Convite a quem nos visita

domingo, 31 de janeiro de 2010

Dois pesos - além das sandálias

Diocese do Funchal rejeita acusações do padre Jardim Moreira...
A diocese do Funchal rejeitou as acusações de alegada perseguição a um padre madeirense. O Presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza diz que o cónego da Sé Catedral da Madeira foi transferido para uma aldeia por ter alertado para a falta de apoio aos mais pobres da ilha. A diocese diz que o padre Jardim Moreira não sabe do que fala.
Lembram-se deste facto ainda muito recente?...
Agora vejamos outro caso vindo de fora, nestes dias:
Enquanto se mantiver uma “situação de rebeldia e de desobediência, o Bispo da Diocese não pode visitar a Paróquia da Ribeira Seca” porque esta “não está canonicamente regularizada” e em “comunhão” pastoral com a Igreja. A opinião é do Cónego João Seabra, especialista em Direito Canónico e membro do Tribunal Patriarcal de Lisboa....
Nota do autor do blog: as duas fotos e declarações acima, são de dois padres de «fora», dois «cubanos», por sinal, e as declarações que ambos fazem são também sobre de dois padres da Diocese do Funchal. Aqui estão as semelhanças.
Agora vejamos as diferenças. Os padres são distintos em tudo. As declarações são antagónicas de todo. Porém, o tratamento que levaram pelas vozes autorizadas do burgo madeirense, é também antagónico. Um foi mandado calar e meter-se na sua vida, porque não percebia nada de nada sobre a realidade da igreja da (Ma)madeira. O outro em títulos enormes proclamou no órgão oficial da igreja e do partido governamental aos quatros ventos, para os incautos da ilha, que sabe muito da nossa realidade e que é voz autorizada para dizer tudo o que entender sobre tudo, especialmente, da igreja da pérola do Atlântico. Este foi levado ao colo como o melhor doutor da lei. Ai o que Jesus disse no Evangelho sobre os tais doutores. Não é extraordinária a lei dos dois pesos e das duas medidas levada à prática neste caso?
Importa a meu ver dizer o seguinte: mais uma vez a minha amizade ao povo da Ribeira Seca, que mais uma vez foi enxovalhado e rotulado de rebelde e de desobiente na praça pública, por alguém que, isso sim, não sabe nada de nada da realidade da Madeira e, especialmente, do assunto chamado Ribeira Seca. Muita pena tenho eu que estes senhores não se lembrem que naquele lugar, chamado Ribeira Seca, existe um povo, que Deus ama e deseja salvar. Ou não acreditam nisto? - E como padecem alguns senhores, porque vão sempre «além das sandálias» (esta expressão significa, falar do que não se sabe...).

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Comentário à Missa do Próximo Domingo

Domingo IV - Tempo Comum
31 de Janeiro de 2010
A BOA NOVA
Podemos imaginar Jesus a chegar à sua terra, a terra da sua infância. Aí encontra os seus companheiros, os seus amigos, os familiares, os seus vizinhos, os seus conhecidos. Aqui em Nazaré todos o conhecem e sabem Ele de quem é filho. O seu pai é José.
Jesus está ficando famoso. Todos falam dele. Uns dizem que pronuncia palavras extraordinárias sobre um reino que se edificará sobre a sua pessoa, outros dirão que diz palavras estranhas porque não se compreendem, outros ainda afirmam que ele faz milagres e perdoa pecados. Ora, em Nazaré, porque sabem bem quem é Jesus, essas coisas não são olhadas com simpatia. E parece que destes que conhecem bem a pessoa de Jesus, os insultos não se farão esperar.
"Não é este o filho de José?" - que se arma em milagreiro e que diz ser o Messias filho de Deus? - Mas, afinal, não conhecemos bem esta pessoa? - Por aquilo que o texto do Evangelho testemunha, Jesus teve necessidade de se afastar dali, afirmando uma verdade terrível: "ninguém é profeta na sua terra..." Por essas e por outras expulsaram Jesus da cidade e levaram-no até ao cimo de uma colina para o deitarem dali abaixo.
Muitas vezes é difícil escutar as pessoas que vivem connosco. Parece que todos nós somos mais solícitos a escutar um estranho ou alguém que venha de fora do que alguém que conhecemos e com quem convivemos. Outras vezes só damos valor às palavras pronunciadas por pessoas que não sejam da nossa convivência.
Quantas vezes escutamos os pais queixarem-se que os seus filhos não escutam os seus conselhos ou não ouvem as suas palavras? Porque será que custa tanto acreditar nas pessoas que conhecemos? Ou porque será que os jovens mais depressa escutam os amigos e companheiros do que os seus pais e irmãos? - Não sabemos bem porque tal acontece. Porém, podemos ensaiar alguma explicação.
A tendência humana mais frequente, é para reconhecer desde logo que o que é de fora é que é bom. Não valorizamos o que somos e o que temos dentro da nossa casa. Quantos filhos só se dão conta que realmente amavam de verdade os seus pais só depois de eles terem morrido? E quantas coisas só são realmente importantes quando não as temos? A vida parece ser um pouco estranha e cada um de nós ainda mais estranho que a própria vida.
Mesmo que os nossos pedidos não aconteçam como desejamos será muito importante não desanimar. Porque o nosso círculo de vida não é o centro do mundo e não podemos fazer da nossa capela pessoal o lugar da procura de milagres. Se eles não acontecem como queremos recorremos às seitas, aos bruxedos e às magias disparatadas que nos extorquem dinheiro e tempo.
Quem pensa que Jesus é uma agência que despacha receitas, está muito enganado. Jesus é uma companhia que desafia para a verdade da vida e que nos desacomoda da superficialidade e banalidade da vidinha. A partir de Jesus o nosso coração torna-se grande e sempre aberto à novidade e a todos os outros. Neste caminho não há lugar para a intolerância e xenofobia, como muitos cristãos muitas vezes fazem vingar.
É muito importante que nos deixemos conduzir por este Jesus próximo, amigo e companheiro que vem à nossa terra, à nossa casa e à nossa vida para nos mostrar o caminho da eficácia salvadora. Para que cada cristão seja outro «Cristo», reflexo de todos os valores que Dele recebemos.
A nossa fé em Jesus reanima-se quando fazemos um esforço redobrado para reconstruir mais e melhor a nossa vida pessoal, aberta à felicidade de todos. Esta é a Boa Nova que Jesus nos oferece, vamos ser merecedores dela.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Futebol - Arte Sacra em campo

Quando David Beckham sobe aos relvados é mais do que um grande jogador que marca presença, é toda uma tela de arte sacra.
O fascínio dos jogadores de futebol pelas tatuagens já é bem conhecida, mas David Beckham, internacional inglês actualmente ao serviço do AC Milan tem a particularidade de ostentar tatuagens religiosas.
À imagem de um anjo da guarda, e de uma cruz alada, o jogador adicionou recentemente uma imagem ainda mais explícita. “Man of Sorrows” (Homem das Dores) foi a pintura que serviu de base para esta tatuagem, que mostra Cristo sentado sobre uma cruz deitada no chão, com as costas em sangue e a coroa de espinhos ainda sobre a cabeça. A imagem original é do artista católico inglês Matthew R. Brooks.
Mais discreta é a citação de O Cântico dos Canticos que o jogador partilha com a sua mulher Victoria, ex-membro das Spice Girls. Em hebraico pode ler-se “Eu sou do meu amado, e o meu amado é meu; ele apascenta o rebanho entre os lírios” (Cant. 6,3).
Beckham tem ainda várias outras tatuagens, incluindo o nome da sua mulher no alfabeto Hindi, e o dos seus três filhos, o mais novo dos quais nasceu em Espanha quando o jogador estava ao serviço do Real Madrid, e se chama Cruz.
Filipe d'Avillez, In Pastoral da Cultura

Igrejas vazias de gente - uma questão?

Será mesmo assim, como alguns sempre afirmam sem saberem? - Dizem com muita verdade: «os cães ladram e a caravana passa». Uma inscrição que se apresentava num matadouro dizia: «se guincho de porco chegasse ao céu, o porco era rei». Era bom que os patetas que dizem sempre a mesma coisa soubessem antes um bocadinho da realidade. Como será possível que o padre mais odiado da Madeira, o padre que celebra missas sem ninguém, tenha recolhido no fim de semana 16 e 17 de Janeiro cerca de 2.000 euros (dois mil euros) para o povo martirizado do Haiti? - Este valor já foi entregue à Igreja do Haiti, que está a fazer um trabalho extraordinário ao lado do seu povo sofredor. Gostei imenso de ouvir o pároco da Catedral falar aos seus fiéis com palavras de esperança e de consolo. O cenário das imagens, eram as ruínas da catedral que desmoronou por completo.
Agradeço imenso às pessoas que corresponderam ao meu apelo. Todos fizemos a Eucaristia viva, ao colocamo-nos ao lado de quem mais sofre neste momento. É uma gota de água perante um oceano imenso de necessidades, mas dizia a Santa Madre Teresa de Calcutá o seguinte: «O nosso bem é uma gota num oceano imenso, mas faltando essa gota o oceano ainda seria menor». Parabéns à minha família que são as duas comunidades paroquiais que sirvo com todo o amor que é possível Deus colocar no meu coração.
Pequena nota: Este valor em dinheiro não foi recolhido durante os habituais ofertórios das missas, mas no fim, à saída das pessoas. Como se faz isto se não saíam pessoas das igrejas fazias? - Parece um milagre ...

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Em Ano Sacerdotal…

Um bispo que incomodou Salazar
Não, desta vez não é de D. António Ferreira Gomes que vou falar.
No livro “A Igreja Católica e o Estado Novo em Moçambique”, encontrei duas afirmações que provocaram este texto:
1ª. - Em Portugal, raros são aqueles que sabem quem foi D. Sebastião Soares de Resende. Desconhecem a importância deste homem na História de Portugal e de Moçambique.
2ª.- A historiografia portuguesa nunca deu relevo algum a este homem, nem ao facto de o “Caso do primeiro bispo da Beira” ter tido, em termos internacionais, mais repercussões que o conhecidíssimo “Caso do bispo do Porto”, nem ao facto de ter sido um autêntico herói nacional.
Em “Ano Sacerdotal” é da mais elementar justiça evocar esta figura insigne do Clero do Porto, no aniversário da sua morte, ocorrida em 25 de Janeiro de 1967.
Natural de Milheiós de Poiares, Feira, D. Sebastião Soares de Resende foi sagrado Bispo na Sé do Porto em 15 de Agosto 1943. Logo em 8 de Dezembro tomou posse como primeiro bispo da Diocese da Beira, em Moçambique.
Um Profeta * No anúncio
Apóstolo da Palavra privilegiou a escrita, para o que criou o “Diário de Moçambique” (“Um jornal é mais importante que três ou quatro missões.”, dizia). Difundiu a Palavra, também, através da Rádio Pax. Logo na primeira das suas quinze pastorais, afirmou a sua preocupação. “Pretendia lutar por um conjunto de princípios e ia empenhar-se na resolução de graves problemas que assolavam a sociedade africana” (obra citada).
* Na denúncia
- “Impera na Beira a escravatura!”
- “ Querem o preto selvagem para continuar a ser animal de carga.”
* No prenúncio
- “ Haverá no futuro muito sangue a correr em África”.
- “Moçambique tem os seus direitos e uma vez que seja possível, deve tornar-se independente, com negros e brancos a governar”.
* No sofrimento.
O seu jornal foi suspenso por três vezes; todos os seus movimentos eram controlados pela PIDE e, em 1962, Salazar impediu a sua nomeação para Arcebispo de Lourenço Marques.
A sua voz teve grande repercussão internacional. Nos Estados Unidos, foi ouvida pelo Presidente Kennedy e pelo Arcebispo de Nova Iorque, Fulton Sheen. No Brasil, foi sócio correspondente da Academia de Letras. Fez dez intervenções directas no Vaticano II: “ Tratei da igualdade da pessoa humana, do amor para com os inimigos e da igualdade entre os homens”
Um Precursor
* Na democratização do ensino. Criou muitas escolas básicas. Introduziu o ensino secundário na Beira. Fundou escolas para professores, especialmente nativos. Lutou pela “ Universidade da África Portuguesa aberta igualmente a todas as raças e dotada de todas as faculdades”
* Na ida de missionários estrangeiros, ao arrepio da vontade de Salazar. Fizeram História os “Padres de Burgos” na denúncia dos massacres de Wiriyamu.
J. ALVES DIAS, in Voz-Portucalense de 20/01/10

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Paulo só se alegrava no amor de Cristo

Nota do autor do blog: hoje 25 de Janeiro é o dia da Conversão de S. Paulo. O texto que se segue é de S. João Crisóstomo. É extrordinária a visão que nos é apresentada do Apóstlo dos Gentios, serve para a nossa acção hoje, onde os tormentos não são menores em relação aos tempos do grande e corajoso São Paulo.
O que é o homem, quão grande é a dignidade da nossa natureza e de quanta virtude é capaz a criatura humana, Paulo o mostrou mais do que qualquer outro. Cada dia ele subia mais alto e aparecia mais ardente, cada dia lutava com energia sempre nova contra os perigos que lhe surgiam pela frente, de acordo com o que ele próprio afirmava: “Esqueço-me do que já passou e avanço para as coisas que estão à minha frente”.
No meio das insídias dos inimigos, conquistava contínuas vitórias, triunfando de todos os seus assaltos. E, em todo o lado, sofrendo pancadas, injúrias e maldições, como se fosse conduzido em cortejo triunfal, cumulado de troféus, nelas se gloriava e dava graças a Deus, dizendo: “Sejam dadas graças a Deus, que sempre triunfa em nós”.
Avançava ao encontro da humilhação e das ofensas que tinha de suportar por causa da pregação, com mais entusiasmo do que o que pomos nós em alcançar o prazer das honras; punha mais empenho na morte do que nós na vida; ansiava mais pela pobreza do que nós pelas riquezas; e desejava sempre mais o trabalho sem descanso do que nós o descanso depois do trabalho. Uma única coisa o assustava e lhe metia medo: ofender a Deus; e uma única coisa desejava: agradar sempre a Deus.
Só se alegrava no amor de Cristo, que era para ele o maior de todos os bens; com isto considerava-se o mais feliz de todos os homens; sem isto para nada lhe servia a amizade dos senhores e dos poderosos. Preferia ser o último com este amor, isto é, ser do número dos réprobos, do que encontrar-se no meio dos homens famosos pela consideração e pela honra, mas privado do amor de Cristo.
Para ele, o maior e único tormento era separar-se deste amor; esta era a sua geena, o seu único castigo, este o infinito e intolerável suplício.
Gozar do amor de Cristo era para ele a vida, o mundo, o anjo, o presente, o futuro, o reino, a promessa, enfim, todos os bens; e fora disto, em nada punha tristeza ou alegria. De tudo o que se pode ter neste mundo, nada lhe era agradável ou desagradável.
Desprezava todas as coisas que admiramos, como se despreza a erva apodrecida. Para ele, tanto os tiranos como as multidões enfurecidas eram como mosquitos.
Considerava como jogos de crianças os mil suplícios, os tormentos e a própria morte, contanto que pudesse sofrer alguma coisa por Cristo.
S. João Crisóstomo
Imagem: Paolo Uccello (C. 14359

sábado, 23 de janeiro de 2010

Um profeta chamado lei

A dimensão profética da nossa Igreja não está hoje centrada em pessoas, mas na dureza e frieza da lei. Inconcebível que não se escute a voz de um povo, que não prevaleça a vontade de um povo, só porque a lei dita outra coisa e os interesses mundanos de algumas pessoas da igreja falam mais alto.
Não se compreende que a comunidade paroquial da Ribeira Seca esteja ostracizada e votada à não comunhão, porque acolhe um padre «condenado» - que eles chamam de suspenso «ad divinis» (será que o Deus do amor e da misericórdia sabe e aprovou tal desejo de alguns homens, como nos fazem crer?; Não estará aqui uma clara, descarada e maldosa invocação do Santo nome de Deus em vão para fazer singrar pretensos interesses puramente mundanos?).
Vamos reter-nos no Evangelho de Cristo, onde está o Deus do acolhimento incondicional. Vamos restaurar a dimensão profética da nossa Igreja, que vem na senda dos profetas da Bíblia. Vamos tomar coragem perante os poderes do mundo. Vamos ousar pôr em prática o sonho de Deus, que deseja colocar à mesma mesa todos os seus filhos. Vamos ousar quebrar as amarras do passado. Vamos purificar as palavras e as titudes de qualquer resquício de farisaísmo. Vamos acabar com a paz de consciência baseada na dureza e na frieza de leis feitas à margem de Deus e antes ficar bem diante da vontade e da voz de Deus, que se expressa na vontade e na voz do nosso povo. Não se ensina e prega que a voz de Deus é a voz do povo?
Face a isto, ofereço o meu tempo e o meu carro para acompanhar o Sr. Bispo D. António Carrilho, para que vá à comunidade paroquial da Ribeira Seca, onde celebraremos com aquele povo amigo o banquete da Eucaristia. Aí bastaria dizer, «aqui estou com o coração aberto para encetar o caminho novo para o futuro e nada tenho que ver com o passado. Vamos adiante, porque vim para a Madeira para ser de todos sem ser de ninguém em particular».
Obviamente, que aqueles que alimentam esta guerra e que parecem estar bem próximo do prelado, não lhe perdoarão tamanha afronta, mas o que será esse não perdão perante o perdão imenso que nos oferece o nosso Deus. Antes odiado por todos, mas fiel a Deus e à missão que Ele nos confiou.
Por fim, vamos escutar São Tomás de Aquino neste extraordinário texto sobre a Eucaristia.
E ainda, a mim ninguém me cala e pauto a minha vida por este ideal: de joelhos diante de Deus, de pé diante dos homens. Sei que não sou original, mas também não queria sê-lo. Que o sonho da «unidade» nos anime na sabedoria da convivência com a diversidade dentro da nossa casa.
José Luís Rodrigues
«Jesus dá-Se completamente; dá o Seu corpo e o Seu sangue Os inúmeros dons com que o Senhor cumulou o povo cristão elevam-no a uma inestimável dignidade. Com efeito, não há nem nunca houve nação cujos deuses estivessem tão próximos do seu povo como o está o nosso Deus de nós (cf. Dt 4, 7). O Filho único de Deus, no desejo de nos tornar participantes da Sua divindade, assumiu a nossa natureza e fez-Se homem para que os homens se tornassem divinos. Tudo o que Ele nos tomou de empréstimo, pô-lo ao serviço da nossa salvação. Porque, para a nossa reconciliação, ofereceu o Seu corpo a Deus Pai no altar da cruz; e verteu o Seu sangue como resgate para nos libertar da nossa condição de escravos e para nos purificar de todos os nossos pecados pelo banho da regeneração.
A fim de que permaneça entre nós a memória constante de tão grande dom, deixou aos crentes o Seu corpo como alimento e o Seu sangue como bebida, nas espécies do pão e do vinho. Admirável e precioso festim que traz a salvação e a doçura plena! Poderíamos nós encontrar algo de mais precioso do que esta refeição, na qual não é a carne de vitelos, nem de cabras, mas o próprio Cristo, verdadeiro Deus, que nos é oferecido?»
In São Tomás de Aquino (1225-1274), teólogo dominicano e Doutor da Igreja Lições para a Festa do Corpo de Cristo (a partir da trad. de Orval).
Imagem: MNAA, Inv. 68 Pint. Proveniente do Mosteiro de Santa Maria da Vitória (Batalha) (Foto: José Pessoa).

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Comentário à Missa do próximo Domingo

Domingo III Tempo Comum
24 de Janeiro de 2010
A BOA NOVA DE JESUS
Jesus, na Sinagoga de Nazaré, perante a proclamação de Isaías, revela que veio para todos e que a sua acção mediante a força do Espírito Santo será sempre em favor do bem para todos. Porém, a Boa Nova que Ele anuncia é algo que vem ao encontro dos pobres e dos desprezados da sociedade. O Deus de Jesus, preferencialmente, é o Deus dos pobres, porque são eles que o reconhecem em primeiro lugar. Não têm amarras, como os ricos, que se amarram aos seus bens e à conta bancária, é esse o seu deus.
Este aspecto da atenção pelos pobres ou «opção preferencial pelos pobres» - expressão conciliar exorcizada pela Igreja actual, mais preocupada com as suas riquezas – revelar-se-á uma constante ao longo do Evangelho de Lucas. Porque, aos ricos Jesus exigirá um programa de vida que se pareça com a proposta do reino que Ele apresenta. E para Deus as riquezas materiais pouco ou nada contam.
A Boa Notícia, consiste na libertação de tantas situações. O sentido espiritual do Evangelho de Lucas é muito forte, mas a conotação com a vida social/concreta é também bastante evidente. O acolhimento da Boa Notícia permite sentir que a libertação e salvação de tantas situações menos dignas para a humanidade são, de facto, uma realidade: os presos são soltos, os cegos passam a ver, os oprimidos são libertos, a Boa Nova é anunciada aos pobres…
Jesus veio proclamar «o ano da graça». Em Israel, proclamar o ano da graça, significava que todos os que tinham dívidas recebiam o perdão das dívidas; todos os que tinham terras hipotecadas ou roubadas pelos poderosos, eram agora devolvidas aos seus legítimos donos; todo o povo começava uma vida nova porque a partilha dos bens voltava a regular as relações sociais.
A Boa Nova de Jesus, requer uma sociedade nova, um mundo novo, onde todos são irmãos. A Sua proposta não consiste apenas em Palavras ocas sem conteúdo salvador, em doutrinações frias que não levam a nada, em conceitos sem consistência real, em dogmas desumanos que não olham a cada realidade em si mesma, em documentos burocráticos que não servem a vida na sua autenticidade... Mas, consiste a Boa Nova de Jesus numa prática humana, religiosa e social que conduz as pessoas à posse da vida plena. Que o nosso coração se abra à revolução de Jesus.

Padre Manuel Dias (Aveiro)

É padre /presbítero da Igreja que está em Aveiro. Já não é pároco. Foi violentamente agredido na sua casa, à hora do telejornal de 16 de Janeiro 2010. Não foi um assalto. Foi um atentado.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

A torre de Babel chamada religião

Nestes dias que estamos a viver celebramos o Oitavário de Unidade dos Cristãos. Uma semana dedicada à oração pela unidade de todos os que confessam a sua fé em Cristo, mas que integram a sua fé em diferentes confissões religiosas.
O Papa João XXIII, constatava, convictamente, que “é muito mais forte aquilo que nos une do que aquilo que nos divide”. Era deste olhar sereno e generoso que irradiava esse profundo desejo. Ou melhor ainda, seria a voz de Deus que se fazia ouvir no coração da história como expressão última de uma vontade incontornável.
Não basta desejar a união. Não chega inquietar-se com a separação e considerar que quem comunga de outros símbolos e sinais para alimento da sua fé no “Deus escondido”, irmãos desavindos ou rebeldes. João Paulo II, na notável Encíclica “Ut Unun Sint”, sobre o Ecumenismo, considera que “do amor nasce o desejo de unidade” – e continua o Papa – “O amor é a corrente mais profunda que dá vida e infunde vigor ao processo que leva à unidade” (nº 21).
A unidade é o mesmo que caridade. Porque a fonte desta causa radica numa pessoa, Jesus Cristo, que constantemente faz apelo ao nosso coração para essa disponibilidade essencial que conduz à paz e à fraternidade entre todos. Caso contrário, emerge em cada um, uma torre chamada Babel.
A humanidade será tanto mais humana quanto mais souber, corajosamente, encetar caminhos de amor na multiplicidade e diversidade de perspectivas e maneiras de ver e pensar as coisas da fé e da vida. O desafio de Cristo é insistente e deve calar no fundo dos corações que se abrem às possibilidades da unidade: “ Para que todos sejam um, como Tu, Pai, e Eu em Ti; para que sejam um em Nós, a fim de que o mundo creia que Tu Me enviaste” (Jo 17, 21). É o mesmo Senhor que nos ensina a sermos ousados e corajosos e, ao mesmo tempo, humildes e generosos.
Não esqueço também as palavras do professor Borges de Pinho (Faculdade de Teologia da UCP), que dizia assim: “Os caminhos da interdisciplinariedade são muitos, as vias de realização são muitas, mas existe algo em que podemos convergir: estamos todos interessados na autêntica busca do humano que é encontrado em plenitude no horizonte de Deus, sabendo que Deus só é encontrado no humano”.
Estas palavras falam por si, não necessitam de interpretações. A via ecuménica só pode seguir o horizonte do homem. De outra forma nega a verdade e trai o desígnio do próprio Deus. E é importante não esquecer que “é humano! Somos todos semelhantes e todos diferentes”, lembra o Dalai Lama, no livro “A Força do Budismo”.
Para esta Semana da Unidade que estamos vivendo surge com vigor a seguinte frase de Jesus: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14, 6). É uma belíssima expressão de Jesus que nos chama para esta tridimensão da sua pessoa. A unidade dos cristãos só pode assentar sobre esse patamar de verdade, caminho e vida, que é a pessoa de Jesus Cristo.
A confrontação com o vazio, com o nada, o demoníaco, o inumano, o animalesco, tudo o que se apresenta à vida de extremos e dramático foram as grandes criações do espírito humano, pois, nessas condições terríficas, o homem soube afirmar sim à vida, tendo encontrado sempre uma significação e um sentido para a sua existência. As trevas nunca foram uma derrota irreversível, mas um caminho ou um meio que impelia para a porta da luz e da esperança. É nessas vias difíceis que a vida bebeu a luz salvadora, a única que permite construir percursos de paz e amor para toda a humanidade. Há um verso de Byron que proclama; “rápidos correm os ventos”. É o que sentimos sobre o desejo da unidade entre todos, através do amor, da fraternidade, do respeito e da comunhão, que vividos com a verdade contagiam mundos e fundos sem deixar de abanar profundamente as nossas comodidades. São esses “ventos que correm” que abanam tudo o que se alicerçou nas vias consideradas únicas, fechadas, sem saída e sem sentido salvador. É preciso, é urgente proclamar essa esperança que irrompe do desejo de Deus. Cabe-nos mediar o sopro do Espírito de Deus que de forma obscura emerge amorosamente no coração da história do mundo. E também no coração de cada pessoa humana.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

A sua última missão foi no Haiti

1934-2010 Zilda Arns
O discurso, escrito em espanhol, nunca chegou a ser proferido. Zilda Arns morreu antes, no terramoto que atingiu o Haiti, nos escombros de uma igreja em Port au Prince onde faria a palestra. Morreu em missão, fazendo o que gostava, defendendo o direito à vida e à dignidade humana.
Eram estas algumas das suas palavras pensadas para o dia 13 de Janeiro: "A paz é uma conquista colectiva. E tem lugar quando impulsionamos as pessoas, quando promovemos valores culturais e éticos, as atitudes e práticas que buscam o bem comum, que aprendemos com o Mestre Jesus: "Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância." (Jn 10,10).
Zilda era uma mulher grande, altiva, generosa. Acostumou-se a pisar a lama das periferias, a enfrentar o sol inclemente do sertão, a caminhar por favelas violentas, sempre com um sorriso largo no rosto e uma alegria contagiante. Levava aos mais pobres um bem capaz de mudar os seus destinos: a educação.
"Por trás das nuvens há sempre o sol", costumava repetir aos que insistiam em ver apenas a miséria e a desesperança.
Zilda Arns Neumann nasceu em 1934, em Santa Catarina, estado do Sul do Brasil, numa região de imigrantes alemães. Irmã de dois padres e três freiras, nunca quis ser religiosa, mas desde muito cedo acalentou o sonho de se tornar missionária católica. Escolheu a Medicina, aos 15 anos, como instrumento da missão a que se propôs. Porém, foi só depois de criar cinco filhos e enviuvar que Zilda começou a realizar o seu sonho de adolescência.
"Deus deu uma volta enorme, mas estou chegando lá", declarou em 1999, ao relembrar os anos dedicados à família, antes de poder lançar-se integralmente nas acções missionárias.
A grande obra de Zilda Arns começou a nascer em 1982, em Genebra, na Suíça, num encontro informal entre o então secretário executivo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), James Grant, e o cardeal arcebispo de São Paulo, D. Paulo Evaristo Arns, irmão da médica. O representante da Unicef sugeriu a D. Paulo que a Igreja desenvolvesse acções para reverter a situação de miséria e de mortalidade infantil no Brasil.
No regresso da viagem, D. Paulo apresentou o desafio à irmã Zilda. Ela elaborou o projecto que, em 1983, se transformou na Pastoral da Criança, estando ela própria à frente de um batalhão de voluntários. O grande objectivo era ensinar às mães pobres como cuidar de seus filhos, com lições básicas de saúde e nutrição: não deixar de vacinar as crianças contra doenças como o tétano e a difteria; ferver a água antes de bebê-la; dar vários banhos frios aos mais pequenos em dias muito quentes; acrescentar uma colher de uma mistura de farelos e grãos aos alimentos para combater a desnutrição. Ensinamentos simples, que poderiam significar a diferença entre a vida e a morte. Mas a grande revolução era o soro caseiro: a mistura simples de água, sal e açúcar, que salvou milhares de crianças, vítimas de diarreia e desidratação.
Zilda levou a primeira acção da Pastoral da Criança à cidade de Florestópolis, no Paraná, onde o índice de mortalidade infantil, na época, era de 127 mortes em cada mil crianças nascidas vivas. Após um ano de acção solidária da Pastoral, o índice recuou para 28 mortes por mil nascimentos. O sucesso incentivou a Igreja Católica a expandir a Pastoral da Criança para todos os estados do país.
Em 2001, a Pastoral da Criança registou uma taxa de mortalidade infantil, nas comunidades onde actua, inferior a 13 mortes para cada mil crianças. Uma resultado surpreendente, considerando que a média nacional de mortalidade infantil era de 34,6 óbitos, segundo a Unicef. Zilda Arns creditava o sucesso da Pastoral da Criança a milhares de voluntários, que levam adiante as acções de educação, saúde e cidadania a mais de 32 mil comunidades em bolsas de pobreza. Dizia que nem sempre é preciso um médico para garantir a saúde de um povo, à medida que as famílias ganham autonomia e aprendem a prevenir as doenças. A fórmula sempre foi usar a simplicidade para multiplicar o saber.
Cantando o soro
Zilda Arns multiplicou o seu saber pelo mundo. Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Timor-Leste, Filipinas, Paraguai, Peru, Bolívia, Venezuela, Argentina, Chile, Colômbia, Uruguai, Equador e México são apenas alguns países onde a Pastoral foi implantada com sucesso. A própria médica ministrava os cursos e ajudava pessoalmente a estruturar as acções, unindo credos e raças.
Na Guiné-Bissau, de maioria islâmica, Zilda Arns comoveu-se ao ver líderes muçulmanos envolvidos no projecto, cantando à maneira deles a receita do soro caseiro, que salvou milhares de crianças da desidratação. Em Angola, começou o trabalho, em 1987, com apenas 17 mulheres voluntárias. Hoje, só no Porto do Lobito, de onde eram enviados escravos para o Brasil, existem mais de 800 líderes comunitários trabalhando com crianças e grávidas pobres. Depois de 25 anos de guerra civil, Angola não tinha sequer recolha de lixo, e a Pastoral da Criança dava o exemplo, separando o que poderia ser reaproveitado e ensinando a enterrar o restante. Zilda sempre fez questão de lembrar que a acção da Pastoral ia além da saúde física de crianças e grávidas. Era também missão espiritual, de paz e harmonia para famílias e povos. Por isso, levou a experiência brasileira para tantos países devastados por guerras e misérias, como Timor-Leste e Moçambique.
No dia 13, mais uma vez, ia promover a multiplicação do saber, num encontro de religiosos e leigos, num Haiti sofrido e miserável.
Por Denise Sobrinho, Rio de Janeiro, in Público 16/01/2010

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos

De 18 a 25 de Janeiro celebramos a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, unidade na diversidade das nossas expressões para confessar a mesma fé em Cristo Jesus, Nosso Senhor. Porque unidade não é uniformidade, todas as Igrejas Cristãs são as muitas moradas que fazem parte da casa de Deus. Moradas de diálogo que desejamos, de harmonia e entendimento, de criatividade e respeito pelas variadas faces de todos os que somos Povo de Deus, em Jesus Cristo. Ao forte sopro do Espírito Santo desencadeado pelo Concílio Vaticano II devemos nós, católicos apostólicos romanos, um novo olhar de abertura, admiração, fértil curiosidade em face das diferenças que tanto nos unem. Nestes tempos conturbados de inquietação, discórdia, desentendimento, rezemos pela alegria da fé que nos une, muito além do tanto que parece separar-nos.
In Movimento Nós Somos Igreja

Isto está bom... Está!

«No início de um novo ano, passadas as festas natalícias, reencontramo-nos com os problemas que entretanto tinham ficado esquecidos ou, pelo menos aparentemente, estavam em suspenso. Assim, no quadro dos resultados das últimas eleições, há quem tema a instabilidade e mesmo a ingovernabilidade do país. Está aí, ameaçador, o défice das contas públicas. A dívida externa, ouço de quem sabe, pode tornar-se incomportável. E lembram a Grécia.
Há declarações temíveis de especialistas insuspeitos: a Justiça estava melhor no tempo do anterior regime. Ora, quando a Justiça não é eficaz nem célere, é de temer o pior. É insuportável o clima de desconfiança e suspeição reinante. Há corrupção, activa e passiva, e o sentimento de uma democracia triste e impotente.
Causa justa satisfação reconhecer nichos de excelência no domínio da investigação e do ensino. Mas quem, responsavelmente, se atreverá a dizer que é globalmente boa a situação da educação?
Os números do desemprego sobem assustadoramente, e ninguém sabe quando começarão a cair. O abismo entre os muito ricos e os muito pobres é intolerável, e é arrepiante saber que há milhares de idosos a passar abandono e fome e à espera de um lugar num lar do Estado. É por simples alarmismo que se deve advertir para o perigo de um tsunami social?»
in por ANSELMO BORGES, Jonas e Cassandra, Diário de Notícias de Lisboa 17 de Janeiro 2010
Nota do autor do blog: O título é nosso.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Um símbolo que resta

Um símbolo: o que resta da catedral de Port au Prince...
Já quando foi do atentado às torres Gémeas houve uma pequena capela nas imediações que escapou incólume. Chega-nos agora a informação e a imagem do que restou da Catedral de Port-au-Prince, sabendo que o Cardeal morreu no sismo, vários sacerdotes e, como se isto não bastasse, 200 seminaristas e os sacerdotes que os acompanhavam num seminário dos Salesianos. Tanto quanto conheço, hoje, 16 de Janeiro de 2010, ainda se encontram soterrados debaixo dos escombros do Seminário que ruiu.
Que mais sinais precisa Deus de mandar para dizer que ELE é preciso na sociedade? Juntamente com os corpos de tantos Haitianos ainda soterrados Cristo, aí está, preso à cruz, de braços abertos, como que a querer dizer: Tende Fé! Eu também aqui estou e partilho convosco do vosso sofrimento.
Com um abraço fraterno do
Pe. Aloisio

A Justiça tem destas coisas

in Publicada por madeira4evernews
Sentença verídica de 1487 - Trancoso, PortugalArquivo Nacional da Torre do TomboSENTENÇA PROFERIDA EM 1487 NO PROCESSO CONTRA O PRIOR DE TRANCOSO(Autos arquivados na Torre do Tombo, armário 5, maço 7)"Padre Francisco da Costa, prior de Trancoso, de idade de sessenta e dois anos, será degredado de suas ordens e arrastado pelas ruas públicas nos rabos dos cavalos, esquartejado o seu corpo e postos os quartos, cabeça e mãos em diferentes distritos, pelo crime que foi arguido e que ele mesmo não contrariou, sendo acusado de ter dormido com vinte e nove afilhadas e tendo delas noventa e sete filhas e trinta e sete filhos; de cinco irmãs teve dezoito filhas; de nove comadres trinta e oito filhos e dezoito filhas; de sete amas teve vinte e nove filhos e cinco filhas; de duas escravas teve vinte e um filhos e sete filhas; dormiu com uma tia, chamada Ana da Cunha, de quem teve três filhas, da própria mãe teve dois filhos. Total: duzentos e noventa e nove, sendo duzentos e catorze do sexo feminino e oitenta e cinco do sexo masculino, tendo concebido em cinquenta e três mulheres".
[agora vem o melhor:]
"El-Rei D. João II lhe perdoou a morte e o mandou por em liberdade aos dezassete dias do mês de Março de 1487, com o fundamento de ajudar a povoar aquela região da Beira Alta, tão despovoada ao tempo e guardar no Real Arquivo esta sentença, devassa e mais papéis que formaram o processo". in http://madeira4evernews.blogspot.com/search?updated-min=2010-01-01T00%3A00%3A00-08%3A00&updated-max=2011-01-01T00%3A00%3A00-08%3A00&max-results=14

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Paz e amor para Ricardo Araújo Pereira

“O ateísmo tem sido, para mim e para tantos outros incréus, a luz que me tem conduzido na vida. Às vezes fraquejo, em momentos de obscuridade e de dúvida, mas, mesmo não sendo capaz de provar a inexistência de Deus, tenho conseguido manter a fé – uma fé íntima fundada numa peregrinação que tem a grandeza e a humildade da longa caminhada da vida – em que Ele não exista”. Fiquei a pensar nestas palavras de Ricardo Araújo Pereira, lidas na Visão de 31/12/2009 (intitulavam-se “Paz e amor para todos menos para mim”), onde ele descosia, com cordialidade e combate, a homilia de Natal do Patriarca. À irresistível trepidação hilariante, que pontua a construção dos seus textos, junta-se aquilo que mostra, talvez ainda melhor, como Ricardo Araújo Pereira é simplesmente um grande escritor: o modo como se expõe e nos expõe, numa archeologia ad usum animae.
O pretexto de que parte é que “D. José Policarpo [na dita homilia de Natal] saudou os judeus e todos os que acreditam num Deus único – mas, ostensivamente, não me saudou a mim, que sou ateu”. Não se intenta propriamente uma animosidade com o Cardeal, cujo magistério, diga-se, se destaca no diálogo inteligente e sempre buscado com os não-crentes (recorde-se o livro de cartas trocadas com Eduardo Prado Coelho). O ponto, se entendi bem, é a solidão e a dor por não-crer, absolutamente reversíveis (e era isto que queria dizer a Ricardo Araújo Pereira) com a solidão e a dor de crer. Crer também é difícil. Os crentes, colocados perante o indecifrável alfabeto de Deus, dizem como Job: «chamo por Ti e não me respondes». Desde Abraão, Moisés, David, Coeleth, a Bíblia parece mais uma conferência de existencialistas incorrigíveis do que um grémio de convictos vendedores de seguros. Um cristão, por ter ouvido a prece de Jesus na Cruz (“Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste”), sabe-se chamado, sem facilitações nem ilusões, a viver a paixão do encontro com Deus na fragilidade e no abandono. O problema não é, portanto, a ausência de Deus (pois ela, encarada pela positiva ou pela negativa, nos veste a todos). O problema é aquilo que o filósofo Martin Heidegger assinala: «a verdadeira pobreza do mundo é não sentir a ausência de Deus como ausência».
José Tolentino Mendonça, Site Pastoral da Cultura

Um raro sentido de inoportunidade

“Existem males maiores do que os que esses pobres do Haiti estão a sofrer estes dias”. Quem o diz é o bispo de San Sebastian, José Ignacio Munilla, que julga que “também deveríamos chorar por nós, pela nossa pobre situação espiritual, pela nossa concepção materialista de vida”. Numa entrevista concedida à Cadena SER, que pode ser escutada aqui, as bizarras afirmações prosseguiram com o bispo a afirmar: “Quiçá é um mal maior o que nós estamos padecendo do que aquele que esses inocentes também estão sofrendo”.Não é preciso ter lido Carlo M. Cipolla, por exemplo, para perceber o quão as afirmações do bispo representam um eloquente exemplo de estupidez humana.
Uma sugestão
A quem assim o entender, fica uma sugestão, relacionada com o post anterior (Um raro sentido de inoportunidade): ir ao site da diocese de San Sebastian (http://www.elizagipuzkoa.org) e abrir o "Escríbenos". Pode escrever aí um texto como este (ou outro), que acabei de enviar ao bispo. Quem copiar este texto, deve ter atenção e COLOCAR A SUA ASSINATURA no final (e cortar os parêntesis). Há momentos em que a indignação tem que ser dita a esta gente.
Sugestão de texto:
Al obispo José Ignacio Munilla quiero decir, como cristiano y católico que soy, que lamento profundamente sus declaraciones a propósito de Haiti; son declaraciones que insultan a Jesucristo, pues la pobre gente de Haiti sufre la Pasión que Jesucristo ha sofrido. Es lamentable que este señor hable en nombre de la iglesia de Jesucristo, que ha tenido toda la misericordia para todos los que sufrian. Son personas como este obispo que hacen que cada dia haya mas gente a quien no le gusta la Iglesia, porque esta (estas) persona(s) se preocupa(n) más con reglas morales y proibiciones, que con hacer felices las personas, creadas a la imagen y semejanza de Dios. Rezo por usted, obispo Munilla, para que se convierta a Jesus.
[ASSINATURA] (esperando que el message sea entregue ao obispo)

Postado por António Marujo In http://religionline.blogspot.com/2010/01/um-raro-sentido-de-inoportunidade.html

Nota da Redação: Palavras para quê. São inqualificáveis as palavras deste bispo. Concordo totalmente com este repúdio, encabeçado por António Marujo, jornalista do Público. Agora percebo melhor a grande contestação que recebeu este bispo quando entrou nesta diocese. Já enviei o texto sugestão muito bem assinado por baixo com a esperança que chegue às mãos do bispo de San Sebastian, José Ignacio Munilla. Convido-vos também a fazerem o mesmo, não podemos calar perante a estupidez e a inoportunidade de gente que devia ser mais responsável... Muitas vezes, os principais responsáveis do afastamento da Igreja, estão dentro da própria Igreja e são aos «montes» as pessoas que têm más experiências com figuras da Igreja que deviam ser a imagem viva do amor e da misericórdia de Deus. Mas, quais funcionários do sagrado, falam e actuam sem bom senso contra a pessoa para em nome de leis absurdas e da vontade de Deus criada à sua imagem, cometerem as piores atrocidades. Este caso do bispo de San Sebastian, foi apenas um exemplo entre imensos que povoam a «nossa» Igreja.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Comentário à Missa do Próximo Domingo

Domingo II Tempo Comum
17 de Janeiro de 2009
O Banquete
É das metáforas mais belas que a Bíblia nos apresenta, os Evangelhos tomam essa ideia e com Jesus apresentam-na como sendo muito importante para compreender de Deus e o ambiente que rodeia a Sua casa.
O banquete, é a festa que Deus oferece. Nos funerais gosto de pegar nesta ideia e apresentar o caminho da morte, como a hora que Deus nos oferece para irmos ao encontro do comensal que Ele preparou. Por isso, para nós cristãos, a morte é um momento de graça, também um dom, que Deus nos dá, para enfrentar com coragem e esperança, porque sabemos ir ao encontro da festa de Deus. A melhor comida e a melhor bebida, é aquela que se serve com amor, o melhor condimento do banquete. Só Deus, que se define como amor em plenitude pode servir o melhor comensal.
A vida, aqui e agora devia ser uma festa, mas o egoísmo, o ódio, o rancor e a propensão para o mal comanda o coração da humanidade. Mas, deixemos que o nosso interior nos anime na esperança e sonhemos com a festa, o banquete que Deus prepara para todos os povos, como nos ensina Isaías. Seria uma felicidade para todos nós, que soubemos fazer da vida uma festa, onde serviríamos o melhor que temos. O nosso mundo precisa deste ideal e está nas mãos dos cristãos apresentá-lo.
Pensamento: «No Haiti, milhares de pessoas vivem hoje com os corações dilacerados. Quando a Humanidade é confrontada com desastres naturais imprevisíveis e incontroláveis, surgem muitas perguntas. Mas a mais premente é aquela que nos interroga sobre a gestão dos bens públicos: só o gasto com os arsenais militares convencionais, em todo o mundo, é de 3 mil milhões de dólares, por dia. Assim, torna-se mais difícil existirem financiamentos e meios de socorro suficientes e eficazes nestes momentos de catástrofes». In grão de mostarda

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

A religião do sentimento

Sentimentos, emoções e imediatismo fazem parte da religiosidade. Mas… O que será isso diante do transcendente, para onde deve apontar toda a religiosidade séria.
Mas, actualmente estamos a viver uma religiosidade que se reduz a um sentimentalismo perigoso que apela à satisfação das emoções mais imediatas e nada mais fica ou compromete para além do momento. Aquele momento do «foi bonito», até mais uma próxima vez onde irei satisfazer o ego com o verbo encher. É a religião reduzida ao pacote com a data de prazo bem definida.
Antes de mais convém salientar, que diante deste sentimentalismo que varre a Igreja Católica de alto a baixo, alguns momentos, do Papa Bento XVI, nomeadamente, algumas intervenções nalguns fóruns mundiais. O texto para o dia mundial da paz de 2010, é fabuloso. Pena que no interior da Igreja poucos o leiam e o levem a sério. Destaco, entre nós, a figura do bispo do Porto D. Manuel Clemente, que recentemente foi galardoado com o prestigiado prémio Pessoa. Estamos perante um homem «culto e inteligentíssimo», assim o definiu o Pe Tolentino Mendonça. O prémio Pessoa de 2009, atribuído a D. Manuel Clemente, revela que estamos perante um oásis no panorama episcopal português.
Está na moda a religiosidade sentimental, imediatista ou baseada nas emoções. Esta é a acção pastoral da maior parte das igrejas cristãs e católicas de modo especial. A crise geral da Igreja, que teme fazer reformas profundas, urgentes e necessárias para que a Igreja tenha resposta eficaz para entrar em diálogo com o mundo actual, puxa as pessoas da Igreja de hoje para a promoção de iniciativas que mobilizem algum público.
As nossas «Missas do Parto», não se tornaram famosas ou simpáticas pela mensagem para a vida que transmitem, mas pela diversão, pelos comes e bebes que se oferecem nos adros das igrejas. É o sentimentalismo no seu melhor. O bailarico move multidões neste caso, felizmente, no ano passado o mau tempo não permitiu tanta diversão ao ar livre e obrigou que mais alguns entrassem nas igrejas. Não quero com isto descurar as pessoas que sempre participam nestas celebrações, que a elas aderem pela fé e que dessa forma melhor pretendem celebrar o Natal.
Outro aspecto, que mobiliza multidões e que alimenta o ego de muita gente, é Nossa Senhora. Iludir-se com muita gente que as imagens e celebrações com Maria – (onde está Maria de Nazaré, a Mãe de Jesus, lembram-se?) – mobilizam, é um puro engano. Não representa renovação da Igreja nem muito menos significa mais e melhor compromisso na vida da Igreja e do mundo.
É curioso que nos primeiros séculos do Cristianismo - e os Apóstolos foram pioneiros – houve a proibição do culto mariano. Não se falava em «Nossa Senhora», mas em Maria de Nazaré, para evitar o risco de se endeusar Maria ou com isso levar à irrelevância o essencial, que é Jesus Cristo, como Filho de Deus, o que verdadeiramente importa no Cristianismo.
Actualmente, recorre-se a «Nossa Senhora» e, de modo especial, as imagens que se veneram nos grandes Santuários Marianos, para mostrar algum peso e presença da Igreja no mundo de hoje. Este caminho, aparentemente, sabe bem, enche o ego e deixa satisfeita alguma igreja, mas para o futuro e em termos de compromisso de todos e de cada um na vida da Igreja e do mundo, redunda em nada. Porque tudo é vivido emotivamente, o momento e a situação de vida de cada um (uma doença, um conflito familiar, uma desgraça qualquer, a falta de trabalho e etc.), é o que conta, por isso, recorre-se a «Nossa Senhora», ora para agradecer, ora para pedir. Estamos perante uma moda, um sentimento, uma emoção que deixa pouco ou nada de mensagem sobre Jesus Cristo e o Seu Evangelho.
Em tempos de crise, facilmente se cai no sentimentalismo. Porém, seria necessário que a Igreja mais responsável – permitam-me que fale deste modo – não se deixasse embarcar nem iludir pela grande mobilização que tal caminho gera. E quando o ego de alguma igreja se satisfaz com esta religiosidade, estamos muito mal, porque é sinal que a crise ainda é mais forte do que antes se pensava. Por isso, requer-se coragem para que se trave todo o sentimentalismo que varre a Igreja de alto a baixo, mesmo que daí advenham alguns dissabores desagradáveis.
A título de exemplo, para fazer pensar, conta-se que no século XIX, um bispo do Funchal chegou a proibir as Missas do Parto. Porque será que tal aconteceu? – Penso que todos já sabem a resposta. Dá que pensar uma decisão tão radical…

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Comentário à Missa do Próximo Domingo

“O Céu abriu-se e o Espírito Santo desceu sobre Ele em forma corporal, como uma pomba.” Lc 16, 21
Baptismo do Senhor - Ressuscitar cada dia
10 de Janeiro 2010
Arrumamos com cuidado o presépio, assinalamos na agenda as datas especiais e aniversários, preparamos a mente e o coração para os dias de crise que todos prevêem. Do Jesus menino adorado pelos Magos saltamos com Ele para as águas do Jordão em que é baptizado. Como quase todos nós, ainda mal entrados na vida, logo a ser mergulhados na abundância de um amor imenso. E tantas vezes julgamos que isso foi há tanto tempo! Que do baptismo apenas ficaram as fotografias, a vela e o vestido!
E contudo o nosso baptismo, longe de qualquer ideia de magia, é um dinamismo de vida constante. Interpela a autenticidade do nosso viver, a grandeza dos nossos sonhos, a coragem nas dificuldades. Creio mesmo que é a sua força que nos leva a ressuscitar cada dia, como diz José Carlos Bermejo: “Cada vez que nos ‘pomos em pé’, ressuscitamos. Cada vez que conseguimos que triunfe a vida e o amor sobre qualquer forma de morte e li-mite humano, apostamos e experimentamos a ressurreição.”
Uma das mais profundas experiências de ressuscitar é a do perdão. Jesus é indicado por João Baptista como o Cordeiro que tira os pecados do mundo. Quer dizer, Aquele que perdoa! O que dá a possibilidade de curar as feridas, de reconstruir o que parecia condenado à morte, de manifestar a beleza, não de quem é perfeito, mas de quem pode aprender com os erros. Claro que o perdão é um longo caminho, e também passa pela morte, que o banho baptismal simboliza. A morte do orgulho e do egoísmo, a morte da auto-suficiência e das aparências, a morte dos limites postos ao amor e dos sonhos que não vão mais longe! E toda a morte dói muito!
Sim, em pequenos e grandes gestos somos capazes de morte, mas Jesus também nos vem confirmar que somos capazes de ressurreição. “Nascer de novo”, pela água e pelo Espírito, como escuta, no meio da noite, Nicodemos, não é algo distante de cada um de nós.
Agora chegou o momento de desperta da Noite do Natal e encetar pelo Ano Novo fora atitudes que promovam o bem para todos. Basta querer, porque, querer é poder.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Para além do conhecimento

Pastoral da Cultura
Como anunciar Deus hoje? O que dizer sobre Ele de maneira original? Não se trata de repetir o que os outros já disseram, mas de encontrar, no interior de percursos já testados, novos itinerários para Deus, tendo em conta as objecções e as dificuldades dos últimos séculos.
Assim, há a estrada da razão amiga de fé. A faculdade que nos permite procurar Deus é a razão; não a razão instrumental, que torna os seres humanos mais inteligentes do que as outras criaturas, mas a faculdade que permite reconhecer um projecto que precede a pessoa. Acreditar que Deus existe significa que Ele não é uma ideia nossa, mas que nós somos uma ideia sua. Significa inverter a perspectiva. Trata-se de uma razão que é capaz de ir além do físico e do experimental, que é capaz de ampliar o seu espaço cognoscitivo, mesmo com a ajuda da fé. Permanece válida a dupla ordem do conhecimento, juntando a razão e a fé. Estas duas fontes de conhecimento oferecem sempre a possibilidade de novos itinerários.
Há, depois, a estrada cosmológica, percorrida por muitos cientistas, que é um convite a reformular a fé em Deus; o cosmos e o ambiente postulam uma interrogação: Deus está na origem ou no exterior de tudo? A resposta adequada nasce do encontro entre as ciências naturais e a filosofia metafísica. Nasce do reconhecimento da capacidade da razão em captar algo mais do que a simples matéria.
Há o caminho da beleza, desenvolvido pela arte, literatura, música e tudo o que o génio humano concebeu e realizou. Nesta dimensão é central o encontro com o rosto de Deus, revelado em Jesus Cristo, encontro plenamente possível mediante a arte. Chegar a Deus através do rosto. O mistério da Encarnação abre a estrada para compreender que Deus não está confinado à sua transcendência, à sua distância, mas faz-se homem para ensinar ao homem o caminho para tornar-se Deus. O cristianismo não é um itinerário que parte da pessoa e chega a Deus, mas o oposto. Deus vai ao encontro do homem para compartilhar tudo: o sofrimento e a alegria, a glória e a fadiga. Tudo é representado através da arte para introduzir a presença de Deus e para explicar o homem ao homem.
Uma quarta estrada para falar de Deus é a que tem sido percorrida ao longo dos milénios pelas religiões monoteístas, através dos seus cultos. Negligenciar esta dimensão significaria renunciar a uma parte da pessoa. O rito, ainda que celebrado de maneiras diferentes, tem como constante conferir à procura de Deus um elemento característico relacionado com as palavras, os sinais, etc. Em suma, o rito e o sagrado constituem um modo para comunicar a fé na presença de Deus, que escuta.
O quinto trajecto, que pode ser considerado a conclusão dos anteriores, consiste em aceitar que o conhecimento de Deus conduz ao Mistério. Já Santo Agostinho recordava que se “se compreende, não é Deus” (”si comprehendis non est Deus”). Há sempre um mundo que não conhece Deus e um mundo que O conhece, mas como Mistério. A razão, em todas as suas formas, é chamada a fazer um caminho para chegar a Deus, mas no fim deve compreender que Ele é incompreensível. Então todos estes caminhos são inúteis? Certamente que não. Porque Deus não pede apenas para ser conhecido, mas para ser amado na simplicidade do coração.
Marco DoldiIn Nella Piazza (Blogue do Projecto Cultural da Conferência Episcopal Italiana) (adapt.)
Imagem: Peter Callesen

sábado, 2 de janeiro de 2010

E reacendeu-se a polémica outra vez

O Padre Jardim Moreira, presidente da rede europeia anti-pobreza, pensou e disse alto o que muitos pensaram e disseram em surdina sobre a transferência do Cónego Manuel Martins da Sé Catedral do Funchal para Machico. E reacendeu-se a polémica outra vez, que Deus me perdoe, mas bem feita para todos os intervenintes neste assunto.
Tudo leva a crer que a sua saída foi a seu pedido, a Diocese já apresentou provas bem evidentes. Porém, resta salientar que depois das denúncias feitas no contexto político que se conhece muito bem que é o da Madeira, mesmo que todos se esforcem agora para provar que não existiram pressões e que o próprio desejava essa transferência, poucos acreditam. O reacender da polémica prova exactamente isto que estou a dizer.
Todos estiveram mal nesta matéria. Em primeiro lugar o próprio Cónego, que nunca deveria ter pedido para sair após as suas denúncias sobre a pobreza, que é terrível entre nós e que ataca muitas das nossas famílias e a considerar os critérios que os governos apresentam para considerar quem é pobre, então vamos chocar-nos a sério, se os números forem divulgados com verdade. Noutros ambientes, que não os da Igreja, mas de um qualquer partido político ou grupo social, pensar-se-ia que tal pedido de transferência seria uma armadilha contra o chefe. Seria um golpe de mestre. Mas, em ambiente de Igreja seria maquiavélico pensar tal situação.
Segundo interveniente, o bispo da Diocese, que também esteve muito mal, porque, estrategicamente, nunca deveria mudar um padre ou outro colaborador qualquer quando está sob pressão, mesmo que tenha em seu poder todos os argumentos que salvaguardem a sua tomada de decisão. Agora, mesmo que se derramem todos em milentas justificações, fica para sempre a polémica e a maior parte da sociedade não acredita.
O terceiro interveniente, o Governo Regional, esteve bem na primeira parte da polémica, esteve serenamente calado, porque a transferência acentava como uma luva e vinha satisfazer o seu desejo. Sem pressões ou com elas, dizer, agora, que pondera processar judicialmente o Padre Jardim Moreira, parece-me, dar um tiro no pé e levanta ainda mais desconfianças. Porque entramos naquilo que se diz sobre as bruxas, todos dizem que não há, mas lá que elas existem todos parecem crer. E sobre este assunto no ambiente político da Madeira, estamos falados.
Por último, com tudo isto, perdem os pobres que o são de verdade e sabemos de tantos os que estão escondidos, porque sabem o que é o sabor amargo da pobreza que passam em cada dia. Por isso, requer-se que as autoridades se concentrem em tomar medidas eficazes que venham acabar com esse verdadeiro flagelo que é não ter o mínimo para viver e ser feliz.

Cesaropapismo dissimulado

A grande deficiência da cristologia hoje é a cristologia política da Igreja antiga, isto é, influência dos interesses políticos na teologia. Compreende-se que isto tenha acontecido num determinado tempo da história, na época da decadência do Império. Aquilo estava a afundar-se e era necessário agarrar-se a alguma coisa. Como se aperceberam que o cristianismo estava a crescer, os imperadores agarraram-se a ele. Mas, claro, a eles não lhes interessava um Deus crucificado. E o grande problema com que se depararam foi que o cristianismo pregava que o Deus no qual acreditavam era um crucificado, isto é, um escravo, ou um estrangeiro, ou um subversivo. Como resolveram o problema? Criando um Deus Todo-poderoso. El pantocrator, que era um título imperial que acrescentaram a Jesus Cristo. Porém, o Deus que encontramos nos Evangelhos é um Deus misericordioso.
Na verdade, as pessoas não precisam de poderes que as dominem, mas de compreensão, misericórdia, respeito, tolerância, ajuda diante da debilidade. Este é o melhor serviço que a Igreja pode prestar. E isso não o pode fazer uma Igreja de poder. E ao olharmos para o Vaticano dá a sensação de que estamos diante de um grande poder. Porém, isto não é só uma sensação, mas é uma realidade. A cúpula e a praça de São Pedro, a majestuosidade dum cardeal revestido com todos os seus ornamentos, são uma expressão simbólica duma realidade. A Igreja prega continuamente o Evangelho. Existem muitas pessoas na Igreja que o pregam, vivem, e sofrem por causa do Evangelho. Existem bispos, sacerdotes e religiosas e religiosos que o fazem em sítios onde ninguém quer ir. Padres que passam verdadeiramente mal, nos piores sitios. No entanto, isso não é notícia. O que é notícia são as grandes reuniões na Praça de São Pedro, as viagens do Papa que a qualquer sítio onde vai tem de ser recebido como um grande deste mundo, como um chefe de estado!
E as pessoas não entendem. Porquê? Como associar estas imagens com aquelas que se lêem no Evangelho? Jesus, quando mandou os apostolos a evangelizar disse-lhes: "Não leveis dinheiro, nem cajado, nem sandálias; não leveis duas túnicas". Porque é assim que se evangeliza. Eu creio que evangelizou mais São Francisco de Assis com a sua humildade e a sua simplicidade, ou muitas outras pessoas por ai perdidas, padres, monjas, leigos... do que estas personagens que aparecem com esta pompa. E o pior é que esta tendência está crescendo ultimamente. Caminhamos a passos largos para uma Igreja da pompa e da liturgia e afastamo-nos cada vez mais dos pobres. E isto acontece na medida em que a Igreja perder poder no tecido social. Quanto menos poder, mais tendência a agarrar-se a estas coisas. É por isso que vemos a Igreja cada vez nais agarrada ao integrismo dogmático... O Decisivo seria o Sermão da Montanha, mas esse exigiria outra postura... Fonte: O teólogo José María Castillo: "La humanización de Dios". Autor: in blog Padre Inquieto, Quinta-feira, Dezembro 10 / 2009
Ilustração: Barroco, G. F. Guercino, Anjos velando o Cristo morto, 1618.