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domingo, 19 de julho de 2009

O pão do nosso contentamento

Mais impressões desta minha incursão pelo nosso Potrugal Continental. No alto da colina, ergue-se a bela aldeia de Monsaraz, coração do Alentejo. Aí descobri um vendedor de pão, que gentilmente me ofereceu um pedacinho para provar e a seguir um pequeno papel onde nos ensina como fazer o pão que alimentou os povos por estas bandas ao longo de mais de dois milhões de anos. No final das instruções diz que o pão desenfornado gerou o «pão do nosso contentamento». Achei muito curiosa a expressão e veio de encontro às impressões de ontem, que intitulei como «o passeio do meu contentamento».
Mas, à parte as coincidências, quero agora partilhar como este momento se mostrou para mim o prolongamento da Eucaristia que tínhamos celebrado à pouco junto aos pés da Imaculada Conceição, Santuário de Vila Viçosa. Sim, o mesmo lugar, onde D. João IV em 1646 arrancou da sua cabeça real a coroa de rei de Portugal e a colocou na cabeça da Imagem de Nossa Senhora da Conceição e com este gesto fez da Imaculada Conceição protectora de todos nós, melhor dizendo, Padroeira de Portugal ou raínha de Portugal.
Seguindo adiante, vi no semblante do homem que me oferecia o pão, a alegria de quem partilha orgulhosamente a iguaria mais nobre que a humanidade coloca sobre a mesa. O pão da vida que dá vida em abundância para todos. O melhor alimento para oferecer e aquele que faz das casas serem casas, «casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão». Pudera, é o pão da vida, do entendimento, da verdadeira partilha, o alimento do amor, o símbolo do Corpo de Cristo em cada sacramento da Missa.
O Alentejo não é como se diz só deserto ou só paisagem árida, mesmo que o seja, antes é beleza distinta do resto do país, porque está cheio de cores quentes, de cultura e de gentes, mesmo que algumas vezes melancólica, mas ávida para dar-se e oferecer tudo o que tem com simpatia e carinho por aqueles que não os esqueceram, porque vieram ao seu encontro.
O calor do Alentejo é forte , agressivo, por isso, torna os descampados, os vales e os famosos e cobiçados montes, lugares solitários, misteriosos. Não há gente neste mundo como se esperava que houvesse e como as terras mereçam que existam almas para lhes dar vida. Porém, algumas vezes parece esquecido, mas nessa ausência de almas descobre-se um calor, uma chama que a aridez levanta para o alto. Lá estão concentrados os nossos olhos, porque sabem que daí emerge o pão que nos deu vida ao espírito, sim aquele pão do altar que o Senhor Jesus naquela hora fez sacramento de salvação para a eternidade, mas, antes força e coragem para vencer as misérias desta vida.
Perante estas impressões onde se vislumbra um sinal presente do amor de Deus a acontecer de forma quente e sublime, vejo as palavras do grande Teólogo, Hans Urs Von Balthasar, que dizem assim: «Não é porque o espírito do Homem depende da sensibilidade que o amor lhe surge 'de fora', mas porque só existe amor entre pessoas - o que a filosofia sempre tendeu a ignorar. Deus, o Totalmente Outro de nós, surge no lugar do outro, no 'sacramento do irmão'. E (...) não é por estar em cima que Ele perde direito, o poder e a palavra de se revelar a nós como o amor eterno de se dar e de se fazer compreender na sua incompreensibilidade». O Alentejo fez-se em mim um sinal do pão vivo que a Eucaristia é em cada Domingo da nossa vida. E em tudo o que se diga incompreensível, pode estar um sinal, uma pequena sombra que alguma planta teima em semear na tórrida paisagem. As ovelhas sabem muito bem onde está essa sombra.

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