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quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

A torre de Babel chamada religião

Nestes dias que estamos a viver celebramos o Oitavário de Unidade dos Cristãos. Uma semana dedicada à oração pela unidade de todos os que confessam a sua fé em Cristo, mas que integram a sua fé em diferentes confissões religiosas.
O Papa João XXIII, constatava, convictamente, que “é muito mais forte aquilo que nos une do que aquilo que nos divide”. Era deste olhar sereno e generoso que irradiava esse profundo desejo. Ou melhor ainda, seria a voz de Deus que se fazia ouvir no coração da história como expressão última de uma vontade incontornável.
Não basta desejar a união. Não chega inquietar-se com a separação e considerar que quem comunga de outros símbolos e sinais para alimento da sua fé no “Deus escondido”, irmãos desavindos ou rebeldes. João Paulo II, na notável Encíclica “Ut Unun Sint”, sobre o Ecumenismo, considera que “do amor nasce o desejo de unidade” – e continua o Papa – “O amor é a corrente mais profunda que dá vida e infunde vigor ao processo que leva à unidade” (nº 21).
A unidade é o mesmo que caridade. Porque a fonte desta causa radica numa pessoa, Jesus Cristo, que constantemente faz apelo ao nosso coração para essa disponibilidade essencial que conduz à paz e à fraternidade entre todos. Caso contrário, emerge em cada um, uma torre chamada Babel.
A humanidade será tanto mais humana quanto mais souber, corajosamente, encetar caminhos de amor na multiplicidade e diversidade de perspectivas e maneiras de ver e pensar as coisas da fé e da vida. O desafio de Cristo é insistente e deve calar no fundo dos corações que se abrem às possibilidades da unidade: “ Para que todos sejam um, como Tu, Pai, e Eu em Ti; para que sejam um em Nós, a fim de que o mundo creia que Tu Me enviaste” (Jo 17, 21). É o mesmo Senhor que nos ensina a sermos ousados e corajosos e, ao mesmo tempo, humildes e generosos.
Não esqueço também as palavras do professor Borges de Pinho (Faculdade de Teologia da UCP), que dizia assim: “Os caminhos da interdisciplinariedade são muitos, as vias de realização são muitas, mas existe algo em que podemos convergir: estamos todos interessados na autêntica busca do humano que é encontrado em plenitude no horizonte de Deus, sabendo que Deus só é encontrado no humano”.
Estas palavras falam por si, não necessitam de interpretações. A via ecuménica só pode seguir o horizonte do homem. De outra forma nega a verdade e trai o desígnio do próprio Deus. E é importante não esquecer que “é humano! Somos todos semelhantes e todos diferentes”, lembra o Dalai Lama, no livro “A Força do Budismo”.
Para esta Semana da Unidade que estamos vivendo surge com vigor a seguinte frase de Jesus: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14, 6). É uma belíssima expressão de Jesus que nos chama para esta tridimensão da sua pessoa. A unidade dos cristãos só pode assentar sobre esse patamar de verdade, caminho e vida, que é a pessoa de Jesus Cristo.
A confrontação com o vazio, com o nada, o demoníaco, o inumano, o animalesco, tudo o que se apresenta à vida de extremos e dramático foram as grandes criações do espírito humano, pois, nessas condições terríficas, o homem soube afirmar sim à vida, tendo encontrado sempre uma significação e um sentido para a sua existência. As trevas nunca foram uma derrota irreversível, mas um caminho ou um meio que impelia para a porta da luz e da esperança. É nessas vias difíceis que a vida bebeu a luz salvadora, a única que permite construir percursos de paz e amor para toda a humanidade. Há um verso de Byron que proclama; “rápidos correm os ventos”. É o que sentimos sobre o desejo da unidade entre todos, através do amor, da fraternidade, do respeito e da comunhão, que vividos com a verdade contagiam mundos e fundos sem deixar de abanar profundamente as nossas comodidades. São esses “ventos que correm” que abanam tudo o que se alicerçou nas vias consideradas únicas, fechadas, sem saída e sem sentido salvador. É preciso, é urgente proclamar essa esperança que irrompe do desejo de Deus. Cabe-nos mediar o sopro do Espírito de Deus que de forma obscura emerge amorosamente no coração da história do mundo. E também no coração de cada pessoa humana.

2 comentários:

José Ângelo Gonçalves de Paulos disse...

P.José Luís novamente um texto eloquente, mas,penso, que, para o ano estamos outra vez a falar, escrever sobre o mesmo assunto e nunca chega o dia desse parto doloroso que é o ecumenismo. Quer da Igreja católica, quer das outras Igrejas o problema da unidade é difícil, porque o diálogo é sempre artificial. Não passa de uma semana. Essas festas que nada dizem nem concorrem para a PAZ. O teólogo do diálogo interreligioso está ostracizado da igreja católica, Hans Kung, o qual tem textos magnifícos sobre esse diálogo como via para à Paz. Tem até muita coisas escritas em jornais e livros, para além das conferências. Os primeiros a serem afastados são os próprios teólogos. A Igreja "dialoga" com todos menos com os seus. Até a igreja madeirense também fala e celebra com todos menos com o padre Martins Junior e o povo da Ribeira Seca.

José Luís Rodrigues disse...

Caro Ângelo, mas continua o sonho do Evangelho... Rezemos pela diversidade e que nessa diversidade sejamos todos capazes de construir a paz... As diferenças religiosas são um grande dom de Deus, vamos com ele continuar a sonhar...