Convite a quem nos visita

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Férias

Poema escrito especialmente para vós, os meus leitores:

Sobre aquele mar imenso

que as ondas abraçam

no mergulho do tempo

bate sobre as pedras da

alma um descanso profundo e incontido.

Umas águas límpidas fazem serenar um impulso

daquela ausência enorme

da brisa sobre o rosto

sublime do horizonte

da alma submersa

na manhã do sorriso terno.

O marulhar da água viva

cantou a canção maior

deste momento eterno.

Mas sabe sempre ver

o que as férias podem

fazer verter

no suspiro da tua face

quando nesse tempo

posso contar o calor

da descontracção absoluta.

Nota do autor do blog: Obrigado por serem meus leitores e pelas visitas que fazem a este espaço de partilha. Sintam-se sempre em casa. Fiquem bem, que eu também vou procurar o melhor para saborear o mais possível as minhas férias. Estarei fora desta casa até ao dia 16 de Setembro.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

O moralismo

É intolerável o falso moralismo ou o moralismo para ficar bem na imagem de circunstância, isto é, um moralismo de encomenda, que não passa de falsidade hipócrita. De que vale indignar-se com determinadas palavras, histórias e anedotas, se depois são muito procurados, desalmadamente, programas de televisão, filmes pornográficos e novelas intriguistas de fraca inteligência, onde se fala da forma mais abjecta possível, onde os personagens se desnudam frequentemente e onde fazem sexo pior que os animais?
Não suporto as palavrinhas mansas de gente sem princípios que bajula só para ficar bem. Nem tolero a preguiça de pensamento que produz gente desmoralizada que não é capaz de ter opinião própria e pensamento próprio. A lógica, que não é lógica nenhuma, mas pura tontice, que gera funcionários - existe por todo o lado - que não pensam por si mesmo, é uma nova forma de escravidão que muitos chefes alimentam para terem à sua volta um bando de energúmenos desmiolados sem tino para fazer nada de jeito. Basta isto para se iludir que se tem poder e que tudo funciona.
Todos estes mecanismos, a nós provocam desprezo e o mais profundo esquecimento para que esta forma de vida não perturbe o verdadeiro sentido que queremos perseguir.E termino com uma citação provocante, para que se admirem que os meus dias estão cheios de esperança. Tiro esta citação do magnífico texto de Alexandra Lucas Coelho, do Público de 2 de Julho de 01. Diz a jornalista que no impacto da sua descoberta da obra de Sade, em 1947, Octavio Paz escreveu um poema que termina assim: «Ousa fazê-lo: / sê o arco e a flecha, a corda e o «sim»! / Sonhar é explosivo. Explode. Sê novamente um sol./ No teu castelo de diamantes, a tua imagem / autodestrói-se, auto-refaz-se, e nunca se cansa».

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Entrevista ao padre José Luís Rodrigues

Nota: Entrevista concedida ao Diário de Notícias do Funchal, publicada a 16 de Agosto de 2009

Como é consegue entusiasmar os paroquianos para a festa de São Roque quando os arraiais já não são o único acontecimento social?
É difícil, mas vamos fazendo. Hoje temos as novelas que são concorrentes, as festas com dj's, temos as festas dos partidos. Os partidos também são concorrentes? Já se evita fazer arraiais nas paróquias no mesmo dia da festa do PSD. Nesse dia, as pessoas estão todas no Chão da Lagoa. Tem sido mais difícil juntar dinheiro para fazer a festa por causa da crise? Estamos como nos outros anos. Pelo menos é o que me parece. Este ano fizemos uma mudança na organização das novenas. Dividimos o bolo pelos nove dias e vai haver fogo e animação até ao próximo fim-de-semana. Sente mais a crise no dia-a-dia? Tenho sentido nos ofertórios. Houve uma quebra, embora não tenha razões de queixa porque vem muita gente à missa e ainda mais quando há catequese. E as pessoas vão ter consigo a pedir ajuda? Lá isso vem, muita gente. Porque estão desempregados, porque aconteceu alguma coisa na vida, um divórcio. O padre ainda é um recurso dos paroquianos? Aparecem para pedir dinheiro porque têm fome e os filhos estão em casa que não têm de comer. Esses casos mais dramáticos são situações esporádicas. Não se pode generalizar, não se pode dizer que está a acontecer todas as semanas. Estou a lembrar-me de um caso recente de alguém que perdeu o emprego e o crédito amarrou-lhe o pescoço, mas a paróquia não nada em dinheiro. A crise chega a todos. A Diocese devia preocupar-se mais com os problemas sociais? Neste aspecto da ajuda social, tudo o que existe é pouco. Há Caritas, não sei bem como funciona, mas trabalha, pelo menos aparece na comunicação social as actividades que desenvolve. Quem faz um trabalho extraordinário são as Conferências de São Vicente Paulo que existem nas paróquias. Temos uma em São Roque e outra em São José. Que actividades desenvolvem? Fazem visitas aos doentes e a de São José vai visitar aos presos e as famílias. Temos uma recolha mensal de géneros alimentares, distribuímos pelas famílias que julgamos que têm mais dificuldades, mas até ajudar é complicado. Há vergonha e há a censura social. Se alguém tem necessidade, mas é apanhado a tomar café ou a fumar são razões suficientes para não ajudar. É então um terreno delicado? A parte social é muito delicada. Podemos ser censurados por não ajudar e também podemos ser censurados por ajudar. São capazes de dizer que o padre não faz nada, mas se faz é apontado. "Está a ajudar aquela família? Ele passa a vida na bebedeira e ela está sempre nos cafés, não querem é trabalhar". As grandes críticas aos padres são nesta base. Ser padre não é fácil? Hoje em dia não é fácil viver. Não é fácil ser homem, ser mulher, ser padre, ser casado ou ser solteiro. Estar na vida e na posição que se escolhe para a vida é um desafio, temos que seguir por diante. É fácil desde que não se dê importância, até aos elogios que nos podem deslumbrar. Essa é a sua receita para atravessar as polémicas em que de vez em quando está envolvido? De vez em quando estou no meio de uma fogueira. Às vezes sofro um pouco, mas procuro manter a minha posição porque não gosto de ceder. Se reconheço que não tenho razão cedo e acabo a discussão, mas quando vejo que estou no caminho certo sou capaz de morrer por isso. Gosto de exprimir a minha opinião, mas passo adiante depressa e sinto muitas vezes que há provocações. Gostam de vê-lo reagir... Não respondo a 60% das provocações que me fazem e são de todo o género. Tem consciência que vai para a 'fogueira' quando faz certas declarações? Nada do que digo é inconsciente. Se sou provocado, também é verdade que gosto de provocar o debate. Podem até pensar que digo o que digo por ser um arrogante. É o contrário, posso aparentar uma certa agressividade, mas facilmente me deixo levar por uma opinião que seja melhor do que a minha. Alguma vez o seus superiores na Diocese o chamaram a atenção? Um 'puxão de orelhas' propriamente dito não, mas uma vez ou outra fui chamado ao Paço nos tempo do D. Teodoro. Com o D. António Carrilho não. As suas relações com o bispo são boas? Penso que são normais. E com as outras figuras da hierarquia? Com os meus colegas? Nunca tive problemas. Nem com aqueles a quem chamou 'sacas de carvão' pode andarem vestidos de preto? Nunca me disseram nada. Alguma vez teve problemas com o poder político por causa das suas intervenções? A única vez que aconteceu foi quando escrevia para o 'Jornal da Madeira'. Censuraram-me um texto em que falava sobre a Diocese, pedi a demissão e vim embora. Sou muito crítico com esta relação que existe entre o poder político e a igreja, das inaugurações e da construção das igrejas. Nunca me disseram nada, se falam é por trás. Quando me convidam para convívios do PSD eu vou, mas se os outros partidos me convidarem também vou. Como homem da Igreja interventivo, os partidos da oposição já o convidaram para listas? Tenho amigos e pessoas conhecidas em todos os partidos, mas não aceitava participar na lista de um partido. O que digo é que se não fosse padre teria sido político. Porquê? Leio e interesso-me, gosto de figuras políticas, dos grandes estadistas como foram os pais da Europa e Winston Churchil. Também admiro figuras carismáticas como o Obama. O meu lado interventivo tem a ver isto, mas também é verdade que nada há mais público e político do que ser padre. Nunca se arrependeu de ser sacerdote? Não sei como será o futuro, mas até agora não. Gosto de ser padre, ainda que seja difícil. Hoje é necessário fazer um jogo de equilíbrio. O padre deve, nesse sentido, ser um político. Não se está a fazer convidado? O modelo de padre e político fez escola na Madeira. Como padre nunca. Nisso concordo com os que dizem que ou uma coisa ou outra. Se acham que um padre não pode viver com uma mulher, então também não pode ser padre e viver na política. É a mesma história: a Igreja ou a política. O sacerdócio é uma espécie de casamento? É uma forma de vida. Que não deixa disponibilidade para ter uma família? Essa história da disponibilidade é treta. Esses argumentos da disponibilidade, do desprendimento são pura falácia. Tudo isso é conversa. Para se dizer que os padres não podem casar tinha que haver uma razão evangélica, tinha que ser da boca de Jesus. E não há nada, apenas a tradição. Isso quer dizer que queria casar e continuar padre? Não. Quando se fazem opções devemos assumir tudo o que significa a escolha. No caso, ser padre obriga, neste momento, ao celibato. Esta questão do casamento dos padres não se justifica nos dias hoje. Encontramos rapazes novos que fazem sempre uma ressalva. Se pudessem casar, até gostavam de ser padres. O envolvimento amoroso faz parte da natureza humana, mas Igreja mantém a teimosia. Como vai contrariar a natureza das pessoas? Isso leva-nos ao papel das mulheres na Igreja que, por enquanto, continuam afastadas do sacerdócio. A tradição criou esta proibição às mulheres numa época machista. O meu argumento é este: uma parte da Humanidade recebe os sacramentos em plenitude; a outra parte da Humanidade recebe só seis. Caminhamos para uma igualdade de género na sociedade, nas empresas e na política e, uma vez mais a Igreja, está alheada do processo. Quem é que fica para a Igreja? Diz-se que as pessoas entre os 25 e os 45 vão pouco à missa? Nas missas, há jovens - não muitos - e depois pessoas acima dos 50 anos. Outro dia perguntava a um colega pelos casais, pelas pessoas de 40 anos. São aqueles que têm filhos pequenos, na escola e esses não aparecem. Limitam-se a casar pela Igreja? Os casamentos na Igreja estão na rua da amargura. Estas pessoas baptizam os filhos, é o que a Igreja ainda não perdeu. E porquê? Os casais integram-se nos ritos de iniciação dos sítios onde vivem e nós temos estes, que são religiosos. Então baptizam, fazem a primeira comunhão e, na Madeira, alguns crismam-se para depois poder ser padrinho ou para casar. O sacramento da penitência a Igreja já perdeu. Eu faço celebrações penitenciais e a igreja fica a cunha. Se organizo confissões, não aparece ninguém. Há uma autonomia das pessoas que a Igreja não quer reconhecer. A Igreja não pode combater isso, tem que saber lidar com isso. Tem esperança no Papa Bento XVI? É um bom teólogo. Não tem a simpatia de João Paulo II, mas é um pensador, chega às elites da Igreja e de fora da Igreja pelo pensamento. Não será, no entanto, o Papa para grandes viragens. Ainda para mais estamos a viver uma conjuntura de um certo conservadorismo, um regredir que se nota nos padres novos, esses são profundamente conservadores.

PARÓQUIA ENFEITADA: FESTAS DE SÃO ROQUE NO PRÓXIMO DOMINGO
Agosto é o mês das festas e arraiais dos padroeiros da maioria das paróquias da Madeira. A Região ainda conserva a tradição de duas festas: a do padroeiro e a do Santíssimo Sacramento. E, mesmo no Funchal, os preceitos continuam. Em São Roque, o padre, os mordomos e outros paroquianos preparam-se para celebrar o santo que dá nome à freguesia, o patrono dos doentes. As novenas já começaram e, mesmo com a crise, vai haver festa até ao próximo domingo, dia em que haverá missa e procissão. José Luís Rodrigues, o pároco que acumula as funções com São José, diz que o momento é importante, entusiasma as pessoas, faz com que se sintam importante para os outros. "É um momento de grande participação, importante para a vida da comunidade". O dinheiro não é muito, mas não será em muito menor número que nos outros anos. Vai dar para o fogo, para animação, para o arraial.Quanto aos conflitos que, em tempos, agitaram a paróquia estão mais calmos. E o padre explica que "uma paróquia é como uma empresa, as pessoas são de carne e osso e há aquilo a que se chama interesses instalados". Há pessoas que aceitam bem que se mexa nesses interesses, mas há quem bata o pé. "Isso causa um certo sofrimento, mas vamos gerindo conforme se pode. Se vão uns aparecem outros".
Marta Caires

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Comentário à Missa do Próximo Domingo

16 de Agosto 2009
Domingo XX Tempo Comum – Ano B
Vivei como pessoas inteligentes
Ef 5, 15-20
Pequena nota: Como comentário da liturgia do próximo domingo fomos procurar algo que se conjugasse com o apelo de São Paulo, encontramos estas frases do Dr. Augusto Cury, que nos ajudam a meditar e depois a viver como pessoas inteligentes e com toda a assunção daquilo que Deus nos concedeu para vivermos com autonomia e segundo a Sua vontade. Diz assim o autor:
- "Quando somos abandonados pelo mundo, a solidão é superável; quando somos abandonados por nós mesmos, a solidão é quase incurável".
- "Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos. É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um «não». É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta".
- "A maioria dos jovens da actualidade não tem sonho, nem maus nem bons. Eles não têm uma causa para lutar".
- "Dos miseráveis aos abastados, dos incultos aos intelectuais, todos querem ser felizes".
- "Os maiores enigmas do universo escondem-se dentro de cada ser humano".
- "As maiores decepções são geradas pelas pessoas que mais amamos".
- "Se compararmos a personalidade humana com uma grande casa, a maioria das pessoas não conhece nem mesmo a sala de visitas do seu próprio ser".
- "Uma pessoa inteligente aprende com os seus erros, uma pessoa sábia aprende com os erros dos outros".
- "Todos querem o perfume das flores, mas poucos sujam as suas mãos para cultivá-las". (12 semanas para mudar uma vida).
- "Todos fecham os seus olhos quando morrem, mas nem todos enxergam quando estão vivos".
- "Os inimigos que não perdoamos dormirão em nossa cama e perturbarão o nosso sono".
- "Todos têm uma criança alegre dentro de si, mas poucos a deixam viver".
- "O maior carrasco do homem é ele mesmo, e o mais injusto dos homens é aquele que não reconhece isso".
- "Precisas de conquistar aquilo que o dinheiro não compra. Caso contrário, serás um miserável, ainda que sejas um milionário".
- "A fama produz os aplausos, mas não a alegria. Produz o assédio, mas não elimina a solidão".
- "Nunca sejas um escravo dos padrões que plantaram ti".
- "Quando uma pessoa pensa em suicídio, ela quer matar a dor, mas nunca a vida".
- "Se você desprezar o seu sono, estará destruindo o reactor da vida".
- "Lute pelo sucesso e não pela fama. Se a fama vier, dê-lhe pouca importância".
- "Ser feliz não é um acaso do destino, mas uma conquista existencial".
- "É nas coisas mais simples e anónimas que se encontram os maiores tesouros da emoção".
- "Quem é exigente com a qualidade dos produtos, mas não com a sua qualidade de vida, trai a sua própria felicidade".
- "Os nossos maiores problemas não estão nos obstáculos do caminho, mas na escolha da direcção errada".
- "A vida é uma grande universidade, mas pouco ensina a quem não sabe ser aluno".
- "Inteligência espiritual é ter consciência de que a vida é uma grande pergunta em busca de uma grande resposta".
- "Ser empreendedor é executar os projectos, mesmo que haja riscos."
- "A maior represália contra um inimigo é perdoá-lo. Se o perdoamos, ele morre como inimigo e renasce a nossa paz. O perdão nutre a tolerância e a sabedoria."
- "O templo do silêncio é o ambiente mais eloquente para expressar a força de um sentimento". - "Um homem sem história é um livro sem letras."
Por fim, que Deus nos ajude a compreender a sabedoria destas mensagens e que a Sua Palavra nos faça sábios do amor que daí transparece, para sermos verdadeiramente felizes e nunca nos falte o sentido da vida.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Precisa-se de matéria prima para construir um País

Eduardo Prado Coelho, antes de falecer (25/08/2007),
teve a lucidez de nos deixar esta reflexão, sobre nós todos,
por isso façam uma leitura atenta.
Eduardo Prado Coelho - in Público
A crença geral anterior era de que Santana Lopes não servia, bem como Cavaco, Durão e Guterres.
Agora dizemos que Sócrates não serve.
E o que vier depois de Sócrates também não servirá para nada.Por isso começo a suspeitar que o problema não está no trapalhão que foi Santana Lopes ou na farsa que é o Sócrates.
O problema está em nós. Nós como povo.Nós como matéria prima de um país.
Porque pertenço a um país onde a ESPERTEZA é a moeda sempre valorizada, tanto ou mais do que o euro.
Um país onde ficar rico da noite para o dia é uma virtude mais apreciada do que formar uma família baseada em valores e respeito aos demais.
Pertenço a um país onde, lamentavelmente, os jornais jamais poderão ser vendidos como em outros países, isto é, pondo umas caixas nos passeios onde se paga por um só jornal E SE TIRA UM SÓ JORNAL,DEIXANDO-SE OS DEMAIS ONDE ESTÃO.
Pertenço ao país onde as EMPRESAS PRIVADAS são fornecedoras particulares dos seus empregados pouco honestos, que levam para casa,como se fosse correcto, folhas de papel, lápis, canetas, clips e tudo o que possa ser útil para os trabalhos de escola dos filhos... e para eles mesmos.
Pertenço a um país onde as pessoas se sentem espertas porqueconseguiram comprar um descodificador falso da TV Cabo, onde se frauda a declaração de IRS para não pagar ou pagar menos impostos.
Pertenço a um país:
-Onde a falta de pontualidade é um hábito;
-Onde os directores das empresas não valorizam o capital humano.
-Onde há pouco interesse pela ecologia, onde as pessoas atiram lixo nas ruas e, depois, reclamam do governo por não limpar os esgotos.
-Onde pessoas se queixam que a luz e a água são serviços caros.
-Onde não existe a cultura pela leitura (onde os nossos jovens dizem que é 'muito chato ter que ler') e não há consciência nem memóriapolítica, histórica nem económica.
-Onde os nossos políticos trabalham dois dias por semana para aprovar projectos e leis que só servem para caçar os pobres, arreliar a classe média e beneficiar alguns.
Pertenço a um país onde as cartas de condução e as declarações médicaspodem ser 'compradas', sem se fazer qualquer exame.
-Um país onde uma pessoa de idade avançada, ou uma mulher com uma criança nos braços, ou um inválido, fica em pé no autocarro, enquanto a pessoa que está sentada finge que dorme para não lhe dar o lugar.
-Um país no qual a prioridade de passagem é para o carro e não para o peão.
-Um país onde fazemos muitas coisas erradas, mas estamos sempre a criticar os nossos governantes.Quanto mais analiso os defeitos de Santana Lopes e de Sócrates, melhor me sinto como pessoa, apesar de que ainda ontem corrompi um guarda de trânsito para não ser multado.
Quanto mais digo o quanto o Cavaco é culpado, melhor sou eu como português, apesar de que ainda hoje pela manhã explorei um cliente que confiava em mim, o que me ajudou a pagar algumas dívidas.
Não. Não. Não. Já basta.
Como 'matéria prima' de um país, temos muitas coisas boas, mas falta muito para sermos os homens e as mulheres que o nosso país precisa.
Esses defeitos, essa 'CHICO-ESPERTERTICE PORTUGUESA' congénita, essa desonestidade em pequena escala, que depois cresce e evolui até se converter em casos escandalosos na política, essa falta de qualidade humana, mais do que Santana, Guterres, Cavaco ou Sócrates, é que é real e honestamente má, porque todos eles são portugueses como nós, ELEITOS POR NÓS. Nascidos aqui, não noutra parte...
Fico triste.
Porque, ainda que Sócrates se fosse embora hoje, o próximo que o suceder terá que continuar a trabalhar com a mesma matéria prima defeituosa que, como povo, somos nós mesmos.E não poderá fazer nada...
Não tenho nenhuma garantia de que alguém possa fazer melhor, mas enquanto alguém não sinalizar um caminho destinado a erradicar primeiro os vícios que temos como povo, ninguém servirá.
Nem serviu Santana, nem serviu Guterres, não serviu Cavaco, nem serve Sócrates e nem servirá o que vier.Qual é a alternativa?
Precisamos de mais um ditador, para que nos faça cumprir a lei com a força e por meio do terror?
Aqui faz falta outra coisa. E enquanto essa 'outra coisa' não comece a surgir de baixo para cima, ou de cima para baixo, ou do centro para os lados, ou como queiram, seguiremos igualmente condenados, igualmente estancados... igualmente abusados !É muito bom ser português. Mas quando essa portugalidade autóctone começa a ser um empecilho às nossas possibilidades de desenvolvimentocomo Nação, então tudo muda...
Não esperemos acender uma vela a todos os santos, a ver se nos mandam um messias.Nós temos que mudar. Um novo governante com os mesmos portugueses nada poderá fazer.Está muito claro... Somos nós que temos que mudar.
Sim, creio que isto encaixa muito bem em tudo o que anda a acontecer-nos:
Desculpamos a mediocridade de programas de televisão nefastos e,francamente, somos tolerantes com o fracasso.
É a indústria da desculpa e da estupidez.Agora, depois desta mensagem, francamente, decidi procurar o responsável, não para o castigar, mas para lhe exigir (sim, exigir)que melhore o seu comportamento e que não se faça de mouco, de desentendido.Sim, decidi procurar o responsável e ESTOU SEGURO DE QUE O ENCONTRAREI QUANDO ME OLHAR NO ESPELHO.AÍ ESTÁ. NÃO PRECISO PROCURÁ-LO NOUTRO LADO. E você, o que pensa ?... MEDITE !

Recortes de uma manhã

Cada luz em ti desperta
para o sentir da onda divina
que bate bate bate naquela rocha
do tempo quando o sorriso foi dia.
Por esse marulhar das horas infinitas
a manhã surgiu com o seu afago
sereno até um além
quando se pensava que o dia da morte
podia sentir e ver solenemente um brilho de esperança que veio
veio do céu em cada passo
em volta do roseiral
perdido nos escombros
daquele momento escuro
quendo se fez perto o calor
da tua mão.
Pois então, vem vem para o canto
daqueles pássaros livres
porque deles sei tudo
não fora estar aí nos braços
da serenidade que este mar nos dá.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Comentário à Missa do próximo Domingo

09 de Agosto 2009
Domingo XIX Tempo Comum – Ano B
Eliminar tudo o que não presta
Ef 4, 30-5, 2
O acontecer de Deus dá-se na história de cada um, não apenas num determinado momento mas na vida toda e em toda a vida. Se assim não fosse como teria razão São Paulo quando nos ensina que mesmo até antes da nossa concepção materna, Deus já pensava em nós?
O encontro com Deus tem a ver com todos os nossos projectos e com todos os nossos planos assumidos na história concreta da existência. Por isso, descobre-se a presença da vinda do Filho de Deus em todos os momentos em que somos capazes de viver a verdade cima de tudo e do domínio da roupagem dos contravalores que a carta aos Efésios nos aponta: «Azedume, irritação, cólera, insulto, maledicência e toda a espécie de maldade». Na nossa casa Deus acontece, em todas as ocasiões em que correspondemos com o amor para não criar conflitos com os pais, os irmãos e contribuímos assim para a paz familiar tão necessária para a felicidade de todos. No trabalho, Deus está presente todas as vezes que soubemos assumir a responsabilidade no sentido em que aquilo que fazemos é um serviço elementar para a construção da sociedade. Em todas os momentos em que não nos inibimos de lutar contra a maldade, a inveja e a mentira, o Filho de Deus nem precisa de bater à porta porque já se faz realidade plena através das nossas acções... Como vemos o acontecer de Deus é sempre muito mais simples do que aquilo que nós somos capazes de imaginar.
Afinal, descobre-se que são tantos os momentos em que Deus vem para a nossa vida. Em cada gesto amigo e fraterno, está o reflexo do amor de Deus. Em cada sinal de partilha, Deus manifesta a Sua presença solidária. O acontecer de Deus está em todos os sinais onde o amor escorre.
O cristão não deve temer nada e deve enfrentar toda a vida com a maior das liberdades. Porque viver toda uma vida cheia de medo e com desconfiança parece impossível, mas muitas vezes encontramos pessoas profundamente inquietas com o coração oprimido pelo medo e pelo desespero em relação ao futuro. A roupagem dos valores que São Paulo nos apresenta, liberta-nos e faz de nós homens e mulheres livres, prontos para a acção no mundo, porque acreditamos no Deus de Jesus Cristo, um Deus que é a total liberdade e não se deixa aprisionar por nada deste mundo. A Sua acção está sempre envolta em mistério e bate no coração de todos sem antecipação de espera e sem aviso prévio. A Sua liberdade é total e está dentro daquilo que dizemos sobre o Espírito Santo, que age onde quer, quando quer e em quem quer. Por isso, não façamos cerimónia e deixemos que a porta do nosso coração esteja sempre aberta para a chegada da visita tão ilustre, que é Deus e a Sua mensagem salvadora. A alma vigilante, é aquela que está sempre preparada, para a surpresa da chegada do amor de Deus. Assim, a vida torna-se saborosa para todos os que semeiam no terreno dos dias os valores que Paulo nos aponta. Como diz São Paulo, «sejamos imitadores de Deus» e isso nos basta para sermos felizes.

Porque

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
Sophia de Mello Andresen, in “No Tempo Dividido e Mar Novo”, Edições Salamandra, 1985, p. 79

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

CARTA CIRCULAR DE DOM PEDRO CASALDÁLIGA

Terça-feira, 2 de Junho de 2009
Como Igreja queremos viver, à luz do Evangelho, a paixão obsessiva de Jesus, o Reino. Queremos ser Igreja da opção pelos pobres, comunidade ecumênica e macroecumênica também. O Deus em que acreditamos, o Abbá de Jesus, não pode ser de jeito nenhum causa de fundamentalismos, de exclusões, de inclusões absorventes, de orgulho proselitista. Chega de fazermos do nosso Deus o único Deus verdadeiro. “Meu Deus, me deixa ver a Deus?”. Com todo respeito pela opinião do Papa Bento XVI, o diálogo inter-religioso não somente é possível, é necessário. Faremos da corresponsabilidade eclesial a expressão legítima de uma fé adulta. Exigiremos, corrigindo séculos de discriminação, a plena igualdade da mulher na vida e nos ministérios da Igreja. Estimularemos a liberdade e o serviço reconhecido de nossos teólogos e teólogas. A Igreja será uma rede de comunidades orantes, servidoras, proféticas, testemunhas da Boa Nova: uma Boa Nova de vida, de liberdade, de comunhão feliz.
Uma Boa Nova de misericórdia, de acolhida, de perdão, de ternura, samaritana à beira de todos os caminhos da Humanidade. Seguiremos fazendo que se viva na prática eclesial a advertência de Jesus: “Não será assim entre vocês” (Mt 21, 26). Seja a autoridade serviço. O Vaticano deixará de ser Estado e o Papa não será mais chefe de Estado. A Cúria terá de ser profundamente reformada e as Igrejas locais cultivarão a inculturação do Evangelho e a ministerialidade compartilhada. A Igreja se comprometerá, sem medo, sem evasões, com as grandes causas de justiça e da paz, dos direitos humanos e da igualdade reconhecida de todos os povos. Será profecia de anuncio, de denúncia, de consolação. A política vivida por todos os cristãos e cristãs será aquela “expressão mais alta do amor fraterno” (Pio XI ).
Nós nos negamos a renunciar a estes sonhos quando possam parecer quimera. “Ainda cantamos, ainda sonhamos”. Nós nos atemos à palavra de Jesus: “Fogo vim trazer à Terra; e que mais posso querer senão que arda” (Lc 12, 49). Com humildade e coragem, no seguimento de Jesus, tentaremos viver estes sonhos no dia a dia de nossas vidas. Seguirá havendo crises e a Humanidade, com suas religiões e suas Igrejas, seguirá sendo santa e pecadora. Mas não faltarão as campanhas universais de solidariedade, os Foros Sociais, as Vias Campesinas, os movimentos populares, as conquistas dos Sem Terra, os pactos ecológicos, os caminhos alternativos da Nossa América, as Comunidades Eclesiais de Base, os processos de reconciliação entre o Shalom e o Salam, as vitórias indígenas e afro y, em todo o caso, mais uma vez e sempre, “eu me atenho ao dito: a Esperança”.
Cada um e cada uma a quem possa chegar esta circular fraterna, em comunhão de fé religiosa ou de paixão humana, receba um abraço do tamanho destes sonhos. Os velhos ainda temos visões, diz a Bíblia (Jl 3,1). Li nestes dias esta definição: “A velhice é uma espécie de postguerra”; não precisamente de claudicação. O Parkinson é apenas um percalço do caminho e seguimos Reino adentro.
DOM PEDRO CASALDÁLIGABISPO EMÉRITO DA PRELAZIA DE SÃO FÉLIX DO ARAGUAIACIRCULAR 2009

Jesus Cristo hoje. Como?

Jesus Cristo continua a ser uma proposta para a vida toda e a vida de todos os homens. A descoberta de Jesus Cristo salvador de toda a humanidade é algo de elementar na acção da Igreja de hoje. A Igreja, Nele e por Ele descobre-se a si mesma como caminho possível de redenção e de sentido para os passos do homem. No entanto, salvaguarde-se que a pessoa de Cristo é sempre muito mais do que aquilo que somos capazes de viver e de propor.
Jesus Cristo, é a chave que abre os corações, sem jamais os trancar, para luz da paz, da fraternidade e do amor.
Este que nos falou e que continua a falar a cada um de nós hoje, oferece a ressurreição, a plenitude da vida (resposta à tão procurada eternidade pelo homem) como dom ou graça. Esta gratuidade é a tomada de consciência do meu “eu”, condição do despertar para a realidade do Reino de Cristo - o lugar da experiência do encontro, a condição essencial do ser cristão hoje e sempre (cf. Jo 1, 1-4).
A ressurreição tem esse preço: despertar para a realidade do Reino. Um reino onde se entra não pela guerra, pela invasão ou pela conquista, mas pela dose de entrega ao serviço do outro, o que implica um eficaz desprendimento dos bens, que no fundo manifesta uma radical preocupação mais em dar do em receber. Onde está esse Reino?
O Reino está onde o homem realiza a disponibilidade para o amor, porque Deus é amor. Se teimas em dizer “que não chegou” é porque continua de pé o desafio: é preciso realizar em nós todos essa relação de amor com o mundo. É pois, nesta tensão entre o “já realizado” do despertar pessoal para o desejo do reino, e o “ainda não” do despertar de todos para esse mesmo fim, que formam o drama inquietante da errância. Não parar nunca é a única razão constitutiva dessa tensão que nos torna, por conseguinte, responsáveis pelo despertar de todos.
Chegamos à única regra de Jesus, a do amor. Cristo, esse Deus sem raios e sem coroa (a não ser a de espinhos), não é um rei legislador. Não impôs mandamentos ou leis, evocou as “Bem-aventuranças”. A única lei possível, é a lei do amor, vivida sempre em todas as circunstâncias da existência humana.
As estradas do mundo ficam em melhores condições para serem encetadas pelos homens, quando iluminadas pelo ícone Jesus Cristo. Assim sendo, no rosto de Jesus percebemos como a misericórdia de Deus se radicaliza cada vez mais. Daí, comungamos a vontade de dar mais nas vias do diálogo que une para lá das diferenças de língua e de raça, na partilha dos ideais e dos dons, dos problemas e das esperanças… Com tudo isto, se fará uma experiência viva da realidade prometida por Cristo: “Onde dois ou três estiverem reunidos em Meu nome, Eu estou no meio deles” (Mt 18, 20).