Convite a quem nos visita

terça-feira, 30 de junho de 2009

Um Padre mesmo calado, grita-me Cristo!

Rui Corrêa d' Oliveira 16. 06. 2009
«Oh como é grande o padre! (…) Se lhe fosse dado compreender-se a si mesmo, morreria. (…) Deus obedece-lhe: ele pronuncia duas palavras e, à sua voz, Nosso Senhor desce do céu e encerra-se numa pequena hóstia»
Esta afirmação do Santo Cura d’Ars descreve com vigor e simplicidade a grandeza do Sacerdócio.
A dimensão da Graça do Sacerdócio tem o tamanho do Amor de Deus pela sua Igreja, por cada homem… por mim.
Que seria da minha vida sem a presença e a palavra, o perdão e o poder de consagrar dos Sacerdotes?
Morreria de fome, solidão e orfandade. Quem me mataria a fome daquele único alimento que sustenta a minha vida? Quem destruiria a solidão para onde me atira o pecado, separando-me de Cristo? Quem teria eu para me conduzir e proteger nos caminhos do mundo, rumo ao destino bom que me espera?
Os Padres que cruzam a história da minha vida, são santos e pecadores, mas sempre habitados por essa graça maior que é o Sacramento da Ordem.
Por eles me chega Jesus no Pão, na Palavra e no Perdão, porque eles me foram dados pelo próprio Cristo, de uma vontade nascida no Seu Coração, para que por eles eu possa experimentar a Misericórdia de Deus.
Um Padre mesmo calado, grita-me Cristo!

segunda-feira, 29 de junho de 2009

O Ano Sacerdotal

«Olhem para as paróquias. Que seria daquela gente que ali fervilha sem elas? Quem cuida dos idosos?, quem visita os doentes?, quem catequiza o evangelho?, quem forma os jovens?, quem organiza o voluntariado?, quem acode aos pobres e aos desempregados?, quem lhes proporciona o encontro com Cristo?, quem cria comunidade entre desconhecidos?
Reparem nas Ordens religiosas. Quem cuidaria dos colégios?, dos hospitais?, dos lares de velhinhos?, das creches infantis?, da missionação?, etc.
Desapareçam os Padres as Paróquias morrerão, as Ordens religiosas soçobrarão. A Igreja, que gera em Cristo os sacerdotes, vive deles. O Padre com todas as suas fragilidades e pecados, pois é um tesouro num vaso de barro, é Cristo no meio do Seu povo. Toda a vida cristã nasce, brota da Eucaristia. Esta é não só a raiz, a fonte, mas também o cume e o vértice da mesma. E a Eucaristia é o Padre a dizer/fazer na Pessoa de Jesus Cristo: Isto é o Meu corpo … Isto é o Meu sangue … Tomai e comei … Tomai e bebei. Esta é a eternidade que nos alimenta e vivifica.
O ano sacerdotal que tem como objectivos criar uma consciência na Igreja e na humanidade do dom imenso que são os sacerdotes e ajudar os Padres a um encontro mais intenso com Jesus Cristo, a uma configuração existencial com O mesmo mais concorde com a sacramental, a uma santidade verdadeira para melhor amar em Cristo os fiéis e toda a humanidade.
Se quiserem rezar por mim e por todos os sacerdotes realizareis uma grande obra de caridade que acabará por reverter a vosso favor».
Nuno Serras Pereira
Nota da redacção do blog: Fica este pequeno trecho de um longo texto do padre Nuno Serras Pereira. Já que estamos em Ano Sacerdotal, ainda não tinha publicado nada sobre este assunto. Assim, porque me identifico plenamente com estes pensamentos fica este texto para nos ajudar a pensar sobre a importância dos padres na vida e na nossa sociedade. Porém, penso que o Ano sacerdotal deve ser para pensar no Sacerdócio que não pertence só ao ministério presbiteral, mas a todos os baptizados em Cristo. Por isso, esperemos que a Igreja não se deixe contaminar pelos equívocos e faça centrar a reflexão no verdadeiro sentido da palavra sacerdócio, que não pertence a ninguém especial, mas a todos os fiéis.

Momento da fé

Uma brisa que passa sobre a luminosidade do sol na manhã do fim da linha

Canta amigo canta, porque aquela hora é sempre para exultarmos de alegria

Sobre o chão coberto de som daqueles dias de interioridade maior

Para saber aqui e agora que Deus baixou até ao fundo do sublime

E fez de cada pessoa uma glória

Como o tronco espinhoso no roseiral faz brotar pétalas belas.

Não sei, ninguém saberá como se desvela esse mistério

Mas no momento da fé todos dizem saber desse calor infinito

Que o perfume de um amor imenso desperta no oceano da dor

Se todos calam quando diante do pecado reles do sem sentido

Nós não calamos nem que seja apenas um balbuciar

E no fim fazemos uma oração para fazer desse momento

A hora do encontro fraterno na alegria da festa.

Sei e tu sabes que no momento da fé o som da música de Deus

Fará o milagre do pão amassado pelas mãos daquela mulher

Que se despojou e deu as suas mãos à massa do tempo

Logo depois decantou Deus o vinho novo no jarro cozido do coração

E derramou sobre todos os que apresentam o cálice da vida

O maior dom feito esperança para todas as manhãs

Quando a brisa ao querer ser o vento varre o que a luz ofereceu.

Sabemos que a alegria da festa naquela fé converteu o momento

Na vida toda cheia de uma certeza feita perfeição de um dom.

Autor: José Luís Rodrigues

domingo, 28 de junho de 2009

Faleceu o Padre António Pestana Martinho

O Padre António Joaquim Figueira Pestana Martinho, sacerdote diocesano da Diocese do Funchal, faleceu no dia 27 de Junho de 2009, no Hospital Central do Funchal. A doença que padecia (cancro) agravou-se nos últimos tempos. Tinha 78 anos de idade, era natural da freguesia de Ponta Delgada Concelho de São Vicente. Nasceu no dia 12 de Agosto de 1930, era filho de João Pestana Martinho e de Maria Jacinta Figueira Pestana. Frequentou o Seminário Diocesano do Funchal, sendo ordenado Sacerdote no dia 21 de Agosto de 1955. Dentro dos serviços eclesiásticos que desempenhou na Diocese do Funchal, destacamos os seguintes:
- Pároco do Arco de São Jorge a 29 de Fevereiro de 1956
- Pároco do Faial, a 31 de Dezembro de 1960
- Pároco da Camacha, a 9 de Março de 1968
- Pároco de Machico e Ribeira Seca, a 31 de Janeiro de 1979
- Arcipreste de Machico e Santa Cruz
- Membro do Conselho Presbiteral, de 1983 a 1990
Foi pároco da paróquia de Machico e Ribeira Seca, durante 30 anos, até á data da sua morte. Na sua passagem pela Camacha, fundou, no dia 10 de Agosto de 1973 a Banda Paroquial de São Lourenço.
O seu funeral será terça feira, dia 30 de Junho, com missa na Igreja Paroquial de São Martinho às 15H00, presidida pelo Senhor Bispo do Funchal, D. António Carrilho, seguindo o funeral para o Cemitério de São Martinho, no Funchal. O Seu Corpo estará em Câmara Ardente a partir das 10 horas na Igreja Paroquial de São Martinho, no dia 30 de Junho.
N.B. A missa do funeral será naquela igreja e não em Machico, por vontade expressa pelo próprio Sr. Padre Martinho, que desejava, conforme comunicado pela família, que a missa, por ocasião da sua morte, fosse na igreja de São Martinho, onde o seu irmão padre, falecido muito novo, havia celebrado a sua primeira missa.
Dai-lhe, Senhor, o eterno descanso, entre os esplendores da luz perpétua. Descanse em paz. Ámen.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

O Padre Manuel Martins da Sé e os pobres

Escreveu o seguinte a 9 de Junho de 1991, o antigo bispo de Sétubal, D. Manuel Martins: «É mais fácil ficar na sacristia; é mais doce entregar-se só a práticas de culto ou devoção. Mas se estes actos não nos impelem para a vida, não valem de nada» (in «A Seara»).
Estas palavras servem como resposta a tantos que nos últimos tempos se pronunciaram a propósito das palavras do padre Manuel Martins sobre a pobreza e da denúncia bastante pertinente, sobre os organismos governamentais, tão badalados pelos políticos na comunicação social, mas que na prática não funcionam e ninguém sabe onde estão. Por isso, os meus parabéns ao padre Manuel Martins que se serviu da tribuna da Sé, para proclamar alto e bom som, que os pobres existem e estão aí à mão de semear e são a maior vergonha para todos nós.
Só desejo que o padre Manuel Martins seja forte e que se mantenha de pé perante as patetices que alguns intentaram dizer pela comunicação social e outros de certeza que lhe disseram pessoalmente, sem anonimatos, mas outros sob a capa covarde do anonimato, como frequentemente tem acontecido comigo.
Para os que acham que a Igreja não se deve pronunciar sobre as misérias sociais, fica apenas a lembrança. Quem, apesar das limitações, falhas ou pecados, mais faz senão a igreja pelos necessitados da nossa sociedade? Quem tem tantos organismos de carácter social como a Igreja Catolica? Eles são centros de dia, lares para idosos, jovens e crianças, as Cáritas Paroquiais e as Conferências Vicentinas por todos os lugares onde há comunidades paroquiais? O que seriam tantas pessoas que batem à porta dos padres com receitas médicas na mão e com o rosto lavado em lágrimas porque não têm pão para alimentarem os seus filhos? – Os políticos não gostam que se fale disto e os fazedores de opinião também não gostam, conspurca o rosto lacado da cidade e da região engalanada para turista ver.
Os tais a quem compete resolver as questões prementes da nossa sociedade, que não sentem escrúpulo nenhum com os milhões ofertados aos partidos políticos do erário público, os que não se ofendem com os balúrdios gastos nas festanças para entreter o povo e com isso comprarem votos, preferem uma igreja amordaçada, silenciada e os seus padres votados à sacristia, ocupados em piedosas orações. Que absurdo e que falta de visão das coisas. É preciso pensar na doutrina de Jesus Cristo, olhar a tradição dos profetas antes de Cristo e toda a história da Igreja até aos nossos dias. Lembram-se de Madre Teresa de Calcutá, da Irmã Emmanuelle e de todos os activistas, ligados às igrejas, que por todo o mundo realizam um trabalho extraordinário de amor aos pobres? Lembram-se também do pioneirismo da Igreja Católica na doutrina social e das denúncias contra todo o género de violências sobre os mais fracos do mundo? - Basta ler toda a doutrina social dos últimos Papas a partir de Leão XIII, com a sua Encíclipa «Rerum Novarum».
Face ao terrível e complexo mundo da pobreza resta procurar, não digo soluções, mas nem que seja uma pequena réstia de solidariedade quando solicitada por quem necessita dela. Porque muita da pobreza tem que ver com isto mesmo: «A pobreza mete-nos medo. E, no entanto, alimentamo-nos da pobreza, é o seu sangue que move os nossos carros topo de gama e as nossas fábricas e é à sua sombra que florescem os nossos paraísos de consumo», Manuel Pina, Jornal de Notícias.

Para meditar

Estás só. Ninguém sabe. Cala e finge.
Mas finge sem fingimento.
Nada esperes que em ti já não exista,
Cada um consigo é triste.
Tens sol se há sol, ramos se ramos buscas,
Sorte se a sorte é dada!
Autor: Fernando Pessoa (in poemas escolhidos)

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Comentário à Missa do próximo Domingo

28 de Junho 2009
Domingo XIII Tempo Comum – Ano B
Ricos em generosidade
2 Cor 8, 7, 9, 13-15
Se a generosidade acontece, então, «somos ricos em tudo: na fé, na eloquência, no conhecimento da doutrina, em toda a espécie de atenções e na caridade que recebestes de nós». Citei esta passagem de São Paulo tirada do texto da Missa deste Domingo, para que sejamos despertos para este sentido da generosidade. O nosso tempo precisa de encontrar este valor, porque o mundo actual, necessitado de tantos outros valores, em especial, precisa do valor da generosidade como do pão para a boca. Porque se repararmos, vamos encontrar um imenso deserto, faltou a generosidade no coração da humanidade. Por isso, é cada vez maior o número de pobres e de indigentes no mundo; o individualismo ou o salve-se quem puder é regra que comanda a vida; a concorrência entre as camadas jovens faz uma multidão de vítimas; a dependência de substâncias alienantes brada aos céus; a procura de vida fácil é o principal desejo de tanta gente; o hedonismo ou o prazer momentâneo estão no pensamento geral; a fuga dos sacrifícios e de tudo o que seja ter algum sofrimento comanda a vida; o medo do futuro e das coisas de Deus, faz escola em tantos lares; o medo de assumir compromissos para a vida toda também está presente por todo o lado; a irresponsabilidade face aos actos que se realizou é o mais comum; o fazer da vida um desregramento total, é pão quotidiano; termino o elenco com esta conclusão, o não acreditar em nada e em ninguém, porque nada garante fidelidade e hoje as coisas são e amanhã já não serão e vice-versa. A vida não está fácil para ninguém. O mundo precisa, nem que seja um pequeno grupo, para ser o fermento no meio da massa.
O mundo precisa nem que seja de uma mulher ou um homem, que diga «não vou por aí…», quando todos dizem seguir por onde não devem, como ensinava o poeta José Régio. E o mundo precisa que nem que seja uma mulher ou apenas um homem digam: «vou por aqui…», pelos lugares que ninguém quer ir ou não está na moda caminhar por aí.
O valor da generosidade é um caminho importante que salva quem o segue e contribui para a salvação de todos os que beneficiem dessa caminhada. A generosidade, é a bondade ou a compaixão pelos outros, que emerge da vida que se inquieta com o mundo, não apenas para alguns, mas para a felicidade de todos. Para quem pratica a generosidade não lhe falta nada. Afinal, torna-se diante de Deus o mais rico de todos. A generosidade enriquece a vida com tudo o que ela precisa para ser feliz. A maior fortuna do mundo é a generosidade. Por isso, a quem dá generosamente não lhe falta nada e fica claro que o dar não são apenas valores materiais, mas, antes de tudo, valores humanos e espirituais.

terça-feira, 23 de junho de 2009

São João Baptista - Voz que clama no deserto

Porque estamos em tempo de celebração de São João Baptista
Nota História
João Baptista é o único santo, com a Virgem Maria, de quem a Liturgia celebra o nascimento para a terra. Isso deve-se certamente, à missão única, que, na História da Salvação, foi confiada a este homem, santificado, no seio de sua mãe, pela presença do Salvador, que mais tarde, dele fará um belo elogio (Lc. 7, 28).
Anel de ligação entre a Antiga e a Nova Aliança, João foi acima de tudo, o enviado de Deus, uma testemunha fiel da Luz, aquele que anunciou Cristo e o apresentou ao mundo. Profeta por excelência, a ponto de não ser senão uma «Voz» de Deus, ele é o Precursor imediato de Cristo: vai à Sua frente, apontando, com a sua palavra e com o exemplo da sua vida, as condições necessários para se conseguir a Salvação.A Solenidade do Precursor é um convite para que conheçamos a Cristo, Sol que nos vem visitar na Eucaristia, e dêmos testemunho d’Ele, com o ardor, o desinteresse e a generosidade de João Baptista.
Dos Sermões de Santo Agostinho, bispo(Sermão 293, 1-3: PL 38, 1327-1328) (Sec. V)
A Igreja celebra o nascimento de João como acontecimento sagrado: não há nenhum, entre os nossos antepassados, cujo nascimento seja celebrado solenemente. Celebramos o de João, celebramos também o de Cristo: isto tem sem dúvida uma explicação. E se não a damos tão perfeita como exige a importância desta solenidade, meditemos ao menos nela, mais frutuosa e profundamente.
João nasce de uma anciã estéril; Cristo nasce de uma jovem virgem. O futuro pai de João não acredita que este possa nascer e é castigado com a mudez; Maria acredita, e Cristo é concebido pela fé. Eis o assunto, que quisemos investigar e prometemos tratar. E se não formos capazes de perscrutar toda a profundeza de tão grande mistério, por falta de capacidade ou de tempo, melhor vo-lo ensinará Aquele que fala dentro de vós, mesmo estando nós ausentes, Aquele em quem pensais com amor filial, que recebestes no vosso coração e de quem vos tornastes templos.
João apareceu como o ponto de encontro entre os dois testamentos, o Antigo e o Novo. O próprio Senhor o testemunha quando diz: A Lei e os Profetas até João Baptista. João representa o Antigo e anuncia o Novo. Porque representa o Antigo, nasce de pais velhos; porque anuncia o Novo, é declarado profeta quando está ainda nas entranhas de sua mãe. Na verdade, ainda antes de nascer, exultou de alegria no ventre materno, à chegada de Santa Maria. Já então ficava assinalada a sua missão, ainda antes de nascer; revelava-se de quem era o precursor, ainda antes de O ver. São realidades divinas que excedem a limitação humana. Por fim, nasce; é-lhe dado o nome e solta-se a língua do pai. Reparemos no simbolismo que estes factos representam.
Zacarias cala-se e perde a fala até ao nascimento de João, o precursor do Senhor; e então recupera a fala. Que significa o silêncio de Zacarias senão que antes da pregação de Cristo o sentido das profecias estava, em certo modo, latente, oculto e fechado? Mas tudo se abre e faz claro com a vinda d’Aquele a quem elas se referiam. O facto de Zacarias recuperar a fala ao nascer João tem o mesmo significado que o rasgar-se do véu no templo, ao morrer Cristo na cruz. Se João se anunciasse a si mesmo, Zacarias não abriria a boca. Solta-se a língua porque nasce aquele que é a voz. Com efeito, quando João já anunciava o Senhor, perguntaram-lhe: Quem és tu? E ele respondeu: Eu sou a voz de quem clama no deserto. João é a voz; mas o Senhor, no princípio era a Palavra. João é a voz passageira; Cristo é, no princípio, a Palavra eterna.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Porque choram as crianças…

Nesta manhã de Segunda-feira (22-06-2009), iniciei o dia com a celebração da Eucaristia numa escola, numa sala repleta de crianças, com idades que vão da pré-escola à quarta classe de escolaridade. Esta celebração, realizou-se com grande festa e com muita alegria, como deve ser sempre no meio das crianças. Todos os mais velhos queriam participar nas coisas da missa, por isso, à volta do altar, improvisado, estava cheio de crianças que cantavam e sorriam. Um momento lindíssimo de celebração e de festa.
Proclamou-se um texto do livro do Êxodo, onde Deus apresenta os seus preceitos e princípios, para que toda a humanidade possa ser feliz. Do Evangelho, proclamamos o episódio daquele chefe que tem em casa a sua filha morta e vem ao encontro de Jesus com a certeza que Ele pode fazer com que a menina viva. Jesus segue aquele pai angustiado até à sua casa, ao chegar, Jesus diz: «Porque choram? A menina não morreu apenas dorme». Riram-se dele. Jesus pega na mão da menina levanta-a e diz que lhe devem dar de comer, porque, afinal, o seu mal, é fome.
A reflexão consistiu em dizer que precisamos de princípios na nossa casa, no trânsito, na escola e em todos os lugares da vida para seremos felizes, depois, apresentamos Jesus que vem ao nosso encontro, entra na casa do nosso coração e levanta-nos sempre para a vida. Não nos quer mortos, mas vivos, alegres e em festa. A vida que Jesus nos dá, é sempre uma vida muito grande e completa, a vida eterna. Tudo isto é feito com um diálogo muito grande com as crianças, são elas que tiram as conclusões.
No fim, os professores apresentaram um conjunto de fotos de uma professora, a Paula Borges que morreu recentemente, todos gostavam dela. Como me chamou a atenção o silêncio que fizeram as crianças neste momento. A Seguir, reparei que muitas delas choravam imenso e todas estavam muito tristes. Este momento foi muito comovente e fez-me pensar que, pelas crianças, Deus derrama no mundo os sentimentos mais sinceros e por elas a verdade da tristeza salta bem aos nossos olhos.
Bom, coube-me reerguer a alegria da festa, puxo de um saco colocado discretamente debaixo do altar, um pacote de caramelos - todas as crianças gritaram e pularam de alegria.
Para nós adultos, não pode haver maior tristeza do que ver uma criança chorar e o nosso mundo nunca será lugar de felicidade para todos, enquanto a humanidade não souber estancar as lágrimas das crianças, que choram por causa de tanta injustiça que este mundo apresenta. Não será por acaso que Jesus disse que ninguém entra no Reino dos céus senão se tornar como as crianças.

sábado, 20 de junho de 2009

A maledicência e a Divina Comédia

Uma Carta do Leitor do dia 20 de Junho de 2009, no Diário de Notícias do Funchal diz o seguinte: «metem-se ao baralho as afirmações e posturas de três padres que nem participaram no referido encontro. Uma vez mais juntam-se os "ingredientes da maledicência", que em última instância visam atingir o nosso Bispo: colagem da Igreja ao Governo, situação da Comunidade da Ribeira Seca e do padre Martins Júnior, subsidiodependência e o património da Diocese». Esta carapuça «decente» enfia quem quiser e a quem se dirige mesmo.
Que pobreza de espírito manifestam estes defensores de encomenda. Estes «Libaninhos» do tempo presente - alusão à personagem tão castiça, o Libaninho, do romance de Eça de Queiroz, O Crime do Padre Amaro. Só quem não quer ver mesmo o que se tem passado na nossa terra de conluio entre poder religioso e poder político. Felizmente lá vão os tempos em que o povo tudo acreditava, tudo seguia cordialmente. Agora, resta este espírito sectário de uma igreja que não quer se abrir ao mundo e mudar tudo o que deve ser mudado. Antes prefere consolar-se com o que resta, o pequeno rebanho que bate palmas, levanta os braços para cantar e se subjuga às manias de meia dúzia de figurões que se consolam com a vestimenta clerical.
Maledicência é não querer ver o óbvio e defender o indefensável. "Ingredientes da maledicência", são todos os espíritos fechados que se reduzem ao pensamento único e não permitem que as coisas se façam com o contraditório. Maledicência, é fazer-se «voz do dono», com segundas intenções e enveredar pelo caminho que entrega uns ao inferno e outros, quais santarolas da verdade pastilha elástica, a entrar no paraíso. Esta lógica não merece atenção e deve receber de todos nós o mais veemente repúdio a bem do Evangelho, que prefere sempre os desalinhados e os desprezados da vida.
Por tudo isto, prefiro passar da maledicência à Divina Comédia de Dante Alighieri, pelo menos a diversão torna-se mais profunda e literariamente enriquece esta pasmaceira geral em que estamos mergulhados. Por fim, fica mais clara nas nossas cabeças a estratificação catequética, ora vejamos: o inferno, para os que ousam opinar contrariando alguma coisa, (e para estes lá está o letreiro na porta do inferno: «Ó vós mortais que entrais, deixai toda a esperança!») o purgatório, para a imensa multidão que nada liga ao que a igreja diz e faz, mas com esses a tal igreja, dorme descansada, porque com eles pode muito bem e o paraíso, para os santarolas que restam na igreja para bater palmas e levantar os braços para cantar. Há determinadas decências que resultam no ridículo e são patéticas quando a verdade salta aos olhos de todos. Haverá comédia melhor do que esta? – Penso que não.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

A Palavra de Deus não está encadeada

São Paulo, faz-nos pensar um pouco sobre o sentido e o valor da Palavra de Deus. Que importância lhe damos? Que estudo fazemos dela e quais as formas que escolhemos para a estudar? A Palavra de Deus, é o centro da minha religiosidade? Procuro esclarecer a fé na Palavra que me é anunciada? Ponho em prática a Palavra de Deus, como se fosse uma luz que inspira todo o meu viver? - Estas são apenas algumas das questões que podemos colocar diante da mensagem bíblica. A nossa vida está cheia de exemplos de práticas de instrumentalização da Palavra de Deus. São muitas as pessoas, ditas de muito crentes, que não seguem a Palavra de Deus, mas antes a palavra dos homens. São muitos os que não se guiam pela luz da Palavra Divina, mas pela doçura das palavras de alguns, os idolatrados pelos interesses deste mundo e os proclamadores da palavra fast-food que adoça os ouvidos mas não provoca para a transformação da vida. Esta é a raiz do fundamentalismo. Por isso, não esquecer que a Palavra de Deus está cheia de símbolos e imagens que requerem uma atenção redobrada, porque se tomada à letra pode levar ao redículo e a atentados contra a vontade de Deus. Muitas vezes admira muitos anúncios de coisas, vindas de tanto lado, que nunca fizeram parte do pensamento de Deus. Tal usurpação é teerrível para a humanidade e para Deus. São Paulo ensina que a Palavra de Deus não se deixa encadear, mas pela força do Espírito Santo, corre veloz como uma gazela e é penetrante como uma espada de dois gumes. Por isso, não deixemos que nenhuma lógica deste mundo, nem nenhuma divisão da vida, nem nenhum interesse material, nem nenhuma palavra, por mais doce que seja, nos desviar o coração da verdade que a Palavra de Deus nos transmite. A Palavra de Deus precisa do sal do Espírito Santo para que sempre seja alimento para a vida e libertação da humanidade. A verdade sobre a Palavra de Deus não tem outro objectivo que não seja este, conduzir-nos para a salvação e libertação, quando tal não acontece mediante a Palavra de Deus é sinal que não estamos convertidos nem nos deixamos guiar pelo ensino que Deus anuncia através da Sua Palavra. Por isso, revolta e inquieta quando a Palavra de Deus se torna roupagem para justificar poder, altivez e soberba. A Palavra de Deus, é convite à liberdade e à alegria da vida no maior respeito pelos outros.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Poema: A honestidade

Um sol brilha face a este tempo
O tempo da tua vida
E Deus chama cada um
Ao caminho da transparência
E cai depois um silêncio terno
De amor pelo mundo.
Deixa cantar os pássaros
Mesmo que morras
Por uma verdade, não mintas
Que o som da honestidade
Seja a música da vida toda
Em cada momento…
Autor: José Luís Rodrigues

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Comentário à Missa do Próximo Domingo

21 de Junho 2009
Domingo XII Tempo Comum
Tudo renovado em Cristo
2 Cor 5, 14-17
Todos somos muito poucos para não estarmos no coração do amor infinito de Deus. O Deus do Evangelho anunciado por Jesus Cristo, convoca todos para a glória da salvação. Porque é tanto o Seu amor pela humanidade que nada de cada pessoa está fora do alcance da redenção deste Deus. Um dos aspectos mais terríveis que muitas vezes ataca os cristãos é o medo. São muitos aqueles que receberam os sinais que marcam a condição cristã, mas que facilmente vacilam perante o riso sarcástico dos outros e perante as suas críticas que arrogantemente consideram não necessitar da religião para nada. Mais haverá outros que diante das injustiças, dos assédios, da corrupção, da mentira, da vingança, do ódio, da calúnia, da indiferença, da irresponsabilidade, da perdição dos jovens através da droga, do álcool e da sexualidade desregrada... Serão incapazes de defender o que é correcto e o que é bom, porque não se acham com coragem e com força suficiente para enfrentar as recusas, as autodefesas e as críticas. O ambiente de perseguição é uma realidade de todos os tempos. Porém, continuamente a Palavra de Deus levanta-se como luz para o nosso coração para não nos sentirmos desamparados, mas antes com a certeza que Deus está ao nosso lado para connosco enfrentar tudo o que ponha em causa a salvação. Muito eficaz seria a acção dos evangelizadores, se antes de tudo tivessem a confiança, que não obstante as provocações e as dificuldades, a mensagem de Cristo difundir-se-á e transformará o mundo. Tudo se renova em Cristo. Este sentido da mudança é sempre muito importante para para a vida do mundo. Jesus, ensina-nos, que nenhum momento de descarada inverdade, falsidade e maldade, Deus não estará ao lado dessas descaradas injustiças e muito menos ao lado de quem as alimenta. Mas, todas as vezes que estejamos na defesa da autenticidade das coisas, Deus não nos abandonará e manifestará o seu apoio a nosso favor. Esta certeza emana da doutrina de São Paulo que radica na certeza do Evangelho de Cristo. Nada pode privar a vida íntima com Deus que os discípulos de Jesus receberam. As mentiras, as críticas menos favoráveis e os ataques contra a fé, existem e podem durar algum tempo, mas não podem ser a última palavra nem muito menos levarem a melhor sobre a verdade do amor. São Paulo confirma esta convicção: «Sim! Eu estou certo: nem a tribulação, nem a angústia, nem a perseguição, nem a fome, nem a nudez, nem a espada... Nada poderá separar-nos do amor de Deus, que Se manifestou em Cristo Jesus, nosso Senhor (Rom 8, 35-39).Deste modo, tudo devemos fazer para que a vida divina esteja sempre dentro de nós. Antes de mais é preciso temer tudo o que nos cerce a liberdade de espírito e tudo o que não permita o acolhimento da fé no Deus da paixão desmedida pelo mundo. Vamos então renovar o mundo para o amor.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

César e Deus - A Igreja e a Política

«O famoso aforismo, dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus (Mt 22, 21) e a declaração de Jesus, diante de Pilatos, o meu Reino não é deste mundo (Jo 18, 36), pertencem às origens do cristianismo. É o princípio da separação do poder político e das instituições religiosas. Apesar de todas as interferências e confusões político-religiosas, no regime de Cristandade, este princípio criou, desde o começo, uma tensão propícia à eclosão do Estado moderno emancipado de toda a tutela religiosa». Frei Bento Domingues
Esta é uma velha questão, que sempre acompanhou os poderes, tanto o político tanto o religioso. Muitas vezes na história este poderes se confundiram terrivelmente e quando tal aconteceu sabemos que foram não menos terríveis as suas consequências.
O tempo da Democracia, podia ter trazido uma clareza importante e até uma separação saudável para os dois campos, o político e o religioso. Porém, a nossa terra caminhou para a «democracia subsídio-dependente» - ninguém escapou a esta lógica, nem partidos, nem empresas de todas as cores partidárias, nem os órgãos de comunicação social, nem nenhuma paróquia, nem a Diocese, nem nenhuma congregação religiosa e nem até nenhuma confissão religiosa (as ditas seitas e as igrejas irmãs filhas da Reforma ou Protestantes).
O descalabro foi tal que tudo era objecto de subsídio. Não imperaram critérios nenhuns, pois até celebrações religiosas (Eucaritias) receberam subsídio estatal. Não se discute que a colaboração do Estado é imprescindível, mas dentro de determinados parâmetros e com critérios previamente bem definidos. O Cardeal Patriarca de Lisboa afirmou-o claramente desta forma: «A laicidade afirma-se, assim, como uma neutralidade em matéria religiosa, neutralidade que exige também que a não religião ou o laicismo não se transformem em doutrina do Estado. A separação entre a Igreja e o Estado, é uma exigência da laicidade e pôs termo à mistura de esferas, frequente no estatuto de Estado confessional. «Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus», ensinou Jesus (Mt 22,21). As únicas áreas de convergência, que não podem ser de confusão, entre a acção da Igreja e do Estado, são o serviço da sociedade e a busca do bem-comum. Embora a Lei de 1911 fosse uma má Lei, a Igreja aceita e respeita este estatuto de separação» in Carta Pastoral à Igreja de Lisboa, do Cardeal Patriarca D. José da Cruz Policarpo, 2004.
Neste âmbito falta-nos aprender claramente que os caminhos da Igreja não podem ser os caminhos da política partidária. E para bem da política e das religiões, temos todos nós cristãos dentro e fora dos meios políticos, que aprender a não misturar as actividades, os propósitos e os caminhos que devem ser sempre os do Evangelho.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Comentário à Missa do Próximo Domingo

14 Junho 2009
Domingo XI Tempo Comum – Ano B
Caminhamos pela fé
II Cor 5, 6-10
O Cristão, homem e mulher, são da esperança. São Paulo utiliza a palavra fé para designar essa condição do cristão. Porque estamos ainda neste corpo, nesta vida terrena, distantes do Senhor da vida verdadeira, «caminhamos pela fé» até ao dia em que seremos chamados a tomar parte na vida verdadeira, que não se encontra aqui neste mundo, mas no lugar de Deus, aquilo que a catequese designa como sendo o céu. O ponto crucial da vida cristã radica na descoberta da fé. A fé, é uma só e acontece na vida de uma pessoa de forma mais intensa ou menos intensa, mas nunca pode estar votada para a simples privacidade ou pior ainda, é um assunto que só tem a ver com a dimensão pública, porque se manifesta de uma forma determinada. Assim sendo, entende-se que a fé, é uma realidade interior da pessoa que está para a vida toda. Uma pessoa de fé deixa envolver todo o seu viver mediante o caminho da fé. Ninguém que se diga crente, pode num determinado momento da vida afirmar que agiu segundo a sua fé, mas noutro agiu segundo princípios estritamente humanos ou racionais. O assunto da fé é demais importante para ser algo que se usa e abusa quando nos convém apenas. Por isso, pretender reduzir a fé a um mero assunto privado sem nenhuma incidência prática e pública, redunda num profundo disparate. Porque a fé, vive-se em todos os lugares da vida e não apenas dentro de determinadas conveniências pessoais ou muito menos mediante interesses puramente materialistas. Por exemplo, quando a desgraça nos bate à porta ou quando se pretende prejudicar os nossos próximos. A fé não alimenta instrumentalizações nem se conjuga com interesses intimistas ou de ordem fanática. Mas repare-se ainda no que nos ensina S. Tiago: “Meus irmãos, se alguém diz que tem fé, mas não tem obras, que adianta isso? Será que a fé poderá salvá-lo?...” E mais ainda acrescenta: “Assim também é a fé: sem obras, está completamente morta” (Cf Tia 2, 14-17). A convicção do Apóstolo prova-nos que a fé não pode obedecer de forma alguma à dicotomia privado e público a que se pretende remeter a fé. Porém, vivemos num tempo onde alguém se atrever a confessar a sua fé ou a falar de religião no seu trabalho, nas escolas e nas ruas é logo atacado, mal interpretado e distorcido. Não se pode afirmar valores desta ou daquela religião porque os ambientes são adversos a tudo o que inspire religiosidade. Estamos num tempo onde parece não existir lugar para a fé. Mas, nunca a fé foi tão necessária como hoje.
Mas, como afirma S. Paulo, “foi na esperança que fomos salvos”. Neste sentido, D. Manuel Clemente (Bispo do Porto) diz-nos que “a esperança leva por diante o ‘diálogo’ entre Deus e cada um de nós (…), devolve a Deus o melhor que Ele mesmo colocou em nós, como semente e desejo de realização plena”. Ainda nas suas palavras, “a esperança liberta e potencia infinitamente cada momento da vida, fazendo-nos tomá-lo como ocasião e estímulo para a actualidade definitiva, quando tudo for plenamente vivido, realizando o futuro – e dispensando-o assim – num eterno presente.” Por isso, não tenhamos medo de proclamar a nossa fé ou esperança a que fomos chamados. Só este caminho dá sentido à vida para hoje e para o futuro.

O Cristiano Ronaldo

Vai ser comprado pelo Clube de Futebol Real Madrid, por 93 milhões de euros. É o mundo, el dourado, do negócio da carne humana. Pois haverá maior escravatura do que esta? - O João Gobern na Antena 1 esta manhã proclamou a propósito deste negócio, fezeram o mundo assim, agora aturem-no. Para onde vai um mundo que realiza negócios deste género e que para a uma só pessoa, por dia, para dar pontapés numa bola, pagará 25 a 30 mil euros? - Mais absurdo não pode a haver.
De facto, o mundo caminham para um absurdo total. A vida deixa de ser vida, as pessoas negoceiam-se por alguns milhões - mais extraordinário era pensarmos antes que estes negócios eram muito distantes quando eram realizados com brasileiros, russos, ingleses, italianos, franceses, espanhóis e etc. Mas agora são muito perto de nós, são realizados com um vizinho nosso, um conterrâneo - alguns vangloriam-se e enchem o ego, porque se sentem supra valorizados e fazem parte de uma pleiade de gente muito cara. Outros sentem (o meu caso) perante os milhões, ficamos todos mais pobres ainda, porque mais cegueira e alienação irão provocar. Não há pobreza maior do que esta.
Quem justifica esta injustiça? - Todos nós, que criamos um mundo profundamente injusto, um mundo que já não é mundo nenhum. Por isso, sempre que valorizamos o dinheiro em vez da alegria, do bem estar ou da boa qualidade de vida estamos contribuindo para a injustiça a que este mundo está votado.
Contudo, que todos os cristianos do mundo sejam muito felizes e que ao menos pratiquem alguma caridade com as fabulosas fortunas que auferem. Por mim, continuarei a fazer tudo para que a felicidade seja sempre mais importante que todo o dinheiro do mundo.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

O Corpo de Deus

Trata-se de uma festa, uma grande festa, porque se falamos de um corpo, qualquer corpo, falamos de festa e acima de todos os corpos, está o Corpo de Deus, que nos remete para a grande festa, o banquete da vida, o comensal maior de toda a existência. Alguns dados históricos sobre a festa do Corpo e Sangue de Deus, «a Solenidade Litúrgica do Corpo e Sangue de Cristo, conhecida popularmente como «Corpo de Deus», começou a ser celebrada há mais de sete séculos e meio, em 1246, na cidade belga de Liège, tendo sido alargada à Igreja universal pelo Papa Urbano IV através da bula "Transiturus", em 1264, dotando-a de missa e ofício próprios. Teria chegado a Portugal provavelmente nos finais do século XIII e tomou a denominação de Festa de Corpo de Deus, embora o mistério e a festa da Eucaristia seja o Corpo de Cristo. Esta exultação popular à Eucaristia é manifestada no 60° dia após a Páscoa e forçosamente uma Quinta-feira, fazendo assim a união íntima com a Última Ceia de Quinta-feira Santa». Perante esta realidade que na Eucaristia, se denomina de Corpo e Sangue, simbolicamente ou sacramentalmente, descobrimos a oferta de um Deus que se permite fazer corpo na banalidade de uns dons materiais, pão e vinho, frutos do trabalho dos homens e das mulheres do tempo concreto, para que Ele seja todo oferta como alimento para a existência de todos. Deste Deus, sem precedentes na multifacetada história dos deuses, vêmo-Lo todo entregue em cada Missa (festa do Corpo), para moldar o barro ainda lamacento do coração da humanidade. Este Deus, Palavra de fogo, como diz tão bem o livro do Deuteronómio, escreve nas tábuas da vida de cada um o sabor sublime da alegria da esperança. Este Deus, fonte de Água Viva, como diz o Evangelho de São João no diálogo de Jesus com a Samaritana, encontramos a razão ou todas as razões para o amor. A vida, sem este condimento, seria um absurdo e fatalmente uma caminhada para a não existência. Também podemos dizer que sem o comensal que cada refeição proporciona o que seríamos nós senão uns solitários e uns tristes. E «um homem só está sempre mal acompanhado», reclamou Paul Valéry (escrtior francês, 1871-1945). Sem a festa do Corpo de Deus, feita realidade no corpo que cada um de nós é, seríamos corpos sem alma e corpo sem alma, está fatalmente morto. O Corpo de Deus, feito festa na Eucaristia, é um apelo de mudança a toda a injustiça, a todo o ódio, a todo o rancor, a toda a violência, a todo o poder, a todos os atentados contra a vida, contra os direitos humanos e contra todos os direitos da nossa mãe terra. Este é o apelo maior para todas as mudanças necessárias à fraternidade do mundo. A Missa, festa do Corpo de um Deus, é também a festa do nosso corpo, onde se guarda o sacrário do Deus feito dádiva de amor por cada um de nós. E por isso, fica-nos a palavra de uma santa a dar sentido à festa ou ao banquete que deve ser cada uma das Eucaristias que celebramos:
«Ó vida, que posso eu dar
a meu Deus, que vive em mim,
senão perder-te, a ti,
para merecer prová-Lo!
Desejo, morrendo, obtê-Lo,
pois tenho tal desejo do meu Amado
que morro de não morrer».
(In Santa Teresa de Ávila (1515-1582), carmelita, Doutora da Igreja Poema «Vivo sin vivir en mí»).

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Saber ficar velho

Tudo fica velho. Todos nós vamos ficando mais velhos em cada momento que passa. Mas para envelhecer é também necessário saber. Um envelhecimento com qualidade de vida, requer uma sabedoria muito grande. Todos caminhamos para o envelhecimento, mas nem todos saberão assumir o seu envelhecer com verdadeira sabedoria. As notícias vindas a público sobre as pessoas idosas são muito preocupantes. Não é novidade para ninguém que a sociedade a actual trata mal as pessoas de idade mais avança. O desrespeito que frequentemente os jovens manifestam contra esta faixa etária através da linguagem menos apropriada para se lhes dirigirem, o abandono a que frequentemente estão votados nas suas habitações, nos lares e nos hospitais... E tantas outras situações que não é necessário nomear aqui. Muitas vezes ao percorrer as minhas comunidades paroquiais encontro várias pessoas num sofrimento terrível de solidão e de quase abandono. Para muitos deles, vale as visitas que alguns grupos paroquiais fazem frequentemente para cumprirem o seu carisma que passa pela distribuição da Sagrada Comunhão e pelo oportuno diálogo que estabelecem com estas pessoas carentes de uma companhia. Porque se tornou um drama envelhecer? – Exactamente por causa do tipo de sociedade e de desenvolvimento que os homens inventaram. Onde estão as pessoas idosas a participarem nas várias possibilidades que a nossa sociedade apresenta? Como se adapta o nosso desenvolvimento às capacidades - reduzidas, é óbvio! – Das pessoas «menos jovens», como gostam de dizer eufemisticamente alguns.
Perante as constatações, podemos afirmar seguramente que desenvolvimento e envelhecimento não estão de mãos dadas. Porque se diante uma sociedade tão desenvolvida, somos confrontados com o medo e o drama do envelhecimento, é sinal que alguma coisa falha no caminho que os homens escolheram para se estruturem em sociedade. Porém, forçosamente será necessário reinventar um modo social que ponha fim ou ao menos venha minorar esta tendência de medo que afecta todos os seres humanos em relação ao envelhecimento.
A sabedoria do envelhecimento requer uma maior consciencialização e uma maior protecção dos idosos. Uma delas prende-se com a protecção dos direitos das pessoas idosas. O que inclui a eliminação de tudo o que as exclui e discrimina na sociedade. Porque não dar aos idosos condições laborais para prolongarem a possibilidade de ter emprego, que lhes permita ajustamentos no local de trabalho como o trabalho partilhado, o horário de trabalho flexível ou planos de reforma que lhes permita assumir esse outro tempo de forma gradual? Porque não incentivar uma educação que não despreze as pessoas idosas, mas que as valorize e as coloque também dentro do diálogo geracional? A sabedoria do envelhecimento, que parece ser cada vez mais necessária para o sentido da vida, depreende-se da mensagem do provérbio chinês que diz: «o que importa não é a idade que temos, mas sim como envelhecemos».

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Comentário à Missa do Próximo Domingo

07 Junho 2009
Domingo da Santíssima Trindade – Ano B
Herdeiros com Cristo
Rom 8, 14-17
Quem é a santíssima Trindade? – Quando falamos da Santíssima Trindade, é do nosso Deus que falamos. E quer dizer essencialmente três. O Deus dos cristãos é trinitário, isto é, constituído por três pessoas: Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo.
O Pai, é o enviado pelo Pai, revela o Pai plenamente e envia o Espírito Santo, que é o resultado do amor entre o Pai e o Filho. Isto é, mostra-nos o rosto verdadeiro do Pai. Um Pai amoroso que não desiste de salvar toda a humanidade (podemos lembrar aqui a famosa Parábola do Filho Pródigo).
O Filho, foi enviado pelo Pai para anunciar a Boa Nova da justiça ou da salvação de toda a humanidade, Ele é o rosto visível do amor que informa a Trindade. Será da boca do Filho que recebemos a promessa do envio do Espírito Santo, o outro Deus da Trindade. O Espírito Santo, é aquele que vem depois de Jesus para acompanhar todas as acções humanas em favor da causa de Deus. Ele é o Espírito da verdade. Ele nos guiará para a verdade plena. Porque o Espírito Santo, pode ser definido como aquele que unifica as três pessoas da Trindade, Ele é o nome do amor de Deus.
A celebração da Santíssima Trindade, abre-nos caminhos para o exemplo de como podemos e devemos viver. Ninguém se salva sozinho. Cada um de nós é capaz de futuro, se acolher a riqueza da dimensão comunitária da vida humana. O que seria da nossa existência se não fôssemos capazes de reconhecer a importância da vida dos outros para a nossa realização pessoal? - Está mais que provado que ninguém é capaz de viver totalmente isolado, todos necessitamos de ser e viver a comunidade.
A Santíssima Trindade, é antes de mais uma verdadeira comunidade. A comunhão é o seu elemento principal. Sem esta característica não seria possível a salvação da humanidade. Esta formidável riqueza de comunhão serve de exemplo ou revela-se como desafio para a nossa vida de cristãos e para todos os homens de boa vontade.
Mas, nunca serão os pensamentos e as palavras humanas que traduzirão este mistério. Porque a Santíssima Trindade, é o nosso Deus. E se falamos de Deus, falamos de um grande mistério. Um mistério, que nos acompanha e abraça constantemente em todos os momentos da vida.
Por isso, conta-se que alguém ao passear sobre um caminho de muita poeira reparou que se formavam atrás de si dois pares de pegadas na poeira, mas, nalguns momentos reparou que estavam atrás de si apenas um par de pegadas. Na sua oração, confidenciou esse episódio da sua vida a Deus. Deus, respondeu-lhe que um dos pares de pegadas era Dele que o acompanhava sempre. Mas esta pessoa diz a Deus: «Mas para onde foste quando eu mais precisava de ti»? Porque, o segundo par de pegadas desaparecia quando ele sentia mais dificuldades e quando tinha mais problemas na sua vida. Deus respondeu-lhe: «Nessas ocasiões, Eu carrego-te ao colo»! Deus é essa realidade que está sempre presente e que nos carrega ao colo quando sobre as contingências da poeira da vida se tornam mais difíceis de suportar. Ora aí está, o que sabemos de certo é que se trata de um mistério de comunhão de três pessoas que se revelam mutuamente numa sintonia de perfeição absoluta sem se contrariarem em nada. Este é o mistério da proximidade e da distância sempre infinita, compreensível só e apenas pela força da fé no interior da alma de cada crente.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Orações sobre a oração

Com o início do mês dos Santos populares, vamos caminhar um pouco sobre algumas orações que nos desvelam o encontro com Deus. Para que não reste só folguedo e excessos de toda a ordem. Primeira oração, disse um mestre do Espírito: «Se eu falto ao amor ou se falto à justiça, afasto-me infalívelmente de Vós, ó meu Deus, e o meu culto não é mais que idolatria. Para crer em vós, preciso crer no amor e crer na justiça e vale muito mais crer nesta coisas que pronunciar o Vosso Nome. Fora do amor e da justiça é impossível que eu alguma vez Vos possa encontrar. Mas aqueles que tomam o amor e a justiça por guia estão no caminho verdadeiro que os conduzirá até vós». Segunda oração é um poema, a «Oração de um desocupado», Juan Gelman, poeta contemporâneo argentino, que diante de Deus de Pai canta e reza desta forma: «Pai, / desce dos céus, esqueci / as orações que me ensinou minha avó, / pobrezinha, ela repousa, não tem mais que lavar, limpar, não tem mais / que preocupar-se, andando o dia todo, atrás da roupa, não tem mais que velar de noite, / penosamente, / rezar, pedir-te coisas resmungando docemente». /// Desce dos céus, se estás, desce então, / pois morro de fome nesta esquina, / não sei para que serve haver nascido, / olho as mãos enchadas, / não tem trabalho, não têm, / desce um pouco, contempla / isto que sou, este estômago vazio, / esta cidade sem pão para meus dentes, a febre, / cavando-me a carne, / este dormir assim, / sob a chuva, castigado pelo frio, perseguido. /// Te digo que não entendo, Pai, desce, / toca-me a alma, olha-me / o coração, / eu não roubei, nem assinei, fui criança / e em troca me golpeiam, / te digo que não entendo, Pai, desce, / se estás, pois busco / resignação em mim e não tenho e vou / encher-me de raiva e afilar-me / para brigar e vou / gritar até estoirar o pescoço de sangue, / porque não posso mais, tenho rins / e sou um homem, / desce! Que fizeram da tua criatura, Pai? / Um animam furioso / que mastiga a pedra da rua?». Terceira oração, descobrimos este episódio sobr eum vida. Outro dia ouvimos esta história, que teria tudo de conto ou fábula se não fosse real. Uma mulher tinha um segredo muito bem guardado no interior da sua casa. Chamou um padre e disse-lhe que lhe ía mostra um segredo. Entraram os dois no quarto onde vivia a mulher e mostrou-lhe uma criança. Um Filho. Um monstro. A cabeça era enorme como a de um adulto. O corpo como o de uma criança muito pequenina. Os olhos fitos no tecto. A língua entrava e saía como a de uma serpente. - Meu Deus! - Exclamou o padre como se fosse um gemido de medo. A mulher disse: - Padre, eu cuido deste meu filho já há oito anos. Ele só conhece a mim. Eu gosto muito dele. Quase ninguém sabe deste meu segredo. Logo a seguir disse: - Deus é bom. Deus é Pai... E, depois, olhou serena para o alto e exclamou: - Seja feita a Sua vontade assim na terra como no céu! - Só isto bastou para dizer tudo. O padre saiu dali sem dizer palavra. Cabisbaixo. Aterrado por causa do filhinho. Perplexo por causa da sua mãe. Só uma palavra lhe veio à mente: «Mulher, é grande a tua fé» (Mt 15,28). A quarta oração, é um poema de Frei Fernando, Frei Ivo e Frei Beto, a oração de um presioneiro, em «O Canto na Fogueira»: Senhor, / quando olhares para os que nos apresionaram / e para aqueles que à torturam nos entregaram; / quando pesares as acções do nosso carcereiro / quando julgares a vida dos que nos rejeitaram, / esquece, Senhor, o mal que por ventura cometeram. / Lembra, antes, que foi este sacrifício / que nos aproximamos do Teu Filho Crucificado: / pela torturas adquirimos as suas chagas; / pelas grades, a sua liberdade de espírito; / pelas penas, a esperança do Seu Reino; / pelas humilhações, a alegria dos seus filhos. / Lembra, Senhor, que desse sofrimento / brotou em nós, qual semente esmagada que germina, / o fruto da justiça e da paz, / a flor da luz e do amor. Mas lembra, sobretudo, Senhor, / que jamais queremos ser como eles, nem fazer ao próximo o que fizeram a nós. Por fim, a quinta oração desperta-nos para a verdadeira imagem de Deus e para a descoberta da relação autêntica com Dues, que é sempre em cada momento da vida um Pai amigo e misericordioso. Outro grande mestre do espírito disse ao seu discípulo: «Tu não podes brincar com o animal que mora dentro de ti, sem te tornares totalmente animal. Tu não pode brincar com a mentira, sem perderes o direito à verdade. Tu não podes brincar com a crueldade sem perverteres a ternura do espírito. Se quiseres manter limpo o teu jardim, não podes deixar nenhum espaço entregue às ervas daninhas». Para a oração e verdadeira relação com Deus, descobrimos que melhor que todas as nossas certezas, o melhor de tudo é estar certo que Deus nos atende como nosso Pai. Amen.