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quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Comentário à Missa do Próximo Domingo

Domingo XXI Tempo Comum
22 de Agosto de 2010
Haverá últimos que serão dos primeiros... Lc 13, 22-30
A salvação de Deus consiste em cumprir a Boa Nova que Jesus nos trouxe. Muitos pensarão que basta cumprir à risca todas as tradições e todos os costumes que nos ensinaram. Mas segundo as palavras de Jesus não parece ser esse o essencial para a vida. Não chega apenas ter todas as devoções cumpridas, muitas orações em depósito e muitas missas rezadas. Será antes mais importante conjugar a vida de oração com a vida quotidiana. Isto é, Jesus ensina que a salvação encontra-se na coragem e na capacidade que se mostra na prática da justiça.
Parece que Deus não aceita de modo nenhum a injustiça. A vida não se constrói na base da maldade contra os outros nem se edifica o bem quando vivemos na desconfiança em relação a tudo e a todos. A injustiça que nos fala o Evangelho é algo muito vasto, tem a ver com tudo o que não promove a Boa Nova do Reino e a salvação. Por isso, somos chamados a ser compreensivos com os outros e a saber perdoar sempre que necessário.
No tempo de Jesus muitos pensavam que pertencer ao judaísmo, seguindo as suas tradições e os seus preceitos, bastava para garantir a salvação. Uns defendiam que todo o povo judeu se salvaria e outros mais radicais consideravam que só os mais praticantes é que alcançariam a salvação. Neste contexto Lucas coloca na boca de Jesus uma outra visão sobre a salvação. Nada nos garante essa meta senão a prática do Reino de Deus. A porta do reino é estreita, devemos esforçar-nos por entrar nela. Mas não devemos pensar que esta porta está reservada apenas para nós. Pela boca de Jesus aprendemos que todos os povos do mundo poderão entrar por ela.
Deste modo, somos levados a considerar que não basta pensar que o facto de pertencermos a uma igreja, a um movimento religioso, a um partido envernizado de cristianismo já nos assegura a salvação. O mais importante para Deus está no esforço que fazemos para alcançar a salvação, que consiste em assumir o compromisso radical na prática do Reino de Deus e que a vontade de Deus requer a prática da justiça de forma afectiva sempre e em todos os momentos da vida.
A parábola da porta fechada é muito esclarecedora. A porta fechada refere-se ao banquete do Reino, onde estão reunidos os convidados à volta da mesa. Aqueles que se consideram mais amigos de Jesus, que conviveram com Ele, que ouviram as suas pregações (Eucaristia), que sempre se acharam muito obedientes à sua palavra batem à porta que se encontra fechada. Estes que crêem ter prioridade de acesso dirão: «Senhor, abre-nos a porta». São muitos os que pensam ter direitos adquiridos, porque se acham os mais santos e os mais fieis. Por isso, convenceram-se que tudo está garantido quanto à sua entrada no Reino de Deus. A resposta do interior é bastante contundente e nega qualquer possibilidade de entendimento: «Não sei de onde sois!» Mas os que se acham muito amigos de Jesus, porque comeram, beberam com Ele e ouviram as suas pregações (talvez seja uma alusão à eucaristia) acham que têm direito a entrar, mas a segunda resposta deixa muito claro que a técnica dos arranjos, das cunhas, dos «compadrios» e dos «jeitinhos» não entra no plano de Deus: «Repito-vos que não sei donde sois! Afastai-vos de Mim, vós todos que praticais a injustiça».
Os legalismos farisaicos, as nossas missas, encontros de reflexão e oração, reuniões de grupos, retiros, sermões, catequese, participação em movimentos... se não são acompanhados da prática da justiça, do amor e da compreensão em relação aos outros, de nada servem, e acabam contra nós: «não sei de onde sois! Afastai-vos de mim».
José Luís Rodrigues
É apresentada a imagem em: poemasencantos.blogspot.com

2 comentários:

José Ângelo Gonçalves de Paulos disse...

Padre José Luís, "nem só de pão vive o homem, mas de toda a Palavra..." não sei dizer o resto.
O que eu sei é que ateus , agnósticos e crentes, se a tal Justiça e Amor, não coabitarem e não fôr uma forma de vivência existêncial do ser humano todos vamos ser vítimas do dilúvio actual. O problema é que somos aprendizes do ter .O Mundo assim no-lo exige. Quem não tem vive amargurado por causa dos que tem muito .E isto, não é só devido a uma putativa alienação ou o tal "ópio do povo" que os marxistas-ateus atribuiram às religiões. Por outro lado, o materialismo de vida que grassa actualmente nas nossas sociedades é pior que os materialismos históricos e dialéctico. Dizia José Saramago desperdiçar tanto dinheiro para ir para outros planetas e enquanto aquele onde habita o homem está moribundo. Para que serviram essas tais conquistas?!!!"A porta é estreita a da alegria, a da felicidade, a das utopias ou eutopias.Mas as do sucesso e do salve-se-que-puder são largas.Estão escancaradas. O que podemos dizer é que no meio de tanto avanço tecnológico e científico sentimo-mnos todos perdidos com droga, alcoolismo, guerras,desemprego. Profundamente, aturdidos. YTalvez, uns momentos de Oração nos faça bem para os crentes; e de reflexão para os que não são.

tukakubana disse...

Concordo com o Ângelo.
Na verdade penso muitas vezes, e ao ver tantos "movimentos", "agrupamentos", "equipes" etc, que mais valia nos sentarmos, com humildade, na soleira da porta e...confiar!