da festa, onde cada um é chamado a desocbrir-se mais cheio de espiritualidade e menos de materilidade vã.