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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Em louvor do Funchal

Um dia, que esperamos não muito distante, a imagem desta baía em ruínas, soterrada hoje em lama e pranto, há-de dar lugar, de novo, à paisagem verdadeira. Passaremos deste inverno intransigente e funesto à clemência de uma estação que devolva ao Funchal a sua luz.
As buganvílias voltarão a estender placidamente sobre as ribeiras os seus braços brancos, rosa, cor-de-vinho; a árvore de fogo do Largo do Colégio levantará mais alto o seu deslumbre; os Jacarandás repetirão o assombro colorido; as Tipuanas desdobrarão, nos inícios de Junho, um incrível tapete amarelo frente a São Lourenço ou na subida de Santa Luzia.
Esperamos que, num tempo não distante, se possa reconhecer, de novo, a limpidez do traçado atlântico do centro, as ruas confusamente populares, o arabesco do mercado, o mesmo desenho de cheiros, a mesma mescla de sonoridades, o brando silêncio que nas praças tem o seu quê de familiaridade tímida, quase cerimoniosa.
Encravado na forma de uma concha há cinco séculos, burgo marítimo de referência, com construção fantasiosa, o Funchal foi a primeira cidade europeia nascida fora da Europa. O resultado é um património humano e urbanístico únicos. Evoca, é claro, o modelo de algumas cidades continentais, mas já é outra coisa, como acontece aos territórios de fronteira. É uma cidade reservada e extravagante, cosmopolita e primitiva, enérgica e indolente. Tanto como outras, mas diferente, de uma maneira que é só sua. Por exemplo, em certas horas vazias, as inúmeras varandas terrestres espalhadas pelas encostas parecem colocadas num imenso navio como os que muitas vezes ali aportam, e sente-se (isto é real) que toda a cidade flutua.
O Funchal é, ainda que isso seja escassamente recordado, uma cidade literária, como Trieste ou Marraqueche: ali não apenas nasceram Edmundo Bettencourt, Cabral do Nascimento, Herberto Helder ou Ana Teresa Pereira, nasceram os seus universos.
Conta-se que o poeta António Nobre gravou a canivete numa árvore do Funchal: “sede de luz como que de relâmpagos”. Um dia, que esperamos não muito distante, chegará a luz.
José Tolentino Mendonça

5 comentários:

Susana Ramos de Freitas disse...

Fantástico!
É exactamente isto que se sente e se deseja mas a nossa falta de jeito não nos permite tanta mestria na escrita!
É necessário ser Espiritualmente mais alto!
Obrigada por partilhar comigo estas sapienciais palavras.

José Ângelo Gonçalves de Paulos disse...

Padre José Luís só assim é que podemos reconstruir esta cidade do Funchal. Voltar ao esplendor da sua beleza cheia de corres e do seu cosmopolitismo. Neste momento, hão lugar para a mesquinhez nem para recriminações. O espírito aberto de Tolentino de Mendonça dá-nos uma perspectiva de construir e erguer a cidade para o futuro e para o além, superando o além das nossas ganâncias, desatinos e loucuras. Sentindo ainda o choro dos que têm o direito de chorar , os gritos lancinantes dos que têm o direito e o dever de gritar, ergamos a nossa querida Cidade, assim como, a Ilha.

tukakubana disse...

que renasçam as flores já nesta primavera tão próxima e que a Luz, a luz indispensável à vida as faça brilhar com novo fulgor.
Mas que se faça luz nas cabeças duras, que aprendam a lição, que respeitem a Natureza. Então, haverá flores todo o ano.

ValériaC disse...

Padre José Luís que lindo texto postou...sinto muito por tudo de triste que ocorreu por aí...por todas as perdas humanas que tiveram...mas vejo que muito existe do Amor que todos vocês sentem pela cidade do Funchal...e o Amor move o mundo...e se Deus quiser e com certeza Ele quer...a cidade vai ser bela e vai ver suas flores e seu povo florescer outra vez...
Um abraço...

Anónimo disse...

Padre José Luis o texto é belo pois o padre Tolentino Mendonça é um escritor de excelência. Espero que as suas palavras levem a Igreja da Madeira e o seu Bispo a repensar na Renúncia da Quaresma. Isto de pedir aos cristãos que façam uma Renúncia para um fundo, "a pobreza envergonhada" é muito estranho porque penso que as pessoas necessitam de saber o objectivo concreto para que se destinam as suas ofertas e renúncias. Penso que em tempos de crise e também de grande solidariedade de muitas pessoas a Igreja e o seu Bispo deviam propor uma Renúncia para ajudar as famílias que perderam tudo. Continuo a pensar que falta transparência nas contas da Diocese e este Bispo também não torna público aos cristãos a realidade financeira da Igreja da Madeira, talvez por isso muitos não se disponibilizam para contribuir um pouco mais com donativos para a Igreja.
Rodrigo Fernandes