Convite a quem nos visita

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

O BUSTO

A face imóvel
Chora no jardim
Desse mundo distante
Lágrimas salgadas
Do amor imenso.
Porque o sonho
Acabou aqui.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

OS SILÊNCIOS

O título desta reflexão, silêncios, pretende mostrar que a vida passa bem sem a solidão, mas sem momentos de silêncio ninguém por mais realizado que se sinta não pode passar. O silêncio que se procura para fugir à azáfama do quotidiano deve ser sempre qualquer coisa de essencial para o equilíbrio psicológico da vida humana. O dia a dia está cheio de muitas contrariedades que nos maçam a vida e não servem para a descoberta do sentido da nossa origem, para que estamos aqui e para onde vamos.
Uma pessoa que perante os dissabores que a vida amorosa muitas vezes proporciona, pode cair no desespero e facilmente perde a noção da existência como valor, porque se vê sem forças para lutar e na mais pura inutilidade. O vazio interior é o pior inimigo de qualquer ser humano.
Por isso, os silêncios são a melhor força interior para vencer os obstáculos que se colocam diante de uma história pessoal. Como se encontra esse silêncio? Numa busca constante pelos lugares e pelas mediações que façam ecoar essa condição da alma. Com toda a certeza que não será no rebuliço de uma cidade movimentada com carros e muitas pessoas. Também não será na confusão diária das tarefas e das relações conturbadas com os colegas de trabalho. E não será na ocupação total do tempo com muitas actividades. Nem muito menos perante o vazio das propostas que alguns meios de comunicação social nos apresentam.
Só o recolhimento pode proporcionar a descoberta do silêncio, que se pode encontrar em qualquer lugar que cada um considere apropriado para fazer o desvelamento dessa realidade como possibilidade de encontro interior com o valor da vida e com a realização de todo o bem que conduz à felicidade.
Muitos fogem dos silêncios da vida como se fossem sinónimos de solidão. O silêncio, é sempre necessário e a vida sem silêncios não tem muito sentido. A solidão, não serve e deve ser exorcizada por todos. A luta contra a solidão deve ser uma constante na vida de qualquer pessoa. A procura do silêncio ou dos momentos de silêncio deve ser uma condição que todos e cada um deve alimentar como valor essencial para o equilíbrio das opções e da vida toda.
Qualquer suicídio é sempre chocante e provoca sempre uma perplexidade desmedida. Porém, quando acontece entre gente que foi ou é famosa porque tinha uma carreira artística, mais inquietante se manifesta, visto que não se espera que gente assim com tudo à mão, por exemplo, dinheiro, amigos e todas as condições materiais para ser feliz, ponha termo à sua vida de uma forma tão cruel. O que falta a esta gente? Talvez falte o mais importante da vida, o seu sentido e a descoberta da existência como valor absoluto que, sobre a qual ninguém tem domínio.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Um Sonho de Jesus

Pai Santo, tive um sonho que quero partilhar com aqueles que acreditaram e acreditarão em mim.
Sonhei com uma Igreja humilde, feita de sal e sol, com jeito de fermento para um mundo novo, onde todos se amassem como Eu os amei.
Sonhei que tinha gravado, em seu coração, o Teu Nome para que guardasse a Tua Palavra.
Sonhei com um povo de profetas que recordasse a Aliança que selei no Meu Sangue; um povo de sacerdotes, promotores do amor humano, da justiça e da verdade. Que acreditasse em Ti, para além de todos os ídolos, superstições e magias.
Sonhei com um povo que não Te honrasse, apenas, com os lábios. Que levasse a sério a minha Cruz.
Sonhei com homens e mulheres decididos a amar sem fronteiras, sem reticências, sem cálculos, apoiados no Nosso Amor.
Sonhei com uma Igreja que não confundisse a Minha Palavra com as roupagens da Minha cultura.
Sonhei com essa Igreja em serviço, em comunhão fraterna, de mãos dadas, corações unidos. Sonhei que onde Eu estivesse, eles, também, estariam. Foi tão lindo!...
Acordei, feliz, e olhei à minha volta. Passeei os olhos pelos séculos e uma profunda tristeza, como aquela do Jardim das Oliveiras, Me invadiu. Tive a sensação de viver, de novo, a angústia do fracasso dos meus últimos dias. A impressão de que poucos acreditavam na minha ressurreição. Tratavam-Me como um cadáver embalsamado, inerte e impotente.
O meu sonho esbarrou na rigidez legalista dos chefes do Meu povo. Fizeram da autoridade um poder e Eu sonhava serviço. Pedira-lhes que permanecessem em Mim e apoiaram-se nos grandes da terra. Sonhara que fossem pescadores no mar do mundo e passam o tempo a repescar nas próprias águas.
Estou triste, Pai! A unidade que sonhara esboroou-se e constitui escândalo para os mais pequenos. Muitos falam de Mim, mas não se entendem entre si. Na verdade, não falam Comigo! Eu sonhara ser Água Viva e Pão Vivo, farnel de peregrinos - e eles vão beber em águas conspurcadas e procuram pão amassado com velho fermento. O Meu povo, que Eu sonhara profeta, deixou de ser sirene a lembrar a eternidade. Abençoa armas e Bancos, celebram a Minha Ceia com quem não acredita em Mim, repetindo a atitude de servir-se da minha amizade.
E isso Me magoou. Em Meu Nome cometem barbaridades e o meu sonho de comunhão, de sal, de luz, de fermento, tende a desvanecer-se.
Nota: Um texto que não sei quem é o autor. Mas, merece toda a nossa atenção, porque tudo isto salta no nosso pensamento com muita força e é uma luz para este tempo que defeniram como tempo do sacerdócio, não o sacerdócio comum a todos, mas o do poder e das hierarquias anacrónicas, que nada dizem a este tempo... Que aproveitem!

sábado, 19 de setembro de 2009

Semeador

Porque estamos em tempo de recomeços... Eles são a escola, a catequese e tantas as actividades sociais que funcionam com base no ano lectivo. Coragem, para todos os que estão implicados nesses recomeços... Por isso, vos dedico este belíssimo poema do saudoso e grande Miguel Torga.
Semeia contra o presente.
Semeia como vidente
A seara do futuro,
Sem saber se o chão é duro
E lhe recebe a semente.
«Sem saber se o chão é duro»…
«Sem saber»…
Sem saber porquê não cuida de saber,
Sem saber porquê não se interessa em saber,
Sem saber porquê não lhe compete saber…
Pois o papel do semeador,
A tarefa do semeador,
A missão do semeador
É, simplesmente, semear…
Miguel Torga

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

O regresso ao tempo da vida

Sim, acabo de regressar ao tempo da vida. Porque, férias, devem ser um não tempo, um tempo sem tempo para horários ou qualquer sombra de programas. Aqui estou de novo, graças a Deus, retemperado e com vontade de retomar com alegria e entusiasmo as minhas funções.
Do outro tempo, o das férias, destaco e partilho convosco um momento crucial e deveras interessante. Porém, fica só e apenas isto porque das férias não pode haver muito para partilhar, nelas não se faz muito e muito lugar deve ter a preguiça, o gozo e o prazer de não fazer nada. Sem dispensar a leitura, a muita leitura.
No dia 6 de Setembro, participei numa celebração eucarística numa enorme catedral dos cristãos luteranos numa capital que visitava nesse dia. Cinco aspectos me surpreenderam e me encheram de alegria. Antes de enumerar os cinco aspectos, vou sublinhar, que este foi o meu preceito dominical, visto que o dia 6 era domingo, dia de preceito religioso, para quem tem prática religiosa. Alguns dirão, este desalinhado não foi à missa católica e foi a uma missa dos luteranos - esses desavindos que se separam da Igreja Católica na Alemanha do Séc. XVI, pela mão de Martinho Lutero. Digo-vos, senti uma alegria enorme e mais senti que estava perante uma experiência de profunda fé que me elevou para Deus. As diferenças são poucas entre nós e os nossos irmãos ortodoxos. Estamos afinal no mesmo caminho, o caminho de Jesus Cristo, e isso nos deve bastar. Se continuarem a ler este meu texto logo verão que tenho razão neste meu sublinhado.
Primeiro aspecto, a razoável assembleia era presidida por uma jovem pastora, por sinal muito bonita, à sua volta estavam quatro concelebrantes, um dos quatro também era pastora, que me pareceu ser a responsável principal da catedral, todos eram mais idosos que a jovem presidente da Eucaristia. Muito bonito este sinal para nós católicos, marcadamente machistas quanto à hierarquia que compõe a nossa Igreja Católica.
Segundo aspecto, a comunhão Eucarística foi distribuída da seguinte forma. Todos comungam das duas espécies do pão e do vinho, quem distribui a Sagrada Comunhão molha o pão no cálice e entrega-o ao fiel que o recebe na sua mão na ponta dos dedos e coloca-o em seguida na sua própria boca. Interessante esta forma de comungar. Falta na nossa Igreja menos palavreado e mais sinais que levem as pessoas a serem adultos responsáveis. É repugante o infantilismo dos nossos cristãos, que passam a vida toda à espera que lhe metam Deus pela boca dentro. O mais fácil sempre, nada de sinais e de atitudes que façam cada um ser mais pessoa com vontade própria e com responsabilidade. É pena que ainda sejamos tão pré-históricos quanto a este aspecto.
Terceiro aspecto, os jovens. Metade desta catedral estava preenchida por jovens, que faziam um certo ruído, próprio do ser jovem, ninguém lhes disse nada, nem mesmo os mais idosos que estavam sentados por entre os jovens. Ninguém foi beliscado.
Quarto aspecto, o côro. Belíssimo. Animavam a celebração com elevação e convidavam à oração. Toda a assembleia entrava facilmente no canto, com os livros dos cânticos na mão, todos, surpreendentemente, cantavam em sintonia com o côro. Este aspecto nada se compara com a animação das nossas celebrações. Nem com o reducionismo a que muitos ainda fazem da sua eucaristia, uma mera assistência.
Quinto e último aspecto, à saída uma organização ligada à catedral servia uma sopa quente acompanhada de pão variado, muitos se dirigiam para aquele local, especialmente, os jovens e todos os que desejaram, serviram-se do comensal eucarístico que se prolonoua extra muros da Igreja. A Igreja viva está aí na partilha material e no convívio fraterno, não dentro das Igrejas, mas fora dessa penumbra. À nossa Igreja falta-lhe mais sinais, menos conversa, menos formalismo abstrato e patético.
As duas pastoras, presidente e concelebrante (a que me pareceu ser a responsável da catedral), ficaram junto da porta saudando e cumprimentando todas as pessoas que participaram na festa do Pão de Deus, a Eucaristia.
No fim, sinto pena que a nossa Igreja não nos permita mais liberdade litúrgica para que cada um pudesse inovar e ousar em mais sinais que tornassem as nossas celebrações mais cheias de alegria e verdadeiros encontros de irmãos que se amam.
O muito paleio da nossa Igreja está a ofuscar-nos a inteligência e a cegar a ousadia.