Convite a quem nos visita

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Não podemos ser surdos e calados

Muito triste, o que se está a passar no panorama da Comunicação Social da Madeira. Mais triste ainda saber-se que a Igreja da Madeira tem uma certa conivência com tudo o que se está passar. Chegou o momento de dizer basta, demarcar-se das guerras desiguais e dos jogos de poder. A Igreja, não pode, pela sua natureza e o seu âmbito de acção ligado ao Evangelho de Jesus Cristo, estar, nem que seja por sombra, associada aos joguetes de poder e às acções maquiavélicas, próprias da lógica deste mundo.
Neste sentido, faz-se um apelo ao Sr. Bispo desta Diocese para que se encha de coragem e denuncie as injustiças que estes joguetes estão a provocar. Penso, de modo especial, em tantos que nos últimos tempos estão a ser despejados no desemprego. À Igreja compete ser profética, apontar caminhos de luz para todos, mas também compete-lhe ser denunciadora de todas as formas de injustiça que o poder deste mundo inventa. A fidelidade à verdade assim o exige. Não pode a Igreja ser surda e calar perante o sofrimento que brada aos céus. Como dormirá tranquila diante dessa omissão e que dirá diante do criador que nos desafia para a luta do bem a favor de todos. Vai a Igreja da Madeira mandar às urtigas, o Bem-Comum, ideia tão forte do Evangelho e tornado lema de acção a partir do Concílio Vaticano II? O que nos prende? Que interesses, senão os do bem das pessoas - este sim, o único interesse que deve prevalecer sobre todos os outros para a Igreja? (...) Um basta é o que deve ser dito e feito, em nome da justiça e da verdade do Evangelho.
Por isso, chegou o momento de dizer basta de conivência surda com o poder no domínio da Comunicação Social e não só. Chega de estar preso por causa das benesses e dos subsídios que o poder político conferiu. Obviamente, que o poder pode fazê-lo e até deve fazê-lo, mas que o faça com desprendimento e que a Igreja os receba sem qualquer compromisso e que em nenhum momento se sinta atrofiada a dizer e a fazer o que deve ser dito e feito. Este é o momento ideal para quebrar este silêncio cúmplice e dizer-se à Igreja e à sociedade em geral, nós Igreja, somos livres e não queremos ter o nome da instituição Igreja associado aos joguetes maquiavélicos de um poder que não olha a meios para permanecer eternamente. Chegou o momento para pôr à prova a coragem e a força evangélica que sempre deve animar a Igreja de Jesus Cristo.
Sobre o Jornal da Madeira, é preciso demarcar-se dele ou entregar tudo o que a ele diz respeito ao poder político que fez do Jornal o que é hoje. Não tem mal nenhum que a Igreja entregue aquilo de uma vez por todas. Os custos morais para a Igreja são muito elevados. Não serve de nada alimentar uma mísera página religiosa, que unicamente anuncia arraiais e mantém um culto episcopal despropositado. Como se a Igreja fosse apenas arraiais e actividades episcopais. Ali não há diversidade nenhuma. É uma pobreza que sai cara à Igreja. Já participei nesta página e ganhei uns «troquitos» com isso (poucos, por sinal, no fim os impostos do recibo verde eram tão altos que restava pouco para mim). Foi lá que vi um texto meu ser censurado - e como é abjecta a censura – de imediato desisti por completo, porque ninguém tinha interesse que a pluralidade acontecesse. Agora chegou a hora de dizer basta e pôr-se cobro a uma situação que em nada beneficia a Igreja, mas a afunda ainda mais e deixa-a colada a tentáculos maléficos que provocam injustiça e sofrimento a tanta gente.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Comentário à Missa do Próximo Domingo

02 de Agosto 2009
Domingo XVIII Tempo Comum – Ano B
O Homem Novo
Ef 4, 17.20-74
Vamos escutar António Gedeão e fica-nos este maravilhoso texto como comentário à celebração da Missa do próximo Domingo. O Homem Novo, que Deus sonha e que nós devemos sentir que somos personagens desse sonho.
Niels Armstrong pôs os pés na Lua
e a Humanidade inteira saudou nele
o Homem Novo.
No calendário da História sublinhou-se
com espesso traço o memorável feito.
Tudo nele era novo.
Vestia quinze fatos sobrepostos.
Primeiro, sobre a pele, cobrindo-o de alto a baixo,
um colante poroso de rede tricotada
para ventilação e temperatura próprias.
Logo após, outros fatos, e outros e mais outros,
catorze, no total, de película de nylon e borracha sintética.
Envolvendo o conjunto, do tronco até os pés,
na cabeça e nos braços,
confusíssima trama de canais
para circulação dos fluidos necessários,
da água e do oxigénio.
A cobrir tudo, enfim, como um balão de vento,
um envólucro soprado de tela de alumínio.
Capacete de rosca, de especial fibra de vidro,
auscultadores e microfones,
e, nas mãos penduradas, tentáculos programados,
luvas com luz nos dedos.
Numa cama de rede, penduradada na parede do módulo,
na majestade augusta do silêncio,
dormia o Homem Novo a caminho da Lua.
Cá de longe, na Terra, num borborinho ansioso,
bocas de espanto e olhos de humidade,
todos se interpelavam e falavam
do Homem Novo,
do Homem Novo,
do Homem Novo.
Sobre a Lua, Armstrong pôs finalmente os pés.
Caminhava hesitante e cauteloso,
pé aqui,
pé ali,
as pernas afastadas,
os braços insuflados como balões pneumáticos,
o tronco debruçado sobre o solo.
Lá vai ele.
Lá vai o Homem Novo
medindo e calculando cada passo,
puxando pelo corpo como bloco emperrado.
Mais um passo.
Mais outro.
Num sobre-humano esforço
levanta a mão sapuda e qualquer coisa nela.
Com redobrado alento avança mais um passo,
e a Humanidade inteira,
com o coração pequeno e ressequido,
viu, com os olhos que a terra há-de comer,
o Homem Novo espetar, no chão poeirento da Lua, a bandeira da sua Pátria,
exactamente como faria o Homem Velho.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

As festas da propaganda

Estão na moda. Todos os partidos as fazem. A propósito das festas que a maior parte das vezes servem apenas para idolatrar os lideres e para vender um produto vazio com discursos vazios, lembrei-me de uma frase do Papa Bento XVI, que diz o Seguinte e está na sua mais recente Encíclica, Caritas in Veritate (A caridade na verdade): “a Humanidade inteira aliena-se quando se entrega a projectos humanos, a ideologias e a falsas utopias. O desenvolvimento dos povos depende sobretudo do reconhecimento que são uma só família” (nº 53).
Será que a nossa região não está totalmente alienada e satisfeita, porque os partidos proporcionam uma fartura de nada e isso basta para alimentar o espírito de tanta gente? Logo a seguir, por um lado, parece votar no mais cómodo, no partido que há tanto tempo serve o prato do betão armado para alguns encherem os bolsos, por outro, a maioria contenta-se com as canções pimba, os beberetes, os passeios de borla e as espetadas que se oferecem nas festas. É o império romana travestido de democracia. Hoje o cardápio é bem claro: pão, vinho seco, circo e as pobres vacas enfiadas num espeto. Melhor não existe para esbanjar e gastar num ápice, milhares de euros tirados dos nossos impostos.
Os dirigentes, os ditos nossos governantes, divertem-se com o povo, a multidão delirante que se ri do mísero euro (1 euro) que pagou para subir a serra para participar na festa. Mas, ninguém se lembra que «Construir sobre a vontade de uma multidão é loucura; a vontade de um povo é como um relâmpago que dura um segundo», diz Ganivet, A. , no livro «A Conquista do Reino Maia». Esta, uma verdade que devia fazer pensar ou recuar nas atitudes que roçam o insulto tantos que se embebedaram com a demência, a pobreza de espírito e quem sabe uma certa podridão que nos levará à desgraça colectiva.
As muitas festas que as entidades públicas promovem são uma loucura, um gasto desnecessário, que vai rebentar com todo o espírito voluntarista que existia entre nós. O povo organizava-se e fazia as suas festas, sem precisar de ninguém para as fazer e não olhava a meios para dispensar do seu próprio bolso o que fosse necessário para que a festa se fizesse.
A ilusão de uns e de outros mantém-se firme e alimenta a fome dos dirigentes e do povo. Os que governam gloriam-se diante do povo caído aos seus pés, o povo, saciado, aplaude e aproveita ao máximo todas a benesses que lhe oferecem de bandeja. Por assim dizer fica-nos as seguintes frases. Uma, para o povo: «A multidão não envelhece nem adquire sabedoria: permanece sempre na infância» diz Johann Goethe. A seguinte para os dirigentes: «Ninguém é dono da multidão, ainda que creia tê-la dominada», disse Eugène Ionesco. Pois bem, que não nos cegue a poeira que todas as festas levantam da miséria do chão.

domingo, 26 de julho de 2009

Não há falta de recursos

in Crónica de Domingo no Público, Frei Bento Domingues, o.p.

«Jesus Cristo não deixou nenhum método científico nem qualquer fórmula técnica para resolver os nossos problemas. Ninguém lhe peça, mesmo que seja muito católico, um programa de governo ou qualquer projecto de desenvolvimento.
É verdade que, na Missa de hoje, Jesus provoca os seus discípulos (Jo 6, 1-15). A situação era crítica. Uma multidão veio para a montanha escutar o mestre. Não havia nada para comer. Segundo os cálculos dos discípulos, duzentos denários de pão não chegavam nem para dar um bocadinho a cada um e não era com cinco pães de cevada e dois peixes, que um rapazito andava a vender, que se resolvia a questão. Jesus pediu aos discípulos para mandar sentar aquela gente toda. Deu graças a Deus, houve pão e peixe para todos – comeram quanto quiseram – e até sobrou, mas não permitiu desperdícios.
A multidão ficou entusiasmada: «Este é, na verdade, o Profeta que estava para vir ao mundo». Tinham encontrado a solução para todas as situações. O narrador desta história tem uma observação curiosa: Jesus, percebendo que o queriam fazer rei, fugiu. Os problemas não se resolvem com milagres. Estes podem ser, eventualmente, uma pedra no charco do fatalismo. Não são um método. A graça provoca a nossa responsabilidade, não a substitui. Não há falta de recursos. Há falta de sonho e de coração».

quinta-feira, 23 de julho de 2009

O sentido de Fátima

Impressões do dia 23 Julho (Santuário de Fátima)
Deste dia destaca-se o Santuário de Fátima. A sempre emotiva Capela das Aparições, a misteriosa Basílica mais antiga e a magnífica Basílica nova dedicada à Santíssima Trindade com a Cruz maravilhosa do interior e do exterior, o painel dourado do Altar-Mor e as suas portas atribuídas aos Apóstolos.
Obviamente, que não vou destacar de Fátima toda a tralha religiosa que compõe os seus arredores. É impressionante como o feio pode valer tanto dinheiro e como essa fealdade alimenta tantos espíritos. Mas tudo bem, cada um e cada qual compra e come o que muito bem entender.
A generalidade das pessoas não gosta do edifício novo, eu gosto muito. Foram felizes as diversas leituras arquitectónicas ali engendradas pelos diversos autores. A Igreja da Santíssima Trindade foi dedicada a 12 de Outubro de 2007. Tem forma circular com 125 m de diâmetro sem apoios pelo meio, com um volume de quase de 130.000 m3. Toda a Igreja está construída em betão armado branco e está revestida de pedra da região, conhecida por branco do mar. A Igreja nova de Fátima é um Oceano imenso, em círculo, como é o amor infinito de Deus pela humanidade. A sua capacidade ronda um total de 8.633 lugares sentados incluindo 76 para pessoas com dificuldades motoras.
Tem uma iconografia exterior muito interessante. O Pórtico de Entrada, apresenta alguns Anjos músicos, que evocam as aparições do Anjo da paz e convidam a entrar no Templo e a adorar a Santíssima Trindade.
A Porta Principal, é dedicada a Cristo. A segunda pessoa da Santíssima Trindade e Porta principal para o caminho da fé e da esperança da salvação.
Painéis do Rosário, estão ao lado da porta principal e evocam os vinte mistérios do Rosário: à esquerda, os gozosos e luminosos, à direita, os dolorosos e gloriosos. Pois, então, quanto são importantes estes mistérios para a oração e contemplação da Igreja, formada por todos os baptizados.
Painéis de vidro, são muito bonitos e significativos, são uma alusão à Palavra de Deus, universalidade dos peregrinos de Fátima e à Santíssima Trindade. Tem citações bíblicas em diversas línguas. A mensagem da salvação de Cristo é universal e a Igreja de Jesus Cristo, é a fraternidade, na diversidade, o sinal do amor aberto a todos os povos do mundo. Saborear os textos é já uma das maravilhas da Basílica.
As portas laterais, dedicadas aos doze Apóstolos, são uma ideia muito bonita, revelam uma imagem do reino dos céus, como confirmou Jesus no Evangelho quando disse que o reino dos Céus tem muitas portas. Mais um sinal de apelo à tolerância e à paz com todos no que respeita às muitas formas de expressão da fé.
Imagem de Nossa Senhora de Fátima jovem e de braços abertos. É talvez um primeiro impacto que nos deixa contemplativos perante aqueles braços maternos que nos envolvem com todo o carinho de uma mãe que a todos quer envolver com amor. Parece viva esta imagem.
O Painel do presbitério, riquíssimo em toda a sua beleza. Um mosaico que envolve o fundo, é feito em terracota dourada e moldada manualmente. Servem para evocar a santidade e fidelidade de Deus e também convidam à contemplação do mistério. Quem entra no templo e se senta, deixa que todo o conjunto penetre no fundo da alma, depois eleva-se a um estado divino que ultrapassa toda a nossa existência. Os painéis reúnem todos os símbolos principais do cristianismo (por ex. o Cordeiro…) e chamam ao caminho da história da Igreja até às aparições de Fátima toda a multidão dos santos.
O Crucifixo, está sobreposto ao Cordeiro do Painel, apresenta Cristo que se ofereceu voluntariamente pela salvação do mundo, vivo, glorioso, pronto a abraçar todo o mundo e a despregar-se da cruz, porque o mundo precisa de um Cristo vivo e não de um Cristo morto.
Por fim, a Pedra do túmulo de São Pedro, está colocada na frente do altar e serve para evocar a devoção dos pastorinhos ao Papa e inspirar todos os que visitam este templo a abrirem o coração à comunhão, fraternidade e amizade na Igreja.
São estes os elementos essenciais e mais significativos da nova Basílica de Fátima, espero que sirva de aperitivo para muitos olharem com olhos renovados este monumento interessante do nosso tempo.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Comentário à Missa do Próximo Domingo

26 de Julho 2009
Domingo XVII Tempo Comum – Ano B
Suportai-vos uns aos outros com caridade
Ef 4, 1-6
Já ouvi por muitas vezes pessoas interpretarem de forma errada esta passagem bíblica em Efésio 4, 2 "suportai-vos uns aos outros". Muitos interpretam a palavra "suportar" como "tolerar" e chegam ao cúmulo de dizer: " Não gosto de fulano mas suporto-o porque Deus manda!"Suportar é algo que está muito além desta concepção. Significa sustentar, estar debaixo de..., sofrer, etc. Creio que o exemplo de Cristo com a cruz às costas ilustra bem e melhor define o que verdadeiramente significa, suportai-vos uns aos outros...
Se nos remetemos ao Evangelho de Mateus, vamos encontrar uma alusão parecida com a de Paulo, feita por Jesus. "Dá a quem te pede, e não voltes as costas ao que deseja que lhe emprestes" (Mt 5, 42). Nos tempos que correm este ensinamento tem muito que se lhe diga. E nunca é fácil de realizar. Porque a palavra hoje vale zero, as pessoas são muito inconstantes e são pouco sérias quanto aos valores que antes valiam ouro, hoje, pouco valem diante da sociedade obcecada pelo materialismo. Bom, uma infinidade de coisas que nos fazem pensar. Mas, a mensagem existe e serve para nos colocar diante da reflexão.
Ora vejamos, tantas vezes, ao sermos solicitados a ajudar certas pessoas necessitadas, inclinamo-nos a perguntar: "São cristãos? São sérios? O que fazem no dia a dia? Fumam cigarros? Passam os dias nos cafés? Vivem correctamente? Se não, por que os haveríamos de ajudar?"
Há uma velha alegoria judaica, mais ou menos neste teor: um dia Abraão estava sentado à porta da tenda, como tinha por costume, esperando hospedar estranhos, quando viu, caminhando na sua direcção, um homem de cem anos, todo curvado e amparado no seu bordão, fatigado pelos anos e pela viagem. Abraão recebeu-o bondosamente, lavou-lhe os pés, fê-lo sentar-se e serviu-lhe a ceia. O ancião comeu, entretanto, sem pedir a bênção de Deus nem lhe dar graças. Ao ser-lhe perguntado por que não adorava o Deus do céu, o velho disse a Abraão que adorava unicamente o fogo, e não conhecia outro deus. Diante desta resposta, Abraão no seu zelo, ficou indignado a ponto de mandar embora o velho da sua tenda, expondo-o às trevas, aos males e perigos da noite, sem protecção. Deus chamou Abraão e perguntou-lhe onde estava o estrangeiro. Ao que o patriarca respondeu: "Atirei-o para fora, pois não Te adora". Deus então respondeu: "Eu tenho-o suportado por mais de cem anos, se bem que ele me desonre, e tu não o pudeste suportar por uma noite, sendo que ele não te causou nenhuma perturbação?" Tendo em conta isto, diz a história, Abraão chamou o homem de volta, foi hospitaleiro com ele, e proporcionou-lhe sábias instruções.
Nada disto é fácil, mas juntando a nossa boa vontade à bondade infinita de Deus, quantos milagres destes pode ser possível realizar na nossa vida.

A surpresa sobre a alimentação

Impressões do dia 22 de Julho de 2009 (Cáceres, Marvão e Castelo de Vide)
Para hoje não se pode dizer muito. O dia passou-se mais em viagem de Sevilha, Espanha, até Castelo de Vida, Portugal. A impressão mais forte prende-se com o facto de termos chegado novamente a terras de Portugal. É sempre bom regressar. Porém, sem antes saborear pela última vez nesta viagem uma boa refeição espanhola – alguns pensarão logo, que em Espanha nunca se come bem – também eu pensava assim, não só pensava, bem como, já tinha experimentado muitas vezes. Desta vez estou deveras impressionado com a comida. Algumas vezes até comemos pior em Portugal, o Algarve é um exemplo.
Em Espanha, surpreendentemente, serviram-nos boa comida, razoáveis pequenos-almoços, um buffet avantajado e com muita variedade. Os almoços, como eram livres, podíamos apreciar a comida típica de cada lugar. Deste modo, cada um comeu o que lhe apeteceu. Quanto a este aspecto estou deveras surpreendido, até cheguei a comentar com algumas pessoas esse facto, alguém rematou que pode ser efeito da crise, se assim for, pois bem, bendita crise.
Saliento também a emoção de estar de novo no nosso país. A oportunidade de revisitar o Marvão é sempre mais um ponto interessante. É belo subir a encosta e começar a contemplar aquela crista rochosa a tocar o céu, lugar de defesa do povo que a custo sempre procurou proteger-se o quanto mais possível na bruma dos tempos. Pensar isso é extraordinário e faz bem ao sentido patriótico que cada um deve alimentar com muito carinho.
Esta noite dormimos em Castelo de Vide.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Marcas de um passado para o futuro

Impressões do dia 21 de Julho (La Rábida e Sevilha – Espanha)
Deste dia destaco a visita ao Monasterio de La Rábida; Muelle de las Carabelas e a Catedral de Sevilha.
1. O Monasterio de La Rábida, é um importante Santuário Franciscano, onde Cristóvão Colombo se hospedou e se preparou durante oito anos para a grande viagem marítima para o encontro com o continente Americano. Um espaço interessante, cheio de história e mágico para nós hoje que sabemos o que implicou essa aventura mar adentro.
Este é um Convento Franciscano, que data de finais do Séc. XIV ou princípios do Séc. XV. Aqui, com a contribuição decisiva de Frei António de Marchena (frade Astrónomo) e Frei Juan Pérez, antigo Contador Real na Corte Castelhana, gerou-se um dos acontecimentos mais transcendentais da história da Humanidade, o encontro com as Américas. Por isso, em 1993 o Papa João Paulo II, ajoelhou diante de Nossa Senhora dos Milagres, Santa Maria da Rábida e disse: «Venho agradecer-te pelos séculos de cristianismo na América, que partiu das tuas plantas…».
2. O Muelle de las Carabelas é um sítio interessante. Um museu marítimo, onde podemos encontrar as três caravelas de Colombo: Santa María, La Pinta e La Niña. Destes nomes já não me recordava, porém, logo depois veio à memória a frase que a professora da primária nos dizia para decorar os nomes das caravelas de Colombo, frase atribuída ao navegador. Conta-se que algures Colombo conheceu uma jovem e porque os seus encantos seduziram o navegador, ele pronunciou o seguinte: «Santa María, que Pinta Tiene la Niña», truques de outros tempos que nos ajudavam a decorar as coisas. Para hoje pouco serve, porque ninguém está para decorar nada. É pena.
As caravelas deste museu, são réplicas das caravelas verdadeiras, mas são importantes pelo que significam e pela tomada de consciência relativamente à austeridade ou até crueldade que devia ser encher aquelas «cascas de nós» de gente e lançá-las ao mar. Esta impressão causa um certo arrepio, mas faz-nos remontar ao passado, a esse momento ousado da humanidade. Porque esta aventura não pode ser, por isso, só desse tempo, mas de todos os tempos. Porque nessas caravelas embarcou todo o passado e todo o futuro da vida humana.
Daqui também destaco a figura do Dominicano Frei Bartolomeu de Las Casas, que teve direito a grande relevo neste museu. Podemos vê-lo num quadro médio, mas destacado, a sua biografia e as suas obras literárias. Esta é a grande figura de evangelizador das Américas, mas com grande respeito pelos povos e pelas culturas. Denunciador corajoso, incansável dos abusos cometidos pelos ditos descobridores do Novo Mundo.
4. A Catedral de Sevilha. Um monumento fabuloso. A sumptuosidade cai sobre a nossa pequenez e esmaga-nos. Poderíamos dizer deste monumento apenas uma palavra: um génio. Parece que faço o que fazia o professor de Patrística (uma cadeira muito interessante do curso de Teologia, que tive o prazer de fazer na faculdade de Teologia da Universidade Católica de Lisboa). O nosso professor, um padre já com uma certa idade, cabia-lhe dar-nos esta cadeira, uma figura interessante, daquelas figuras sábias, que vivem enterrados nos livros. Quando se chegava ao item sobre Santo Agostinho, limitava-se a pronunciar o seguinte: «Um génio» e imediatamente passava para o item seguinte.
Também me vejo um pouco assim diante da catedral de Sevilha. A grandiosidade da Catedral é impressionante, a área do edifício é de 23.500 metros quadrados. É a Catedral gótica maior do mundo. O seu cumprimento é de 126 metros, a largura mede 83 metros. A altura máxima (centro do cruzeiro) mede 37 metros. A torre, chamada em Sevilha de Giralda, do passeio até ao cata-vento, é de 96 metros de altura. Dizem os sevilhanos que a Torre da Catedral é a imagem da mulher sevilhana, os pés são romanos, a parte central, o corpo da mulher, é árabe e a cabeça é cristã. De facto, ao olharmos a torre concluímos que faz todo o sentido dizer esta charada.
A catedral remonta ao Séc XV e XVI. Construída no lugar da Mesquita maior de Sevilha. Da Mesquita conservam-se o Pátio das Laranjeiras e grande parte da Giralda (Giralda, porque o cata-vento, cristão, gira para indicar a direcção do vento).
O seu interior é sumptuoso e carregado de uma riqueza incalculável. Uma beleza extraordinária. Salta à vista o retábulo do Altar-mor, todo em talha dourada com diversas cenas da vida de Jesus. Uma catequese viva que «dá cartas» à catequese dos nossos tempos.
Bom, porque as impressões de hoje já vão longas, ficam estas pinceladas sobre a Catedral de Sevilha e que seja como um apelo para que muitos possam também sentir anseio de uma visita a este lugar.
Hoje o calor de Espanha foi forte, os termómetros atingiram os 44 graus, um pouco agressivo para nós habituados a outros calores.

Algarve do meu descontentamento

Nota: aqui vai o texto de ontem, só hoje é que foi possível colocá-lo no blog. Desculpas a quem esperou por ele.
Impressões do dia 20 de Julho (Algarve e Huelva)
As impressões de hoje (20 de Julho de 2009) não são muito positivas. Obviamente, que se aprecia muito as pessoas (hoje muitas em comparação com dia de ontem) as paisagens, as praias, o mar, as marinas cheias de belíssimos e sedutores iates… Uma infinidade de coisas muito belas que encantam quem passa por estas bandas do nosso país. Mas, fica a impressão do dia que recai sobre dois aspectos. Primeiro, a construção desenfreada e muito desordenada na orla costeira, um desencanto ver quanto se constrói sem a mínima preocupação com o ordenamento e com a beleza que devia apresentar todo o género de construção humana. Exemplo deste desconcerto construtivo é quase todo o Algarve, mas de modo especial, Portimão e Albufeira. Segundo, os sinais exteriores de riqueza que algumas regiões do Algarve apresentam, por exemplo, Vilamoura.
A ganância da atracção turística levou à construção sem regras e ao salve-se quem puder. Um roubo aos olhos de todos, porque explora exaustivamente os recursos e o património natural que pertence a toda a humanidade. Esta loucura levará a futuro nenhum.
Sobre o segundo aspecto, tem a ver com a crise. Vilamoura é um exemplo bem claro de que a crise é só para alguns. Não falta por estas bandas carros em abundância topo de gama. Os iates dentro da Marina são um luxo que nos encanta, mas também revela o quanto o mundo, o nosso mundo, está desordenado e quanto está injustamente distribuída a riqueza. Muito poucos com muito e muitos com quase nada ou mesmo nada para sobreviver.
Por fim, continuando a viagem descobre-se outro mundo, Espanha, também não menos desorganizado quanto a construção, porque nesse aspecto os espanhóis também não são exemplo para ninguém. Porém, oferecem-nos estradas em melhores condições, gratuitas. Quando se passa a fronteira, que hoje está muito ténue, notamos logo a grande diferença de condições nas estradas. Neste outro mundo, compensa-nos a alegria de chegar a uma cidade de Espanha, Huelva, onde se pode matar as saudades das ruas amplas com passeios os seus passeios grandes onde nos levam à Plaza Maior, que em Huelva se chama Plaza de las Monjas.
Outro mundo, como já disse, outra v ida, outro povo, cheio de vida que dá alma às ruas e às praças, coisa que em Portugal não sabemos fazer. Onde fazemos da rua uma festa no nosso país? – Em Espanha a rua é o lugar onde se fala (alto, por sinal), onde se come, bebe e se convive com muita alegria. Neste aspecto com nuestros irmanos temos muito que aprender, e como nos faria bem aprender a fazer festa, para que as depressões, o desânimo e a melancolia deixassem de ser o «pão-nosso de cada dia» de tanta gente no nosso país.

domingo, 19 de julho de 2009

O pão do nosso contentamento

Mais impressões desta minha incursão pelo nosso Potrugal Continental. No alto da colina, ergue-se a bela aldeia de Monsaraz, coração do Alentejo. Aí descobri um vendedor de pão, que gentilmente me ofereceu um pedacinho para provar e a seguir um pequeno papel onde nos ensina como fazer o pão que alimentou os povos por estas bandas ao longo de mais de dois milhões de anos. No final das instruções diz que o pão desenfornado gerou o «pão do nosso contentamento». Achei muito curiosa a expressão e veio de encontro às impressões de ontem, que intitulei como «o passeio do meu contentamento».
Mas, à parte as coincidências, quero agora partilhar como este momento se mostrou para mim o prolongamento da Eucaristia que tínhamos celebrado à pouco junto aos pés da Imaculada Conceição, Santuário de Vila Viçosa. Sim, o mesmo lugar, onde D. João IV em 1646 arrancou da sua cabeça real a coroa de rei de Portugal e a colocou na cabeça da Imagem de Nossa Senhora da Conceição e com este gesto fez da Imaculada Conceição protectora de todos nós, melhor dizendo, Padroeira de Portugal ou raínha de Portugal.
Seguindo adiante, vi no semblante do homem que me oferecia o pão, a alegria de quem partilha orgulhosamente a iguaria mais nobre que a humanidade coloca sobre a mesa. O pão da vida que dá vida em abundância para todos. O melhor alimento para oferecer e aquele que faz das casas serem casas, «casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão». Pudera, é o pão da vida, do entendimento, da verdadeira partilha, o alimento do amor, o símbolo do Corpo de Cristo em cada sacramento da Missa.
O Alentejo não é como se diz só deserto ou só paisagem árida, mesmo que o seja, antes é beleza distinta do resto do país, porque está cheio de cores quentes, de cultura e de gentes, mesmo que algumas vezes melancólica, mas ávida para dar-se e oferecer tudo o que tem com simpatia e carinho por aqueles que não os esqueceram, porque vieram ao seu encontro.
O calor do Alentejo é forte , agressivo, por isso, torna os descampados, os vales e os famosos e cobiçados montes, lugares solitários, misteriosos. Não há gente neste mundo como se esperava que houvesse e como as terras mereçam que existam almas para lhes dar vida. Porém, algumas vezes parece esquecido, mas nessa ausência de almas descobre-se um calor, uma chama que a aridez levanta para o alto. Lá estão concentrados os nossos olhos, porque sabem que daí emerge o pão que nos deu vida ao espírito, sim aquele pão do altar que o Senhor Jesus naquela hora fez sacramento de salvação para a eternidade, mas, antes força e coragem para vencer as misérias desta vida.
Perante estas impressões onde se vislumbra um sinal presente do amor de Deus a acontecer de forma quente e sublime, vejo as palavras do grande Teólogo, Hans Urs Von Balthasar, que dizem assim: «Não é porque o espírito do Homem depende da sensibilidade que o amor lhe surge 'de fora', mas porque só existe amor entre pessoas - o que a filosofia sempre tendeu a ignorar. Deus, o Totalmente Outro de nós, surge no lugar do outro, no 'sacramento do irmão'. E (...) não é por estar em cima que Ele perde direito, o poder e a palavra de se revelar a nós como o amor eterno de se dar e de se fazer compreender na sua incompreensibilidade». O Alentejo fez-se em mim um sinal do pão vivo que a Eucaristia é em cada Domingo da nossa vida. E em tudo o que se diga incompreensível, pode estar um sinal, uma pequena sombra que alguma planta teima em semear na tórrida paisagem. As ovelhas sabem muito bem onde está essa sombra.

sábado, 18 de julho de 2009

O passeio do meu contentamento

Hoje revisitando a Serra da Arrábida, descobrindo entre o cerpentear dos vales o som presente de um tempo futuro, que nos revelam as encostas verdejantes que vão do mar até ao céu. Um quadro maravilhoso, que merecia uma discrição à João Bernard da Costa (antigo director da Cinemateca Portuguesa ou o mais sublime sábio de cinema que alguma vez Portugal viu nascer). Dele sabemos ser o maior apaixonado de Portugal por esta Serra.
Qualquer um que escreva sobre esta Serra, parece que ofende a memória inesquecível do João Bernard da Costa, porque só ele e mais ninguém conhecia esta Serra e só ele a sabia descrever da forma mais bela possível. Mas, hoje (18-07-2009), por lá passei mais uma vez e vi como é bela esta Serra e como corresponde magníficamente às discrições do João Bernard da Costa. Que linda lembrança me veio à memória hoje, até fiz dela uma oração.
Também lá estava belo como sempre o Convento dos Capuchinhos da Arrábida. Entre o oceano imenso de verde, destaca-se aquela nuvem de cal branca, mostrando no meio da encosta o acontecer do repouso e da oração - desconheço se o convento hoje está activo como convento ou se está como hotel ou pousada. Seja o que for é um símbolo do equilíbrio entre a natureza e a civilização e, se não é agora, foi durante muito tempo um sítio de repouso e de oração. E se for hotel, também creio que se enquadre dentro dessas características.
Por fim, aportamos em Évora, onde se pode saborear o Templo de Diana ou Templo do Imperador como agora dizem. E sob um certo calor, um pouco forte, como dizem os espanhóis, passeia-se pelas ruelas da cidade de Évora, património da humanidade, até à famosa Capela dos Ossos, onde os Frades quiseram marcar a condição humana e o destino final do corpo humano. Por isso, faz sentido não entrar sem primeiro ler e meditar sobre a famosa inscrição: «Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos». Nem mais, como diria Dante na Divina Comédia, na inscrição da porta do inferno: «Óh vós mortais, deixai toda a esperança»!
Mas, ainda prefiro saborear outro género de arte. Por exemplo, um Pelicano empedrado sobre o pórtico belíssimo da Igreja de São Francisco. Uma ave que se morde a si mesma para alimentar os seus filhotes com o seu sangue e com a sua própria carne, quando não tem alimentos para os saciar da fome. Um dos muitos símbolos da Eucaristia e também símbolo de todos aqueles e aquelas que sempre abdicam de viver como desejariam para que os outros vivam em abundância, à maneira do Evangelho de Jesus Cristo.
Para hoje guardo e partilho estas singelas impressões entre muitas outras, para que vós também como eu possam saborear um momento de paz ou apenas pura curiosidade.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Comunicado de Imprensa do Movimento Internacional Nós Somos Igreja sobre a encíclica Caritas in Veritate

Sendo uma encíclica importante, Caritas in Veritate não se pronuncia sobre os problemas do armamento e da guerra, nem refere uma aliança ecuménica e inter-religiosa como meio moral de ordenamento do mundo.
"A encíclica é, como esperado, complexa e irá requerer análises cuidadosas sobre cada problema abordado.
Numa primeira leitura, o Movimento Internacional Nós Somos Igreja deseja observar o seguinte:
- Todo o documento contém um grande apelo aos valores éticos e à necessidade de "energia moral", como princípio de todas as acções nos domínios económico e social, sobretudo nesta fase de crise sem precedentes;
-Sobre as questões do relativismo, da laicidade, do fundamentalismo, bem como sobre as da bioética, da contracepção, do aborto e da política demográfica, Bento XVI confirma e reforça as posições bem conhecidas e sobre as quais existem, mesmo na Igreja Católica, diferentes opiniões;
- A análise do fenómeno da globalização adopta um ponto de vista previsível segundo o qual esta é considerada uma oportunidade, mas requer um maior controlo;
- Falta uma denúncia, ao nível da gravidade dos factos, das responsabilidades do financiamento da economia e do papel das empresas multinacionais como principais causas da crise actual e de todos os aspectos negativos da globalização;
- São recolhidos e desenvolvidos com sucesso novos aspectos e problemas da realidade económica e social: a economia do terceiro sector, a finança ética, o papel dos consumidores, a defesa da natureza e outros;
- É totalmente discutível alegar que a Populorum Progressio estava em linha de continuidade com o magistério pré-conciliar (esta é considerada, ainda hoje, uma encíclica de ruptura e de denúncia profética);
Por último, o Movimento lamenta que na encíclica:
- Não exista qualquer referência à corrida aos armamentos, à necessidade do desarmamento, ao comércio internacional de armas e, em geral, ao problema dos conflitos potenciais e actuais que dão azo uma das principais causas do empobrecimento, da fome e da miséria;
- Exista apenas uma tímida referencia aos compromissos, sempre rejeitada, para a transferência dos recursos para o Sul do mundo (o famoso 0,7%), assim como já não (se) fala do perdão da dívida externa, objecto da campanha da própria Igreja no ano do Jubileu;
- Não exista nenhuma referência ao caminho ecuménico com as outras confissões cristãs (que inspirou a campanha "Justiça, paz e protecção de criação") e às relações com outras religiões como sendo os principais instrumentos para aumentar, a nível mundial, as energias morais capazes de iniciar uma mudança e de corrigir o actual caos nas relações entre as economias e os povos. A Igreja Católica com esta encíclica parece apresentar-se sozinha e auto-suficiente para lidar com problemas do mundo".
Roma, 7 de Julho de 2009
Tradução de Carina Henriques

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Comentário à Missa do Próximo Domingo

19 de Julho 2009
Domingo XVI Tempo Comum – Ano B
Cristo é a nossa paz
Ef 2, 13-18
Cristo é a nossa paz, proclama solenemente São Paulo. Não a paz podre do comodismo da vida ou a paz das pequenas orações que não libertam, mas oprimem ainda mais. Jesus Cristo, é a paz que provoca para o amor, para a solidariedade Ou caridade. Uma paz que nos desinstala para o encontro dos outros como irmãos. Uma paz que nos faz mais sérios no nosso trabalho. Uma paz que se inquieta porque há fome no mundo. Um paz porque não tolera a mentira. Uma paz que não se deixa vergar à intolerância seja de que ordem for, de raças ou de religiões. Uma paz que sofre, porque as famílias estão divididas, o esposo não fala com a esposa e vice-versa, os filhos não falam com os pais e vice-versa. A paz de Jesus liberta o nosso coração para a alegria da festa e para a luta diária por um mundo melhor, onde todos possam ter o necessário para sobreviver, tanto os bens materiais, mas também os espirituais. Neste encontro com Jesus Cristo, cada pessoa descobre uma dignidade mais elevada, isto é, «podemos aproximar-nos do Pai», por isso, deve depois agir segundo a sua condição. Não se deixa conduzir pelo egoísmo, pela violência e pela vingança. Este encontro com Jesus é um encontro de salvação, uma glória maior que faz cada um ser feliz e não descansa enquanto todos os outros também não sejam verdadeiramente felizes. Esta Boa Nova que Jesus Cristo no oferece não se coaduna com a violência das palavras que se tornam muitas vezes o pão-nosso de cada dia na vida de tanta gente.
Encontrar Jesus deve fazer com que a delicadeza seja um valor elementar no falar e no proceder. Jesus Cristo, é um apelo para que o respeito seja alimento de cada dia nas nossas famílias, nas nossas escolas, nas empresas, na política e na sociedade em geral. Todas as perversidades deste mundo, acontecem por uma única razão, a ausência de Paz no coração d cada mulher e cada homem, falta de respeito por Deus e amor ao próximo. A paz verdadeira só tem um nome para nós, tem nome de uma pessoa, Jesus Cristo, o filho do Deus Vivo.
Esta Paz não se adquiri com dinheiro, porque ela não está à venda nas prateleiras dos supermercados, mas virá pela humildade, bondade, fé, esperança, confiança que colocamos no nosso coração a partir dos ensinamentos que Jesus nos oferece. Esta oferta está ao alcance de todos, basta que cada um e cada qual sintam predisposição para o valor da vida e o sentido da vida a partir de Jesus Cristo. Ele é a paz do amor e da certeza de que a vida não se reduz à imperfeição deste mundo.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Pandemia de Lucro

Amigo,
Por favor, toma esta "vacina" de informação!
Devemos estar informados sobre todas as condicionantes das nossas "doenças"...
PANDEMIA DE LUCRO: Que interesses económicos se movem por detrás da gripe A???
No mundo, a cada ano morrem milhões de pessoas vítimas da Malária que se podia prevenir com um simples mosquiteiro. Os noticiários, disto nada falam!
No mundo, por ano morrem 2 milhões de crianças com diarreia que se poderia evitar com um simples soro que custa 25 cêntimos. Os noticiários disto nada falam!
Sarampo, pneumonia e enfermidades curáveis com vacinas baratas, provocam a morte de 10 milhões de pessoas a cada ano. Os noticiários disto nada falam!
Mas há cerca de 10 anos, quando apareceu a famosa gripe das aves os noticiários mundiais inundaram-se de noticias: Uma epidemia, a mais perigosa de todas. Uma Pandemia! Só se falava da terrífica enfermidade das aves.
Não obstante, a gripe das aves apenas causou a morte de 250 pessoas, em 10 anos, 25 mortos por ano.
A gripe comum, mata por ano meio milhão de pessoas no mundo. Meio milhão contra 25.
Um momento, um momento. Então, porque se armou tanto escândalo com a gripe das aves? Porque atrás desses frangos havia um “galo”, um galo de crista grande: A farmacêutica transnacional Roche com o seu famoso Tamiflú vendeu milhões de doses aos países asiáticos. Ainda que o Tamiflú seja de duvidosa eficácia, o governo britânico comprou 14 milhões de doses para prevenir a sua população. Com a gripe das aves, a Roche e a Relenza, as duas maiores empresas farmacêuticas que vendem os antivirais, obtiveram milhões de dólares de lucro.
-Antes com os frangos e agora com os porcos.
-Sim, agora começou a psicose da gripe A. E todos os noticiários do mundo só falam disso.
-Já pouco se fala da crise económica e muito pouco de outros assuntos.
-Só a gripe A, a gripe dos porcos.
-Se atrás dos frangos havia um “galo” atrás dos porcos não haverá um “grande porco”?
A empresa norte-americana Gilead Sciences tem a patente do Tamiflú. O principal accionista desta empresa é nada menos que um personagem sinistro, Donald Rumsfeld, secretário da defesa de George Bush, artífice da guerra contra Iraque. Os accionistas das farmacêuticas Roche e Relenza estão a esfregar as mãos, estão felizes pelas suas vendas novamente milionárias com o duvidoso Tamiflú.
A verdadeira pandemia é de lucro, os enormes lucros destes mercenários da saúde.
Não se nega as necessárias medidas de precaução que estão a ser tomadas pelos países.
Mas se a gripe A é uma pandemia tão terrível como anunciam os meios de comunicação. Se a Organização Mundial de Saúde se preocupa tanto com esta enfermidade, porque não a declara como um problema de saúde pública mundial e autoriza o fabrico de medicamentos genéricos para combatê-la?
Prescindir das patentes da Roche e Relenza e distribuir medicamentos genéricos gratuitos a todos os países, especialmente os pobres. Essa seria a melhor solução.
PASSEM ESTA MENSAGEM POR TODOS LADOS, COMO SE TRATASSE DE UMA VACINA, PARA QUE TODOS CONHEÇAM A REALIDADE DESTA “PANDEMIA”.  
Filipa Godinho Nota da redacção: De facto tem toda a razão a autora deste texto...

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Viver em Democracia

«Deve ficar claro que viver numa democracia actual (e ainda mais futura) equivale a coexistir com aquilo de que não gostamos, com o que consideramos errado ou mesquinho, com o que nos repugna ou não conseguimos entender. Democracia é um concerto discordante, uma harmonia cacofónica, pelo que exige mais lassitude no aspecto colectivo e mais maturidade responsável no campo pessoal do que outro sistema político. O que caracteriza o viver em democracia é sentir impaciência e desassossego; encontrar no comum um amparo genérico, mas pouco consolo gregário para as inquietações privadas. De modo que a tentação de se identificar com algo simples e vigoroso, que expulse incertezas e dissidências, é constante, sobretudo quando a educação não anda muito bem e a economia tão-pouco. Nesta situação, a tolerância não é uma edificante aspiração pessoal, mas sim, uma atitude política que deve ser convenientemente instituída».

In Fernando Savater, Livre Mente, Relógio D'Água, pag. 31.

Nota da Redacção: Como sabe bem, não digo apenas ler, mas escutar estas palavras...

Caridade na verdade

O Vaticano apresentou a terceira encíclica de Bento XVI, de marcado carácter social, na qual afirma que a economia precisa de ética e que o mercado "não é o lugar de atropelo do forte sobre o fraco".
Na encíclica "Caritas in veritate" (Caridade na verdade), o Papa afirma que a crise mostra que os tradicionais princípios da ética social, como a transparência, a honestidade e a responsabilidade, "não podem ser descuidados".
O papa afirma que a economia não elimina o papel dos Estados e tem necessidade de "leis justas".
Bento XVI exige que as "finanças, após o seu mau uso, que prejudicou a economia real", retornem a ser um instrumento orientado para o desenvolvimento.
O papa pede uma "urgente" reforma da ONU e da arquitetura económica e financeira internacional.
"Urge a presença de uma verdadeira autoridade política mundial que se atenha de maneira coerente aos princípios de subsídio e de solidariedade", escreve.
Também trata o tema do meio ambiente e afirma que as sociedades tecnologicamente avançadas "podem e devem diminuir" as suas próprias necessidades energéticas e devem avançar na pesquisa sobre energias alternativas.
O novo documento do papa retoma os temas sociais contidos nas encíclicas "Populorum progressio" (1967), escrita por Paulo VI, e "Sollicitudo rei socialis" (1988), sobre a mesma temática, escrita por João Paulo II.
A encíclica - carta solene dirigida pelo papa aos bispos e fiéis católicos do mundo - foi assinada pelo Pontífice em 29 de junho, festividade de São Pedro e São Paulo, está dividida em seis partes e consta de 136 páginas.
O texto começa afirmando que "a caridade na verdade, da qual Jesus se fez testemunha, é a principal força propulsora para o verdadeiro desenvolvimento de cada pessoa e da humanidade inteira".
As seis partes do texto são "A mensagem da Populorum progressio", "Desenvolvimento humano no nosso tempo", "Fraternidade, desenvolvimento económico e sociedade civil", "Desenvolvimento dos povos, direitos, deveres e ambiente", "A colaboração da família humana" e "Desenvolvimento dos povos e da técnica".
O papa Bento XVI já escreveu outras duas encíclicas, "Deus caritas est" (Deus é amor), de 2006, e "Spe salvi" (Salvos pela esperança), de 2007.
In Agência de Notícias EFE
Nota da redacção: Só é pena que o Papa não «obrigue» as Igrejas nacionais e dioceses do mundo inteiro a criarem organismos de ajuda às famílias que estão com a «corda ao pescoço» por causa das dívidas acumuladas. Situação que resultou dos muitos disparates do sistema económico-financeiro do desenvolvimento que a humanidade teima em levar adiante. Era preciso que o Papa «forçasse» a Igreja toda a se empenhar concretamente na criação de mecanismos de ajuda às famílias a braços com os créditos que não podem agora fazer face. Outra medida importante seria a Igreja toda abdicar do absurdo do luxo e dos previlégios que muitos membros da Igreja têm injustificadamente. A meu ver continua a Igreja a pensar muito bem as questões sociais e tudo aquilo que a sociedade passa em cada momento histórico, mas quanto à prática da Igreja, deixa muito a desejar. Porém, bem haja o Papa pela bela reflexão que trouxe a lume.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Comentário à Missa do Próximo Domingo

12 de Julho 2009
Domingo XV Tempo Comum – Ano B
O mistério da sua vontade
Ef 1, 3-10
A forma verbal da palavra “abençoar”, significa, bendizer, louvor, exaltar e este emprego desta palavra é natural pelo que Deus realizou em favor da mulher e do homem através de Cristo. Lembre-se, a humanidade jamais deve ser louvada ou, exaltada. A verdade é esta, os salvos terão parte, desfrutarão da condição de exaltação de Deus por meio de Cristo.
Ser santo é o principal objectivo da eleição de nós por Deus. Somos eleitos de Deus individualmente e colectivamente, como povo ou nação. Porque o nosso Deus é comunitário (Santíssima Trindade: Deus Pai/Mãe; Deus Filho e Deus Espírito Santo), por isso, só pode salvar comunitariamente e desafia-nos constantemente para a comunidade, mas, quanto é difícil viver a comunidade, porque o egoísmo sempre toma conta de todos nós. A comunidade é o desafio maior que Deus nos oferece. O nosso mundo, precisa desta consciência cada vez mais, a crise de que todos falam, mas que só alguns sentem verdadeiramente, é fruto da perda do sentido da comunidade. Pensar nos outros devia ser a regra que comanda a vida da humanidade.
Mas, dada a nossa incapacidade para nos abrirmos ao bem comum, então, Deus no Seu plano, decidiu que nós seríamos seus filhos por intermédio do Seu Filho Jesus Cristo. Por adopção somos filhos de Deus e com direito à sua herança inclusive. Que dom maravilhoso, Deus nos oferece, falta-nos tomar a sério esta nossa condição e fazer da nossa vida um dom para todos.
Nisto consiste «o mistério da Sua vontade»: a doação da Graça de Deus para nós foi feita sem nenhuma ligação com qualquer mérito humano. É a oferta do grande amor que Deus tem por nós. Através do derramamento do Sangue de Jesus, alcançamos a redenção, o perdão dos pecados. A ira de Deus acabou, está sem efeito, porque agora perdoada, a pessoa passa a viver uma nova vida, e este perdão dos pecados é o início para que demais bênçãos venham a fluir na vida do cristão. Assim, «Segundo a riqueza da sua graça, que Ele nos concedeu em abundância», ela foi mais do que suficiente para que recebamos o perdão dos pecados, a redenção e até a glorificação.
Deus revelou em Cristo, o Seu plano para connosco, para que por meio da Sua Vontade sejamos como Cristo e possamos partilhar com Ele todas estas bênçãos.
Por fim, fica-nos mais uma vez a certeza, Cristo é o centro de toda a criação (Cf. Rom. 8, 21; 1Cor 15, 28 e Col 1,16). Cristo é o Alfa e o Ómega (Cf. Pierre Teilhard de Chardin, Teólogo, que com esta visão melhor pensou o destino da pessoa). Em tudo isto está a nossa vida. Por Ele fomos criados, Nele vivemos e para Ele caminhamos.Como vemos, tudo nesta vida ocorre com a vontade permissiva de Deus, quer sejam lutas que temos que enfrentar, sejam lágrimas de dor que temos de aguentar e sejam sorrisos de alegria que muitos momentos da vida nos trazem. Tudo ocorre com a permissão de Deus e isto tudo de acordo com o que ele já havia prefixado, decidido no início de tudo.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

A Eucaristia e o Tiago

O Tiago é uma criança de 10 anos. A maior parte desses anos de vida passou-os numa luta terrível contra uma doença, a Leucemia. Na cidade do Porto, esteve quatro anos internado em tratamentos. A Mãe, uma mulher extraordinária, esteve sempre ao seu lado, sentindo as dores e a solidão do seu filho. Mas, também comungando algumas vezes uma réstia de um sorriso e uma palavra (muito poucas, porque o Tiago, não é uma criança de muitas palavras, todo ele comunica uma mensagem superior, sobre a qual nós sentimos limitação para desvendar tal mensagem). Ao vermos esta criança somos tocados pela sua simpatia, contagia-nos o seu olhar afectuoso e o seu rosto carinhoso eleva-nos. Há nesta criança um mistério muito interessante.
Os seus pais correram vários lugares para colocarem o Tiago na catequese para fazer a Primeira Comunhão, pois, o maior sonho do Tiago era chegar a este momento. Pois, então, chegou o ano passado. Como surgiu tal desejo de encontro com Jesus alimento da Eucaristia?
Quando ele estava internado no Porto, a Mãe pediu aos médicos para que o Tiago viesse à Madeira à Primeira Comunhão da sua priminha, autorização concedida, veio o Tiago assistir a esse momento maior, que as crianças mais anseiam. Na ocasião em que a prima recebia a Comunhão, o Tiago diz à Mãe: - «também quero fazer a Primeira Comunhão». Voltou ao hospital para continuar os tratamentos e lá passou mais dois anos. Durante este tempo o assunto mais falado pelo Tiago, é que ia fazer a Primeira Comunhão. Nunca se cansava de dizê-lo aos médicos e à sua mãe. Muito bem, após esse longo período de internamento, o Tiago foi procurar um lugar onde o recebessem para realizar o seu maior sonho. Ninguém o recebeu, porque estava doente e não se responsabilizavam pelo que viesse a acontecer ao Tiago.
Mas, chegado o caso às nossas mãos, recebemos o Tiago com alegria e contagiou-nos o seu entusiasmo pela Eucaristia e o seu desejo de receber Jesus. Colocámo-lo no grupo das crianças que se preparavam para a Primeira Comunhão, todos o acolheram muito bem e ficaram muito tocados com a sua doença. Embora seja o mais pequenino de todos, é raquítico e tem um atraso muito grande no seu desenvolvimento, não se advinha a idade do Tiago. Podemos dizer que estamos perante um momento redentor e Jesus mais uma fez se serviu de todo o grupo de crianças para se manifestar.
Este ano o Tiago foi novamente ao hospital onde esteve internado durante quatro anos para ser examinado e ver o estado da sua saúde. Conclusão, o Tiago já não tem doença nenhuma, está curado. Mais interessante, que no dia da festa da Primeira Comunhão, o Tiago, foi ao pé da mãe e diz todo seguro de si: - «mãe não estou mais doente, estou curado». No momento, todos ficaram chocados com a certeza do Tiago, todos choraram, perante uma realidade que se desejava muito, mas que seria impossível de acreditar que tivesse acontecido ou que viesse a acontecer. Só o Tiago sabia o que dizia e só ele tinha certezas.
Passado um ano a Medicina confirmou, o Tiago está curado. Agora, é uma criança alegre, muito preocupada com a catequese e com a escola. Os seus pais são outras pessoas, deitaram o sofrimento fora e rejuvenesceram porque a tristeza deu lugar à alegria.
Jesus fez-se doente nesta criança e deixou que ela se transformasse na Sua beleza, na Sua saúde e na Sua salvação. E como é possível existirem pessoas que podem viver sem este alimento do céu, que é a Eucaristia? - O Tiago dá-nos um grande testemunho de fé e de amor a Jesus pequenino com os pequeninos. Obrigado Tiago pelo milagre que tu és para todos nós.

sábado, 4 de julho de 2009

O não crente e o cardeal

por Anselmo Borges
O bem conhecido jornalista, político e escritor italiano Eugenio Scalfari, fundador do influente La Repubblica, foi ao encontro do cardeal Carlo Martini, antigo arcebispo de Milão e uma das figuras católicas mais escutadas dentro e fora da Igreja, para uma entrevista, acabada de publicar no seu jornal.
Scalfari, cujo último livro é L'uomo che non credeva in Dio (O homem que não acreditava em Deus), disse ao cardeal que não crê em Deus e que o diz "com plena tranquilidade de espírito". E o cardeal: "Eu sei, mas não estou preocupado por causa de si. Por vezes, os não crentes estão mais próximos de nós do que muitos devotos fingidos".
Então, o que é que o preocupa verdadeiramente, quais são, na Igreja, os problemas mais importantes? Resposta: "Antes de mais, a atitude da Igreja para com os divorciados, depois, a nomeação ou a eleição dos bispos, o celibato dos padres, o papel do laicado católico, as relações entre a hierarquia eclesiástica e a política. Parecem-lhe problemas de solução fácil?"
A nossa sociedade está cada vez mais invadida pela indiferença e são o individualismo e a procura exacerbada dos próprios interesses que cavam fundo o abismo entre a fé e a caridade. Talvez ainda se vá uma ou outra vez à missa e se ponha os filhos em contacto com os sacramentos. Mas esquece-se o essencial: a caridade. Ora, "sem caridade, a fé é cega. Sem a caridade, não há esperança nem justiça". Entenda-se: a caridade não é esmola, é atenção ao outro, compreensão e reconhecimento do outro, presença ao outro na sua solidão, "comunhão de espíritos, luta contra a injustiça". O verdadeiro pecado do mundo é a injustiça e a desigualdade, que bradam aos céus. Jesus disse que "o reino de Deus será dos pobres, dos débeis, dos excluídos".
Para Martini, a questão fundamental não está na escassa frequência dos sacramentos, da missa, das vocações, que são "aspectos externos". "A substância é a caridade, a visão do bem comum e da felicidade comum", incluindo a das gerações futuras.
Assim, quando Scalfari cita um escrito recente de Vittorio Messori, no qual o influente intelectual católico distingue entre o clero que se ocupa da salvação das almas e a Igreja institucional, o cardeal faz notar que o Vaticano com a sua Secretaria de Estado e os seus Núncios são o resíduo de "uma fase em que ainda existia o poder temporal e o Papa era sobretudo um soberano; mas, graças a Deus, esse poder acabou e não pode ser restaurado". Quanto à estrutura diplomática vaticana, nem sempre existiu e "poderia no futuro ser fortemente reduzida ou mesmo desmantelada. A tarefa da Igreja é testemunhar a palavra de Deus, o Verbo Encarnado, o mundo dos justos que virá. Tudo o resto é secundário".
É neste contexto que é preciso rever o papel dos fiéis na Igreja. "Demasiado frequentemente é um papel passivo. Houve épocas na Igreja nas quais a participação activa das comunidades cristãs era muito mais intensa". Martini tem insistido na desolação do carreirismo na Igreja. Assim, na sequência desta denúncia, há quem se pergunte se os bispos escolhidos são sempre os melhores. Aliás, uma vez que é o Papa que nomeia os bispos e, entre eles, os cardeais, que, por sua vez, escolherão o seu sucessor, há igualmente quem se interrogue, não sem razão, se não se corre o perigo de certa endogamia.
Martini concorda com Scalfari, quando lhe pergunta se o impulso do Vaticano II não está debilitado. O Concílio "queria que a Igreja se confrontasse com a sociedade moderna e a ciência, mas este confronto foi marginal. Estamos ainda longe de ter enfrentado este problema e quase parece que voltámos o olhar mais para trás do que para a frente".
Mostra-se, pois, favorável a outro Concílio, que considera mesmo "necessário", mas para tratar de "temas específicos e concretos". Seria necessário concretizar o que foi sugerido e até decretado pelo Concílio de Constança: "convocar um Concílio cada vinte ou trinta anos, mas só com um tema ou dois no máximo". Os temas do próximo seriam "a relação da Igreja com os divorciados" e a confissão, "sacramento extraordinariamente importante, mas hoje exangue".

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Somos todos Jacksons

02.07.09 - MUNDO
Por Eduardo Hoonaert *
A morte de Michael Jackson deixa na cabeça de muitos um monte de questionamentos. Alguns dizem que ele procurou branquear a pele por não aceitar sua condição de negro; outros dizem que ele era pedófilo; outros ainda criticam sua falta absoluta de senso administrativo ao deixar milhões de dólares em dívidas e ainda há quem pretenda que ele seja a expressão evidente da futilidade midiática.
Não nos enganemos: Michael não é um ingênuo doente e complexado. Ele tem a lucidez de por a nu o mundo como é: cruel, preconceituoso, prepotente, ignorante, mesquinho, sem piedade, sem sensibilidade pelo mais fraco. Numa se suas músicas, intitulada ‘Black and White’ (negro e branco), ele se mostra enjoado com a linha divisória que a sociedade marca entre as cores da pele. Aí ele canta: ‘Se você é meu irmão, não importa que seja negro ou branco’ (It don’t matter if you’re black or white). Mas logo acrescenta: ‘Isso não é fácil’. Querendo ultrapassar, num louco gesto de manipulação dermatológica, a barreira entre Black and White, ele ao mesmo tempo dá um soco na cara da sociedade e prejudica irremediavelmente sua saúde. No final da vida se afunda na tristeza. Sua vida demonstra a distância entre a indignação e a impotência dos gestos, por geniais que sejam. Michael sofreu as dores do mundo e seu sofrimento é nosso sofrimento.
De outro lado, sua passagem entre nós lembra que somos maiores do que somos, que podemos transcender a figura humana da mesquinhez e abraçar o mundo inteiro, partir com Dom Quixote à procura da justiça perdida e da misericórdia que não se encontra em canto nenhum, não fazer o que se espera de nós e fazer o que de nós não se espera. Gozar da vida em liberdade, sem pretender segurar nada. Escapar da confusão entre usar e possuir que faz com que não consigamos o que queremos, combater moinhos de vento não como quem faz algo estúpido, mas como quem demonstra que o mundo é um gira-gira e roda-roda de palavras que não levam a nada. A figura dramática e contraditória de Michael desperta em nós o que temos de melhor: a capacidade de sonhar com um mundo diferente. Só que esse mundo não tem de ser necessariamente um ‘neverland’ (terra do nunca) ou um ‘dreamland’ (terra do sonho: nome da propriedade de Elvis Presley), mas sim um ‘reino de Deus’, na labuta diária, segundo o sonho insuperado de Jesus de Nazaré.
* Historiador
Nota da Redação do blog: Com a devida vénia ao autor deste texto maravilhoso. Que façam bom proveito todos os que tiverem a graça de o lerem. Não está na íntegra, cortei alguns parágrafos e publico os que considero mais significativos. Quem desejar o texto todo pode ir ao seguinte endereço: http://www.adital.com.br/.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Comentário à Missa do Próximo Domingo

05 de Julho 2009
Domingo XIV Tempo Comum – Ano B
Alegro-me nas minhas fraquezas
2 Cor 12, 7-10
O texto de São Paulo deste Domingo apresenta-se como um incentivo, uma esperança ou um consolo importante para enfrentar todas as consequências, quando tomamos a coragem de defender a verdade e até quando ousamos simplesmente opinar sobre alguma coisa que vá contra o pensamento único e dominante deste mundo. Não é nada fácil estar contra a corrente. Não nos deve calar nem sossegar a mentira que se torna verdade e a verdade que se torna mentira, para dominar e fazer prevalecer o poder de alguns.
Mas, São Paulo, adverte que aquilo que recebemos de Jesus Cristo não nos deve ensoberbecer. A simplicidade e a humildade face à missão que Deus nos concede realizar, deve ser exercida como um mandato de Deus. Por isso, perante as injustiças da vida devemos sem medo proclamar o bem para todos. Não devemos estar quietos enquanto a vida se resumir a viver por viver, porque as condições para tal são, o maior dos egoísmos, o individualismo e a soberba de alguns que tudo domina em detrimento do bem comum.
Tomar a sério a opção pela verdade e pela justiça que o Evangelho proclama arrasta muitos dissabores, que podem ser a calúnia, a vingança, a incompreensão, a prisão e até a morte. Mas, nada disso nos deve derrotar. Perante tais fraquezas, são Paulo diz, o seguinte: «Alegro-me nas minhas fraquezas, nas afrontas, nas adversidades, nas perseguições e nas angústias sofridas por amor de Cristo, porque, quando sou fraco, então é que sou forte». Face a esta convicção não deve entrar o medo na nossa vida. Mas, a coragem para proclamar bem alto a maravilha do amor de Deus em favor da humanidade toda.
A coragem deve ser um valor que todos devem assumir, porque o nosso mundo precisa de gente corajosa na luta contra a guerra, isto é, precisa o mundo de um pacifismo militante contra a soberba dos poderosos que tudo querem dominar, esmagando os mais frágeis, os pobres da sociedade, que, afinal, às vezes lhes convém alimentar com migalhas.
O nosso tempo está anestesiado com festas, pão e todo o género de animação para se manter como que inebriado para nada reclamar e nada fazer contra tudo o que tem direito para ser gente a sério.
As fraquezas que a luta desta missão ou desta acção pela justiça, não devem falar mais alto, mas devem ser um incentivo, um impulso, porque deve a utopia do amor ser o alimento da nossa vida. Não devemos permitir que tais fraquezas nos dominem e nos deixem atrofiados. Parece contradição, mas o alimento de Deus, ajuda a tomar coragem e a enfrentar tudo o que seja contrário à beleza da vida. Por isso, cada um e cada qual pode fazer acção na sua família, no seu trabalho e em qualquer lugar do mundo, onde esteja presente, sem sombra de medo de represálias ou de vir a ficar mal. Vamos dizer alto e bom som que a força de Deus está aí, fazendo das fraquezas um alimento essencial para a luta da vida. Só deste modo seremos felizes. A felicidade é o maior bem que Deus dá para todos.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

O Dia da Mamadeira

Hoje, dia 1 de Julho, é o dia da Região Autónoma da Madeira. Muitos têm razões para celebrar, de modo especial, os que tiveram engenho e arte de fazer da Madeira uma Mamadeira. Por isso, viva a Mamadeira do cimento armado, a do betão. A Mamadeira da construção desenfreada, ao abrigo das alterações dos planos directores (coisa que não se sabe o que é…) ao gosto de cada grupo económico. A Mamadeira para quem constrói a seu bel-prazer na orla costeira e em zonas protegidas ambientalmente. A Mamadeira para quem teve engenho e arte para sacar subsídios ao Governo Regional a torto e a direito, para fazer tudo e nada. A Mamadeira para os balúrdios que se gastou e gasta com o Jornal da Madeira, onde meia dúzia de senhores, receberam salários bem chorudos. A Mamadeira para o desporto profissional, para a compra de brasileiros, ao abrigo da imagem da Mamadeira lá fora. A Mamadeira para patrocinar programas televisivos e novelas de gosto duvidoso em nome do nosso turismo. A Mamadeira onde até a religião esqueceu a regra do Evangelho, «a César o que é de César, a Deus o que é de Deus», por isso, faltou-lhe visão profética e sentido de missão em favor de todo o povo. É com muita pena que se veja alguns dignitários da Igreja ao lado das figuras do poder político, quais acólitos submissos à autoridade, como se precisassem de tal atitude para sobreviver. A Mamadeira para quem se alimenta de pão e circo nesta terra onde o povo merecia melhor educação, melhor saúde e mais cultura. E como restava o vinho seco, a Mamadeira, até isso quer tirar ao povo, aos pobres. A maior parte das nossas tradições, a Mamadeira foi tirando, restava esta, a do vinho seco que alegrava o nosso povo, o fazia tão genuíno e o tornava tão fiel à máxima latina: «in vino veritas». Mas, a Mamadeira queria (não sei se conseguiu fazer uma ressalva para a lei do tabaco), mas para o vinho seco não interessa, porque é coisa de pobres (de povo), que não pode comprar whiskys de rótulos pretos e vinhos engarrafados lá fora pelas grandes companhias de vinhos. Mais uma para engrossar a lista longa que embeleza o jardim das delícias que é a nossa - nossa, vamos indo, quer dizer, de alguns - Mamadeira. E assim se dança o bailhinho da Mamadeira.