Convite a quem nos visita

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Palavras para a Minha Mãe

I.
mãe, tenho pena. esperei sempre que entendesses
as palavras que nunca disse e os gestos que nunca fiz.
sei hoje que apenas esperei, mãe, e esperar não é suficiente.
II.
pelas palavras que nunca disse, pelos gestos que me pediste
tanto e eu nunca fui capaz de fazer, quero pedir-te
desculpa, mãe, e sei que pedir desculpa não é suficiente.
III.
às vezes, quero dizer-te tantas coisas que não consigo,
a fotografia em que estou ao teu colo é a fotografia
mais bonita que tenho, gosto de quando estás feliz.
IV.
lê isto: mãe, amo-te.
V.
eu sei e tu sabes que poderei sempre fingir que não
escrevi estas palavras, sim, mãe, hei-de fingir que
não escrevi estas palavras, e tu hás-de fingir que não
as leste, somos assim, mãe, mas eu sei e tu sabes.
José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão"

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Comentário à Missa do Próximo Domingo

Como eu vos amei...
Ev: Jo 13, 31-33 a . 34-35
O Evangelho de São João, para este domingo, apresenta-nos o mandamento novo de Jesus: «Como eu vos amei, amai-vos também uns aos outros». Não é fácil cumprir este mandamento que Jesus nos manda viver. A nossa vida está tão repleta de tantas coisas complexas demais que se torna, por vezes, impossível corresponder ao mandato de Cristo. Todos temos experiências de relações com outras pessoas que nos marcaram profundamente para o bem e para o mal.
No entanto, cada um deve em primeiro lugar ser capaz de acolher todos aqueles que Deus colocou na sua vida e amá-los profundamente. Dessa forma, já viveremos o mandamento novo que Jesus nos ensina. Os contextos mais difíceis do mundo são o melhor lugar para viver o amor. Primeiro que tudo, devem estar no nosso coração todos os que a vida nos ofereceu como membros de família, do trabalho, da opção e de todas as caminhadas que realizamos. Logo depois, somos desafiados a viver o amor para com todos aqueles que se cruzam connosco no dia a dia.
A esta forma de vida não se chama ingenuidade ou inocência doentia, mas disponibilidade para a vivência da felicidade pessoal e dos outros. Não devemos aceitar todas as patetices e asneiradas dos homens, mas somos chamados a acolher, compreender e perdoar. O amor que Jesus nos manda viver como elemento essencial do seu Reino passa pela entrega ao serviço dos outros e pelo acolher a todos como irmãos.
O reino de Jesus Cristo, está identificado pela fraternidade. Até podemos definir a religião cristã como uma fraternidade. Ninguém se pode dizer cristão se não vive a dinâmica da amizade e da abertura aos outros como irmãos como valor fundamental da sua vida diária. Talvez seja esta visão do cristianismo que nos leva a concluir que esta religião é difícil de se viver. No entanto, não devemos deixar que este pensamento nos atrofie a coragem ou a entrega à descoberta do essencial para a felicidade.
A descoberta do amor é um bem crucial para a realização de cada um como ser humano e como pessoa. Por isso, desistir de o procurar será como que dizer não à vida e ao que ela tem de mais belo. Deus, pela pessoa de Jesus convoca-nos para o ideal do amor e cada um de nós deve procurar corresponder na medida do possível a esse chamamento frequente de Deus.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Portugal - afunda-se

Face aos «Ratings» (finanças e economia) eis uma imagem ilucidativa para este dia. Como é triste ver um país a afundar-se...
Imagem tirada de mundodaverdade.blogspot.com
O que é o Rating?
- O rating é uma opinião sobre a capacidade e vontade de uma entidade vir a cumprir de forma atempada e na íntegra determinadas responsabilidades. E, por isso, o Rating das nossas famílias aperta-se cada vez mais. O pão sobre as mesas vai faltar e isso é dramático para muitas das nossas famílias.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Shakira canta hino do Mundial 2010

Por uma rosa tua...

Quando olhamos uma rosa acabada de florir, ficamos admirados com a sua beleza. Parece-nos tão frágil! Mas ela não se importa; sabe que desempenha uma missão: tornar-nos um pouco mais sensíveis ao belo e frágil que há em nós e à nossa volta; tornar-nos um pouco mais humanos… grão de mostarda

segunda-feira, 26 de abril de 2010

As Lágrimas de Maria de Nazaré

Não há palavras para qualificar o que se está a passar com a visita da Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Fátima à Paróquia da Ribeira Seca...
Dez perguntas:
1. Será que o Papa sabe da situação da Paróquia da Ribeira Seca?
2. Será justo alguém de fora da realidade dizer que uma igreja paroquial está «ocupada individamente» pelo seu próprio povo, isto é, o povo que trabalhou e deu as suas ofertas para edificar esse templo?
3. Será justo condenar e ostracizar um povo que ama e escolhe para o guiar na sua igreja um padre que sempre o defendeu dos poderosos e tomou militantemente a opção de estar sempre ao lado do seu povo? Que crime é este?
4. Não é chegado o tempo de denunciar esta situação a quem de direito, as instâncias superiores da Igreja Católica, até que chegasse ao conhecimento do Papa?
5. Como serão as conversas entre a Diocese (na pessoa do sr. Bispo e o padre Martins Júnior)? - Sim, porque sempre dizem que estão em conversações, então seria tempo de divulgar o teor dessas conversas, porque, ao invés imaginamos que sejam assim, diz o sr. bispo: «Ó padre Martins, dizem-me que estás ilegalmente ocupando uma Paróquia». O Padre Martins Júnior remata: «Ó sr. Bispo, não estou ilegal porque nunca fui julgado e o povo quer que eu la esteja». Neste dito «diálogo» passam uma hora, duas e quem sabe até três e quatro horas. Por fim, o sr. bispo aponta para eterna promessa: «Vou resolver a situação». Vem depois outro dia e outra conversa com os mesmos remates e os mesmos golos. Deve ser uma comédia com muita graça.
6. O que sentirá Maria de Nazaré, a Mãe de Jesus e Mãe de toda a humanidade, sobre este patético diálogo de surdos? - Julgo que verte lágrimas de tristeza...
7. Será justo aproveitar a Imagem Peregrina para guerrar, provocar e quem sabe reavivar feridas e provocar outras a esta Igreja Católica tão agastada e manchada pelas piores razões?
8. Seria ou não uma oportunidade de ouro para esquecer um passado doloroso para tanta gente e rematar vias de concordia, mesmo que as leis canónicas fossem referidas, mas a verdade do Evangelho prevalecesse e reacendesse a paz entre todos?
9. Fica ou não manchada a visita da Imagem peregrina à nossa terra com esta situação? - A meu ver ficou bastante, com esta situação e com o temporal que se abateu na Madeira no dia 20 de Fevereiro... Daí para cá o entusiasmo enfraqueceu.
10. O que será mais importante para a Igreja, o Direito Canónico ou o Evangelho de Jesus Cristo? Para a maioria dos cristãos é óbvia a resposta, mas para os hierarcas sedentos de poder temporal, não prece ser tão óbvio.
- São dez perguntas, mas poderíamos fazer muitas mais... Mas penso que chega para manifestar a minha indignação e denúncia perante uma situação que manifestamente está envolta num profundo desrespeito por um povo simples que reclama o direito de expressar a sua fé no espaço que é seu, porque trabalho e lutou por ele. Tirar isso ao povo é ferir a sua alma e violar um dos mais elementares direitos humanos.

domingo, 25 de abril de 2010

Liberdade

Autora: Sophia de Mello Breyner Andersen
Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.

sábado, 24 de abril de 2010

A Mosca no Prato

Nota da redacção: Com a devida vénia. Perante esta barbariade e excesso de zelo diria o diácono Remédios: «Não havia necessidade...»
Mário Tavares
in Cartas do Leitor do Diário de Notícias do Funchal. Data: 24-04-2010
É de um valor extraordinário tudo quanto se tem feito em favor das vítimas da aluvião de 20 de Fevereiro último e da recuperação de todas as áreas atingidas, uma generosidade tamanha e uma inquietação quase universal.
Depois surgiu o abate dos animais nas serras da Serra de Água a mando do zelo pelo cumprimento da lei, animais libertados dos horrores da aluvião. Foi a mosca no prato. Este pequeno acontecimento tem incomodado tanto!... Foi um contra-senso absoluto perante um humanismo tão elevado e tão vivo, bem merecedor de um monumento. Se os animais fossem pertença do senhor Rocha da Silva, teriam sido abatidos?
Depois surgem em defesa do autoritarismo as declarações da subserviência política, explicitando bem como funcionam muitos serviços do poder. Numa expansão de libertação e alegria fez-se "o 25 de Abril" para humanizar o Governo e a Nação. Mas, nestes 36 anos de progressão e marcha atrás, têm sido os interesses "quem mais ordena". Esta mosca no prato não foi um simples acidente.
Uma palavra de apreço aos senhores Presidente da Câmara da Ribeira Brava e Presidente da Junta de Freguesia da Serra de Água. Souberam colocar-se em oposição e de pé. Bem hajam.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Cidade

I.
Canto a cidade nos cantos sublimes das artérias do medo
Como se o dia fosse acabar em cada passo da gente
Que deambula nas avenidas, ruas, becos, travessas e rampas
Porque cada momento e cada esquina escondem o segredo
De nunca chegar a vida que o tempo engoliu naquela hora.
II.
Fica depois uma sombra de um esbelto plátano no oásis
Daquela cidade maior onde um dia no baptismo da história
Te nomearam de liberdade sobre a rocha firme da calçada.
III.
Agora passeiam-te os povos vindos de todos os lugares
Sob o olhar atento de quem deseja um dia saber mais
De todos os lugares mágicos que a vida nos ofereceu.
IV.
Ò cidade da minha memória encantada pelo ideal fervor
Quero ver-te esbelta, viva ou mesmo ressuscitada
E nesta hora nasci de novo para o dia maior
Daqueles passos em volta do rosto sublime do amor.
V.
E não digas mais que a cidade nunca pode ser sentida
Como uma vida cheia de esperança no ideal da felicidade.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Comentário à Missa do Próximo Domingo

Eu dou a vida eterna... Ev. Jo 10, 27-30
A voz de Jesus é uma voz que nos toca no mais fundo da existência e faz de cada pessoa humana, um caminho de realização do seu amor pela vida. A salvação não tem outra possibilidade senão essa do amor que Jesus nos oferece e nos manda viver em todos os momentos da nossa existência.
No Evangelho de João aprendemos esta condição formidável que Deus nos deu através de Jesus. Deus é Pai e tomou-nos a todos como seus filhos, deu-nos a vida eterna, nunca havemos de morrer, nunca sairemos da mão de Deus, fomos dados a Jesus – Filho de Deus – para que com Ele nos tornássemos também filhos muito amados deste Pai, que Jesus nos mostra.
Outra coisa extraordinária que Jesus nos revela é que «Eu e o Pai somos um só» – diz Jesus. Esta frase revela-nos como é forte a comunhão que existe entre o Pai/Mãe e o Filho. Até hoje nenhum filho foi capaz de pronunciar uma coisa tão formidável em termos de relação entre paternidade/maternidade e filiação. Só Jesus, porque sabendo de onde vinha podia pronunciar esta riqueza de relação entre pai/mãe e filho.
Como viver hoje esta intimidade com Deus? – É o próprio Jesus que nos vai ensinar. Todos os que souberem escutar a sua voz irão aprender o como viver essa intimidade de amor.
Mas a nossa vida, por vezes, está tão envolta em necessidades ou na falta delas que não nos predispõem verdadeiramente para o encontro da intimidade que Jesus nos oferece.
As tribulações da vida não permitem descobrir a verdade dessa descoberta que Jesus nos revela. Por isso, onde existe a teimosia soberba para a vivência constante do ódio e do rancor não pode haver lugar no coração para o encontro da intimidade de Deus nem pode haver predisposição para a escuta da voz do Senhor Jesus.
Jesus é o Bom Pastor, que nos chama e nos convoca para a verdade da vida como dom do seu amor. E aceitar este dom maravilhoso de Deus Pai, é acolher a verdade plena na nossa existência e, sobretudo, prepara-nos desde logo o caminho da eternidade. Pois, reparemos no que dizem as palavras de Jesus: «Eu dou-lhes a vida eterna e nunca hão-de perecer». Esta certeza de salvação é pronunciada pela voz de Jesus, que se mostra Mestre da vida e da libertação total de tudo o que ponha em causa o amor, a paz e todos os valores que o Evangelho nos revela.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

O fim do mundo cristão-católico?

O João Bernard da Costa terminou o seu livro «Nós, os vencidos do catolicismo» (título «roubado» ao Poema belíssimo do Ruy Cinatti), com um poema de Cristovan Pavia, que se atirou para debaixo de um comboio em 1968, aos 33 anos. Diz assim o poema:
«Voltarei à penumbra fresca da Igreja / Ancestral, silenciosíssima e vazia. / Aonde está pousado o teu altar: / Doce Mãe Maria... / E ajoelhar-me-ei, / E fecharei os olhos sem pensar... / Que a minha oração nada mais seja! / Basta descansar».
- Logo depois o autor do livro remata a palavra final, que serve também para todos os finais de discurso: «Apetece-me pensar que um dia será assim». E termina desta forma um belíssimo livro.
Depois de urdida a introdução a este ponto, vamos agora tentar responder à pergunta formulada para este assunto ou este ponto da nossa reflexão.
O poder político da Igreja Católica nunca esteve tão fraco como hoje, em muitos casos inexistente. O seu poder cultural está profundamente atingido, daí a necessidade de se fazer acordos estratégicos com as forças policiais para «trancar a sete chaves os bens que restam à Igreja». O poder moral da Igreja é de imediato remetido para o segredo das vidas privadas. Os católicos pouco ou nada vivem da doutrina moral que a Igreja apregoa. Os governos das nações (mesmo até governos constituídos por pessoas assumidamente católicas) pouco ou nada ligam à doutrina moral que a Igreja defende para tomarem as suas decisões. As denúncias em catadupa dos abusos sexuais, levados a cabo por padres católicos, vieram piorar e muito a decadência da Igreja Católica. Faz dó ver o Papa e todos os que o rodeiam ocupados a juntar os cacos dos estragos tremendos que tudo isto está a provocar na Igreja. Ai o Ano Sacerdotal? - Lembram-se ainda? - A onda a pedir mudanças cresce a cada dia, ainda bem, estou feliz, por isso.
A Igreja Católica, a bem ou a mal, tomou consciência de que não podia continuar a ligar a sua fé à força, à violência, à conquista. Ela celebra a liberdade de consciência, a liberdade que vem de Deus e que impede a coacção em nome da fé.
Mesmo quando lamenta e declara não cristãs certas atitudes, a Igreja não pode nem quer dispor de meios que forcem os povos a respeitar os seus mandamentos.
Tendo em conta que a Igreja está distanciada da influência directa sobre o governo político do mundo, acarreta para si uma diferença de concepção de fé e do seu lugar na cidade. Não tem aquela força política mundial como têm as confissões islâmicas (xiitas, sunitas), que são forças políticas mundiais, mas o catolicismo já não o é. Não é imaginável ver um dignatário oficial católico a dirigir um país, mas a religião islâmica coloca os seus «padres» (Imãs) na chefia de vários Estados.
Este discernimento ainda não foi compreendido pelo mundo islâmico que continua a considerar o Ocidente dominado pelo poder cultural e político cristão/católico. É por isso que ouvimos, no fim de Outubro de 2001, Bin Laden censurar violentamente o Paquistão, por se ter juntado à «bandeira cristã». Ainda não se deu a volta no Oriente como foi dada no Ocidente. A separação de poderes é hoje uma realidade, fruto das democracias ocidentais.
A influência da Igreja está nas ruas da amargura. Os ataques contra a Igreja e contra os cristãos serão, provavelmente, muito graves, já temos exemplo de como sofrem muito as minorias de cristãos de países ditos de maioria muçulmana. As agressões fundamentalistas de outras religiões, serão muito fortes e mostram a fraqueza da Igreja que não pode reagir violentamente nem possui formas militarizadas que a defendam dos ataques.
Por isso, falta um Papa vindo do mundo pobre, não ocidentalizado, por exemplo, América Latina ou África, para mostrar que a Igreja não é uma força dominadora que representa o Ocidente, mas é universal e que não pode ser reduzida à Europa, está aberta a todo o mundo. No fundo para fazer jus ao sentido da expressão «católica». Sou levado a pensar tudo isto, tendo em conta a influência que teve a eleição de um Papa do Leste para a Queda do Muro de Berlim, para a desagregação da chamada Cortina de Ferro e Queda dos regimes totalitários comunistas de Leste. A ver a assim a história, já seria tempo de abrir a Igreja ao mundo subdesenvolvido e mostrar o quanto é católica (universal) a Igreja Católica.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Passeio socrático

Frei Betto *
Outrora, falava-se em realidade: análise da realidade, inserir-se na realidade, conhecer a realidade. Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual. Pode-se fazer sexo virtual pela internet: não se pega aids, não há envolvimento emocional, controla-se no mouse. Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizi­nho de prédio ou de quadra! Tudo é virtual, entramos na virtualidade de todos os valores, não há compromisso com o real! É muito grave esse processo de abstração da linguagem, de sentimentos: somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. Enquanto isso, a realidade vai por outro lado, pois somos também eticamente virtuais…
Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Se alguém vai à Europa e visita uma pequena cidade onde há uma catedral, deve procurar saber a história daquela cidade - a catedral é o sinal de que ela tem história. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping center. É curioso: a maioria dos shopping centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingos. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas...
Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objectos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Se deve passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno... Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer de uma cadeia transnacional de sanduíches saturados de gordura…
Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: "Estou apenas fazendo um passeio socrático." Diante de seus olhares espantados, explico: "Sócrates, filósofo grego, que morreu no ano 399 antes de Cristo, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia: "Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz."

* Escritor e assessor de movimentos sociais
Nota da redacção: a leitura de Frei Betto não podia ser mais actual e como a dimensão religiosa está bem presente na vida actual. Mas, resta saber se os sinais de religiosidade canalizam as mulheres e os homens actuais para a felicidade. Porque, trata-se disso mesmo a questão da felicidade...

LA VIÑA DEVASTADA DE BENEDICTO XVI

Nota da redacção: vamos a um balanço de cinco anos de Pontificado de Bento XVI. A reflexão é sempre muito importante e não a podemos adiar face às situações que afectam a Igreja Católica na actualidade. O autor deste texto é um teólogo espanhol, por isso, as minhas desculpas por não ter tido tempo de o traduzir para português. Este texto serve de complemento à carta aberta de Hans Kung dirigida aos bispos de todo o mundo, já publicada neste blogue. Boas leituras.
JUAN JOSÉ TAMAYO

Muy poca gente pensaba que el cardenal Ratzinger fuera elegido papa en el cónclave celebrado en abril de 2005 para elegir al sucesor de Juan Pablo II tras su largo reinado de veintisiete años. Ni siquiera se creía que deseara convertirse en el nuevo “Santo Padre”, entre otras razones, por la edad –había cumplido 78 años- y por algunas de sus declaraciones en las que había expresado su deseo de volver al estudio y a la reflexión teológica. Se le consideraba, eso sí, el gran elector, que podía mover los hilos y aunar voluntades para elegir al nuevo papa. No en vano había sido el todopoderoso presidente de la Congregación para la Doctrina de la Fe (CDF) durante casi medio siglo y había intervenido activa y decisivamente en el nombramiento de la mayoría de los cardenales reunidos en el cónclave. Pero los pronósticos fallaron y el cardenal Ratzinger se convirtió en el elegido con el nombre de Benedicto XVI para regir los destinos de la catolicidad.
Y, a decir verdad, no le ha resultado difícil gobernar de manera absoluta ya que ha contado con el apoyo prácticamente unánime de los cardenales, arzobispos, obispos y de la Curia romana y con el silencio casi total de los poco dirigentes eclesiásticos discrepantes. Ésa fue precisamente la estrategia diseñada conjuntamente por Juan Pablo II y el cardenal Ratzinger y la seguida por éste durante los cinco años de su pontificado: sustituir a los obispos progresistas seguidores del concilio Vaticano II y defensores de la teología de la liberación por obispos de talante conservador y, en algunos casos, integrista. Los criterios para los nombramientos episcopales han sido la fidelidad a la doctrina, la obediencia al papa y la observancia de las rúbricas litúrgicas. ¿Dónde quedan la ejemplaridad evangélica, la opción por los pobres, la lucha por la justicia y la reforma de la Iglesia defendida por el concilio Vaticano II? La nueva imagen de los obispos ha ido acompañada de una importante involución en la formación del clero, en la educación en la fe, en la orientación teológica, con la renuncia, en muchos casos, a la evangelización y la caída en un empacho sacramental.
La tan esperada y necesaria reforma de la Curia se ha reducido a una serie de cambios que han reforzado todavía más el centralismo y la orientación tradicional de la Iglesia católica. Los nombramientos de Bertone como secretario de Estado de la ciudad del Vaticano (ministro de Asuntos Exteriores), de Levada como presidente de la CDF y de Cañizares al frente del Culto Divino constituyen los mejores ejemplos de clonación del propio Benedicto XVI en el gobierno autoritario de la Iglesia, en la reproducción ideológica de su pensamiento, en la concepción rigorista del dogma y en la práctica ritualista de la liturgia.
Benedicto XVI se ha rodeado de una guardia pretoriana que le ofrece una visión distorsionada de la realidad e intenta protegerle de las críticas procedentes no sólo del mundo laico sino de dentro de la misma Iglesia católica, que no tienen intención iconoclasta, sino constructiva y catártica. Es esa misma guardia pretoriana la que, por ejemplo, en vez reconocer la gravedad delictiva de los casos de pederastia de sacerdotes y religiosos y de ayudar al papa a tomar medidas eficaces para erradicar tales prácticas, osa afirmar que el hecho mismo de sacarlas a la luz responde a una campaña anticlerical perfectamente orquestada por los sectores laicistas, al odio y a la persecución de la Iglesia católica y al deseo de desacreditar y socavar el prestigio de Benedicto XVI. Pero los pretorianos no se preocupan del sufrimiento de las víctimas y menos aún de llevar a los violadores, que son los verdaderos verdugos, a los tribunales. Con esa actitud lo que están haciendo es proteger a los victimarios, como hiciera el cardenal Castrillón quien, siendo presidente de la congregación del Clero, felicitó a un obispo “por no haber denunciado a un sacerdote (pederasta) a la Administración civil”.
El papa tiene a su alrededor una serie de asesores intelectualmente mediocres, moralmente reprochables y desconocedores –o peor aún- falseadores de la historia, que dicen muy poco del tan cacareado prestigio intelectual de Joseph. Sirvan dos ejemplos como botón de muestra. Uno es el predicador que durante la Semana Santa de este asño comparó, en presencia del papa, los sufrimientos de éste por las críticas recibidas con motivo de los casos de pederastia, con el Holocausto. Otro, el cardenal Bertone, “segundo” del Vaticano y brazo derecho del papa desde los tiempos de la CDF, que, con la intención de demonizar a los homosexuales, ha vinculado la homosexulidad con la pederastia, mientras que, para defender la anacrónica e infundada imposición del celibato a los sacerdotes, ha negado cualquier relación de éste con los abusos sexuales de algunos sacerdotes y los religiosos. Con asesores y colaboradores así, no es extraño que el portavoz del Vaticano dedique más tiempo a desmarcarse de tamaños disparates y juicios tan insensatos que a ofrecer una información objetiva sobre las actividades del Vaticano.
Los pasos de la Iglesia católica hacia atrás durante el pontificado de Benedicto XVI son más que evidentes. El papa actual retrocedido muchos siglos atrás, pero no a los tiempos del Jesús del Lago de Tiberíades o al cristianismo de los orígenes, tampoco a los movimientos proféticos medievales, sino al concilio contrarreformista de Trento (1545-1563) y al concilio Vaticano I (1870), que definió el dogma de la infalibilidad del papa. Ha tenido como referencia pastoral en su pontificado no la figura tolerante de Juan XXIII, ni siquiera la actitud hamletiana de Pablo VI, sino el comportamiento decididamente antimodernista de Pío X.
¿Resultado? Un concilio Vaticano II secuestrado, una teología amordazada, una Iglesia amurallada que se protege de adversarios imaginarios, en fin, una “viña devastada”, como dijera el propio Benedicto XVI, pero no por los “jabalíes” laicistas inexistentes, sino por no pocos creyentes y dirigentes eclesiásticos que han dilapidado el legado ético liberador de Jesús de Nazaret y lo han sustituido por la teología neoliberal del mercado. ¿Solución? No está en mis manos. Tenemos que pensarla entre todos. Será tema de otro artículo.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

A vã glória de mandar

Essa vontade de mandar vem de longe e quando o seu exercício é destorcido e se reduz a impulsos puramente pessoais, resulta na pior das tragédias para quem o exerce e sobre quem ele é exercido. Gil Vicente no Auto da Índia já o referiu nos seguintes versos: «La vos digo que ha fadigas, / Tantas mortes, tantas brigas, / E perigos descompassados, / Que assi vimos destroçados, / Pelados como formigas» O grande poeta Luís de Camões também cantou «a glória» do poder do pulso de cada um quando manda por mandar, só porque essa actividade lhe aquece a alma. Em todos os cantos da vida estão esses pequenos ditadores do mandar por mandar. Diz o poeta: «Ó glória de mandar! Ó vã cobiça / Desta vaidade a que chamamos fama!». Que pena quando o poder é isso «glória vã», acção vazia, sem pensamento e sem doutrina. Talvez o maior cineasta da actualidade, o português Manuel de Oliveira, realizou um filme onde faz o retrato de Portugal, quando pelo mundo se deixou enredar pela violência, só porque o gosto de mandar por mandar estava bem patente no intuito dos que se aventuraram pelo mundo. Obviamente, que não pretendemos obscurecer o grande feito da nação portuguesa, quando se aventurou mar adentro à procura de novos mundos. O filme de que falamos é a «'Non', ou A Vã Glória de Mandar», é um filme do (nosso) centenário Manoel de Oliveira, que faz a crónica da derrocada do velho sonho imperial português. Quatro militares numa viatura de combate em patrulha atrás do inimigo – os africanos que lutam pela independência – num momento de descanso, discutem a guerra. Não só nesta, onde estão lutando, mas todas as guerras em que Portugal se envolveu ao longo dos séculos, desde o início da sua história. A vã glória de mandar, está instalada nas nossas casas, nas igrejas, nas escolas, nos partidos políticos e em todos os lugares onde a vida em sociedade implica chefes, directores e subdirectores e outros afins. O poder, converte as pessoas em «tijolos» - como vamos ver na citação de José Saramago - o que não devia, mas maior responsabilidade, devia tomar o coração das pessoas para o serviço do bem-comum. Por isso, magoa ver pais de família converterem a paternidade e a maternidade em domínio, em berros e na mania do tudo sei e tudo posso porque «sou dono de pessoas» e o mesmo se diga para pequenas responsabilidades de todos os lugares da sociedade. O poder de uma simples chave converte uns «pequenos» seres em altivos senhores do vazio e do ópio que o poder confere. E findo com um pequeno texto de José Saramago, que está no «Memorial do Convento». Diz assim, «Juntam-se os homens que entraram hoje, dormem onde calhar, amanhã serão escolhidos. Como os tijolos. Os que não prestarem, se foi de tijolos a carga, ficam por aí, acabarão por servir a obras de menos calado, não faltará quem os aproveite, mas, se foram homens, mandam-nos embora, em hora boa ou hora má. Não serves, volta para a tua terra, e eles vão, por caminhos que não conhecem, perdem-se, fazem-se vadios, morrem na estrada, às vezes roubam, às vezes matam, às vezes chegam». E quando os galos brigam e ferram-se porque o poder lhes escapa... Para quê mais palavras sobre essa coisa que chamamos poder!

domingo, 18 de abril de 2010

O Homem Espiritual

O que seria uma vida sem dimensão espiritual? - Um vazio, um desespero, uma solidão e outras coisas mais que todos nós já conhecemos verdadeiramente. O fim desse vazio, maiormente, é o suicídio, o fim da linha, a morte. Ninguém escapa a esta fatalidade.
Todos temos exemplos de gente que perdeu o rumo, chegou aí, ao abismo do sem sentido da vida e não escapou. Se não teve a coragem de suicidar-se, pairava sobre o mundo como carne morta, é um morto vivo, vivo só aparentemente. Não queiram pensar que faço com isto a apologia do suicídio. Longe de mim tal ideia. Apenas salientar que a vida vazia, é a mais cruel subida do calvário.
Vamos acordar, meus amigos, e pensar a sério e começar a educar a vida de cada pessoa para a verdade das coisas. Ninguém pode ser gente feliz e autênticamente virada para o transcendente, a vida plena se não tomar a sério a sua dimensão espiritual. Não é o corpo, a realidade histórica que preencherá o mais importante da vida. Porque do corpo já sabemos tudo. Como ele passa ou se transforma a cada momento da vida histórica.
Neste pensar a sério a dimensão espiritual fica-nos a razão de Teilhard de Chardin quando diz tão bem como é importante a nossa dimensão espiritual. Repare-se: «Eu não sou um ser humano que tem uma esperiência espiritual. Eu sou um ser espiritual que tem uma experiência humana». - Pensamento, recebido por SMS de um amigo, sempre muito atento a estas coisas, por isso, a ele devo esta minha reflexão. Por fim, viram ao que se deve dar mais importância!

sábado, 17 de abril de 2010

Carta aberta aos bispos católicos de todo o mundo

Nota da redacção: um texto essencial, do maior teólogo da actualidade. Merece ser lida esta carta e reflectida por todos os católicos, que verdadeiramente se inquietam com a situação da Igreja hoje e com o seu futuro. O texto está em português do Brasil. Hans Küng * Perda histórica de confiança Igrejas vazias – e agora ainda por cima um escândalo: Cinco anos após Bento XVI ter sido eleito Papa, a Igreja Católica vê-se a braços com a maior crise de confiança desde a Reforma. Venerados bispos,
Joseph Ratzinger, agora Bento XVI, e eu éramos em 1962-1965 os teólogos mais jovens do concílio. Agora somos os mais velhos e os únicos ainda em actividade. Entendi sempre o meu trabalho teológico como sendo também um serviço para a igreja. Assim, no quinto aniversário do pontificado do papa Bento XVI, escrevo-vos uma carta aberta, pois estou preocupado com a nossa igreja, que se debate com a crise de confiança mais profunda desde a Reforma. Não tenho outra maneira de chegar a vós.
Prezei muito o facto de Bento XVI me ter convidado para uma conversa de quatro horas, pouco depois da sua eleição, apesar de eu ser um crítico seu. A conversa foi amigável e deu-me esperança de que o meu antigo colega da Universidade de Tubinga encontrasse o caminho para o prosseguimento da renovação da igreja e do entendimento ecuménico, no espírito do Concílio Vaticano II.
Oportunidades perdidas
Infelizmente, as minhas esperanças, assim como as de tantos católicos e católicas empenhados, foram vãs e eu comuniquei isso ao papa Bento XVI em diversas cartas. Ele cumpriu sem dúvida conscienciosamente os seus deveres papais e até já nos deu três proveitosas encíclicas sobre a fé, a esperança e o amor.
Mas no que respeita aos grandes desafios do nosso tempo, o seu pontificado é cada vez mais caracterizado pelas oportunidades perdidas e não pelas ocasiões aproveitadas:
- Perdeu-se a oportunidade de aproximação com as igrejas evangélicas: não são entendidas como igrejas em toda a acepção da palavra, pelo que não é possível reconhecer os seus ministros e realizar celebrações conjuntas da eucaristia.
- Perdeu-se a oportunidade de diálogo com os judeus: o papa reintroduziu uma oração pré-conciliar pela iluminação dos judeus e abre as portas da igreja a bispos cismáticos notoriamente anti-semitas, beatificou Pio XII e entende o judaísmo somente como raiz histórica do cristianismo, e não como comunidade de fé existente com um caminho próprio de salvação. Irritação dos judeus em todo o mundo por causa da homília de 6ª Feira Santa do pregador da Casa Pontifícia, que comparou as críticas ao papa com ódio anti-semita.
- Perdeu-se a oportunidade de diálogo confiante com os muçulmanos: sintomático foi o discurso de Bento em Regensburgo, no qual, mal aconselhado, falou do Islão como uma religião da violência e da desumanidade, tendo provocado uma desconfiança duradoura entre os muçulmanos.
- Perdeu-se a oportunidade de reconciliação com os povos nativos colonizados da América Latina: o papa tem afirmado seriamente que eles “ansiavam” pela religião dos seus conquistadores.
Luta contra a SIDA

- Perdeu-se a oportunidade de ajudar os povos africanos: na luta contra a sobrepopulação através da aprovação de medidas de contracepção e na luta contra a SIDA através da autorização do uso do preservativo.
- Perdeu-se a oportunidade de selar a paz com a ciência moderna: através de um reconhecimento sem reservas da teoria da evolução e da aprovação diferenciada de novos campos da investigação, como a investigação sobre células estaminais.
- Perdeu-se a oportunidade de transformar finalmente o espírito do Concílio Vaticano II na bússola da Igreja Católica dentro do próprio Vaticano e de levar por diante as reformas nele preconizadas.
O último ponto, venerados bispos, é especialmente importante. Este papa tem vindo sempre a relativizar os textos do concílio e a interpretá-los contra o espírito dos pais do concílio, recuando em vez de avançar. Toma até uma posição expressa contra o concílio ecuménico que, segundo o direito canónico católico, constitui a autoridade máxima da igreja católica:
- Admitiu incondicionalmente na igreja bispos da tradicionalista Fraternidade Pio X, ilegalmente ordenados,à margem da igreja católica, que rejeitam o concílio nos seus pontos centrais.
- Promove com todos os meios a missa medieval segundo o rito tridentino e celebra ocasionalmente a eucaristia em latim de costas voltadas para o povo.
- Não cumpre o acordo delineado em documentos ecuménicos oficiais com a Igreja Anglicana (ARCIC), mas tenta atrair para a Igreja Católica Apostólica Romana religiosos anglicanos casados, libertando-os da obrigação do celibato.
- Fortaleceu globalmente as forças anticonciliares no interior da Igreja, através da nomeação para cargos de chefia (secretários de estado, congregação da liturgia, etc.) de pessoas com posições anticonciliares e bispos reaccionários.
Política de restauração falhada

O papa Bento XVI parece distanciar-se cada vez mais da grande maioria do povo católico, que se preocupa cada vez menos com Roma e, na melhor das hipóteses, se identifica apenas com a comunidade e o bispo local. Sei que muitos de vós também sofrem com isso: a política anticonciliar d o papa é inteiramente apoiada pela cúria romana. Esta procura sufocar as críticas no episcopado e na igreja, e desacreditar os críticos por todos os meios.
Através de uma renovada sumptuosidade barroca e de manifestações com impacto nos meios de comunicação social, Roma procura apresentar uma Igreja forte, com um “Vigário de Cristo” absolutista, que reúne nas suas mãos todo o poder legislativo, executivo e judicial.
No entanto, a política de restauração de Bento XVI fracassou. Todas as suas aparições, viagens e documentos não conseguiram alterar, no sentido da doutrina romana, as opiniões da maioria dos católicos acerca de questões controversas, principalmente em termos de moral sexual. E mesmo os encontros de juventude, frequentados sobretudo por agrupamentos carismáticos conservadores, não conseguiram travar o abandono da Igreja por parte de fiéis, nem despertar mais vocações para o sacerdócio.
Abandonados
Serão justamente os bispos quem mais profundamente lamentará este facto: desde o Concílio, dezenas de milhares de sacerdotes abandonaram o sacerdócio, sobretudo devido à lei do celibato obrigatório. A renovação não só de sacerdotes, mas também de congregações religiosas, freiras e irmãos laicos decaiu, tanto em quantidade como em qualidade. A resignação e a frustração alastram no seio do clero e entre os membros mais activos da igreja.
Muitos sentem-se abandonados nas suas necessidades e sofrem na Igreja. Em muitas das vossas dioceses deve acontecer isto: cada vez mais igrejas vazias, seminários vazios, residências paroquiais vazias. Nalguns países as comunidades católicas são fundidas, por falta de padres e frequentemente contra a sua vontade, em “unidades de assistência espiritual” gigantescas, nas quais os poucos padres disponíveis estão completamente sobrecarregados e que apenas servem para simular uma reforma da Igreja.
E eis que aos muitos factores de crise vêm ainda juntar-se escândalos que bradam aos céus: acima de tudo, o abuso de milhares de crianças e jovens por clérigos, nos Estados Unidos, na Irlanda, na Alemanha e noutros países - tudo isto ligado a uma crise de liderança e confiança sem precedentes.
Não ao silêncio
Não se pode calar o facto de que o sistema de encobrimento global de delitos sexuais de clérigos foi dirigido pela Congregação para a Doutrina da Fé do Cardeal Ratzinger (1981-2005), na qual, ainda no pontificado de João Paulo II, os casos foram compilados sob o mais estrito sigilo.
Ainda em Maio de 2001, Ratzinger enviou uma carta solene acerca dos delitos graves („Epistula de delictis gravioribus“) a todos os bispos. Nesse documento os casos de abuso eram colocados sob „Secretum Pontificium“, cuja violação pode implicar severas penas canónicas. É, pois, com justiça que muitos exigem do então prefeito e agora papa um „Mea culpa“ pessoal. Contudo, infelizmente este deixou passar a oportunidade de o fazer na Semana Santa. Em vez disso, fez atestar „urbi et orbi“ a sua inocência através do cardeal decano, no Domingo de Páscoa.
As consequências de todos estes escãndalos para o prestígio da Igreja Católica são devastadoras. Isto é confirmado também por titulares de altos cargos da Igreja. Inúmeros pastores e educadores irrepreensíveis e altamente empenhados são agora vítimas de uma suspeita generalizada.
É a vós, venerados bispos, que cabe perguntar como deve ser o futuro na nossa Igreja e nas vossas dioceses. Contudo, gostaria de vos esboçar um programa de reformas; é algo que fiz por várias vezes, antes e depois do Concílio.
Dêem uma perspectiva à nossa Igreja
Gostaria de fazer apenas seis sugestões, que é minha convicção serem comuns a milhões de católicos que não têm voz:
1. Não calar: O silêncio torna-vos cúmplices de tantos males graves. Muito pelo contrário, nos casos onde considerem determinadas leis, disposições e medidas como contraproducentes, devem dizê-lo publicamente. Não enviem declarações de submissão a Roma, mas sim reivindicações de reforma!
2. Ajudar as reformas: São muitos os que se queixam de Roma, na Igreja e no Episcopado, mas nada fazem. No entanto, quando, numa diocese ou paróquia, os serviços religiosos não são frequentados, a assistência espiritual é pobre, a abertura às necessidades do mundo é limitada, a colaboração ecuménica é mínima, então a culpa não pode ser assacada simplesmente a roma. Bispo, sacerdote ou leigo – cada um faça algo pela renovação da Igreja no âmbito maior ou menor da sua vida. Muitas coisas extraordinárias, tanto a nível paroquial como na totalidade da Igreja, começaram por iniciativas solitárias ou de pequenos grupos. Na vossa qualidade de bispos, há que apoiar e estimular essas iniciativas, e ir ao encontro das queixas fundamentadas dos fiéis, sobretudo agora.
3. Agir em colegialidade: O Concílio decretou, após um debate intenso e contra a oposição persistente da cúria, a colegialidade do papa e dos bispos , no sentido da história dos apóstolos, na qual Pedro não agia sem o colégio dos apóstolos. Mas, no período pós-conciliar, os papas e a cúria têm vindo a ignorar esta decisão conciliar central. Desde que o papa Paulo VI, apenas dois anos depois do Concílio, publicou uma encíclica em defesa da controversa lei do celibato, sem ter consultado o episcopado, o magistério e a política papais regressaram ao velho estilo não colegial. Até na liturgia o papa se apresenta como autocrata, perante o qual os bispos, de que ele gosta de se rodear, surgem como meros comparsas, sem direitos nem voz. Por isso, venerados bispos, há que agir não apenas individualmente, mas em comunidade com os outros bispos, os sacerdotes e o povo da Igreja, homens e mulheres.
A obediência é devida apenas a Deus
4. A obediência incondicional é devida apenas a Deus: Na sagração solene como bispos, todos fizeram um voto de obediência incondicional ao papa. Mas também todos sabem que a obediência incondicional nunca é devida a uma autoridade humana, mas apenas a Deus. Assim, o vosso voto não deve impedir-vos de dizer a verdade acerca da actual crise da Igreja, da vossa diocese ou do vosso país. Em absoluta conformidade com o exemplo do apóstolo Paulo, que „resistiu [a Pedro] frente a frente, porque merecia censura“ (Gal 2, 11)! Pressionar as autoridades romanas no espírito da fraternidade cristã pode ser legítimo, quando estas não correspondem ao espírito do Evagelho e à sua missão. A utilização das línguas nacionais na liturgia, a alteração das disposições relativas aos casamentos mistos, a aceitação da tolerância, da democracia, dos direitos humanos, do entendimento ecuménico e tantas outras coisas, apenas foram conseguidas graças a uma perseverante pressão vinda de baixo.
5. Procurar soluções regionais: O Vaticano mostra-se frequentemente surdo às reivindicações do episcopado, dos sacerdotes e dos leigos. Tanto mais necessária é, pois, a procura inteligente de soluções regionais. Um problema particularmente delicado, bem o sabeis, é a lei do celibato, oriunda da Idade Média, que está a ser justificadamente posta em causa no contexto dos escândalos de abusos sexuais. Uma alteração contra a vontade de roma parece quase impossível. No entanto, isso não significa que se esteja condenado à passividade: um sacerdote, que após madura reflexão pensa em casar, não teria de renunciar automaticamente ao seu cargo, se o bispo e a comunidade o apoiassem. As várias conferências episcopais poderiam avançar com soluções regionais. Mas o melhor seria procurar uma solução para toda a Igreja. Portanto:
6. Exigir um concílio: Tal como foi necessário um concílio ecuménico para alcançar a reforma litúrgica, a liberdade religiosa, o diálogo ecuménico e interreligioso, o mesmo acontece para a resolução dos problemas que agora eclodem de modo tão dramático. O Concílio de Constança, no século anterior à Reforma, determinou a convocação de um concílio a cada cinco anos, mas essa decisão tem sido ignorada pela cúria romana. Sem dúvida que esta também agora fará tudo para evitar um concílio do qual tem a recear uma limitação do seu poder. É responsabilidade de todos vós levar a cabo a realização de um concílio ou, pelo menos, de uma assembleia representativa do episcopado.
Enfrentar os problemas com sinceridade
É este, venerados bispos, o apelo que vos faço perante uma igreja em crise, pôr na balança o peso da vossa autoridade episcopal, revalorizada pelo Concílio. Nesta difícil situação, os olhos do mundo estão postos em vós. Inúmeras pessoas perderam a confiança na Igreja Católica. Só uma abordagem aberta e séria dos problemas e a adopção das reformas indispensáveis pode ajudar a recuperar essa confiança. Peço-vos com todo o respeito, que cumpram a vossa parte, sempre que possível em colaboração com os outros bispos, mas em caso de necessidade também sozinhos, com „desassombro“ apostólico (Act 4, 29.31). Dêem sinais de esperança e coragem aos vossos fiéis e uma perspectiva à nossa Igreja.
Saúdo-vos na comunhão da fé cristã

Vosso
[Fonte: La Repúbblica (diário italiano), 15 abril 2010].

* Catedrático emérito de Teología Ecuménica en la Universidad de Tubinga (Alemania) y presidente de Global Ethic

Fernando Pessoa, o órfão de Deus

A poesia de Pessoa é um diagnóstico espiritual que cartografa com exactidão não só as aspirações, mas também o profundo sentimento de perda que atravessa a Modernidade. A marca da cultura moderna não reside, ao contrário do que se diz, na ausência do sentimento religioso, da ética ou da estética. O que caracteriza a Modernidade, mais do que o vazio, é um extravagante excesso, mas sob um regime novo: o da radical autonomização que confere à cultura e ao homem um perfil estilhaçado. A partir de agora flutuamos como fragmentos de uma unidade perdida e inalcançável, e como sujeitos organizamo-nos entre orfandade e ficção.
No início do “Livro do Desassossego”, essa espécie de diário da nossa alma moderna, Fernando Pessoa (perdão, Bernardo Soares) avança as coordenadas epocais em que se situa, em que nos situamos: “Nasci em um tempo em que a maioria dos jovens haviam perdido a crença em Deus, pela mesma razão que os seus maiores a haviam tido - sem saber porquê. E então, por que o espírito humano tende naturalmente para criticar por que sente, e não por que pensa, a maioria desses jovens escolheu a Humanidade para sucedâneo de Deus. Pertenço, porém, àquela espécie de homens que estão sempre na margem daquilo a que pertencem... Por isso nem abandonei Deus tão amplamente como eles, nem aceitei nunca a Humanidade… Não sabendo o que é a vida religiosa, nem podendo sabê-lo, por que se não tem fé com a razão; não podendo ter fé na abstracção do homem, nem sabendo mesmo que fazer dela perante nós, fi cava-nos, como motivo de ter alma, a contemplação estética da vida”.
Porém, a “contemplação estética da vida”, só por si, é insuficiente como motor e sentido de uma existência. Esta entra demasiado depressa, como o poeta reconhece, num inverno inclemente e gelado. Por isso escreve: “Quando acabará isto tudo, estas ruas onde arrasto a minha miséria, e estes degraus onde encolho o meu frio e sinto as mãos da noite por entre os meus farrapos?”. E é aqui, no profundo drama da condição humana, na sua radical exposição, que se insinua a nostalgia de um Deus verdadeiro, em inesquecível diálogo com a parábola do filho pródigo (Lucas 15, 11-32): “Se um dia Deus me viesse buscar e me levasse para sua casa e me desse calor e afeição… Às vezes penso isto e choro com alegria a pensar que o posso pensar…”.
José Tolentino Mendonça, SNPC 14.04.10

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Comentário à Missa do Próximo Domingo

Domingo III da Páscoa
18 de Abril de 2010
Vinde almoçar...
O relato do Evangelho que S. João nos apresenta hoje, manifesta mais uma vez a imagem da pesca como sinal da Igreja que vai surgir mediante a acção dos Apóstolos e pela força da convocação de Jesus. Jesus manda lançar a rede e a pesca abundante que daí advém é imagem da Igreja futura.
Jesus ressuscitado, pretende fundar a comunidade, porque o Reino de Deus que Ele inaugurou não é possível sem a dimensão comunitária. A comunidade será a continuação de Cristo encarnado. O corpo de Cristo histórico descobre-se na comunidade, por isso, a insistência de Jesus para fundar a comunidade é mais do que uma exigência, faz parte da sua missão. A sua missão na terra não termina senão quando a Igreja esteja fundada sobre o seu Corpo e Sangue entregue pela acção da Eucaristia. Neste contexto, sobressai a imagem do banquete, como comensal efectivo da comunidade reunida. Um autor dos textos bíblicos dirá o seguinte sobre a ideia do banquete: “o banquete, com o qual se encerra a narrativa da pesca milagrosa, é o símbolo da conclusão da história da salvação.
A cada um de nós, Cristo ressuscitado dirige a mesma palavra que dirigiu aos seus discípulos junto do lago de Tiberíades: “vinde almoçar...” Este convite tem uma dimensão eucarística fundamental. Nós, que andamos na azáfama do mar que a vida nos reservou, somos também convocados para a celebração do amor junto da comunidade, para que aí se descubra o sentido da vida, se faça a caminhada para redenção fraternal e se encontre a luz do Espírito de Cristo ressuscitado que nos chama à plenitude da vida eterna.
Cada um de nós, se acreditar de verdade, está representado na grande quantidade de peixes que os apóstolos recolhem nos barcos. Eles procederam segundo o mandato de Jesus: “lançai as redes...”
Somos, hoje, também chamados pelo nosso nome a tomar parte nesta festa de amor e de vida. Os tormentos do mar da vida nada são diante desta maravilha que Jesus nos oferece.
Ninguém se salva sozinho. Só na comunidade se pode encontrar a possibilidades da redenção, porque Cristo ressuscitado manifesta-se de forma plena na comunidade reunida. Que todos sejam capazes de abrir a sua existência à palavra de amor que Cristo nos dirige. Não se encontra o verdadeiro sentido da vida fora de Jesus ressuscitado. E a verdadeira vida só é possível quando todos os homens como irmãos se juntem à volta da mesa do banquete que Cristo prepara. Resta que cada um saiba escutar a palavra que o sopro do Espírito faz ecoar: “vinde almoçar”.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Santas declarações?

"Demonstraram muitos sociólogos, muitos psiquiatras, que não há uma relação entre celibato e pedofilia, mas muitos outros demonstraram, e disseram-mo recentemente, que há uma relação entre homossexualidade e pedofilia" - disse o número dois do Vaticano e relacionou a pedofilia com a homossexualidade, excluindo o celibato. Um absurdo. Nem uma coisa nem outra tem a ver com os abusos sexuais de menores. Esta postura enquadra-se dentro da péssima reacção da Igreja Católica à pedofilia, que sempre que se manifesta ainda se afunda mais e contribui para o reacender a fogueira em todas as frentes. É pena que a honestidade intelectual não seja um bem preservado pela Igreja oficial actualmente.
Esta desonestidade está relacionada com esta questão e com tantas outras que campeiam o mundo de hoje. A título de exemplo, repare-se no branqueamento que se faz quanto à acção de Bento XVI, apresentando-o como primeira referência do pensamento católico dos últimos tempos. Alguém se lembra dos saneamentos, os castigos e as suspensões a teólogos e bispos, levadas a cabo por Joseph Ratzinger, enquanto Prefeito da Doutrina da Fé, porque ousavam pensar além do pensamento institucional da Igreja? E a pressão que a Igreja portuguesa fez junto do Governo para declarar no dia 13 de Maio «tolerância de ponto», e pelo que se sabe resultou. Quem acredita ainda que estamos em crise e que se pedem esforços para resolver as contas do Estado? - Santo sinal que se dá outra vez ao povo português! Agradece a maioria dos portugueses, porque terá mais um dia de descanso em 2010.
Os abusos sexuais de menores, acontecem em todos os meios sociais, por causa de mentes perversas, doentias e por criminosos que não olham a meios para satisfazer os seus impulsos mais primários. Por isso, requer-se um debate sério, sem preconceitos e aberto a todos os níveis sobre este cancro terrível que consome as igrejas, as famílias e os diversos grupos sociais.
Falta à Igreja apresentar uma doutrina saudável, positiva sobre a sexualidade e tudo o que diz respeito à questões sobre a vida. O celibato é um ítem dentro desse tema mais vasto, que quando devidamente purificado, apresentaria o celibato como um valor importante, mas também não secundaria o matrimónio e todas as questões sobre a vida. É preciso a Igreja apresentar o prazer sexual como um valor, um bem e um dom de Deus. E por fim, acabar com a linguagem que apresenta ainda a sexualidade como um pecado ou um mal necessário para procriar.

Diálogo entre cristãos

Hoje , dia 14 de Abril no Salão Paroquial de São Roque às 20 horas, haverá uma Conferência-debate, com o seguinte tema: «Como celebra a Páscoa a confissão religiosa Igreja Luterana?» Teremos connosco a Pastora Luterana Ilse Berardo. Todos estão convidados.
Uma oportunidade interessante para estabelecermos um certo diálogo com os irmãos que professam uma outra forma de religiosidade.
O Cristianismo é um universo imenso. Escutar outros irmãos que abraçam a mesma sensibilidade de Jesus Cristo, mas com uma forma distinta de celebrar, pensar e esperar, é sempre muito importante para nós. Estou curioso para ver o ambiente que esta inciciativa vai proporcionar nas nossas paróquias São José e São Roque.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Pensamento sobre a confiança

«Quando um ser humano CONFIA, é capaz de concretizar os mais diversos projectos que o farão feliz e tornarão o mundo um pouco melhor. A CONFIANÇA é uma energia de mudança e concretizações. Como seríamos diferentes, nós e a nossa sociedade, se confiássemos e fossemos dignos de confiança». grão de mostarda

segunda-feira, 12 de abril de 2010

O Amor lança fora o medo e capacita-nos a Ser, em Liberdade

«Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, pois o amor é de Deus (…) Deus é Amor (…) No amor não há temor, antes, o perfeito amor lança fora o temor»… I João 4. 7a,8b e 18
Há dias, ouvi um médico de renome falar dos desafios na medicina, onde é preciso estar pronto para o que for preciso fazer. E completava dizendo mais ou menos o que se segue: «a medicina é isso; peito aberto e, se Deus nos dá uma ajuda, nós damos-lhe uma ajudinha também».
Em texto anterior, eu propunha o desafio de vivermos todas as oportunidades de estarmos com o coração naquilo a que somos chamados a fazer: no ouvir, no falar, trabalhando pela justiça – juntos, quando possível, sendo reconhecidos como seguidores de Jesus Cristo pelo nosso amor… Nós, que nos chamamos irmãos…
Procurando as imagens interiores em mim -- e ao ler também os textos que me antecederam - dou comigo a pensar no amor e nos seus desafios, em ser vigilante, no sentido desse «peito aberto» para tarefas e atitudes a que somos chamados/as, agindo com o coração. E o agir com o coração, fez-me lembrar ainda da familiaridade que a palavra coragem e coração possuem, em várias línguas. Coragem, não como acto extraordinário mas como prontidão, abertura, presença de espírito. Presença do Espírito.
Procurando essas imagens interiores para uma autêntica partilha, dou-me conta de que os desafios a que respondi nos últimos tempos, levaram-me a buscar uma certa inspiração onde havia plasticidade, flexibilidade. Qualidades estas, como resposta à altura do tempo em que vivo e da dignidade das pessoas que encontro.
Dito de outro modo, busquei inspiração onde a minha «referência central, Jesus Cristo», âncora segura em mar bravio, fosse também aquele que chama amorosamente os seus para a liberdade, para uma vida com sentido, plena em sua expressão.
Este par de opostos que muitos não compreendem – a âncora segura e o chamamento à libertação –, foi-nos oferecido, e relembrámos neste Domingo de Páscoa, com renovado compromisso.
A centralidade do Amor nos gestos Jesus Cristo, capacita-nos a Ser em novidade de vida, plena em liberdade. Não é esta a tarefa do perfeito amor? Lançar fora o medo, libertar, acolher, curar, dar direcção, capacitar, propagar os seus dons, de modo a possibilitar o Reino…
Vivendo já agora como ressuscitadas e ressuscitados, que possamos atrevermo-nos a viver por amor, onde nada há a temer. Pois o Senhor em que cremos e que nos une como irmãos, Ele mesmo é Amor.
Ana Cristina Aço
Nasceu em 1961, viúva, mãe de três filhos. Metodista, mas de uma família protestante com muitos ramos, onde o trabalho missionário e pastoral, a abertura ecuménica e a preocupação com libertação de tudo o que oprime o ser humano, tem sido inspirador de sentido. Desde Janeiro de 2010, assume o trabalho pastoral em duas comunidades no centro do país.
Ilustração: The Love Embrace of the Universe, Frida Kahlo

Um não redondo à idolatria

S. Tomás de Aquino tomou do filósofo Plotino (205-270) uma expressão que se tornou emblemática de toda a sua teologia: “De Deus, não sabemos o que Ele é, mas só o que Ele não é”. Em si mesmo, é-nos completamente desconhecido. O que dizemos de positivo a respeito do Mistério, excesso de toda a perfeição, deve ser corrigido por negações que cortem qualquer possibilidade de idolatria, imagens dos nossos desejos ou medos.
Acredito em Jesus Cristo, mas é precisamente Ele que me remete para o insondável Mistério de Deus que não cabe em nenhum conceito, que a linguagem metafórica apenas pode sugerir e que não pode ser anexado por ninguém, por nenhum povo, por nenhuma religião.
Mesmo em relação a Jesus Cristo, só podemos acreditar interpretando. O terminal da adesão da fé cristã não são os artigos do Credo, mas a realidade insondável do divino para onde apontam. De Deus tanto mais sabemos quanto mais nos convencermos de que está sempre para além de tudo o que sabemos.
No entanto, por mais que o silêncio honre a Deus, o ser humano crente não consegue renunciar à ousadia de pensar, não só para testemunhar as suas convicções, num determinado contexto cultural, mas porque, não podendo crer sem interpretar, o próprio acto de fé é vivido como cogitação (co-agitação). Não podemos renunciar a pensar, a procurar saber como é que é verdade aquilo que acreditamos ser verdade. Sem isso, podemos proclamar, sinceramente, o Credo, mas ficar de cabeça vazia. É uma tarefa sem fim. A fé não é um calmante, é um excitante, um santo desassossego. Crer não é ver. É desejo de ver, é caminho de todas as energias espirituais do ser humano. É por isso que a linguagem dos místicos não envelhece como a dos conceitos catequéticos e teológicos, muitas vezes mortos à nascença.
Os pastores da Igreja não se devem alegrar nem assustar com as afirmações ou negações da fé anunciadas pelas estatísticas e pelos meios de comunicação. A sua preocupação deve centrar-se na qualidade das experiências cristãs, na linguagem que as exprime e na inteligência da fé no interior da cultura de cada época e de cada mundo.
In «Fé e cabeça vazia»,
Crónica de Frei Bento Domingues, o.p., no jornal Público

domingo, 11 de abril de 2010

Espelho

Autor: desconhecido

Quando o outro não faz é preguiçoso.
Quando tu não fazes... Estás muito ocupado.
Quando o outro fala é intrigante.
Quando tu falas... É critica construtiva.
Quando o outro se decide a favor de um ponto, é "cabeça dura".
Quando tu o fazes... Estás sendo firme.
Quando o outro não cumprimenta, é mascarado.
Quando tu passas sem cumprimentar... É apenas distracção.
Quando o outro fala sobre si mesmo, é egoísta.
Quando tu falas... É porque precisas de desabafar.
Quando o outro se esforça para ser agradável, tem uma segunda intenção.
Quando tu o fazes assim... És gentil.
Quando o outro encara os dois lados do problema, está sendo fraco.
Quando tu o fazes... Estás sendo compreensivo.
Quando o outro faz alguma coisa sem ordem, está se excedendo.
Quando tu o fazes... É iniciativa.
Quando o outro progride, teve oportunidade.
Quando tu progrides... É fruto de muito trabalho.
Quando o outro luta pelos seus direitos, é teimoso.
Quando tu o fazes... É prova de carácter.
Quando fazes um texto como este e dás aos amigos, é porque gostas dos amigos.
Quando o outro o faz... É um desocupado

sábado, 10 de abril de 2010

O Nélio Freitas ressuscitou

Apenas uma palavra, porque o Nélio Freitas, Jornalista da RDP Madeira, deixou este mundo dos mortais para entrar no outro mundo, o de Deus, cheio de ressurreição, cheio de vida plena e eterna. Temos que saber que a vida deste mundo é curta como o instante que passa, frágil como o barro antes da cozedura e mais ainda, que a vida não nos pertence, é-nos dada por empréstimo. A vida do Nélio, prova-nos isso mesmo, curta humanamente falando (37 anos), mas, que vida cheia, intensa, inquieta, madura, reprodutiva. E que esperança faziam marulhar as ondas da rádio quando o Nélio falava.
Agora, a importância da morte (se é que consideramos importante também o morrer!) ficará gravada no pensamento de Victor Hugo, autor de os Miseráveis, quando nos diz: «morrer não é acabar, é a suprema manhã». Esta sim, a maior de todas as manhãs da nossa vida.
Desta forma, o Nélio, não morreu, não pode ter morrido, está vivo, porque ressuscitou no momento da morte material, naquele semana de Pascoela e à beira do dia da Divina Misericórdia. Que mais esta morte nas nossas vidas nos acorde para a manhã da vida suprema que Deus nos reserva.
Por fim, ofereço aos seus familiares, especialmente, a esposa e os filhos as seguintes palavras de Oscar Wilde sobre este incontornável nome, o AMOR - e como o soube cuidar e viver o Nélio neste mundo - que tudo vence, tudo pode e tudo alcança (como proclamam os grandes santos): «A fonte do amor existe no fundo de nós e podemos ajudar os outros a realizarem muita felicidade. Uma palavra, um gesto, um pensamento, podem minimizar o sofrimento de outra pessoa e trazer muita paz e alegria». Coragem a todos!

sexta-feira, 9 de abril de 2010

É possível o Cristianismo sem igrejas? - Está o debate aberto, participe

Uma questão complexa. Sobre a qual não encontramos resposta fácil. Se dissermos que não, deparamo-nos com uma vasta maioria que se afastou das igrejas e agora procura viver a sua fé sem qualquer ligação a estruturas eclesiásticas e dizem-se satisfeitos e felizes com a fé que professam desligada de estruturas eclesiásticas. Se dissermos que sim, tornamos inútil uma imensa doutrina sobre as igrejas, que remonta aos Evangelhos, às Epístolas de São Paulo e à vasta e riquíssima doutrina dos Grandes Santos Padres da História do Cristianismo e toda a riquíssima doutrina produzida pelos eminentes teólogos ligados às igrejas cristãs.
A denúncia dos abusos sexuais perpetrados por padres e bispos, veio acelerar o afastamento dos fiéis em relação às igrejas. São cada vez mais as pessoas que se afirmam distantes e que não precisam de igrejas para viverem a sua fé em Jesus Cristo. Daí a pertinência da questão levantada, é possível um Cristianismo sem igrejas? - Tentarei apontar algumas causas para este desvio comportamental.
Perante a barbaridade que se está a viver, eis a vergonha e a frustração, não só pelos crimes em si, mas também pelas tentativas que se fizeram para esconder e branquear tais crimes com as artimanhas que as igrejas sabem montar quando se trata de defender o poder e as suas mordomias. São imensos os fiéis das igrejas que sentem vergonha e uma consequente desilusão por tamanha violência e escândalo, que alguns membros das igrejas levaram a cabo contra menores inocentes e indefesos. Para estruturar melhor o meu pensamento, aqui vão dois pontos e dois aspectos que nos ajudarão a compreender esta depressão ou crise grave que enfermam as igrejas dos nossos tempos.
Primeiro ponto, a desilusão com as estrutura eclesiásticas. As pessoas não entendem nada de nada das estruturas eclesiásticas e das suas denominações. A nomenclatura e estrutura das igrejas é totalmente anacrónica e as designações que se lhes aplica nada diz às mulheres e homens dos nossos tempos. Quantos são os que sabem o que é o Papa, os Bispos, os Padres (sem falar dos diversos títulos anacrónicos e injustamente atribuídos aos membros da hierarquia), os Concílios, os Sínodos, os Presbitérios, as Congregações, os Movimentos… E todos esses nomes que as igrejas utilizam como se toda a gente soubesse deste vocabulário. Mais ainda, cada uma destas estruturas está carregada de regras ou estatutos rígidos que estão na cabeça dos líderes e quase sempre desconhecidos dos membros que compõem os diversos conjuntos. Por fim, resta o povo simples que é tratado como fiel, a quem é pedido que obedeça e dê esmolas silenciosamente. Nada tem a dizer da escolha dos membros que irão liderar as comunidades. Basta-lhes serem ovelhas que se deixam conduzir.
Segundo ponto, a desilusão com as lideranças eclesiásticas. Esta desilusão acontece, porque as pessoas costumam encontrar igrejas paradoxais, isto é, opostas umas às outras. Em algumas, deparam-se com líderes das igrejas demasiadamente retóricos, carregados de regras absurdas que não levam a lado nenhum. Não cativam ninguém e especialmente os mais jovens. Alie-se tudo isto à grande desilusão que as igrejas têm com líderes que abusaram de crianças, fizeram roubos e falcatruas além da falta de transparência quanto ao uso dos recursos financeiros, que pertencem a todos e não apenas a alguns privilegiados. Porque são chamados a serem igreja todos os fiéis apenas em alguns aspectos e noutros não, por exemplo, neste das finanças e do património que ainda é muito vasto nas igrejas?
Vamos aos dois aspectos aliados a estes pontos. Primeiro, o autoritarismo. Certos líderes religiosos são verdadeiros ditadores, temidos pelo povo que os respeita não como homens de Deus, mas porque temem pelo seu destino espiritual, que pode ser o inferno. O tempo dos pastores que amaldiçoam já devia ter passado, a humanidade de hoje está mais esclarecida, pensa pela sua própria cabeça e tem consciência do que é a liberdade e a autonomia.
Segundo aspecto, a liberdade cristã. Finalmente, as estruturas eclesiásticas pregam, mas ainda não vivem o seguinte. Existem os que aprenderam a ser livres e que descobriram que a vida cristã é feita de liberdade em Cristo, e que Cristo é a regra e o padrão para todos; aqueles que aprendem que tudo lhes é lícito, mas nem tudo lhes convêm, e que aceitam submeter-se ao jugo de Cristo apenas, já não conseguem pôr o seu pescoço em cabrestos de homens. Aceitam o jugo de Cristo, não o de homens.
Quando o não respeito pela liberdade cristã não acontece, é fruto de líderes que estão preocupados, não com o bem-estar da igreja, mas consigo mesmos. Crentes maduros em Cristo possuem uma percepção da vida cristã mais elevada e estão cada vez mais a fugir das grandes prisões da fé. Daí que a aversão às igrejas tomou tal rumo que não sabemos onde vai parar. Que Jesus Cristo nos ajude!

Comentário à Missa do Próximo Domingo

Domingo II da Páscoa ou Domingo de Pascoela
11 de Abril de 2010
Meu Senhor e meu Deus - Ev. Jo 20, 19-31

Não é nada fácil acreditar sem ver. Todos nós temos experiências quotidianas que marcam profundamente essa realidade. Não gostamos de receber ou comprar a coisa mais insignificante sem primeiro vermos bem o que nos vai chegar às mãos. E não é por acaso que a descoberta melhor que se faz da Páscoa, é que nela estão contidos dois verbos curiosos, o verbo «Ver» e o verbo «Acreditar».
Ora bem, Jesus garante-nos que a sua ressurreição está sempre acontecendo. E serão muito felizes todos aqueles que acreditarem sem terem visto concretamente a pessoa de Jesus, isto é, a realidade histórica propriamente dita. Quer isto dizer que a ressurreição, é uma realidade profundamente espiritual que acontece no fundo da existência de cada pessoa que acredita de verdade. Vê com outros olhos que não os do rosto, o olhar interior, que é sempre o mais importante.
Nenhum argumento prova de verdade que a ressurreição aconteceu nem importa provar a ninguém que tal acontecimento é um facto da história. O mais importante de tudo é que cada pessoa seja capaz de acolher com sinceridade na sua vida pessoal esta proposta de esperança que Jesus nos oferece.
Os felizes, que se refere Jesus neste Evangelho, são todos os que acolheram nas diversas épocas da história do cristianismo a ressurreição como elemento essencial da sua fé e esperança na salvação de Cristo.
O Cristo da ressurreição continua a ser o Jesus da paz. A sua apresentação aos Discípulos é reveladora: “A paz esteja convosco”. A paz é o outro nome de Deus. Aí está mais um elemento curioso para definir Deus. Jesus, o enviado, vem do lugar da paz e mostra-se aos homens com o novo nome do amor, a paz. Já sabemos que sem a paz a felicidade não é possível.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

PASCOELA - ORIGENS E CELEBRAÇÕES

Nota da redacção: surgiu a dúvida quanto ao sentido e significado da palavra «Pascoela», nome que denomina o segundo domingo da Páscoa. Aqui vai uma explicação.
Ocorre sete dias depois da Páscoa, correspondendo ao domingo seguinte ao domingo de Páscoa, também denominado Dia da Misericórdia de Deus, oitava da Páscoa ou Quasímodo. Estas duas últimas designações, embora ainda se usem, eram mais utilizadas antigamente, celebrando-se a oitava noutras liturgias importantes da Igreja, prática caída em desuso quando da reforma do calendário religioso após o Concílio do Vaticano II. A Pascoela simboliza o prolongamento do próprio domingo de Páscoa, numa atitude festiva da Igreja e dos fiéis, podendo dizer-se que representa uma espécie de diminutivo da palavra Páscoa. Recorde-se que o baptismo dos primeiros Cristãos adultos ocorria durante a Vigília Pascal, ritual que continua a manter-se, sendo a quadra da Páscoa a preferida desde os primórdios da religião cristã para se efectuarem os baptismos dos catecúmenos. Daí, chamar-se também – conquanto não já oficialmente – ao domingo de Pascoela o domingo In Albis (domingo branco), devido ao facto dos catecúmenos utilizarem (como hoje) vestimentas brancas no acto do baptismo, celebrado depois, festivamente, por toda a semana que decorria desde o domingo de Páscoa ao domingo de Pascoela. Nos dias actuais, à semelhança de outrora, os baptismos continuam a realizar-se por toda a semana que medeia estes dois domingos, embora, por tempos idos, apenas nesta época do ano a Igreja procedesse à imposição do baptismo. Hoje já assim não é, mas continua a verificar-se a preferência da quadra pascal para se efectuar o baptismo, sobretudo das crianças. Na tradição popular, é durante a celebração da missa do Senhor no domingo de Pascoela – quando esta se realiza às três horas da tarde em ponto – que, «ao pedir-se uma graça, ela será atendida».
Soledade Martinho Costa in blog SARRABAL

quarta-feira, 7 de abril de 2010

O medo da Liberdade

Nota da redacção: Após a celebração do Mistério da Páscoa (palavra que significa passagem), voltamos nós ao convívio com todos os nossos leitores do Banquete. Agora, estamos no tempo da acção do Espírito Santo, por isso, proponho um texto da Ana Vicente, para reflectir sobre o melhor dos valores que emerge da acção do Espírito Santo, a Liberdade. Valor forte e que mal usado pode levar aos piores disparates, porém, canalizado para o bem e para a felicidade pode realizar os gestos mais nobres do ser mulher e do ser homem. Que a nossa vida se faça Páscoa para o verdadeiro sentido da liberdade e que se consuma em cada um a melhor das leis, o Espírito Santo actua em quem quer, onde quer e quando quer. Parabéns ao Espírito Santo.
É uma questão que atravessa a história da humanidade e também a história do cristianismo. Há uma forte tradição de medo da liberdade e precisamente no diálogo ecuménico esse medo esteve/está muitas vezes presente, embora de forma não explícita ou admitida sequer.
Temos medo de «perder», face ao outro, perder estatuto, perder importância, perder espaço, perder razão, em última análise. Ora esse medo da liberdade do outro e também da nossa própria liberdade invalida, de imediato, qualquer diálogo válido. Como afirmou a mulher de Mahatma Gandhi, Kasturba, o oposto do amor não é o ódio mas antes o medo. O medo da liberdade é uma forma muito nociva de medo. Paralisa, infantiliza, empobrece espiritualmente e psiquicamente quem o sofre. A liberdade atravessa a mensagem evangélica – é como se Jesus nos desafiasse a viver a liberdade – assumindo os nossos talentos e responsabilidades perante nós próprios e perante o próximo – aquele e aquela que temos que respeitar e, ainda mais difícil, amar. Jesus promete que está connosco nesta caminhada da liberdade, pelo que será um contrasenso termos medo dela. Reconhecer que todas e todos somos infinitamente diferentes e infinitamente iguais – uma constatação que tantas vezes nos escapa ou que preferimos esquecer, para não termos que assumir as consequências dessa constatação. «Ora o Senhor é o Espírito e onde está o Espírito do Senhor, aí está a liberdade. E nós Todos que, com o rosto descoberto, reflectimos a glória do Senhor, somos transfigurados na sua própria imagem, de glória em glória, pelo Senhor que é Espírito.» (2 Cor 3, 17,18). Perante esta imagem ficamos humildes – como é que o Senhor nos atribui tanta importância e nos chama para a liberdade dos filhos e filhas de Deus? É difícil encontrar palavras adequadas –, mas podemos e devemos procurar não ter medo do diálogo, da escuta, da atenção, às nossas irmãs e irmãos inseridos noutros espaços da grande família cristã. Ficamos confortadas – a liberdade é intrínseca ao Espírito do Senhor, pelo que não fará qualquer sentido termos medo dessa liberdade.
Ana Vicente
Casada, mãe e avó. Autora de diversos livros, sobretudo na área da história das mulheres. Membro do Movimento Internacional ‘Nós Somos Igreja’.