Convite a quem nos visita

quarta-feira, 31 de março de 2010

Os dias contados nesta semana (IV)

Comentário à Missa da Ressurreição no Domingo de Páscoa
Devia ressuscitar dos mortos
Os discípulos e as mulheres foram ao sepulcro de manhã cedo, estava vazio e viram as ligaduras que envolviam o defunto no chão e o sudário que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, enrolado à parte.
O sinal da ressurreição visível e concreto, é este do sepulcro vazio. Com este sinal descobrimos desde logo que Cristo não se fixou na morte, mas está vivo, ressuscitou dos mortos. É muito importante que na nossa vida sejamos capazes de descobrir também Cristo vivo, este justo que, por causa da nossa salvação, acolhe, obedientemente, a paixão e a morte na certeza que a vida e a glória serão a realidade mais eficaz e mais forte na Páscoa. Por isso, o significado e o sentido da Páscoa, é que Ela é apenas uma passagem. Uma passagem da morte natural para a eternidade da vida através da Ressurreição.
A fé na Ressurreição deve ser a possibilidade mais certa da vida de cada cristão. Uma vida votada ao esquecimento de Deus e da gratuidade salvadora que Ele nos oferece no Filho ressuscitado, é uma vida sem sentido. Por isso, será essencial não esquecer que a Ressurreição é a maior prova de amor que Deus manifesta em Jesus Cristo.
A Ressurreição de Jesus, inaugura o tempo escatológico do Espírito Santo. Este facto da vida de Jesus dá sentido e valor a toda a acção de Deus na história do mundo.
Cristo ressuscitado convoca-nos para a possibilidade redentora de todos os condicionalismos que a vida terrena nos oferece. Somos chamados a crer de verdade que o sofrimento e a morte não são a derrota final. Jesus Cristo, revela-nos que Deus é Pai/Mãe e que não nos quer tristes e mortos, mas vivos e chamados para a alegria da vida em plenitude.
Se por um lado temos mais elementos para nos desanimar e nos derrotar, porém, Cristo, mostra-nos que não pode ser esse o horizonte final da nossa vida, isto é, aquele que nos faz sofrer ou esquecer a verdadeira vida.
Cada um de nós é desafiado a considerar que nada está perdido. A Sexta-feira Santa existe, é certo, mas logo depois vem o Domingo da Ressurreição. Nada nos pode derrotar ou matar a esperança. A palavra de São Paulo é convincente: «Se com Cristo morremos, também com Cristo ressuscitaremos». Podemos então dizer que se somos sepultados na fé em Cristo, por Ele com Ele e Nele ficará o sepulcro vazio e entraremos na alegria da sua glória plena e eterna.

Os dias contados nesta semana (III)

Não é do poder da Igreja que o mundo precisa
O mundo mudou bastante. A emancipação do Homem é outra realidade muito distinta daquela que a Igreja alimentou durante séculos. Os homens e as mulheres do nosso tempo já não se comovem nem se vergam à obediência face à pregação do medo sobre o céu, sobre o inferno e sobre todas as coisas da vida. A evangelização do medo deu campo propício à Igreja para ter muito poder e para dominar como muito bem entendesse. Assim viveram a Igreja e o mundo durante muitos séculos.
As mudanças foram grandes nos últimos cinquenta anos. A Igreja sofreu e sofre terrivelmente. As interrogações são imensas, os escândalos sobre perversões sexuais nos membros da hierarquia são incontáveis e a Igreja não os pode abafar ou controlar como fazia noutros tempos, a sua mensagem longe da unanimidade antiga, hoje provoca sérios desentendimentos, o sofrimento é geral e toca a existência profunda da Igreja.
Mas, o sofrimento maior da Igreja reside no seguinte: viu desabar diante de si os poderes que detinha ou sobre os quais possuía sempre uma influência determinante. Diante si desagregou-se o poder político, logo depois o poder cultural e logo a seguir o poder moral. Ainda lhe resta o pode espiritual com as ambiguidades e com todos os contornos conturbados que este poder suscita.
As diversas dimensões da vida do mundo ganharam autonomia e não estão nada interessados no que a Igreja tenha dito ou venha a dizer sobre qualquer aspecto. A Igreja fala para si e a avalanche de documentos, reflexões e textos que produz, a maior parte das vezes cai em saco roto. O mundo não escuta a sua mensagem. A Igreja fala de dentro para dentro, esta é a realidade dolorosa da Igreja nos nossos tempos.
Os poderes emanciparam-se e ganharam autonomia. O poder político instrumentaliza a Igreja tudo quanto pode. E neste capítulo a Igreja deixa-se enredar pelos presentes envenenados que o poder lhe confere. Muitos dignatários da Igreja actual são os «voluptuosos» denunciados pelo profeta Amós, banqueteiam-se pelos corredores dos políticos fazendo-lhes o frete com sorrisos doces, palavras elogiosas, apertos de mão calorosos e palmadas ternurentas nas costas. Esta realidade não dignifica a Igreja, mas retira-lhe credibilidade e autoridade.
O poder cultural, onde vai? – A Igreja demitiu-se completamente da cultura. Não aceita o divórcio no casamento, mas divorciou-se completamente do poder cultural e de tanta gente que se distanciou da Igreja porque não encontrou nela compreensão. A Igreja limita-se ao seu pseudo-fiel rebanho que ainda lhe obedece, mas que não reflecte nada ou reflecte pouco, limita-se a escutar e calar. A Igreja nada faz para alargar o seu campo de acção. Está mais fechada sobre si mesma e circunscrita às armadilhas que algumas instâncias do mundo lhe montaram.
Por último, uma palavra sobre o poder moral. Deste poder o melhor é estar quieto. A maior parte das pessoas, mesmo até as mais cristãs, não estão minimamente a seguir o que diz a Igreja sobre o aborto, a eutanásia, sobre os contraceptivos e sobre outros aspectos da vida em sociedade. Neste domínio a força da Igreja parece ser quase nula. A Igreja está a ser encurralada intra-muros. Para esta situação encontramos culpados: primeiro, algumas instâncias do mundo pouco escrupulosas, segundo, a própria Igreja que se deixa aprisionar e não reage com determinação, eficácia, espírito aberto e elevação cultural.
Há uma falta de clarividência generalizada na Igreja. A Igreja não procura a união interna. Não se aceita como uma comunidade de irmãos diferentes. O deferente é para ostracizar. Coexiste na desigualdade, recusa a transparência, a democracia interna, a apresentação de contas... Porque uns poucos são mais do que a maioria (é a prática do Triunfo dos Porcos de George Orwell, levada ao máximo expoente). E este é o maior contra testemunho que a Igreja dos nossos dias apresenta ao mundo e afunda-se cansada no lamaçal dos escândalos. Que tristeza profunda a destes dias contados.

terça-feira, 30 de março de 2010

Os dias contados nesta semana (II)

A Espada e o Hissope
O passado da Igreja no que diz respeito a alguma evangelização não é nada famoso nem muito menos exemplo de caridade cristã para ninguém. Porém, não devem ser essas manchas negras que devem aprisionar a Igreja ou remetê-la a uma inércia doentia perante os desafios e as novas realidades que o mundo apresenta. Nada pode condicionar a Igreja, mas antes tudo deve relançá-la nas coisas da vida com paixão e dedicação total.
Mas, o passado. Sempre o passado... Penso que em nenhuma discussão sobre os sacerdotes ou sobre qualquer aspecto da Igreja, o passado é sempre uma arma poderosa para argumentar. Por isso, para uns, é preciso reconhecer e assumir sem medo nem vergonha o passado, mas, para outros, é preciso alargar o entendimento e não apresentar-se sempre com os mesmos argumentos no diálogo, no debate. A sabedoria da vida ensina que é preciso alargar os horizontes e é preciso saber enquadrar os acontecimentos num determinado ambiente e dentro de um padrão de mentalidade que não é nem pode ser a nossa própria mentalidade. Não posso de modo nenhum ajuizar sobre as mulheres e os homens do século XII à luz do pensar e viver dos séculos XVI, XVII até ao XXI. A proceder deste modo seremos profundamente injustos e desonestos.
Mas avancemos na nossa reflexão. A espada e o hissope ou a cruz, estiveram lado a lado a fazer a história das mulheres e dos homens que nos precederam. A Igreja em muitos momentos da sua acção dita evangelizadora promoveu a espada e o hissope. A violência, o sofrimento e a morte foram o fruto da benção que o hissope simbolizava.
É este passado que persegue a Igreja e que frequentemente muitos irmãos nossos se servem para a julgar e pura e simplesmente justificar o seu afastamento ou recusa em fazer parte da Igreja. Hoje, a Igreja não nega este passado. Pelo contrário, penitencia-se dele e procura purificar essa memória negra e procura novos caminhos para se apresentar aos homens e ao mundo. A acção dos últimos Papas tem sido irrepreensível nesse sentido. Por isso, sucedem-se os sucessivos pedidos de perdão e a necessidade cada vez mais forte para purificar a memória.
Estas formas ditas de evangelização aconteceram em muitos momentos da história da Igreja, porque a Igreja perdeu a fidelidade ao Evangelho e imiscuiu-se na política. A Igreja não tem jeito para fazer política, isto é, deve ser a Igreja profundamente política, na verdadeira acepção da palavra, mas não deve ser partidária. Não deve tomar partido por nenhum sistema político nem muitos menos deve estar ao lado de nenhuma força partidária. Sempre que tal aconteceu o mundo perdeu e a Igreja ainda perdeu muito mais.
Por fim, nos nossos dias, como já o foi também noutros tempos, não deixa de ser curioso e divertido ver o Papa e os textos fundamentais da Igreja a defenderem a democracia, a separação da Igreja e o Estado, e alguns representantes políticos, leigos e laicos do Estado e da vida pública, a deferem a hierarquia.
A mistura da Igreja com as políticas vigentes são fatais para a Igreja, porque entra mesmo sem o desejar num descrédito muito grande. Se, por um lado, não lhe falta bens materiais para erguer igrejas, fazer beatificações, realizar manifestações populistas entre tantas outras acções. Por outro, falta-lhe presença nas coisas da sociedade, presença séria nas instâncias da educação, da política e dos meios de comunicação social. A Igreja precisa de reacender a esperança no mundo, perder o medo e encontrar depois lucidez para pensar em respostas pastorais que a relancem numa pastoral séria e ousada.
A espada e o hissope não servem para evangelizar. Hoje espera o mundo que a Igreja carregue a cruz da vida das mulheres e dos homens concretos e que caminhe com todos até ao Calvário da vitória.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Os dias contados nesta semana (I)

A vergonha dos dias que se abatem sobre a nossa vida não tem nome. Cada momento que passa, verte uma sombra de escândalo que revela a vergonha e a dor sobre a alma de quem acredita no amor, na paz, na sinceridade e na transparência das relações humanas.
O que dizer? O que falar perante tamanha tristeza dos dias? – E porque não o silêncio, a contemplação da hora maior daquela fé que sempre deve guiar o nosso olhar para o horizonte da esperança e da vida glorioso! Isso mesmo como o Jesus de Nazaré naquele rosto de tez queimada, onde as barbichas não emergiram, pelo sol quente da região da Galileia. Isso mesmo que o Cristo glorioso do alto da Cruz, quando expira sob o grito da dor imensa da morte: «Elí, Elí, lama sabacthanni» («Meu Deus, Meu Deus, porque me abandonaste»). O grito da injustiça, da inocente morte e do escândalo da Cruz feito som perante todas as injustiças deste mundo.
Agora não se diga muito. O crime continua feroz a gerar inocentes nos lugares mais inesperados da vida. Por isso, calemos as nossas vozes e que se levante para o alto aquela prece do amor imenso que cada coração pode fazer gerar e logo depois partilhar sem interesses pessoais ou mundanos. O desprendimento do amor é a maior dádiva que a vida pode oferecer. Que a vergonha se transforme em repulso por tudo o que gera vítimas, perdoando com certeza, mas apelando à justiça que se bem exercida pode minorar o sofrimento. É disto que o nosso coração precisa nesta hora.

sexta-feira, 26 de março de 2010

DEUS, envia-nos loucos!

Deus, envia-nos loucos
que se comprometam a fundo,
que se esqueçam, que amem mais do que em palavras,
que se dêem pela verdade e até ao fim.
Precisamos de loucos,
de insensatos, de apaixonados,
capazes de saltar para a insegurança:
para o desconhecido, cada vez mais escancarado, da pobreza.
Precisamos de loucos do presente,
apaixonados pela vida simples,
amantes da paz,
sem compromisso,
decididos a nunca trair,
que desprezem a vida,
capazes de aceitar seja qual for a tarefa,
a partir para qualquer lado:
simultaneamente livres e obedientes,
espontâneos e tenazes,
afáveis e fortes.
Ó DEUS, envia-nos loucos!
ANÓNIMO - SÉCULO XX (do Livro CARTAS A DEUS) de Philippe Capelle, padre

quinta-feira, 25 de março de 2010

Comentário à Missa do Próximo Domingo

Domingo de Ramos

28 de Março de 2010

A Semana Santa ou Semana Maior

O dia de Ramos, convida-nos a reflectir profundamente na pessoa de Jesus, não como um Rei qualquer que à maneira humana assume o poder e o domínio de uma nação, mas como um Rei obediente, servo sofredor e que se humilha diante de uma missão que depende totalmente de Deus Pai.
Neste dia somos convidados à reflexão sobre os nossos projectos. Isto é, procuramos ver se as nossas acções estão em consonância com o bem-estar e felicidade de todos. Por vezes, é um desconcerto muito grande viver nesta sociedade competitiva, que privilegia a posse, o prazer e o poder sobre os outros como se fossem os bens principais da vida das pessoas. Por isso, não nos surpreende que nesta mesma sociedade se gere tanta violência e tanta alienação que conduzem as pessoas para horizontes de desespero e de perdição total.
Na Páscoa, do ponto de vista humano, podemos concluir que nós cristãos vamos comemorar uma derrota, uma esperança sem sentido nenhum ou uma humilhação de um Deus que acreditávamos ser todo-poderoso. Se analisarmos friamente esta será a conclusão mais crua que tiramos. Porém, Jesus mostrar-nos-á que a Cruz, do ponto de vista da fé, é uma vitória, uma passagem e que o sofrimento é apenas um momento em direcção à Glória, à Ressurreição no Terceiro Dia, o Domingo da Páscoa.
A Semana Santa, merece ser vivida em oração pessoal com Deus, esforço de conversão e maior dedicação aos irmãos. Do Domingo de Ramos à Quinta-feira santa, completamos os últimos dias do grande retiro quaresmal que nos apelou à conversão ou à mudança de vida, para acolher de verdade todo o mistério central da nossa fé.
Com a Missa da Ceia do Senhor na Quinta-feira santa à tarde, iniciamos o Triduo pascal da morte e ressurreição de Jesus Cristo. O culminar de todas as celebrações é a Vigília Pascal na noite de Sábado, madrugada de Domingo. "Esta é a noite..." da glória e da vida em plenitude, como muito bem alude o canto, do Precónio Pascal. Durante esta noite, os diversos gestos simbólicos nos convocam para a grandiosidade do acontecimento que celebramos: eles são a Luz, a Palavra, a Água e a Eucaristia... Esta Vigília desdobra-se na alegria do Domingo da Ressurreição e nos cinquenta dias do Tempo Pascal até ao Pentecostes, que são considerados como que um único e grande Domingo.
As celebrações da Semana Santa, devem ser bem preparadas, quer no conteúdo quer na forma, para que sejam bem vividas por todos os que participem nelas. Não devem ser meros espectáculos litúrgicos destinados a comover e maravilhar como se fossem peças de arte puramente humanas. Também não são meras reuniões catequéticas para instruir ou para consciencializar as pessoas. Não são comemorações nostálgicas de acontecimentos ocorridos há dois mil anos.
Neste dia de Ramos, o Evangelho de Lucas, revela-nos que Jesus é aclamado na qualidade de rei. A sua missão consiste na realização da vontade do Pai, mesmo que tenha que passar pelo absurdo da dor e da morte. A celebração deste mistério não pode ser vista como uma derrota piedosa que nos comove, mas antes uma proposta para a vida quotidiana que nos ilumina o interior.
O mistério da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo, é a possibilidade do reencontro da alegria da vida sempre a acontecer como fruto da Fé, sinal da confiança que Jesus nos oferece como dom de amor.
O abismo da dor e da morte são realidades tão frequentes e tão duras nas nossas história, que só a confiança no Pai que Jesus nos mostra, nos garante uma outra força e libertação para vencer o escuro do abismo da desesperança e o sem sentido deste mundo.
A vida que se esgota na perdição dos caminhos reencontra uma luz verdadeira na cruz do amor salvador e nos guia para a vida plena do amor ressuscitado. Nesta Páscoa digamos todos: Cristo precisa de mim!

Anunciação do Senhor - de hoje a 9 meses é Natal

quarta-feira, 24 de março de 2010

FALECEU O PADRE FREITAS

FALECEU O PADRE ANTÓNIO JOSÉ DE FREITAS (Pároco de Câmara de Lobos)
O Padre António José de Freitas, sacerdote diocesano da Diocese do Funchal, faleceu, dia 23 de Março de 2010, na Casa Paroquial de Câmara de Lobos, onde era pároco de Câmara de Lobos. Tinha 80 anos de idade, celebrados no passado dia 19 de Março e era natural da freguesia e concelho de Machico. Nasceu no dia 19 de Março de 1930, filho de José de Freitas e de Jesuina de Olim. Frequentou o Seminário Diocesano do Funchal de 1945 a 1957, sendo ordenado Sacerdote, no dia 21 de Julho de 1957.
Dentro dos serviços eclesiásticos que desempenhou, na Diocese do Funchal, destacamos os seguintes:
- Cura da Paróquia do Monte e Capelão do Sanatório, em Outubro de 1957
- Cura da Paróquia do Arco da Calheta, em 3 de Outubro de 1958
- Pároco da Madalena do Mar a 31 de Dezembro de 1960
- Pároco da Quinta Grande, a 13 de Janeiro de 1962
- Pároco da Achada, a 1 de Agosto de 1964
- Pároco da Ribeira Brava, a 3 de Agosto de 1968.
- Pároco de Santa Cecília, a 9 de Novembro de 1975, até 19 de Março de 1976.
- Pároco de Santa Cecília, a 23 de Setembro de 1991, até 25 de Setembro de 1992
- Pároco de Câmara de Lobos, a 19 de Março de 1976 a 23 de Março de 2010
Foi pároco da paróquia de Câmara de Lobos, durante 34 anos, até á data da sua morte. A sua vida dedicada ao serviço do Evangelho, deixou nas comunidades por onde passou, um testemunho de pastor e de fidelidade à Igreja. Que o Senhor o receba na Sua Paz!
O seu funeral será dia 25 de Março, quinta-feira, com missa às 11horas na Igreja Paroquial de Câmara de Lobos, presidida pelo Senhor Bispo do Funchal, D. António Carrilho, seguida de funeral às 13 horas, no Cemitério de São Martinho.
Dai-lhe, Senhor, o eterno descanso, entre os esplendores da luz perpétua. Descanse em paz.

terça-feira, 23 de março de 2010

Código de Amor do século XII

I. A alegação do casamento não é desculpa legítima contra o amor.
II. Quem não sabe esconder não sabe amar.
III. Ninguém se pode dar a dois amores.
IV. O amor pode sempre crescer ou diminuir.
V. O que o amante arranca pela força ao outro amante não tem sabor.
VI. O homem não ama, normalmente, senão em plena puberdade.
VII. Prescreve-se a um dos amantes, por morte do outro, um luto de dois anos.
VIII. Ninguém, em amor, deve ser privado do seu direito sem uma razão mais que suficiente.
IX. Ninguém pode amar se não estiver imbuído da persuasão de amor (da esperança de ser amado).
X. O amor, habitualmente, é expulso de casa pela avareza.
XI. Não é conveniente amar aquela a quem se teria vergonha de desejar em casamento.
XII. O amor verdadeiro não tem desejo de carícias, a não ser que venham daquela a quem ama.
XIII. Amor divulgado raramente dura.
XIV. O êxito demasiado fácil não tarda a tirar o seu encanto ao amor; os obstáculos aumentam-lhe o preço.
XV. Toda a pessoa que ama empalidece ao ver quem ama.
XVI. Ao ver-se imprevistamente aquele a quem se ama, estremece-se.
XVII. Novo amor expulsa o antigo.
XVIII. Só o mérito torna digno de amor.
XIX. O amor que se extingue decai rapidamente e raramente se reanima.
XX. O apaixonado está sempre receoso.
XXI. A afeição de amor cresce sempre com os ciúmes verdadeiros.
XXII. A afeição de amor cresce com a suspeita e com os ciúmes que derivam dela.
XXIII. Menor dorme e menos come aquele a quem atormenta um pensar de amor.
XXIVTodas as acções do amante terminam pensando no que ama.
XXV. O amor verdadeiro não acha bem senão o que sabe que agrada a quem ama.
XXVI. O amor não pode recusar nada ao amor.
XXVII. O amante não pode saciar-se de fruir do que ama.
XXVIII. Uma fraca presunção faz com que o amante suspeite coisas sinistras em quem ama.
XXIX. O excessivo hábito dos prazeres impede o nascimento do amor.
XXX. Uma pessoa que ama está ocupada assídua e ininterruptamente pela imagem de quem ama.
XXXI. Nada impede que uma mulher seja amada por dois homens, e um homem por duas mulheres.
André, capelão francês do séc. XII, citado por Stendhal (Do Amor)

segunda-feira, 22 de março de 2010

A instituição Igreja tem um problema estrutural e cultural

Por Ana Vicente#
A opinião pública em geral e a comunidade dos baptizados em particular, ou seja, a Igreja, de acordo com as orientações do Concílio Vaticano II, está/estamos em estado de choque com as revelações acerca dos imensos sofrimentos infligidos a crianças e adolescentes, de ambos os sexos, por membros do clero católico (e por algumas freiras) ao longo destas últimas décadas em muitos países do mundo (provavelmente em todos) e também em Portugal. Logo surgem vozes dizendo que tal também acontece noutros meios e em especial no âmbito da família - é verdade, mas a sabedoria popular afirma que um mal não desculpa outro e procurar minimizar a gravidade dos abusos com este tipo de argumentação é, em si, já um abuso.
Há muito que se sabia que estas violências existiam, mas quem procurava levantar a voz era, quantas vezes, calado. Em 2005 conheci uma norte-americana, dos seus 40 anos, que tinha sido abusada sexualmente pelo senhor prior, aos 7 anos de idade. Amigo da família, ela não se atreveu a contar aos pais o que se tinha passado. Salvou-a mudar-se para outra zona dos EUA, enquanto as crianças que continuaram na paróquia continuaram a viver num estado de extrema vulnerabilidade. Quando jovem mulher fez queixa à diocese, que se comprometeu a pagar-lhe uma terapia, desde que ela assinasse um documento a afirmar que jamais falaria do caso. Foi preciso passarem uns anos para que ela percebesse a violência do que lhe tinha sido exigido e rompeu o silêncio, sendo hoje uma dirigente de uma das principais associações de vítimas de abuso clerical.
A ocorrência destes abusos força-nos a procurar reflectir o porquê e qual a forma de garantir que "nunca mais". E também de fugir de respostas generalistas, do tipo: o problema é haver tantos padres homossexuais numa instituição que condena a homossexualidade (não confundir homossexualidade com pedofilia). Ou o melhor é acabar com o celibato imposto aos padres na Igreja ocidental desde o século XI, mas não imposto ao clero anglicano que queira agora integrar a Igreja Católica.
O cenário é, creio, bastante mais complexo (embora essas questões sejam muito sérias) e tem a ver com a forma como a instituição Igreja se tem vindo a organizar. O problema é estrutural e cultural e realça o facto de imperar na instituição um clericalismo e um autoritarismo que nada tem a ver com o espírito dos Evangelhos. Aí, o fundador do cristianismo combate activamente o clericalismo e declara mesmo que ele é o único sacerdote. Mas o ser humano tem tendência para estabelecer distinções entre as pessoas e rapidamente se montaram estruturas de poder e de hierarquia que colocaram sobre pedestais pessoas do sexo masculino, escolhidas para uma missão vista como sobrenatural. Se esta foi e continua a ser a atitude face aos padres, os bispos então viam-se e eram vistos como seres muito especiais, acima de qualquer suspeita, porque não seriam bem bem humanos. Com agendas tão sobrecarregados como as dos políticos, poucos descem ao povoado para contactar com a vida quotidiana da vasta maioria da população. Do alto da sua autoridade, estes padres e bispos, a quem é imposto um celibato incompatível com a grande maioria do ser e do estar dos seres humanos, assumiram um poder sobre os comportamentos e sobre as consciências dos fiéis que, repito, nada deve ao espírito evangélico. Evidentemente sempre houve padres e freiras que reflectem santidade nas suas formas de vida, mas o que nos preocupa é a extensão de um fenómeno de abuso de autoridade por parte de pessoas que deveriam ser exemplos morais em comportamento e em misericórdia.
A obsessão pelo comportamento sexual dos fiéis, traduzida num sem-fim de instruções, proibições, admoestações, emanadas de um clero exclusivamente masculino e celibatário, resultou, finalmente, em que a grande maioria dos fiéis fizessem orelhas moucas. As relações pré-matrimoniais são largamente praticadas e aceites pelos católicos praticantes, como o são o uso de métodos contraceptivos ditos "artificiais", que mais não são do que a manifestação de uma atitude responsável face à parentalidade, por que obviamente todos os métodos "iludem a natureza", como concluiu a maioria dos membros da comissão que aconselhou Paulo VI sobre a necessidade de uma nova atitude face à sexualidade (mas que lamentavelmente não foi atendida com as consequências que se conhecem - uma imensa perda de credibilidade do Vaticano).
O teólogo inglês Timothy Radcliffe, que já foi superior dos dominicanos e esteve em Portugal, declarou que "esta terrível crise dos abusos sexuais está profundamente ligada ao facto de que o poder pode corromper as relações humanas". E apela para que a Igreja se transforme num espaço onde seja possível encontrar Deus e os/as outros/as em clima de amizade e de acolhimento, em que seja reconhecida a igual dignidade de todos os baptizados, em particular os mais frágeis e vulneráveis.
E, evidentemente, uma estrutura que teme as capacidades e os carismas de metade (ou a maioria) dos seus crentes, as mulheres, excluindo-nos do serviço e do ministério, não pode estar sã. Quem está interessado nestas mudanças urgentes? Quem terá coragem para as promover? E quem as teme? E quando é que em Portugal vão emergir as pessoas de ambos os sexos que foram vítimas de abusos, sexuais, físicos, psicológicos, por parte de padres ou freiras? Para que "nunca mais" tais violências possam ser repetidas.
(# Membro do movimento Internacional Nós Somos Igreja e investigadora)
Nota da redacção: impossível ser mais realista quanto ao estado da nossa Igreja católica actualmente. Estamos perante um texto muito importante, que deve fazer reflectir todas as pessoas que se inquietam com os problemas graves que atravessam a Igreja Católica de alto a baixo. Obrigado Ana Vicente pela brilhante reflexão.

ÍTACA

Konstantinos Kaváfis
(Trad. Haroldo de Campos)
Quando, de volta, viajares para Ítaca
roga que a tua rota seja longa,
repleta de peripécias, repleta de conhecimentos.
Aos Lestrigões, aos Cíclopes,
ao colério Posêidon, não temas:
tais prodígios jamais encontrarás em teu roteiro,
se mantiveres altivo o pensamento e selecta
a emoção que tocar o teu alento e o teu corpo.
Nem Lestrigões nem Cíclopes,
nem o áspero Posêidon encontrarás,
se não os tiveres imbuído em teu espírito,
se o teu espírito não os suscitar diante de si.
Roga que a sua rota seja longa,
que, múltiplas se sucedam as manhãs de verão.
Com que euforia, com que júbilo extremo
entrarás, pela primeira vez num porto ignoto!
Faz escala nos empórios fenícios
para arrematar mercadorias belas;
madrepérolas e corais, âmbares e ébanos
e voluptuosas essências aromáticas, várias,
tantas essências, tantos arômatas, quantos puderes achar.
Detém-te nas cidades do Egipto -nas muitas cidades -
para aprenderes coisas e mais coisas com os sapientes zelosos.
Todo o tempo no teu íntimo Ítaca estará presente.
Tua sina te assina esse destino,
mas não busques apressar a tua viagem.
É bom que ela tenha uma crónica longa duradoura,
que aportes velho, finalmente à ilha,
rico do muito que ganhares no decurso do caminho,
sem esperares de Ítaca riquezas.
Ítaca te deu essa beleza de viagem.
Sem ela não a terias empreendido.
Nada mais precisa dar-te.
Se te parece pobre, Ítaca não te iludiu.
Agora tão sábio, tão plenamente vivido,
bem compreenderás o sentido das Ítacas.
Nota da redacção: Este é o poema que mais marcou a minha vida e quem sabe senão se fundamenta nele a razão de ser de muitas das minhas opções de vida. Poema belíssimo...
Ilustração: o Regresso a Ítaca

Música - Requiem, de Duarte Lôbo

Duarte Lôbo nasceu em Alcáçovas em 1565 (aprox.) e faleceu em Lisboa a 24 de Setembro de 1646. Fez os seus estudos musicais em Évora com Manuel Mendes e foi protegido do cardeal D. Henrique, tendo exercido naquela cidade os cargos de mestre de capela da Sé e de mestre do coro. Mais tarde mudou-se para Lisboa onde ocupou o lugar de mestre de capela do Hospital Real e depois idêntica posição na Sé, cargo que ocupou durante mais de 40 anos. Foi também professor e é considerado um dos principais representantes da música polifónica portuguesa. Assinava o seu nome em latim - Eduardus Lupus.

domingo, 21 de março de 2010

Papa pede desculpa pelos abusos sexuais cometidos pelo clero

Carta pastoral sobre casos na Irlanda

20.03.2010 - 11:20 Por PÚBLICO
Numa carta pastoral, sem precedentes, divulgada hoje, o Papa Bento XVI pediu hoje desculpa às vítimas de abusos sexuais por parte do clero irlandês, dizendo que sente “vergonha e remorso” pelos crimes de pedofilia na Igreja Católica.
“Vocês sofreram dolorosamente e eu lamento profundamente”, disse o pontífice na carta em que anuncia a abertura de uma investigação formal do Vaticano às dioceses, seminários e ordens religiosas afectadas pelos escândalos na República da Irlanda. O antigo cardeal alemão Ratzinger mostra-se também disponível para se encontrar pessoalmente com as vítimas para “ouvir pessoalmente” as suas queixas.
Na carta dirigida aos católicos irlandeses, anunciando iniciativas para promover “a cicatrização e a renovação”, o papa lembrou casos do passado, na Austrália e nos Estados Unidos em 2008.
Destinada a ser lida no domingo a todos os paroquianos irlandeses, Bento XVI afirma na carta que os homens da Igreja culpados dos actos de pedofilia deverão responder não só diante de Deus, mas também diante da justiça comum.
Entre as medidas anunciadas pelo papa na carta, figura o anúncio de uma “visita apostólica”, isto é, uma investigação “em várias dioceses da Irlanda”, assim como “nos seminários e congregações religiosas”. A visita deverá ajudar a Igreja local “no seu caminho de renovação”.
O papa anunciou igualmente “os graves erros de julgamento” cometido pelo episcopado irlandês, acusado de ter encoberto centenas de casos de pedofilia cometidos por várias décadas por seus religiosos.
“A minha primeira reacção é de profundo desapontamento”, disse Maeve Lewis, directora executiva do grupo One in Four, representante das vítimas “Não há nada na carta a sugerir que existe uma nova visão na liderança da Igreja Católica”, acrescentou, referindo-se a uma das exigências apresentadas: a demissão do cardeal Sean Brady, chefe da igreja irlandesa, que não denunciou à polícia os abusos alegadamente cometidos, nos anos 1970, por um padre de Nobertiine, Brendan Smyth, que só posteriormente foi condenado e morreu na prisão.
Brady prometeu reflectir sobre a sua postura, no sermão da missa de hoje, em Armagh, na Irlanda do Norte, mas não deu qualquer indicação de que tenciona demitir-se. “Saúdo a carta pastoral”, comentou o prelado. “É evidente que o Papa Bento está muito chocado com o que considera ‘actos criminosos e pecaminosos e o modo como as autoridades da Igreja na Irlanda lidaram com eles’. Ele [Papa] diz que a Igreja na Irlanda deve assumir, perante Deus, este outros pecados cometidos contra crianças indefesas”.
Nota da redacção: louve-se a humildade do Papa e a coragem... Esperemos que todos os membros da Igreja, mais responsáveis, sigam o Papa e que não se limitem a esconder os criminosos de tamanhas barbaridades e tudo façam para ajudar as vítimas e a procurarem todos os meios para chamar a contas todos os criminosos destes crimes hediondos.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Comentário à Missa do próximo domingo

Domingo V da Quaresma
21 de Março de 2010
Nem eu te condeno...
A mulher pecadora é acusada de um crime grave, "foi surpreendida em adultério", no tempo de Jesus, tais mulheres eram apedrejadas até à morte, em obediência a uma má interpretação da lei do Antigo Testamento. Para Jesus, esta condenação era bárbara demais.
Mais uma vez, Cristo, mostra que não tolera hipocrisias e que veio para estabelecer a compreensão e a misericórdia diante do pecado, mesmo que seja uma ofensa grave contra Deus e contra a dignidade humana. A resposta de Jesus revela claramente que o perdão é possível e demove por completo todos os inquisidores que pretendem matar os pecadores.
A hipocrisia é flagrante neste episódio, os moralistas que agora querem purificar a sociedade através da morte da mulher impura, foram também eles beneficiados com os seus serviços. Os mesmos que gritam morte à mulher pecadora também foram servidos pelos seus préstimos.
A sociedade humana é assim mesmo. Por um lado, escrupulosa no cumprimento das regras, mas, por outro, serve-se da miséria quando dá jeito pessoal, mesmo que para tal sejam violados os valores e os princípios da dignidade humana de forma descarada.
Ninguém é perfeito, todos têm as suas manchas pecaminosas que provocam distância em relação a Deus e desencontro pessoal. Jesus, ensinará o seguinte: quem não tiver pecado que de imediato atire a primeira pedra.
Diz-nos o texto, que todos se retiraram um a um até ficar apenas Jesus e a mulher. Todos nós somos muito rápidos a acusar os outros porque são pecadores e raramente nos reconhecemos como tal. É sempre mais fácil olhar os defeitos dos outros e muito difícil reconhecer as nossas limitações. Não serve para nada considerar-se o mais santo de todos e andar constantemente com acusações contra os irmãos.
A palavra de Jesus ecoa, como a doçura do mel, «nem eu te condeno. Vai e não tomes a pecar". Está assente que nenhum pecado é maior e mais forte que o perdão de Deus. Todo o pecado do homem mesmo que seja o muito grave, é sempre uma pequena gota diante do oceano infinito da compaixão misericordiosa de Deus.
A condenação não tem lugar no coração de Deus, revelado plenamente em Jesus como o Pai do reencontro e da reconciliação plena com todos os homens. Este é o caminho da graça de Deus mostrado por Jesus a todos nós mediante estes gestos de ternura amorosa.
Certamente que Jesus não aprova nenhum pecado nem quer com a sua constante disponibilidade para o perdão e reconciliação, incentivar os homens ao pecado. Mas, demonstra que o mal não se combate com o mal e com violência. A acção de Deus é sempre em favor da pessoa condenando sempre o mal que eventualmente gere o seu coração.
As atitudes menos boas da vida não se combatem eliminando as pessoas que as cometem, mas perdoando e oferecendo vida nova e plena.

A falácia dos milagres

Logo vi que iria dar bronca, quando o Bispo do Funchal emotivamente na Sé do Funchal, com lágrima no canto do olho, proferia a homilia, ao lado da imagem de Nossa Senhora da Conceição da Capela das Babosas, levada pelas águas tumultuosas no fatídico dia 20 de Fevereiro de 2010, para que todos acreditassem que estávamos perante um milagre. Lembremos que tal aconteceu por causa do aterro ilegal que funcionava por detrás da capela, que ninguém da Igreja se lembrou de denunciar e tudo fazer para que tal fosse retirado dali, porque ponha em causa as pessoas e os bens.
É preciso a Igreja aprender de uma vez por todas que a linguagem dos milagres não cola mais e deixar este negócio dos milagres de lado. Há coisas inexplicáveis - curas surpreendentes de doenças, umas coisas que se salvam e outras que se perdem, a vida está cheia disso, mas a serem milagres, cuidado com esta linguagem… - face à Ciência e ao pensamento humano e isso basta. Perante isso, façamos silêncio. Outras coisas hão que são obra do acaso da vida deste mundo. Perante isso façamos silêncio.
À Igreja, cabe-lhe anunciar o Mistério do Homem e de Deus. Por Jesus Cristo descobrimentos, que o nosso Deus é cheio de amor pelas Suas criaturas e que em todas as circunstâncias é um Deus que liberta ou salva. Por isso, perante a pior desgraça, lá está o nosso Deus para salvar e não para fazer ainda mais miséria.
O acontecer de muitas coisas não pertence à humanidade determinar, são mistério de Deus acontecer. Vamos então anunciar isso e pregar isso, porque é o que Deus nos pede.
A não ser um grande mistério a nossa vida e o nosso futuro, tudo estava criado sobre uma grande injustiça, nem se compreendia a morte de tantos inocentes e o cercear de vidas tão prematuramente. Deixemos Deus fazer avançar o Seu Plano salvador e contemplemos com fé essa realidade e não nos cansemos de anunciar e viver isso.
Quanto a muitos milagres que se anunciam como tal não passam de negócio e falácias irremediáveis.

Um obrigado (irónico) ao Povo Américano

Nota da redacção: Muito bem. Agradecemos toda a caridade vinda dos Estados Unidos da América. E também damos vivas aos nossos governos por nos proporcionarem tamanhas dádivas.
«O governo usamericano empenha-se em reforçar sua hegemonia no planeta. Hoje, ele mantém 513 bases militares na Europa; 248 na Ásia; 36 no Oriente Médio; 21 na América Latina; 5 na África. Total: 823, que ocupam uma superfície de 2.863.544 km2.
Sabem quantas bases militares estrangeiras há nos EUA? Nenhuma».

Frei Betto, Escritor e assessor de movimentos sociais

quarta-feira, 17 de março de 2010

Celibato e pedofilia

Nota da redacção: entrevista que concedi ao Jornal i, publicada Quarta-feira dia 17 de Março de 2010.
Jornal i: 1 - Porque defende o fim do celibato na Igreja Católica?
PJLuís: - Por um lado, não defendo o fim do celibato. Defendo que tem que ser uma medida opcional, porque também acho que o celibato, pode ser um dom e uma riqueza para a Igreja e para o mundo. Porém, entendo que não devia ser uma medida imposta em absoluto. O candidato à Ordenação presbiteral devia ter a possibilidade de escolher ser celibatário ou poder assumir o sacramento do Matrimónio. Desta forma teríamos vocações na Igreja muito mais saudáveis e seria uma grande riqueza para toda a Igreja o clero conviver entre si com clero casado e clero solteiro. Por outro lado, o celibato imposto acaba por ser uma medida antinatural e anacrónica e contra a tradição do primeiro milénio da Igreja, porque o celibato imposto só começou a ser universal com o Papa São Gregório VII (papa de 1073 a 1085).
Jornal i: 2 - Desde quando assume essa posição?
PJLuís: - Desde o momento que comecei a tomar conta de que havia muita infelicidade dentro do clero e por ter convivido com sacerdotes idosos que defendiam a abolição do celibato imposto. É impressionante, mas o clero mais velho, uma grande parte defende, essa convivência entre clero casado e clero solteiro (celibatário). Os escândalos de pedofilia no interior da Igreja vieram reforçar a minha convicção e a certeza de que é preciso ter coragem para mudar.
Jornal i: 3 - Já teve algum problema com os Bispos do Funchal com quem lidou (D. Teodoro de Faria e D. António Carilho) ou outros párocos das suas paróquias?
PJLuís: - Só em termos de diferença de pontos de vista. Se essa diferença causa problemas, a mim não me afectam em nada. As diferenças são uma riqueza dentro da Igreja e quem não sabe conviver com elas não está no lugar certo. A diversidade é um princípio evangélico, valorizado em absoluto pelo nosso Mestre Jesus Cristo. Nós como seguidores Dele devemos cultivar a diferença com muita determinação.

Jornal i: 4 - É verdade que o celibato contradiz a tradição do catolicismo primitivo, onde havia figuras da Igreja casadas? No Novo Testamento, o Apóstolo Pedro era casado...
PJLuís: - Obviamente. Parece que respondo a isto na pergunta 1
.Jornal i: 5 - O padre José Luís Rodrigues gostava de poder casar? Como vive o seu celibato?
PJLuís: - Antes de ser ordenado padre ainda coloquei essa possibilidade. Mas depois disso não, parece que descobri que não tenho vocação para o Matrimónio. Pela experiência da vida, vou descobrindo que estar casado é muito envolvente, requer muita entrega e tenho receio que falhasse nesses aspectos.
O meu celibato é vivido de forma normal. Sou feliz como padre, gosto muito do trabalho que realizo dentro dessa função. Porém, sempre procuro não ser um «funcionário de Deus». Obviamente, que há momentos muito desafiadores, propostas que nos abalam. Mas, com algum esforço podemos sempre vencer. Alguns mais malévolos, porque tenho estas posições, por desconhecimento, afirmam que tenho mulheres com fartura, mas não é verdade. Acho que temos que ser mais sérios no debate e tratar os assuntos com conhecimento de causa e com seriedade sem pessoalizar as opiniões. A Igreja precisa de gente sábia e séria, porque neste momento à Igreja falta-lhe gente que pense pela sua própria cabeça e que não tenha medo de publicar as suas posições.
Jornal i: 6 - Se o celibato fosse autorizado, iria atrair mais jovens para padre?
PJLuís: - Não sei se iria atrair mais jovens para o sacerdócio, porque as razões da falta de vocações não dependem só da questão do celibato. Mas, poderia ajudar ao menos para alguns, não são muito poucos os jovens que me dizem que podiam a ter ser padres, mas se houvesse a possibilidade de casar.
Jornal i: 7 - Não me interprete mal nesta pergunta: Considera que as notícias que vieram a público sobre os abusos sexuais de menores cometidos por padres em vários países da Europa, como na Irlanda e Alemanha, nas últimas décadas pode estar relacionado com o facto de os padres não poderem ter um relacionamento amoroso, reprimirem impulsos sexuais e emotivos ou optarem pela via religiosa por não quererem assumir a sua homossexualidade, que ainda é um preconceito social? Ou acha que a pedofilia não tem nada ver com isto e é uma doença tal como os pedófilos que violam crianças dentro da própria família?
PJLuís: - Claro que não a interpreto mal. Nas minhas respostas está subentendido isso. Muito clero na vida activa vê-se confrontado com tantas situações que pode facilmente descontrolar. Uma das formas de esconder ou sublimar a homossexualidade pode ser enveredar para a vida sacerdotal, o que é um grande mal, para a própria pessoa e para a Igreja.
A pedofilia é uma questão muito complexa e deve ser analisada em todos os prismas. Porém, não aceito que tenha a ver directamente com o assunto homossexualidade, esta é outra questão. A pedofilia, a meu ver é um descontrolo, uma tendência doentia que deve ser reprimida, porque, se é doença, é também um crime terrível, sobre o qual todos os que o cometem devem ser chamados a contas perante os tribunais deste mundo.
Jornal i: 8- Na entrevista ao jornalista Miguel Sousa Tavares, o bispo das Forças Armadas D. Januário Torgal disse que o fim do celibato não vai acabar com os padres pedófilos porque "o que casar vai ter filhos pedófilos que pode violar". Concorda com esta posíção?
PJLuís: - Ouvi a entrevista, mas não entendi bem esta posição. E parece um argumento pouco sério para se falar do assunto celibato. Desta forma não se chega lá. Continuo a achar que é preciso elevação para se falar do assunto e está visto que com esta geração de bispos e Papas não se tomarão medidas corajosas para resolver o assunto. Aos bispos actuais deveria pedir-se mais pudor e até vergonha perante estes escândalos que eles esconderam e continuam a fazer tudo para que não venham a público e os responsáveis por tais crimes não sejam chamados a contas.
Jornal i: 9- Porque é que a Igreja encobriu durante décadas os padres pedófilos e foi tão branda com eles?
PJLuís: - Porque são imensos os casos. E tendo em conta o património moral da Igreja estas situações serem faladas revelam-se o maior dos escândalos e põem a nu a hipocrisia de alguma Igreja. A alma da Igreja foi o segredo, mas o nosso tempo não permite que ele perdure. A comunicação é muito forte e a Igreja não sabe lidar com isso. Pela primeira vez na história da Igreja aparece uma coisa com a qual a Igreja não sabe lidar, então, isso é o fim, o descontrolo e os tiros no pé.
Jornal i: 10- O Funchal teve o caso do padre Frederico Cunha e D. Teodoro de Faria chegou mesmo a reconhecer que o padre tinha abusado de crianças. Como é que os padres do Funchal viveram este caso face à população?
PJLuís: - Com muita vergonha e com a maior das perplexidades, porque até hoje nada foi esclarecido devidamente. O bendito do segredo outra vez. A transparência na Igreja não é muito famosa, tudo se esconde, só alguns é que podem saber das coisas, os outros são uns pacóvios que devem apenas rezar e dar esmolas.
Jornal i: 11- Acha que o assunto do celibato e dos abusos sexuais na Igreja é um tabu em Portugal?
PJLuís: - Acho. Também acho que ainda não é discutido com elevação, coragem e frontalidade. Não se fala com abertura, porque há medo dentro da Igreja e porque não há o hábito de se falar abertamente sobre todas as questões. O medo advém do facto de que se alguém toma uma posição contrária à ortodoxia passa logo à condição de ostracizado e não é chamado para mais nada e é desse então que é preciso esconder tudo, ora, como se sabe, são poucas as pessoas que têm força interior suficiente para acarretar com esse impacto. O sofrimento que daí advém é muito grande. Porque o padre é um solitário, para o bem e para o mal está sempre só. Está abandonado por todos no seu canto. Porque a tendência das instituições consiste em acarinhar, privilegiar alguns e outros marginalizar. Muita degradação moral dos padres está nesta base. Se é tímido fica só, se é corajoso e fala abertamente fica só, se comete falhas esconde-se ao máximo e por aí adiante. Este ambiente retrai as pessoas e deixa-as quietas na sua solidão.
Jornal i: 12- Porque não se conhecem casos de abusos sexuais de menores cometidos por padres portugueses como nos outros países?
PJLuís: - Não sei. Quem sabe se as vítimas estão amordaçadas? – Não sei de nada, é apenas uma questão que lanço para o ar. Porém, se não há vítimas de abusos de padres entre nós, então, podemos considerar-nos os mais felizes do mundo. Ainda bem que não existem. Mas…
Jornal i: 13 - Após estes escândalos, principalmente na Irlanda e na Alemanha, que medidas deve tomar a Igreja? Deve haver selecção dos padres que trabalham directamente com crianças?
PJLuís: - Três aspectos:
Primeiro, acho que a Igreja deveria dar um sinal ao mundo de que defende as crianças e que estes crimes são hediondos.
Segundo, deve discutir a questão do celibato, como apontou o cardeal Christoph Schönborn, arcebispo de Viena.
Terceiro, a Igreja deve aprender a conviver com a comunicação social sem medo e deve valorizar as denúncias que os meios modernos de comunicação fazem a favor do Bem-Comum.
Por fim, obviamente que deve haver um cuidado redobrado quanto às pessoas que trabalham em ambientes de crianças. Requer-se as melhores pessoas, as saudavelmente mais equilibradas vocacionalmente falando.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Celibato e pedofilia

Nota da redacção: português do Brasil, mas lê-se, porque o conteúdo vale muito a pena. Escrito a quando dos escândalos de pedofilia na Igreja Católica Americana, hoje, ganha nova actualidade perante o terrível escândalo que assola a Igreja Católica Europeia. Vamos continuar firmes na oração para que se faça verdadeira justiça. As vítimas minimamente recompensadas pela injúria e os pedofilos levados à barra dos tribunais.
Por José Reis Chaves
Foi o grande Papa São Gregório VII (papa de 1073 a 1085) que introduziu na Igreja o celibato obrigatório para os seus sacerdotes, agindo com a melhor das intenções, pois queria selecionar os candidatos para o clero, com exceção para os padres da Igreja Católica Bizantina, do Oriente Médio, já que a Igreja estava numa situação muito delicada naquela região, tendo em vista o Cisma lá irrompido em 1054, quando Cerulário, Arcebispo de Constantinopla, decretou a separação de sua Arquidiocese de Roma, fundando a denominada Igreja Ortodoxa Grega.
Muitos padres da Igreja Católica Bizantina já estavam aderindo à Igreja Ortodoxa Grega, por causa da questão Filioque (divergências sobre a Santíssima Trindade com relação à Igreja de Roma). E, se o celibato obrigatório fosse exigido deles, haveria uma debandada geral para a Igreja Ortodoxa Grega.
Sobre o nosso assunto em pauta, o Homem de Nazaré deixou claro que há eunucos de vários tipos, mas que os verdadeiros são os feitos pelo Reino dos Céus. Todavia, quando um jovem recebe o Sacramento da Ordem, tornando-se padre, ele não se transforma, como que por encanto, num desses eunucos santos. E eis aí a questão. Esse padre pode entrar numa forte crise existencial, pois que sua vocação sacerdotal pode ter sido uma ilusão, ou seja, fruto de um idealismo próprio da imaturidade dos jovens.
E, assim, ele está sujeito a aventuras amorosas, ou então, mais raramente, passará a sofrer distúrbios psicológicos, que podem levá-lo às tendências homossexuais ou pedófilas. Logo um padre, que deveria ser um modelo de moral e boa conduta para as outras pessoas, envereda-se pelo caminho das práticas pecaminosas e até criminosas, como no caso da pedofilia. Isso, como não podia deixar de ser,escandaliza tremendamente as pessoas. E aqui até vem à baila a conhecida frase paulina: “É melhor casar que abrasar”.
Embora tenhamos uma grande admiração para com a Igreja e o clero, custa-nos acreditar que o celibato forçado não tenha nada a ver com tudo isso que vem assolando a Igreja. E cremos que todas essas irregularidades existiam também no passado, só que eram abafadas, o que não se consegue fazer facilmente hoje.
E não seria a solução para todos esses problemas a extinção do celibato obrigatório para os padres? Por que não, se ele, como vimos, não existe para os padres da Igreja Católica Bizantina, se São Pedro era casado, e São Paulo disse que o bispo deveria ter uma só esposa, do que até se infere que o padre poderia ter mais de uma?
Autor do livro, entre outros, “A Face Oculta das Religiões”, Ed.Martin Claret

Um Sentido Para a Vida

Valeu-me a pena viver? Fui feliz, fui feliz no meu canto, longe da papelada ignóbil. Muitas vezes desejei, confesso-o, a agitação dos traficantes e os seus automóveis, dos políticos e a sua balbúrdia - mas logo me refugiava no meu buraco a sonhar. Agora vou morrer - e eles vão morrer. A diferença é que eles levam um caixão mais rico, mas eu talvez me aproxime mais de Deus. O que invejei - o que invejo profundamente são os que podem ainda trabalhar por muitos anos; são os que começam agora uma longa obra e têm diante de si muito tempo para a concluir. Invejo os que se deitam cismando nos seus livros e se levantam pensando com obstinação nos seus livros. Não é o gozo que eu invejo (não dou um passo para o gozo) - é o pedreiro que passa por aqui logo de manhã com o pico às costas, assobiando baixinho, e já absorto no trabalho da pedra.
Se vale a pena viver a vida esplêndida - esta fantasmagoria de cores, de grotesco, esta mescla de estrelas e de sonho? ... Só a luz! só a luz vale a vida! A luz interior ou a luz exterior. Doente ou com saúde, triste ou alegre, procuro a luz com avidez. A luz é para mim a felicidade. Vivo de luz. Impregno-me, olho-a com êxtase. Valho o que ela vale. Sinto-me caído quando o dia amanhece baço e turvo. Sonho com ela e de manhã é a luz o meu primeiro pensamento. Qualquer fio me prende, qualquer reflexo me encanta. E agora mais doente, mais perto do túmulo, busco-a com ânsia.
Raul Brandão, in " Se Tivesse de Recomeçar a Vida "

domingo, 14 de março de 2010

Ulisses e Abraão

por ANSELMO BORGES
Pode discutir-se, mas é sugestiva, a comparação feita pelo célebre filósofo E. Levinas entre Ulisses e Abraão como figuras paradigmáticas da relação com o outro.
Ulisses, depois da Guerra de Tróia, de volta a casa, vive a aventura de encontros múltiplos com outros, experiências variadas. Travou combates, enfrentou obstáculos sem fim, conheceu o diferente. Coberto de vitórias e glória, regressa. Mas, chegado a casa, mesmo disfarçado, "diferente" do Ulisses que partira, é ainda o "mesmo", que o seu cão, pelo faro, e Penélope, pelo amor, reconhecem. Ulisses representa o herói do regresso, que contactou com o diferente apenas para, num mundo domesticado e assimilado, o reduzir ao mesmo.
Abraão ouviu uma voz que o chamava, e partiu da sua terra, para nunca mais voltar. A sua viagem vai na direcção do novo, do não familiar, do diferente, do Outro. Ninguém o espera num regresso ao ponto de partida. Há só uma palavra de promessa que o chama para um futuro sempre mais adiante. Abraão ouve, caminha, transcende. A sua identidade transfigura-se a cada passo, é processual, histórica. Rompe com o passado, e o seu êxodo vai no sentido de um futuro imprevisível e novo.
A identidade não é estática, fixa, determinada de uma vez para sempre. Claro que cada um, cada uma é ele, ela, de modo único e intransferível - a experiência suma desse viver-se cada um como único e irrepetível dá-se frente à morte, na angústia do confronto com a possibilidade do nada e da aniquilação do eu: "ai que me roubam o meu eu!", clamava Unamuno -, mas fazemo-nos uns aos outros, de tal modo que ser e ser em relação coincidem. Por isso, a identidade faz-se, desfaz-se, refaz-se e, em sociedades complexas e abertas, ela será cada vez mais compósita e planetária, com tudo o que isso significa de enriquecimento e ao mesmo tempo de complexidades e possíveis rupturas.
É, portanto, preciso pensar a unidade na diferença e a diferença na unidade. A unidade sem diferença é a mesmidade morta, mas a diferença sem unidade é o caos sem sentido. O mesmo se deve dizer da identidade: ser si mesmo na relação, mas sem se deixar absorver pelo outro.
Descartes acentuou o primado da subjectividade, do eu, contrapondo-lhe Levinas, em antítese, o primado da alteridade, do tu. Mas, afinal, se não se pode prescindir da alteridade, caindo no perigo do solipsismo, também é necessário evitar a tentação daquela afirmação do outro que parece prescindir do eu, caindo numa espécie de alterismo. Como escreveu M. Moreno Villa, a verdade não se encontra nem no solipsismo nem no alterismo, mas na subjectividade e na alteridade, "afirmadas ambas simultaneamente no círculo ontológico interpessoal".
Há várias imagens para esta afirmação simultânea da identidade e da diferença. Por exemplo, na música - o famoso compositor e dirigente de orquestra Daniel Barenboim apresenta precisamente a música como a grande imagem do que deve ser o diálogo intercultural -, há múltiplos instrumentos (de corda, de percussão, de sopro, podendo a orquestra ser ainda acompanhada por um coro de vozes) - e, de todos juntos, até em contraponto, resulta uma sinfonia: a unidade de diferentes. Num tecido, há múltiplos fios, que se entretecem de diferentes modos, configurando uma unidade. Numa rede - e cada vez mais é preciso pensar em rede -, há múltiplos nós. Ora, os nós, que significam a identidade própria, só existem precisamente na rede, de tal modo que não há rede sem os nós nem os nós sem a rede.
Num mundo global cada vez mais multicultural e multirreligioso, é urgente repensar a identidade sempre a caminho, no quadro de múltiplas pertenças, e, para lá do multiculturalismo e do multirreligioso, que sublinham o "multi", avançar para o diálogo intercultural e inter-religioso, sublinhando o prefixo "inter", que implica um caminho de interacções múltiplas, sendo a identidade mais uma meta do que um ponto de partida, num horizonte que sempre se desloca na medida em que se marcha para ele. O seu símbolo é mais Abraão do que Ulisses.
Nota da redcção: Pois então, este texto fez-me lembrar o poema fundamental de Konstantinos Kaváfis, «Ítcaca». O poema da minha vida, que publicarei oportunamente.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Cardeal próximo do Papa admite que celibato tem que ser discutido

Em causa recentes escândalos de pedofilia
10.03.2010 - 19:40 Por António Marujo
O cardeal Christoph Schönborn, arcebispo de Viena, afirmou que a Igreja Católica deve examinar o tema do celibato eclesiástico na procura de explicações para os actos de pedofilia cometidos por membros do clero.
A declaração do cardeal surge tanto mais importante quanto Schönborn é considerado um homem próximo do Papa Bento XVI.
Numa publicação da sua diocese, hoje editada e citada pela AFP, o cardeal considera que devem ser examinadas sem compromisso as possíveis causas por trás dos escândalos de pedofilia que têm atingido vários países. Nos últimos dias, foram revelados casos na Alemanha, Áustria e Holanda.
“Isso inclui a questão da educação dos padres, tal como a questão do que se passou a seguir à revolução sexual da geração de 1968. Isso inclui o tema do celibato, tal como o desenvolvimento pessoal”, escreve o cardeal.
Na Áustria, nos últimos dias, foram tornados públicos três casos de abusos, relativos às décadas de 1970 e 80. Nos três casos, veio ao de cima o encobrimento que a hierarquia tinha feito do que se passara.
Schönborn acrescenta que compreende a frustração de numerosos funcionários de comunidades religiosas. “Basta de escândalos! Como fazemos nós para sermos considerados suspeitos de infracções que não cometemos? Porque é sempre à Igreja no seu conjunto que é apontado o dedo”, acrescenta.
Quem não tem dúvidas sobre a importância do celibato na questão é o teólogo germano-suíço Hans Küng, que viu várias das suas posições serem condenadas logo no início do pontificado de João Paulo II. Antigo colega do actual Papa na universidade, ainda na Alemanha, Küng admite que estas situações acontecem também nas famílias, escolas, associações e em igrejas onde não existe a regra do celibato.
Num artigo publicado no "Le Monde", sexta-feira passada, Hans Küng sublinha que “estes desvios não se devem atribuir ao celibato”. “Mas este é a expressão estrutural mais surpreendente da relação crispada que a hierarquia católica mantém com a sexualidade, a mesma que determina a sua relação com a questão da contracepção e outras.”
No texto, o autor de O Cristianismo – Essência e História, e de várias outras obras publicadas em português, acrescenta que no evangelho o celibato “não pode ser considerado senão como uma vocação livremente consentida (um ‘charisma’) e não como uma lei universalmente constrangedora”. E acrescenta: “É o celibato erigido em regra que contradiz o evangelho e a tradição do catolicismo primitivo. Convém, por isso, aboli-lo.”
A regra do celibato, escreve ainda este teólogo, tornou-se um pilar essencial do sistema “romano”, reforçando o clericalismo. Ao mesmo tempo, tornou-se hoje a causa principal do “défice catastrófico” do número de padres, do “abandono – carregado de consequências – da prática da comunhão e em muitos casos do desmoronamento da assistência espiritual personalizada”.

Nota da redacção: Muito interessante que o assunto Celibato do clero esteja a ser colocado na base dos escândalos sobre pedofilia. E cada vez mais se discute a necessidade de ser abolida esta regra desumana e anacrónica, para passar a ser uma opção livre e responsável no seio da Igreja e como se tornará a Igreja uma comunidade mais humana e fraterna quando no seu seio conviverem sacerdotes casados e solteiros. Porém, todos acolhendo o Celibato como um dom que edifica toda a Igreja. Muito bem, estou seguro que o Espírito Santo guiará a Igreja para o lugar certo.

Se eu não tiver amor, não sou nada

quinta-feira, 11 de março de 2010

Comentário à Missa do Próximo Domingo

Domingo IV da Quaresma
14 de Março 2010
Voltar à vida
O texto do Filho Pródigo é sempre daqueles textos da Sagrada Escritura que nos comovem profundamente. Porque nos apresenta a infinita misericórdia de Deus (o papel do Pai), a dimensão do arrependimento (o filho que cai em si) e a tendência humana para o egoísmo (o Filho mais velho). Nesta tríplice dimensão circula a nossa vida.
O essencial da história do Filho Pródigo está que a nossa fé deve crer de verdade que a misericórdia de Deus existe e que serve para nos reconduzir à profundidade da vida em liberdade. Nenhuma pessoa deve abdicar desta graça maravilhosa que Deus nos concede, mesmo que as quedas para o erro sejam uma circunstância inevitável de toda a vida.
Porém, o arrependimento é sempre algo de maravilhoso, porque nos conduz de novo aos braços do Pai. E reparemos como é comovedora a atitude do Pai: "Ainda ele estava longe, quando o pai o viu: encheu-se de compaixão e correu a lançar-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos". Esta manifestação dentro desta parábola de Jesus, manifesta quanto é infinita a bondade de Deus que está sempre pronto a acolher os seus filhos arrependidos da perversão dos caminhos que encetaram.
Chega o momento da festa, "Comamos e festejemos, porque este meu filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi reencontrado". Deus faz festa em honra da reconciliação. Não há maior alegria no céu senão por causa do arrependimento dos homens. A festa, é o resultado do reencontro de Deus com os seus filhos. E como sabemos a festa é a maior expressão da alegria. Deus alegra-se porque o vazio era grande e doloroso. Não podia estar bem, este pai, sabendo que a vida não estava a ser bem vivida pelo seu filho.
Agora sim, o momento do encontro, trás de novo ao rosto a possibilidade da festa e da alegria. E assim, estamos diante da maior festa da reconciliação e do perdão. Perante o desejo do reencontro, Deus não tem medida, abre o seu coração para amar, as suas mãos para abraçar e a sua boca, não para censurar ou ralhar, mas para pronunciar palavras de compaixão e beijar.
O filho mais velho, revolta-se contra o pai, porque se escandaliza com o acolhimento do pai em relação ao irmão. Não é justo, do ponto de vista humano, que um filho que esbanja metade da fortuna do pai numa vida desregrada seja agora recebido com uma festa. Não pode entrar tal coisa dentro da cabeça de ninguém com o mínimo de inteligência. As nossas comunidades estão cheia de gente que tem este comportamento do filho mais velho. Quanta calúnia, murmuração, defamação, ciúme, desprezo e até rancor contra os irmãos que caiem em qualquer percalço ou que antes eram desta feita e deram o salto para a festa da vida?
Que podemos fazer? – O coração de Deus funciona desta forma, não se deixa levar pela lógica do mundo. Embora não abandonando os de comportamento fiel e recto, também não coloca de parte os que se desvirtuam dos caminhos da rectidão. A principal preocupação de Deus é salvar a todos e não tomar partido por este ou por aquele porque é mais bonito e mais bem comportado. Todos são filhos de Deus. A salvação é para todos. Não faço a mínima ideia como acontecerá isto, mas, pelas qualidades do Deus que acredito, estou seguro desta convicção.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Imaginar seis coisas impossíveis já antes do pequeno-almoço

Nota da redacção: O valor imprecindível de uma história, como liberta e educa... O futuro, afinal, parece não se fazer apenas na absoluta tecnologia, mas também em outras coisas que durante algum tempo redicularizamos e menosprezamos porque eram antigas ou não tinham o crivo da moda. Pensemos nisto.
A história contada faz mais do que reflectir uma coisa: a essência nela atestada perdura, habita-a por dentro.
Parece só uma Alicemania. Mas penso que é mais do que isso. O redescoberto encanto pela personagem inventada por Lewis Carroll e revisitada agora pelo mágico olhar do cineasta Tim Burton, não é apenas fruto de uma oportunidade comercial para fazer render as histórias do tempo das tetravós. O que seduz em figuras como Alice (mas também em Peter Pan, Pinóquio, etc.) é, no fundo, o poder inesgotável que as histórias têm de representar o humano e de ajudá-lo a ser (ajudá-lo a maturar, a compreender-se, a crescer...) Este regresso às histórias mostra como a nossa cultura hiper-tecnológica e sofisticada, mas também solitária e abstracta, tem necessidade da força concreta, da emoção e da sabedoria das grandes parábolas.
O filósofo Walter Benjamin apontou o dedo à Modernidade dizendo que ela tende a eclipsar os contadores de histórias e que isso é uma perda irreversível, pois a arte de contar é a arte de transmitir não apenas conceitos, mas experiências, exemplos, modelos. Numa linha semelhante, o teólogo Johann Baptist Metz chama a atenção para a urgência de reconhecer e revalorizar «as estruturas profundas narrativas» da Fé, recuperando na educação religiosa «o magistério das histórias», pois só esse garante-nos assentarmos em experiências originais e autênticas. A história contada faz mais do que reflectir uma coisa: a essência nela atestada perdura, habita-a por dentro. Por isso é que o que nós contamos volta continuamente a ser uma força.
Num dos seus livros, Martin Buber conta esta história inesquecível: «O meu avo estava já paralisado. Um dia pediram-lhe também a ele para contar uma história, uma história que ele tivesse vivido com o seu mestre. Então ele contou como esse homem santo que era Baalschem tinha o costume de saltar e dançar quando rezava. E ao contar isto o meu avo levantou-se, e o relato envolveu-o de tal maneira que ele começou a saltar e a dançar para mostrar como o seu mestre fazia. Desde esse instante ficou curado».
Não tenho dúvidas que Alice é muito útil. E que vale bem a pena escutarmos o seu conselho de imaginar, ainda antes do pequeno-almoço, uma mão cheia de impossíveis.
José Tolentino Mendonça

segunda-feira, 8 de março de 2010

Seja bem-vindo o Papa Bento XVI

Como todos sabem o Papa Bento XVI vem a Portugal nos dias 11 a 14 de Maio de 2010. Os gastos anunciados para os palanques ou palcos para a celebração das Missas em Lisboa e no Porto São impressionantes. Em Lisboa só o palco, inspirado num cascalho das margens do Rio Tejo, custará cerca de 200 mil euros. No Porto não sei em que se inspira, mas custará outras centenas de milhares de euros. Umas missas muito caras. Isto não faz impressão nenhuma a ninguém das igrejas, tanto a portuguesa e tanto a do Vaticano? - Um escândalo. Como é que o Papa permiti este riquismo de alguma igreja num país onde o governo pede sacrifícios enormes a todo o povo para salvar as contas públicas?; o Papa não saberá da nossa situação económica?; será que já disseram ao Papa que há uma crise enorme em todo o mundo e de modo especial no nosso país?... Tantas perguntas que podemos fazer nesta hora.
Outra, que faz impressão, é que se repita até à exaustão que o Papa é o representante de Cristo na Terra. Será que se lembra alguma igreja que Cristo na terra era carpinteiro? – O que isso significa de pobreza e de luta constante para ganhar o pão quotidiano.
Por último, escandaloso é também que se esteja a pedir inscrições para os padres participarem nas celebrações com o Papa. Acho isto de uma palhaçada inqualificável, como se tais celebrações se tratassem de almoços ou festas de adolescentes com os seus ídolos musicais, do desporto, das novelas...
Por fim, melhor seria para toda a Igreja maior desprendimento e que os apelos ao espírito de pobreza a que toda a Igreja é chamada a viver começasse a ter exemplo a partir das principais entidades. Mas, seja bem-vindo o Papa Bento XVI ao nosso país.

domingo, 7 de março de 2010

Dia Internacional da Mulher

PORQUÊ O DIA 8 DE MARÇO
Neste dia, do ano de 1857, as operárias têxteis de uma fábrica de Nova Iorque entraram em greve, ocupando a fábrica, para reivindicarem a redução de um horário de mais de 16 horas por dia para 10 horas. Estas operárias que, nas suas 16 horas, recebiam menos de um terço do salário dos homens, foram fechadas na fábrica onde, entretanto, se declarara um incêndio, e cerca de 130 mulheres morreram queimadas. Em 1910, numa conferência internacional de mulheres realizada na Dinamarca, foi decidido, em homenagem àquelas mulheres, comemorar o 8 de Março como "Dia Internacional da Mulher". De então para cá o movimento a favor da emancipação da mulher tem tomado forma, tanto em Portugal como no resto do mundo.
O QUE SE PRETENDE COM A CELEBRAÇÃO DESTE DIA
Pretende-se chamar a atenção para o papel e a dignidade da mulher e levar a uma tomada de consciência do valor da pessoa, perceber o seu papel na sociedade, contestar e rever preconceitos e limitações que vêm sendo impostos à mulher.
Mais uma nota, espero que apesar deste dia, a mulher tenha todos os dias para ser mulher em plenitude. Não basta um dia, mas já que ele existe, que sirva, para que todos valorizem o papel fundamental da mulher na família, na sociedade e nas igrejas. À mulher é exigido que não abdique de ser mãe em plenitude, que não abdique da sua intervenção social e que participe em todos os lugares da vida com toda a dignidade. E que nada seja realizado como um favor. A humanidade é masculina e femina. Só isso e apenas isso. Vamos todos viver esta realidade. A nossa realidade.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Futebol demais

Crónica
Considero importante questionar o alcance da indústria do futebol na sociedade portuguesa. É demasiado o tempo que as pessoas consomem a ver, a ouvir, a discutir, a pensar nas suas paixões futebolísticas. É demasiado o espaço ocupado pelo assunto futebol e anexos, nos meios de comunicação social, sem critérios pedagógicos e apenas seguidores das audiências. Inventam-se jogadas e criam-se factos porque a realidade não basta para tão pouca notícia!
Não é sábio, nem é são subjugar as mentes e os corações a tanto discurso inútil, repetitivo, explorador e alimentador de rivalidades, sujeito a uma lógica de mercado.
O desporto é bom, sobretudo, quando praticado. Transformado em espectáculo distrai, serve de catarse, põe à solta os instintos, patrocina e enriquece a indústria, reduz a visão do mundo e das pessoas. Quando começa a faltar o pão, redobra-se o jogo para entreter e distrair dos problemas.
Os sinais de crise, patentes de alguns anos a esta parte, são depressa ignorados: por fintas para a frente, caneladas nos ditos intelectuais, medo da impopularidade e permanentes e novos campeonatos, nacionais, europeus, mundiais.
É impressionante como o sistema industrial fabrica a influência nas conversas, a alteração de horários na vida familiar, o investimento afectivo, a centralidade de observação existencial. Todos se lembram como, graças ao futebol, a bandeira nacional passou a ser estimada. O que faz crer que os nossos Maiores, os que identificam o melhor da Pátria, são os jogadores de futebol!
Não admira que nas novas gerações haja muitos a desejarem ser jogadores, até pelos escandalosos proventos! Dedicar-se ao bem comum, seja na política, seja na ciência, seja nas artes ou nas comunidades religiosas, não aparece como apreciado e sedutor.
Este artigo integra o livro "Para lá do Tempo - Opinião no página 1", selecção de textos escritos para o jornal online da Renascença. O volume inclui participações de D. Carlos Moreira Azevedo, Cristina Robalo Cordeiro, Cristina Sá de Carvalho, Fernando Adão da Fonseca, João Ferreira do Amaral, José Miguel Sardica, José Tolentino Mendonça, Luís António Santos, Luís Cabral, D. Manuel Martins, Manuel Pinto e Maria do Rosário Carneiro.
D. Carlos Moreira Azevedo In Para lá do Tempo - Opinião na página 1, ed. Paulinas

quinta-feira, 4 de março de 2010

Comentário à Missa do Próximo Domingo

Domingo III Tempo da Quaresma
7 de Março de 2010
O arrependimento
O arrependimento é sempre necessário para muitas situações. Ninguém pode considerar-se alheio a esta realidade tão necessária à vida ou que simplesmente não precisa de arrepender-se. A nossa vida está sempre carregada de muitas situações, que nos tomam, por um lado, mais humanos e conscientes de quanto os nossos projectos pessoais têm valor, mas, por outro, existem sempre situações mais absurdas e disparatadas que nos enredam em caminhos de perdição, que nos tomam infelizes e fazemos; por conseguinte, os nossos irmãos também infelizes.
A morte de pessoas em desastres naturais e resultantes da irresponsabilidade humana, não significa, como nos diz Jesus, que sejam mais pecadoras que os outros. Os acidentes fazem parte do mundo e da vida, sempre aconteceram. Não se julgue nunca que pelo facto de morrerem pessoas em acidentes, mereciam que tal acontecesse como um castigo pelos seus pescados. Jesus, garante-nos que ninguém é mais pecador pelo facto de ser apanhado por um azar da vida.
O Evangelho de Cristo, mostra-nos que não devemos julgar ninguém nem atirar pedras aos nossos semelhantes, estamos todos sob a mesma condição e somos chamados pelo amor de Deus a tentarmos a perfeição da vida para o bem de todos.
O arrependimento deve fazer parte da nossa alimentação espiritual diária. Porque também diariamente somos confrontados com as raivas absurdas que nos descontrolam o pensamento e as palavras. As teimosias nas nossas ideias fixas e manias pessoais, são frequentemente uma propensão que nos ataca e que requerem uma dose elevada de arrependimento. Diante das brigas inúteis entre vizinhos, colegas e companheiros de caminhada, o arrependimento deve estar sempre presente para que a reconciliação da amizade seja também uma constante na vida de cada pessoa e, sobretudo, se são pessoas que acreditam na pessoa de Cristo.
O arrependimento, é o sentimento eficaz que nos mostra o coração de cada um. Sem este sentimento não se conhece verdadeiramente uma pessoa nem ninguém se revela" plenamente se não for capaz de assumir sempre que é necessário para viver a dimensão do arrependimento.
A contrição, precisa sempre de ser cuidada. Os problemas da vida e das relações interpessoais não encontram solução se não formos capazes de estar sempre com os ritmos do arrependimento e do perdão convenientemente afinados.

quarta-feira, 3 de março de 2010

COMUNGAR LIVREMENTE

COMUNGAR LIVREMENTE É OPORTUNIDADE DE CELEBRAR A UNIDADE EM CRISTO

“Desejei muito comer convosco esta Páscoa…”(Lc.22:14)
Corresponder a este desejo do Senhor, comungar com Ele, juntamente com irmãos e irmãs na fé, sem quaisquer entraves criados por interpretações meramente humanas, é um sonho que gostaria de ver realizado aonde quer que o povo de Deus se reunisse como Igreja.
E, no entanto, é na partilha do pão e do vinho da Ceia que mais nos apercebemos como é longo o caminho que ainda temos de percorrer como cristãs e cristãos até que nos reunamos à mesma mesa do banquete ao qual o Senhor nos convida, celebrando assim, na nossa diversidade – e apesar dela – a Sua morte e ressurreição.
Como viver a unidade sem podermos estar todos reunidos à Mesa do Senhor, partilhando do Seu Corpo e Sangue, celebrando, e “com-celebrando”, a Sua presença real entre nós?
Nos muitos encontros ecuménicos em que participei, essa dificuldade se tem erguido como um muro, separando o corpo de Cristo, tornando, por vezes, os desejos expressos de unidade – porventura verdadeiros e sentidos – balofos e incoerentes.
Na sua carta aos Efésios 2:14-15, o apóstolo Paulo constata aquilo que devia ser evidente para todos os que se dizem seguidores de Jesus Cristo: “Porque Ele (Cristo) é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um (referindo-se aos Gentios/pagãos e aos Judeus); e, derrubando a parede de separação…na sua carne desfez a inimizade…para criar, em si mesmo, dos dois, um novo homem, fazendo a paz”(tradução de João de Almeida).
Sabemos que não é fácil ultrapassar os muros que se foram criando na Igreja Cristã, ao longo dos tempos. São muros edificados por mãos humanas, à revelia da vontade divina de que todos sejam um, em Jesus Cristo.
Reconhecer as dificuldades é um desafio para que as ultrapassemos, com verdade e honestidade, sempre guiados pelo Espírito de Deus, que é Amor.
Alguns passos foram e estarão a ser dados nesse sentido. Exemplos disso têm sido os vários esforços de diálogo entre diferentes Confissões cristãs e, actualmente, até entre diversas religiões. Diálogo sempre cauteloso e prudente da parte das instituições religiosas e dos seus líderes… porém, bem mais espontâneo e caloroso do lado de crentes comuns, que assim mostram querer viver a esperança contra toda a esperança. Porque, afinal, a esperança não se vê mas é feita de visões; não se enxerga claramente mas, pela fé, é capaz de vislumbrar o alvo e celebrá-lo, antecipadamente.
Porque me sinto nestas fileiras de idealistas e visionários, eu – tal como outrora Martin Luther King - também tenho um sonho: que todas as barreiras de separação sejam derrubadas quando estivermos perante o Senhor, à sua Mesa.
Eunice Alves

58 anos. Actualmente Pastora Metodista em Braga - embora de raiz Presbiteriana -, trabalhou, na sua juventude, em diversos grupos e organizações de cariz ecuménico, nacionais e internacionais.