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quarta-feira, 7 de abril de 2010

O medo da Liberdade

Nota da redacção: Após a celebração do Mistério da Páscoa (palavra que significa passagem), voltamos nós ao convívio com todos os nossos leitores do Banquete. Agora, estamos no tempo da acção do Espírito Santo, por isso, proponho um texto da Ana Vicente, para reflectir sobre o melhor dos valores que emerge da acção do Espírito Santo, a Liberdade. Valor forte e que mal usado pode levar aos piores disparates, porém, canalizado para o bem e para a felicidade pode realizar os gestos mais nobres do ser mulher e do ser homem. Que a nossa vida se faça Páscoa para o verdadeiro sentido da liberdade e que se consuma em cada um a melhor das leis, o Espírito Santo actua em quem quer, onde quer e quando quer. Parabéns ao Espírito Santo.
É uma questão que atravessa a história da humanidade e também a história do cristianismo. Há uma forte tradição de medo da liberdade e precisamente no diálogo ecuménico esse medo esteve/está muitas vezes presente, embora de forma não explícita ou admitida sequer.
Temos medo de «perder», face ao outro, perder estatuto, perder importância, perder espaço, perder razão, em última análise. Ora esse medo da liberdade do outro e também da nossa própria liberdade invalida, de imediato, qualquer diálogo válido. Como afirmou a mulher de Mahatma Gandhi, Kasturba, o oposto do amor não é o ódio mas antes o medo. O medo da liberdade é uma forma muito nociva de medo. Paralisa, infantiliza, empobrece espiritualmente e psiquicamente quem o sofre. A liberdade atravessa a mensagem evangélica – é como se Jesus nos desafiasse a viver a liberdade – assumindo os nossos talentos e responsabilidades perante nós próprios e perante o próximo – aquele e aquela que temos que respeitar e, ainda mais difícil, amar. Jesus promete que está connosco nesta caminhada da liberdade, pelo que será um contrasenso termos medo dela. Reconhecer que todas e todos somos infinitamente diferentes e infinitamente iguais – uma constatação que tantas vezes nos escapa ou que preferimos esquecer, para não termos que assumir as consequências dessa constatação. «Ora o Senhor é o Espírito e onde está o Espírito do Senhor, aí está a liberdade. E nós Todos que, com o rosto descoberto, reflectimos a glória do Senhor, somos transfigurados na sua própria imagem, de glória em glória, pelo Senhor que é Espírito.» (2 Cor 3, 17,18). Perante esta imagem ficamos humildes – como é que o Senhor nos atribui tanta importância e nos chama para a liberdade dos filhos e filhas de Deus? É difícil encontrar palavras adequadas –, mas podemos e devemos procurar não ter medo do diálogo, da escuta, da atenção, às nossas irmãs e irmãos inseridos noutros espaços da grande família cristã. Ficamos confortadas – a liberdade é intrínseca ao Espírito do Senhor, pelo que não fará qualquer sentido termos medo dessa liberdade.
Ana Vicente
Casada, mãe e avó. Autora de diversos livros, sobretudo na área da história das mulheres. Membro do Movimento Internacional ‘Nós Somos Igreja’.

4 comentários:

José Ângelo Gonçalves de Paulos disse...

Padre José Luís, este texto da Ana Vicente é muito bonito e aborda uma questão muito pertinente: O MEDO.
Hoje temos medo de tudo. O medo inebria-nos e flui dentro de nós como água que corre ferozmente uma ribeira. E a nossa sociedade não é para mais. Quem não tem medo de perder o emprego? Da insegurança que impera nas comunidades humanas? Até nas igrejas que deveriam ser a expressão sublime" do Espírito que sopra..." Mas ai de quem pense de maneira diferente do status quo. Até arranjam fantoches para responderem em nome de alguém que abusivamente esconde o nome. Vamos acreditanto que o Senhor da Vida modifique, nós com Ele, um pouco esta mediocridade e nos dê um porvir mais risonho.

tukakubana disse...

O medo é a fasquia que distingue os confrontos necessários dos inúteis, é o que nos impede de dar o passo em falso no abismo...Contudo, é preciso OUSAR, para não sermos medrosos, pequenos, tristes, limitados!

Autor do blog disse...

O medo em todas as circunstâncias da vida é sempre péssimo, mata, fere, atrofia e empurra para trás. É um sentir que Jesus de Nazaré desconhecia, penso... Ao menos na sua acção pública no que diz respeito ao anúncio do Reino...

solrac disse...

Duas notas sobre o texto:

1. Parece-me que equacionar o medo da liberdade abre a porta para vislumbrar, no horizonte, a racionalidade existente na liberdade do medo...

2. «Reconhecer que todas e todos somos infinitamente diferentes e infinitamente iguais»: qualificiar o «ser», no sentido singular de pessoa, como detentor de características «infinitas», no contexto do presente artigo, parece-me ser uma contradição.

Carlos