Convite a quem nos visita

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Comentário à Missa do Próximo Domingo

Os Santos - heróis anónimos de Deus
Todos os Santos e na gíria popular o dia do «Pão Por Deus». Também ainda se conhece o mês de Novembro como o «mês das almas». Vamos por isso neste texto procurar dar sentido à santidade que deve acompanhar a vida de todos e de cada um. É óbvio, que a palavra tem uma conotação cristã, mas não é por isso, que não se possa proclamar para todos os valores que este vocábulo encerra. O povo sente muito profundamente a realidade dos santos e dos defuntos. Por um lado, com Todos os Santos, evocam-se todos esses heróis anónimos da Igreja que mediante a sua fé em Cristo e no Seu Evangelho deram a vida pelo serviço dos outros. Por outro, com Todos os Fiéis Defuntos lembramos outra multidão ainda maior, todos os irmãos que nos precederam já falecidos, que se encontram no lugar de Deus ou ainda não. O «Pão por Deus», evoca uma outra realidade da vida, um sentido outro na busca da partilha como obra de amor pelos desafortunados deste mundo. Destes três aspectos, o mais invoca pela generalidade das pessoas é o dia de finados. Não são por acaso as multidões que visitam os cemitérios por estes dias. Esta tendência pelo culto da morte ou pelo culto dos mortos, alastra cada vez mais e ganha mais forma neste tempo necrófilo que estamos a viver. A morte toca a todos e por todos é exorcizada até às entranhas.
Falemos um pouco do sentido da santidade que nos deve acompanhar sempre e em cada hora desta vida. Porque se assim for, melhor será para enfrentar a fronteira da morte e da vulnerabilidade desta vida terrena.
Muitas vezes a santidade é algo que nos ultrapassa e parece muito distante da vida. Mas não é assim. «Ser santo» é ser feliz e, por conseguinte, é estar em comunhão com Deus e com todos aqueles que nos rodeiam. Por outras palavras, diremos que «ser santo» é ter feito a descoberta do sentido da vida para o passado, para o presente e para o futuro. No vocabulário cristão diremos que «ser santo», está reservado para todos aqueles que descobriram a partir de Deus a plenitude da vida.
Feita a descoberta do «céu», nada nos faz abater. A morte cristã é a passagem para a «casa do Pai». O céu, o purgatório e o inferno são lugares da «casa do Pai», são sempre experiências do céu, experiências de Deus presente ou ausente. Poucos pensam assim. Por isso, o medo da morte e tudo o que a envolve continua a estruturar a mente de crentes e não crentes. Neste sentido, a descoberta da felicidade, faz-se pelo caminho do amor.
Logo depois, mais nada haverá a temer. Deixemos por estes dias o nosso coração ser tocado pelo mistério e depois face ao silêncio de Deus deixemos a nossa alma descansar nos prados verdejantes do seu amor infinito. Esta é a verdadeira santidade, o melhor alimento para cada dia da nossa vida.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Dois Testamentos uma só Bíblia

Nota: este texto também foi publicado hoje, 28 de Outubro de 2009, na secção Cartas do Leitor do Diário de Notícias do Funchal.
A polémica levantada por José Saramago, trouxe à ribalta uma série de pessoas, arredadas das questões religiosos, com opiniões muito interessantes sobre a Bíblia e sobre a religião. Graças a José Saramago por isso. Mas, temo que no fim nada reste senão mais uma polémica, onde cada um colocou a sua opinião e não chegamos a conclusão nenhuma nem muito menos restará uma síntese sobre as diversas visões.
Senti necessidade de expressar o meu ponto de vista e não pretendo opinar sobre o livro em causa, que ainda não li, mas que lerei oportunamente. Quero salientar que está a tornar-se perigoso separar a Bíblia em dois blocos estanques, Antigo Testamento e Novo Testamento. Não há um Deus do Antigo e outro Deus do Novo Testamento. Por isso, o Papa Bento XVI chama a atenção para dois aspectos muito importantes para a compreensão da Bíblia. Primeiro, é «fundamental para a compreensão teológica dos livros sagrados, a unidade das Escrituras». Segundo, é preciso dar «atenção aos géneros literários, o estudo do contexto histórico e o exame do que habitualmente se designa por Sitz im Leben (contexto vital)». O documento do Concílio Vaticano II sobre a Palavra de Deus a «Constituição Dogmática sobre a revelação divina» (Dei Verbum), confirma esta necessidade. Todos os estudos sobre a Bíblia também o atestam como caminho elementar para compreender a Revelação de Deus. Ainda cito, como prova disso, o teólogo católico talvez o mais importante do século 20, a saber Karl Rahner que, de modo único, escreveu em 1957 o artigo importante «Antigo Testamento como período da história da salvação».
É perigoso defender e ficarmos com a ideia de que o Deus do Antigo Testamento é o Deus tirânico e sádico, o Deus do Novo Testamento é o Deus bonzinho de Jesus Cristo, o Deus amor. Esta visão está errada e não serve para ninguém. Toda a Bíblia na sua diversidade é um todo e manifesta uma unidade convergente para a Pessoa e projecto de Jesus Cristo. Assim, encontrar a Palavra de Deus é encontrar a Cristo, dizia São Jerónimo. Sem ela, o Cristianismo torna-se vago, insustentável, insuficiente.
Nos dois Testamentos, descobre-se um Deus amor, compassivo e justo para todos e, especialmente, para as vítimas. Toda a história de Israel é, numa face, uma história idêntica a todos os povos, cheia de sangue e de morte. Na outra, está um Deus bondoso, compassivo e justo que acompanha o seu povo e o conduz para a Terra Prometida – lembremo-nos da travessia do deserto, os Profetas e o Cântico dos Cânticos a título de exemplo.
O Antigo Testamento conduz para o Novo e este encontra as suas raízes históricas no Antigo. Jesus Cristo é o ponto de encontro dos dois Testamentos. Na verdade, em Jesus Cristo realizam-se as grandes aspirações do Antigo Testamento, do mesmo modo, que ele é o alicerce dos conteúdos do Novo. O Novo Testamento dá testemunho da ressurreição de Jesus Cristo e do dom do Espírito Santo que faz de nós membros da Família de Deus (cf. Rm 8, 14-16; Ga 4, 4-7). Mas este dom realizado em Cristo e proclamado pelo Novo Testamento tinha sido profetizado pelo Antigo Testamento (cf Jer 31, 31-33; Ez 36, 26-27). Assim, temos a Revelação de Deus em dois testamentos, com 73 livros, mas numa só Bíblia.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

In illo tempore - Só?

Nota: O nosso retrato feito por Guerra Junqueiro...
"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio,
fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora,
aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias,
sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice,
pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas;
um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai;
um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom,e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional,
reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula,
não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha,sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima,
descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas,
capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação,
da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro.
Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo;
este criado de quarto do moderador; e este, finalmente,tornado absoluto pela abdicação unânime do País.
A justiça ao arbítrio da Política,
torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas.
Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções,
incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos,
iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero,
e não se malgando e fundindo, apesar disso,pela razão que alguém deu no parlamento,de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar».
Guerra Junqueiro, 1896.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Comentário à Missa do Próximo Domingo

A luz e a liberdade
Domingo XXX Tempo Comum
25 de Outubro de 2009
O melhor dom que Jesus concede no Evangelho, é o dom da fé. A visão física, é muito importante, mas mais valor tem a salvação que a fé faz acontecer para o cego Bartimeu.
A luz, que se pode traduzir por liberdade, é um valor que devemos preservar e lutar por ele. Nós fomos educados para andar na luz, Jesus é luz e sonha que todos os que o seguem sejam luz na sociedade e no mundo.
A educação mais inteligente é a que gera compromissos sociais, a mais inútil é a que gera parasitas sociais. Deste género de educação estamos bem saciados. A lição do Evangelho, recomenda a todos que procurem educar vivendo para serem luz, gerando prazer em servir e em ser solidário. A vida para Bartimeu nunca mais foi a mesma: pôs-se a seguir Jesus pelo caminho de Jerusalém e do sacrifício, tornando-se paradigma do autêntico discípulo.
Ainda estamos muito preocupados que os nossos jovens sejam uma luz para si mesmos ou, no máximo, para o seu fechado grupo social. Este ensinamento pode ser bom para satisfazer o nosso egoísmo, mas é um crime contra a humanidade. Agora torna-se mais compreensível o mau uso da liberdade e como facilmente a liberdade que se transmite pela educação dos nossos jovens redunda em libertinagem ou pura rebeldia irresponsável.
Jesus convoca-nos para o caminho do amor, que é luz, ou seja, verdadeira liberdade que nos leva a caminhos felizes em favor de todos e não apenas à satisfação imediata do ego. Jesus chama-nos para o amor. Muitos querem a reverência, Ele, o amor. Muitos querem anular os outros, Ele, estruturá-los integrando-os no caminho da felicidade. Afinal, trata-se de descobrir em Jesus a omnipotência do amor cheio de compaixão e ternura de um Deus que é Pai. E perante a cegueira do mundo, Deus é a luz para todos, a liberdade que é a luz. Então, a liberdade é um dos atributos de Deus. Por isso, muitos devemos trabalhar para que a vida seja vivida de acordo com este valor que nos leva a desprender o «eu», para a radiante beleza do serviço do bem para todos.

Comunhão e pluralismo na igreja.

Nota da redacção: Este texto é extraordinário, porque surpreendente, quando é escrito por um bispo, D. António Marcelino. Vale este texto para colocar no devido lugar tantos que na Igreja só sabem falar de unidade e de comunhão, sem saberem do que falam ou falam unicamente num sentido só, o carneirismo puro e duro. Sim à unidade e à comunhão, mas na riqueza da diversidade, na liberdade de opinião e na livre criatividade para viver as verdades ditas intocáveis. Louvado seja Deus por ter criado a humanidade na sua omnipotente diversidade. Esta riqueza deve ser pregada e celebrada no interior das igrejas. Muito surpreendente que o Jornal da Madeira tenha publicado este mesmo texto na sua edição de hoje, 21 de Outubro de 2009.
Os meios de comunicação social falaram largamente da intervenção do Cardeal José Policarpo, no Simpósio do Clero. Alguns viram nas palavras proferidas uma clara advertência a bispos e padres quando, na Igreja, expendem opiniões que põem ou podem bulir com a unidade, a comunhão e a aceitação do magistério do Papa. Não está em causa que a unidade da fé, a comunhão na caridade e a adesão fraterna ao Sucessor de Pedro são elementos fundamentais para a vida da Igreja de Cristo. Também não está em causa que defendê-las e estimulá-las é missão diária do bispo e, logicamente, dos seus mais imediatos colaboradores, os presbíteros. No entanto, é necessário que, ao mesmo tempo, se tenha presente que, na Igreja, não há só verdades intocáveis, mas há, também, um espaço de liberdade de opinião, aceite e recomendado, para saber interpretar e estimular a vivência, à luz da realidade, pessoal e social, das verdades de sempre. A leitura dos sinais dos tempos, recomendada pelo Vaticano II, não é privilégio, direito ou dever da hierarquia, mesmo entendendo esta, como deve ser, um serviço permanente, em nome de Deus, à Igreja e ao mundo das pessoas.
Na Igreja, sem que se tenham apagado ou esquecido as verdades essenciais, foram-se multiplicando, ao longo da história, costumes e hábitos, que geraram normas e orientações, encostados à doutrina. Em muitos casos não eram mais que fruta de uma pobreza espiritual em que o essencial da fé andava arredado das preocupações de muita gente. Muitos responsáveis da Igreja deixaram-se invadir pela tentação de esta ser uma sociedade vazada à maneira de senhores, fidalgos e poderosos, e modelada por critérios meramente temporais e profanos. Assim se foram introduzindo situações espúrias, marcadas pelos ventos do tempo, que recolhiam o proveito de quem na Igreja, as desejava, admitia e por elas lutava. Criou-se, então, uma sociedade semelhante àquela que Jesus Cristo, por via de uma revolução activa, mas pacífica, denunciou e alterou, por ser contrária aos seus valores. Foi neste contexto que pregou o Reino de Deus, chamou e formou os que livremente aceitaram segui-lo e se tornaram Seus discípulos. O Seu projecto não podia ser alterado e deviam estar atentos a quanto o podia desvirtuar. Um trabalho que se foi fazendo ao longo do tempo, por cristãos fieis e corajosos, profetas e santos, sempre com não poucas dificuldades.
Porém, os séculos que identificaram a Igreja com o mundo, no propósito de que todo o mundo fosse Igreja, levaram esta a obedecer a critérios e a seguir caminhos que não eram os seus, carregando-a de excrescências inúteis onde não cabiam os valores evangélicos. Muitas delas ainda aí estão, visíveis e luzidias, a ilustrar tempos que passaram e não são de recordar, mas que parecem agradar a quem prefere mais os ornatos e as aparências passageiras, que a verdade permanente e consistente.
O Espírito que dá a vida e renova todas as coisas, foi dando luz e fortaleza a membros da Igreja - bispos, padres, religiosos e leigos - para denunciarem caminhos de uma uniformidade que não nascia da fé e limparem inutilidades, que pesavam sobre os cristãos e suas comunidades, e denunciavam, à maneira profana, uma grandeza que não vem da fidelidade a Deus, nem ao Evangelho. Os profetas escolhidos foram fieis à sua fé, mas desprezados e perseguidos por gente que defendia interesses instalados. Francisco de Assis encarnou a denúncia de um Evangelho que não era o de Cristo. Chamaram-lhe louco. Rosmini ousou, corajosamente, apontar as “chagas” da Igreja. Foi condenado e só muito mas mais tarde recuperado como profeta. A lista podia continuar.
João XXIII surgiu inesperado. Convocou um Concílio, dizia ele, para limpar o rosto da Igreja, em muitos aspectos confuso e conspurcado. Também para ele e para aqueles que apoiaram a sua intuição, como sinal do Espírito, a vida não foi fácil.
D. António Marcelino, in Correio do Vouga

terça-feira, 20 de outubro de 2009

O fanatismo de José Saramago

José Saramago publicou mais um romance, «Caim», assim se chama. Porém, aproveitou para lançar alguns impropérios contra a Bíblica e contar tudo o que este livro fundamental representa. Por exemplo, disse o douto escritor: «A Bíblia é um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana», e Ainda:. «Sem a Bíblia, um livro que teve muita influência em nossa cultura e até em nossa maneira de ser, os seres humanos seriam provavelmente melhores», Comentou José Saramago. Parece que já chega de dar publicidade a tanta desconexão intelectual.
A quintordia o sr. Saramago já tinha dito, que o Papa «Ratzinger tenha a coragem de invocar Deus para reforçar o seu neomedievalismo universal, um Deus que ele jamais viu, com o qual nunca se sentou para tomar um café, mostra apenas o seu absoluto cinismo intelectual», afirmou Saramago, num debate com o filósofo italiano Paolo Flores D'Arcais, que lanou o livro «Il Fatto Quotidiano».
Durante a conversa, Saramago afirmou que sempre foi um ateu «tranquilo», mas que está a mudar de ideias. «As insolências reacionárias da Igreja Católica precisam de ser combatidas com a insolência da inteligência viva, do bom senso, da palavra responsável. Não podemos permitir que a verdade seja ofendida todos os dias por supostos representantes de Deus na Terra, os quais, na verdade, só têm interesse no poder». Segundo Saramago, a Igreja não se importa com o destino das almas e sempre buscou o controle dos corpos.
O escritor José Saramago é um fanático do seu «eu». Porque só consegue contar até um, já que dois é um número demasiado grande para ele. Está fixo no seu orgulho e na soberba do prémio nobel da Literatura, hoje mais que provado, que se reveste a atribuição deste prémio de uma forte politização. Que não se esqueça de agradecer todos os dias a infeliz censura de Sousa Lara, o patético Secretário de Estado, nos tempos do cavaquismo.
As incursões bíblicas do sr. Saramago, são «confrangedoras», como disse o Bispo do Porto D. Manuel Clemente, porque são manifesta ignorância bíblica. Muito bem. Faz pena que a saboberba intectual de Saramago seja assim tão violenta, considera-se o único, o mais iluminado de todos os portugueses e ofende a multidão imensa de pessoas que enformaram a esperança à luz da Palavra da Bíblia. Todos foram deminuído mentais? - Segundo Saramago, tudo quem lê, reza e vive a Bíblia é burro. Penso que não velerá a pena nomear todas as grandes figuras da Igreja, da cultura e da sociedade em geral que ao longo da história da humanidade seguiram a Bíblia com todo o interesse. Foram todos burros e estúpidos, toda a pléiade de Padres da Igreja (Ambrósio, Gerónimo, Ireneu, Origenes, Tertuliano, Agostinho...); Os medievais (S. Tomás de Aquino, S. Domingos, S. Francisco, S. Bento e entre tantos outros), Santo António de Lisboa, o Padre António Vieira, Simone Weil e todos os intelectuais do passado recente que manifestam profundo respeito pela Bíblia; e outros como o compositor luterano Johann Sebastian Bach ou o escritor ortodoxo russo Fiodor Dostoievski. Francamente, sr. Saramago, a honestidade intectual é um bem que todos devemos preservar, e de um modo especial, os escritores.
José Saramago sabe que as suas atoardas contra a Bíblia ou contra a Igreja são essenciais para o negócio. Nada mais pretende o escritor senão ganhar dinheiro com os seus livros. Uma polémica deste género ajuda imenso para a comercialização do livro. Não corro para comprar a literatura de Saramago, antes prefiro ler a Bíblia e saborear toda a riqueza literária que esta Biblioteca me oferece.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Em ano Sacerdotal Reflectir sobre o PADRE

Já lá vai o tempo em que o padre era sinónimo de comodismo, privilégio, transferência e fixação em bens puramente mundanos ou materiais. A vida do padre, normalizou-se, isto é, o padre é olhado como uma pessoa concreta que tem uma missão específica, que recebe de Jesus cristo. Lá se vai o tempo em que o padre era um pobre coitado que se sujeitava a tudo e a todos. Ou então era o senhor da aldeia para quem tudo convergia como se fosse um senhor todo-poderoso. Agora, ou está para as pessoas e com as pessoas ou então não serve para nada.
A chacota que se alimentava da vida do padre também já vai sendo chão que deu uvas. Hoje o padre não é mais o centro da vida das comunidades. É um entre muitos. Hoje o padre não é mais o único, que tudo sabia e pronunciava sentenças boas ou más sobre a vida das pessoas. Hoje, o padre é um entre tantos que descobre o valor e sentido da vida emancipada e livre.
Tudo isto deve ser visto não como uma derrota, mas como algo novo que Deus nos concedeu. É um sinal novo do Espírito Santo, que nos convoca para caminhos novos onde a partilha da vida seja o mote que nos faz assumir apaixonadamente a verdade do Evangelho. Neste sentido, a arrogância, o autoritarismo e a distância angélica são características olhadas com um sorriso de compaixão.
Hoje, a crise vocacional, está a criar uma forte vaga de padres neo-tradicionalistas (em sentido puramente negativo, porque na Igreja a Tradição tem um sentido positivo) e pouco preocupados com as questões sociais, mais espiritualistas e votados às lides da sacristia. Mas, não é deste modo que a Igreja avança e ganha presença consistente nos contornos do mundo.
Afinal, o que é a vida do padre hoje? – É uma forma de ser cristão. Claramente, podíamos responder assim. No entanto, tal resposta levanta muitas questões que inquietam muita gente na Igreja e fora dela. A vida do padre, é uma forma de ser cristão, que implica assumir verdadeiramente o Evangelho de Jesus Cristo. O padre, é um homem encarnado que faz seus os problemas da gente com quem vive, que é capaz de ler, interpretar, discernir a realidade na qual se encontra imerso.
Muito mal andamos nós se o padre não se encontra com as pessoas, se assume uma timidez que o algema ao pensamento único e à sua pseudo autoridade sem nexo nenhum numa Igreja onde a fraternidade deverá ser o princípio essencial da vida. O padre é um servidor e guia que dá a vida pelos outros, impulsionando todos os membros da comunidade ao compromisso segundo a vocação de cada um. Todos, o padre e comunidade, são o círculo à volta de um centro que é a pessoa de Cristo e o Seu Evangelho.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Comentário à Missa do próximo domingo

O mundo do avesso
18 de Outubro de 2009
Domingo XXIX Tempo COmum
É o que Jesus faz. Coloca tudo ao contrário do pensamento dominante e não se atemoriza nada com essa tarefa ilógica que conscientemente realiza. É a revolução de Jesus, que apela a uma profunda conversão espiritual.
Jesus, fala do dar a outra face ao opressor em vez de recorrer à vingança, de amar os inimigos em vez de odiá-los, de fazer o bem a quem nos odeia ou faz mal, de abençoar os que nos insultam e de perdoar a todos setenta vezes sete. E vai por aí adiante dizendo tudo ao contrário, os ricos são amaldiçoados e infelizes, os pobres abençoados e felizes, os pecadores e as mulheres de má vida afinal têm igual dignidade e passarão adiante no Reino de Deus, os primeiros serão os últimos e os últimos serão os primeiros, o grande deve fazer-se pequeno e servir a todos, o poder converte-se em serviço à comunidade e não domínio sobre ninguém.
Tudo isto cria um rebuliço infernal na cabeça do mundo que pensa de modo distinto de tudo isto. Jesus sofre um duro golpe na sua reputação. Aquilo com que Jesus menos se preocupava era com a sua reputação. A subversão é total. O Evangelho está cheio de exemplos muito claros da loucura que Jesus propõe. Faz algum sentido para o mundo certinho, organizado em classes e estruturas sociais distintas entre si, esta lógica:«quem quiser entre vós ser o primeiro, será escravo de todos»? - A resposta é dada pelo próprio Jesus:«Os que se exaltam serão humilhados e os que se humilham serão exaltados» (Lc 14,11, 18, 14; Mt 23, 12).
O que importa para Jesus são as pessoas e as suas necessidades. O nosso mundo actual precisa de converter toda a lógica do poder que oprime e aliena as multidões. Somos todos chamados, a libertar o ego e dar a vida pelo bem comum. O mundo precisa de uma lógica de partilha e de fraternidade. Porque o mundo está morto, porque reduzido à vontade absoluta do ego - que significa orgulho, inveja, ciúmes, egocentrismo, auto-importância, soberba, falta de amor, isolamento... - E quando tal acontece a morte é uma evidência. Porém, quando estamos dispostos a morrer pela vida para todos, aí sim estamos vivos. É a contradição do Reino que Jesus Cristo nos propõe e nada nos devia desviar deste caminho que salva. Afinal, quando se diz que Jesus está a virar o mundo do avesso, queremos dizer e acolher que ELe o vira para o lugar certo.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Alguns receios sobre a visita da Imagem de Fátima à Madeira

A imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima chega hoje ao Funchal. Todos nós gostamos muito de Nossa Senhora e a Igreja tem aproveitado bem o que Nossa Senhora mobiliza de gente à sua volta. Tudo isto é muito importante e deveria ser canalizado para o centro da fé, a pessoa de Jesus Cristo, Vivo e Ressuscitado.
Receio, que seja apenas mais um momento forte de devoção mariana, com pouco sustento de luz que aponte para o centro da fé, Jesus Cristo. E como seria importante reflectir sobre Jesus Cristo hoje. Leio um livro do teólogo Sul Africano, Albert Nolan «Jesus Hoje», que aconselho vivamente.
Receio, que a visita da imagem peregrina, se reduza ao lema incompreensível que alguém se lembrou de inventar para o evento, «Passa a imagem, passa a mensagem» - a meu ver seria melhor e mais de acordo com o que se pretende, o seguinte - «Passa a imagem, fica a mensagem». Mas o que sou eu perante tanta sabedoria e clarividência.
Receio, que de evangelização esta manifestação mariana tenha muito pouco e que não traga quase nada para o futuro da Igreja madeirense.
Receio, que nos iludamos com as multidões que cada celebração mariana vai reunir e que depois não fique nada nem ninguém para o empenho na vida das comunidades da igreja.
Receio, que se dê mais importância a Nossa Senhora que a Jesus Cristo.
Receio, que não se reflicta sobre a evangelização. E que estejamos perante um sentimentalismo exacerbado, que Nossa Senhora de Fátima sempre suscita.
Receio, que seja mais um balão que se vai encher e que vai encher os olhos de todos, mas que depois com uma simples picadela tudo se esvai pelos ares.
Receio, que não prevaleça o espírito missionário que marcou a vida da Igreja nos últimos anos. Escutemos o Papa João XXIII, inspirando-se no Evangelho: «Eu saltei da barca e caminho sobre as ondas ao encontro de Cristo que me chama. A Igreja deve renunciar às suas certezas. Deve abandonar a segurança da barca e caminhar sobre as ondas. Chegará a noite, a tempestade, o medo. Mas não há que retroceder. A Igreja é chamada a ir ao encontro do mundo».
Receio, que estejamos fixos só e unicamente naquilo (e em quem) garante a certeza de sucesso aparente logo à partida.
Receio, que os polos antagónicos dentro da Igreja se agudizem ainda mais. E que o enjoo de alguns meios da sociedade em relação às coisas da Igreja ainda se tornem mais incisivos.
São muitos os receios, não é, mas vamos adiante e vamos ver o que nos dirá Nossa Senhora de Fátima. Isso mesmo ouvir Fátima, porque falta escutar Nossa Senhora de Fátima, ou melhor ainda, Maria de Nazaré, mais do que andar a dizer-lhe tanto, a lhe pedir, a lhe prometer e a lhe desbobinar jaculatórias... Vamos todos escutar Maria, a de Nazaré, a libertadora Mãe de Jesus.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Comentário à Missa do próximo Domingo

XXVIII Domingo Tempo Comum
11 de Outubro de 2009
Nem tudo o que luz é ouro
As escolhas. Saber escolher é também um grande desafio que Deus nas leituras deste Domingo nos coloca diante do pensamento.
A primeira leitura faz alusão aos bens mais apetecidos deste mundo, poder, riqueza, fama, aplausos, saúde e beleza. Sobre isto rezava Gandhi: «Ajuda-me a dizer a verdade diante dos fortes e a não dizer mentiras para ganhar o aplauso dos débeis». O mais cobiçado deste mundo, está cheio de brilho, porém, não é perene nem coloca a vida no horizonte da plenitude.
No segundo texto, apredemos que a Sabedoria da vida está no acolhimento da Palavra de Deus, que sempre nos guia para o bem. Ela é a grande riqueza que importa acolher, porque o ensinamento de Deus indaga, ilumina, orienta para o sentido da eternidade.
O Evangelho, coloca diante de nós dois horizontes, a felicidade e o perigo das riquezas. Podem ser conciliáveis estes dois caminhos, mas quase sempre um não é sinónimo do outro. Assim, o perigo das riquezas ameaça a todos, sem excepção. O caminho da felicidade também é possível para todos. Desta forma, consideramos que os cristãos devem ser uns maltrapilhos, uns pobretanas porque dessa forma serão felizes e salvar-se-ão? - Nada disso, Jesus faz o convite para que cada um O acolha e escute a Sua mensagem e com isso, lutar pelos bens em função do bem-comum. Por esta via serão felizes e saberão o que é a vida plena e eterna. Caso entrem pelo caminho do egoísmo e da ganância, acolhem a felicidade momentânea e nunca saberão o que é a vida eterna. A escoha certa é importante para a verdadeira felicidade, mesmo que não seja o mais brilhante logo à partida. Deus quer-nos felizes, vamos escolher bem.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Para onde caminha a Igreja Madeirense?

Nota: Comentário enviado para a sondagem do Diário de Notícias do Funchal: Para onde caminha a Igreja Madeirense?
A Igreja da Madeira, pertence a Cristo ressuscitado, como a Igreja em todas as partes do mundo. A nossa Igreja particular, caminha para Jesus Cristo e com Ele faz caminho com as mulheres e homens da sociedade da Madeira. A Igreja, enferma, muitas vezes de todos os males que afectam a sociedade onde está. Os bispos e os padres fazem tudo para o bem de todos, tentanto cumprir o que manda o Evangelho. Porém, estão cheios de virtudes e de defeitos, como está a humanidade inteira. Mas, é com esse bem e com esse mal que todos, digo todos, são chamados a participar e a dar o seu melhor para o bem comum. Aos bispos e padres, cumpre, convocar todos os que, desinteressadamente, querem fazer a construção da Igreja. Há muita erva daninha na Igreja. Críticas infundadas. Ignorância. Pede-se que nós Igreja, sejamos transparentes nos bens que são de todos e existem em função de todos, que nós Igreja sejamos equidistantes quanto a todos os poderes e que o anúncio do Evangelho seja a principal preocupação de todos os baptizados. Por fim, dizer mal e exigir só dos outros não chega, é preciso ser responsável e participar com afinco numa construcção que é de todos nós. Assim estaremos no rumo certo.

domingo, 4 de outubro de 2009

O Desaparecimento de Amália Rodrigues

Amália Rodrigues, que contava 79 anos, foi encontrada sem vida às oito horas da manhã do dia 6 de Outubro pela sua secretária particular. Logo de seguida, o Primeiro Ministro António Guterres decretou três dias de luto nacional pela morte de Amália Rodrigues.
O desaparecimento da intérprete de 'Estranha Forma de Vida', 'Uma Casa Portuguesa', 'Vou Dar de Beber À Dor', 'Com Que Voz', 'Fado Português', 'Ai, Mouraria' e 'Libertação', entre muitos outros fados, é classificada como uma grande perda pelas principais individualidades portuguesas.
Jorge Sampaio disse de Amália que esta foi uma senhora que sempre soube resistir às evoluções dos regimes. "Projectou Portugal no mundo quando era difícil. É uma grande emoção, e é um dos raros momentos em que os portugueses estão todos unidos", disse o presidente da Républica à Antena 1. Em conferência de imprensa, Jorge Sampaio afirmou ainda "foi a pessoa que mais marcou os espíritos portugueses". Para o presidente da Républica, Amália nunca perdeu o seu prestígio: "Ao vê-la envelhecer, recordámos sempre o seu auge. Deu à identidade portuguesa outra faceta. Amália morre, mas ela está sempre viva, e será sempre mantido o seu fado, a sua música, a sua pessoa".
De acordo com informações prestadas pela Valentim de Carvalho, Amália Rodrigues tinha regressado no dia 5 de Outubro da sua casa de férias, em Brejão, quando se sentiu mal, vindo a falecer já durante a madrugada na sua residência habitual. Segundo Lionilde de Jesus Henriques, secretária da cantora, devido à sua indisposição, Amália teve de recusar um convite para estar presente numa corrida de touros em Vila Franca de Xira, a favor de Timor-Leste, onde seria convidada de honra.
À porta de sua casa na Rua de S. Bento, cerca de duas centenas de pessoas esperavam-na para acompanhar um cortejo triste até à Basílica da Estrela. Entre gritos e choros, a maioria das pessoas que acompanharam o carro eram anónimos admiradores. Os lisboetas despediram-se da fadista com palmas, mas as lágrimas corriam pela cara de muitas das pessoas que ali se encontravam, enquanto nas varandas das ruas por onde passou o corpo de Amália, foram vistos vários lençóis brancos e moradores a acenarem com lenços. Na Basílica da Estrela esperavam centenas de populares para se despedirem de Amália Rodrigues.
Fonte Jornal Público

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Comentário à Missa do Próximo Domingo

XXVII Domingo do Tempo Comum - 4 de Outubro de 2009
O matrimónio de Jesus Cristo
Um grande trabalho, podemos logo desabafar. O matrimónio, segundo Jesus Cristo é um grande trabalho e uma grande tarefa. Não falo por experiência própria, mas pelo testemunho de muitos casais que passam pela minha vida. Assisto, como padre, uma equipa de casais de Nossa Senhora. Tudo isto serve para que já acumule uma certa experiência de vida matrimonial. Obviamente, que nunca é como sentir na prática e, por isso, não falarei com autoridade absoluta.
Segundo Jesus e o Seu texto do Evangelho, o matrimónio é um caminho belo e só faz sentido acontecer quando tem em vista só e unicamente a felicidade. A vida de todos nós acontece para a felicidade, mas a vida do casal, pelo matrimónio, só tem razão de existir quando os dois são verdadeiramente felizes. Quando tal não acontece, pois que acabe esse caminho, porque não haverá nada mais terrível no mundo do que dois viverem em comum e não serem felizes, porque não se amam.
O projecto de Jesus sobre a vida matrimonial, é que é uma graça, uma vocação que Deus coloca no coração do homem e da mulher para serem felizes, se amarem e serem procriativos (não só gerando filhos, mas em muitos outros aspectos). Este projecto é para sempre, do ponto de vista ideal, porém, nem sempre resulta, não por causa de Deus, mas pelas circunstâncias históricas desta vida. E não deveria ser problema maior quando tudo acaba e se procuram as melhores soluções para remediar todo mal. Muito pior será que qualquer ser humano viva estigmatizado para o resto da vida por causa dessa ruptura. Por isso, muito falta fazer quanto aos casais ditos separados ou recasados.
Na vida familiar, Deus deseja que o amor, fale sempre em primeiro lugar, pois, a felicidade funda-se nesse alicerce. É disso que se trata e é isso que Deus deseja para todos, venha o que vier. A felicidade que Deus quer não está na forma, mas no conteúdo de cada coração sedento de bem essencial para o sentido da vida.
Digo sempre na celebração dos casamentos que a vida em casal é a rosa mais linda do jardim de Deus, porém, é aquela que se alimenta pelo tronco mais espinhoso. É preciso sabedoria e inteligência para colher essa rosa com as mãos. Mais não falo daquilo que é elementar para a vida a dois: paz e diálogo sincero.