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terça-feira, 19 de janeiro de 2010

A sua última missão foi no Haiti

1934-2010 Zilda Arns
O discurso, escrito em espanhol, nunca chegou a ser proferido. Zilda Arns morreu antes, no terramoto que atingiu o Haiti, nos escombros de uma igreja em Port au Prince onde faria a palestra. Morreu em missão, fazendo o que gostava, defendendo o direito à vida e à dignidade humana.
Eram estas algumas das suas palavras pensadas para o dia 13 de Janeiro: "A paz é uma conquista colectiva. E tem lugar quando impulsionamos as pessoas, quando promovemos valores culturais e éticos, as atitudes e práticas que buscam o bem comum, que aprendemos com o Mestre Jesus: "Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância." (Jn 10,10).
Zilda era uma mulher grande, altiva, generosa. Acostumou-se a pisar a lama das periferias, a enfrentar o sol inclemente do sertão, a caminhar por favelas violentas, sempre com um sorriso largo no rosto e uma alegria contagiante. Levava aos mais pobres um bem capaz de mudar os seus destinos: a educação.
"Por trás das nuvens há sempre o sol", costumava repetir aos que insistiam em ver apenas a miséria e a desesperança.
Zilda Arns Neumann nasceu em 1934, em Santa Catarina, estado do Sul do Brasil, numa região de imigrantes alemães. Irmã de dois padres e três freiras, nunca quis ser religiosa, mas desde muito cedo acalentou o sonho de se tornar missionária católica. Escolheu a Medicina, aos 15 anos, como instrumento da missão a que se propôs. Porém, foi só depois de criar cinco filhos e enviuvar que Zilda começou a realizar o seu sonho de adolescência.
"Deus deu uma volta enorme, mas estou chegando lá", declarou em 1999, ao relembrar os anos dedicados à família, antes de poder lançar-se integralmente nas acções missionárias.
A grande obra de Zilda Arns começou a nascer em 1982, em Genebra, na Suíça, num encontro informal entre o então secretário executivo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), James Grant, e o cardeal arcebispo de São Paulo, D. Paulo Evaristo Arns, irmão da médica. O representante da Unicef sugeriu a D. Paulo que a Igreja desenvolvesse acções para reverter a situação de miséria e de mortalidade infantil no Brasil.
No regresso da viagem, D. Paulo apresentou o desafio à irmã Zilda. Ela elaborou o projecto que, em 1983, se transformou na Pastoral da Criança, estando ela própria à frente de um batalhão de voluntários. O grande objectivo era ensinar às mães pobres como cuidar de seus filhos, com lições básicas de saúde e nutrição: não deixar de vacinar as crianças contra doenças como o tétano e a difteria; ferver a água antes de bebê-la; dar vários banhos frios aos mais pequenos em dias muito quentes; acrescentar uma colher de uma mistura de farelos e grãos aos alimentos para combater a desnutrição. Ensinamentos simples, que poderiam significar a diferença entre a vida e a morte. Mas a grande revolução era o soro caseiro: a mistura simples de água, sal e açúcar, que salvou milhares de crianças, vítimas de diarreia e desidratação.
Zilda levou a primeira acção da Pastoral da Criança à cidade de Florestópolis, no Paraná, onde o índice de mortalidade infantil, na época, era de 127 mortes em cada mil crianças nascidas vivas. Após um ano de acção solidária da Pastoral, o índice recuou para 28 mortes por mil nascimentos. O sucesso incentivou a Igreja Católica a expandir a Pastoral da Criança para todos os estados do país.
Em 2001, a Pastoral da Criança registou uma taxa de mortalidade infantil, nas comunidades onde actua, inferior a 13 mortes para cada mil crianças. Uma resultado surpreendente, considerando que a média nacional de mortalidade infantil era de 34,6 óbitos, segundo a Unicef. Zilda Arns creditava o sucesso da Pastoral da Criança a milhares de voluntários, que levam adiante as acções de educação, saúde e cidadania a mais de 32 mil comunidades em bolsas de pobreza. Dizia que nem sempre é preciso um médico para garantir a saúde de um povo, à medida que as famílias ganham autonomia e aprendem a prevenir as doenças. A fórmula sempre foi usar a simplicidade para multiplicar o saber.
Cantando o soro
Zilda Arns multiplicou o seu saber pelo mundo. Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Timor-Leste, Filipinas, Paraguai, Peru, Bolívia, Venezuela, Argentina, Chile, Colômbia, Uruguai, Equador e México são apenas alguns países onde a Pastoral foi implantada com sucesso. A própria médica ministrava os cursos e ajudava pessoalmente a estruturar as acções, unindo credos e raças.
Na Guiné-Bissau, de maioria islâmica, Zilda Arns comoveu-se ao ver líderes muçulmanos envolvidos no projecto, cantando à maneira deles a receita do soro caseiro, que salvou milhares de crianças da desidratação. Em Angola, começou o trabalho, em 1987, com apenas 17 mulheres voluntárias. Hoje, só no Porto do Lobito, de onde eram enviados escravos para o Brasil, existem mais de 800 líderes comunitários trabalhando com crianças e grávidas pobres. Depois de 25 anos de guerra civil, Angola não tinha sequer recolha de lixo, e a Pastoral da Criança dava o exemplo, separando o que poderia ser reaproveitado e ensinando a enterrar o restante. Zilda sempre fez questão de lembrar que a acção da Pastoral ia além da saúde física de crianças e grávidas. Era também missão espiritual, de paz e harmonia para famílias e povos. Por isso, levou a experiência brasileira para tantos países devastados por guerras e misérias, como Timor-Leste e Moçambique.
No dia 13, mais uma vez, ia promover a multiplicação do saber, num encontro de religiosos e leigos, num Haiti sofrido e miserável.
Por Denise Sobrinho, Rio de Janeiro, in Público 16/01/2010

1 comentário:

José Ângelo Gonçalves de Paulos disse...

Vou ver se esta santa algum dia sera beatificada ou canonizada pelo papa. Certamente, primeiro vem as imperatrizes ou figuras gradas da Opus Dei.Mas ela já está santificada pelo povo ao qual deu a sua vida .Ela e o seu irmão -cardeal. Tal como a irmã Doroty,que foi assassinasa por defender os sem terra.E muitos outros mártires, sem que a igreja que é rápida em beatificar, mas aos revolucionários e, ainda bem, éo povo que os beatifica.