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segunda-feira, 24 de maio de 2010

Como se apanham cerejas?

O tempo das cerejas aproxima-se. Sou nado e criado na terra delas, o nosso amado Jardim da Serra, zona alta do Conselho de Câmara de Lobos. Está plantado entre lombos, picos e vales que tocam o céu até às ribeiras que nascem aí e que escorrem até à baía de Câmara de Lobos. Para sul, estende-se até às encostas pintadas pelas multicolores vides que fazem do Estreito de Câmara de Lobos a sua principal característica na paisagem. Não sei dizer outras fronteiras para a Freguesia do Jardim da Serra, senão estas duas, lá no alto dos montes o céu e para baixo onde começa a outra Freguesia do Estreito de Câmara de Lobos. Porque de resto somos todos cidadãos de um mesmo lugar, o mundo. Já o disse o grande filósofo da antiguidade, Sócrates: «Não sou nem ateniense, nem grego, mas sim um cidadão do mundo».
Mas, vamos ao testemunho da apanha das cerejas. Antes de mais a cereja, não fossem as pessoas, é o produto mais importante da Freguesia do Jardim da Serra. Pelas encostas abaixo, nos pequenos vales e nos poios feitos a pulso pelo braço das gentes na conjugação da pedra, plantou-se no que a terra permitia primeiro as ginjeiras, que depois de enxertadas se convertem em cerejeiras, de onde se pode colher a deliciosa cereja. A cereja genuína da Madeira é miudinha ao contrário das cerejas importadas, que são grandes e às vezes muito belas, mas menos gostosas no paladar. A cereja regional é produzida em cerejeiras frondosas, muito altas e com muitos ramos, ao contrário das cerejas grandes que são produzidas em pequenas plantas e com menos anos de durabilidade.
Não tenho elementos científicos para afirmar isto, mas, penso, que a cereja regional, por ser mais sumarenta e mais deliciosa, deriva do facto de ter mãe pujante e mais profundidade na terra e estende-se pelo céu adentro. A natureza também tem os seus segredos para confeccionar as coisas boas.
Tendo em conta tais características da produção das cerejas, emerge daí as dificuldades para a sua colheita. Não podem ser vergastadas como as castanhas e as nozes, não se sabe de máquinas quer apuradas tecnologicamente ou artesanalmente para fazer a sua colheita. Só e unicamente as mãos, a ponta dos dedos indicadores, a coragem e a ausência de vertigens para estar nas alturas. É um trabalho moroso, delicado e minucioso porque as cerejas nascem com finos «pés» gémeos ou trigémeos. Assim, nem sempre amadurecem ao mesmo tempo, daí que seja necessário cortar um ou dois pés e deixar o restante para a próxima apanha. Esta atenção requer um certo cuidado. Será por isso que nem todos têm vontade e engenho para a apanha das cerejas. Uma maçada que se impõe só pela força imperiosa da sobrevivência. Porque a produção da cereja no Jardim da Serra não é propriamente um desporto, mas muito importante para o sustento de várias famílias. Também resta dizer que não passa um ano que não caiam pessoas das cerejeiras, porque se partem os ramos ou porque se desequilibram lá nas alturas, de onde derivam consequências trágicas para as famílias. Também não será necessário dizer que ao fim da campanha da colheita das cerejas, os pés das pessoas ficam inchados, cheios de gretas ensanguentadas. E as mãos ficam desgraçadas.
Perante este património, penso que será necessário preservar o mais que se puder esta característica do Jardim da Serra, não permitir a introdução em demasia de cerejeiras que desvirtuem a delícia das cerejas miudinhas, mas suculentas e saborosas, que já são típicas da nossa terra. E não seria de todo em vão tentar formas de apanha mais amigas para as pessoas. Este sim seria um grande bem e uma forma de fortalecer a produção das cerejas típicas da nossa terra.
Fico-me com este curto testemunho porque também foram muitos os anos que passei nesta safra e continua ainda a ser uma tarefa imprescindível anualmente de muitos membros da minha família.
Vamos, por isso, torcer para que este ano de 2010 a produção da cereja seja frutífero, embora, já saibam as pessoas que não será ano de muita abundância. Mas, do pouco sabe o nosso povo fazer o muito. Pedimos a Deus tempo moderado, sem chuva, porque, ela sim, é o pior inimigo das cerejas. E do nosso apetite também.
José Luís Rodrigues

2 comentários:

José Ângelo Gonçalves de Paulos disse...

Padre José Luís,que lindo texto sobre a "ceifa" das cerejas. Fruta que faz lembrar, nos tempos de criança, os arraiais de S.João da Ribeira pq, para além, do atum e das semilhas, as cerejas eram a sobremesa. Só que para mim eminha mulher que devorava-as mais do que eu, ambos diabéticos, não é o fruto mais indicado, para além, das bonitas diarreias que as cerejas provocam.

Mas gostei muito da antropologia dos cerejeiros, os quais carregavam aqueles cestos às costas e vinham a pé para a cidade vender. As ruas estavam todas avermelhadas com os bonitos cestos de cerejas até ao mercado dos Lavradores.Nos arraiais era um presença muito assídua.E comiam-nas crianças e adultos; homens e mulheres e até os padres ofíciantes das cerimónias religiosas tb comiam e os musicos das filarmónicas todos tinham na orelha um raminho de cerejas. É um fruto muito catita. Mas prestemos homenagem aos agricultores desse produto e faço votos que seja um ano em a chuva não prejudique a produção/produtor/comprador. E ficamos todos a ganhar.

tukakubana disse...

O seu texto Amigo, fez-me lembrar que eu e as minhas irmãs,às primeiras cerejas que apareciam em casa, corríamos para arranjar dois pares e pendurar nas orelhas-brincos comestíveis!
Agora discordo completamente quando diz que as cerejinhas madeirenses são mais gostosas e doces que as "kubanas". Há-as de tantas variedades, todas carnudas, sumarentas, doces, gulosas...