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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Comentário à Missa do Próximo Domingo

Domingo, 07 de Fevereiro de 2010
Lançar as redes – Vencer o medo
Em Jesus nada está perdido. Tudo tem uma saída. Por isso, no mesmo lugar onde os Discípulos tinham pescado toda a noite sem apanharem nada, Jesus vai mandar que de novo Pedro deite as redes, e parece que a grande quantidade de peixe pescado foi tal que as redes se romperam, segundo o testemunho de Lucas.
O medo abateu-se sobre Pedro e os companheiros perante a acção de Deus. Outra vez a palavra de Jesus: «Não temas». É uma coisa, o temor perante as coisas extraordinárias que Deus realiza. Outra, é o medo perante a vida e as coisas deste mundo, este medo mata o pensamento e a liberdade de acção. O medo atrofia a caridade e pode não deixar que o amor seja o principal sentimento vivido por cada um de nós perante a missão que Deus nos confia neste mundo.
A abundância de peixe nas redes que Jesus mandou deitar ao largo significa como será grande a Igreja ou a comunidade de cristãos que Jesus fundará.
Quem tem medo ou quem vive no medo não aceita Jesus como salvador e muito menos acolhe a Deus como Pai da misericórdia infinita. O medo não pode comandar a vida nem pode ser a única forma de educar para a vida. Infelizmente, ainda encontramos muitas famílias onde o medo é o único caminho de entendimento. Os esposos dirigem a sua casa com base no medo mútuo. Os filhos convivem com o medo de não agradarem os pais e por isso deixam de formar a sua personalidade e a sua história pessoal. Obviamente que tudo isto depois se transporta para a sociedade em geral. Tinha razão o poeta Alexandre O'Neill no «Poema do Medo»: «Ah o medo vai ter tudo / tudo / (Penso no que o medo vai ter / e tenho medo / que é justamente / o que o medo quer) / O medo vai ter tudo / quase tudo / e cada um por seu caminho / havemos todos de chegar / quase todos / a ratos».
O Deus que Jesus nos apresenta não é o Deus da derrota e da morte, mas o Deus das apostas duplas em todos e em cada um. Os medos são naturais e podem surgir no nosso coração a qualquer momento. Porém, se a nossa confiança em Cristo se revelar uma convicção segura, em nenhum momento nos deixaremos vencer. Neste sentido, não valem as certezas nos nossos planos pessoais nem muito menos valerá apregoar que sabemos tudo e que diante dessas certezas nada mais há que fazer.
Jesus, prova-nos ao contrário, há sempre uma possibilidade, mesmo até nos piores momentos ou circunstâncias da vida. O medo para o cristão não existe. Jesus tira-nos do medo e remete o nosso coração e o nosso pensamento para a fé e para esperança. Não há outro caminho para conseguir êxitos na vida. Quem se pensa orgulhosamente só, está perdido e não vai muito longe. Mas quem se considera aberto ao encontro da fraternidade, vencerá todos os medos e chegará plenamente ao lugar de Deus Pai.

2 comentários:

José Ângelo Gonçalves de Paulos disse...

O medo é o evangelho reinante nos dias de hoje. Jesus apregoou-nos a o Evangelho da Vida e da Liberdade. Para certa igreja é melhor sermos surdos, mudos, coxos e submissos. Mas não é só na igreja é na política e na sociedade. Para além do medo das nossas odisseias. E seria bom ler Lévinas na dialéctica de Ulisses e de Abraão e aí vamos compreender os desafios da novidade-ser-diferente. E não voltarmos ao mesmo....

tukakubana disse...

O medo!
O medo é, para a maioria das comunidades cristãs, um tempero da vida: daí o modo das promessas, as missas que se mandam rezar (mas não se participa).A catequese já instruí no medo - é o castigo, o inferno, a confissão, a penitência...
Seria interessante que os profetas do nosso tempo diferenciassem amiúde a diferença entre "medo" e "temor"; o medo submete, o temor liberta.
Na sociedade, que se rege muito por aparências (por medo) o sentimento do medo gera insegurança, mentira, inveja, é "a selva" da convivência.
Não sei se é por isso que gosto de olhar os olhos das pessoas - são o termómetro do medo!
Os que, nos dias de hoje, não vão tendo medo, são os que têm as costas largas, os de quem se fala, mas são, também, os que são livres.