Convite a quem nos visita

sábado, 31 de julho de 2010

António Feio

"Se pudesse matava o bicho com o meu humor."
Esta frase de António Feio, actor falecido por estes dias, expressa bem o seu modo de viver e a alegria com que embelezou a sua vida e a dos outros.
A seguir demonstra como se pode descontrair perante os impossíveis da vida. Não posso… Mas, se pudesse… Vencia com o que sou e com o que fiz ao longo da vida. Bom, não sendo possível vencer, fique-se a derrota por agora, porque a perda é tão importante na vida como o ganho. É nessa contradição que Deus se manifestou e revelou a vitória da vida sobre a morte. É disso que se trata a esperança Cristã.
Morreu a matéria, que por mais importante que seja sabemos ser limitada e a prazo. Porém, ficará a memória da festa e do humor como tempero essencial para continuar esta vida até à nossa hora, o nosso momento derradeiro. Certo como esta luz que nos ilumina. E não saber isso, nem que seja por alguns instantes, é muito importante, para que não se viva na ilusão nem muito menos na ganância de tudo possuir como se o fim não fosse, afinal, para todos.
Fica o lema antigo, que António Feio renova nesta frase: "Aproveitem a vida". Isso mesmo, o que devemos procurar fazer sempre. Porque o sucesso da vida está nas nossas mãos.
Um obrigado grande ao Actor António Feio pela alegria que provocava com as suas palavras. O humor era a sua arma que soube usar com mestria.
Muito bem, missão cumprida. Paz à alma de António Feio.

José Luís Rodrigues

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Queres honrar o Corpo de Cristo?

I
"Queres honrar o Corpo de Cristo?"
Não comeces por desprezá-lo quando ele estiver nu,
Não o honres com vestes de seda,
para o desprezar quando sofre o frio ou a nudez.
Porque aquele que disse "este é o meu Corpo" é o mesmo que disse:
"Viste-me com fome e não me deste de comer".
Que vantagem haverá em que a mesa de Cristo
esteja carregada com vasos de oiro
enquanto Ele morre de fome?
II
Começa por saciar o faminto e, com aquilo que te sobrar,
honra o seu altar.
Fazes um cálice de ouro e não dás um copo de água fresca?
E, para que serve revestir o altar de Cristo de véus de oiro,
se não dás a roupa de que Ele precisa?
Por isso, quando tu ornamentas a igreja,
não esqueças o teu irmão em sofrimento,
porque esse templo tem mais valor do que o outro.
S. João Crisóstomo

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Comentário à Missa do Próximo Domingo

Domingo XVIII Tempo Comum
1 de Agosto de 2010
Os bens deste mundo
Ser rico aos olhos de Deus não dá prestígio, não faz ser famoso, não passa na televisão, no fundo, não dá resultado nenhum ser rico aos olhos de Deus, porque não vemos que a sociedade dê muita atenção às pessoas que procuram a fortuna que agrada a Deus. Pois, São sempre muito poucos os que procuram viver acima de tudo a partilha da vida como a maior fortuna que os faz felizes.
A riqueza material nada diz a Jesus. Porque manifestamente não se quer comprometer com as partilhas dos bens humanos. Reparemos na pergunta que Jesus coloca perante a pessoa que lhe pede ajuda na partilha dos bens: «Amigo, quem me fez juiz ou árbitro das vossa partilhas»?
Os bens deste mundo em nada servem para a realidade de Deus. Por isso, Jesus remata com o seguinte apelo: «...guardai-vos de toda a avareza: a vida de uma pessoa não depende da abundância dos seus bens». Estas palavras são muito interessantes porque pervertem toda a lógica humana, mais empenhada na posse de muitos bens. As riquezas deste mundo servem para muita coisa desta vida terrena, é verdade. Mas para o lugar de Deus não servem absolutamente para nada. O importante da vida, segundo a lógica de Jesus, não é ter muitos bens materiais, mas acumular muitos tesouros de bens espirituais.
Muitas vezes encetamos uma luta constante na vida, sempre à procura de muito dinheiro, de muitas casas e de muitas terras, para fazer render a riqueza, a fim de ter cada vez mais fortuna. Muito bem. Jesus Cristo, embora não repudiando totalmente essa tendência humana, manifesta que o mais importante para Deus não está nessa procura desenfreada pelo lucro e pelos bens terrenos.
A história do homem avarento que Jesus conta no texto do Evangelho é muito curiosa. Um homem rico tinha um campo que num determinado ano tinha produzido uma excelente colheita, como não tinha onde guardar a sua colheita, resolveu construir celeiros maiores, onde já podia guardar todo o trigo e todos os seus bens. Depois, podia descansar longos anos porque tinha uma fortuna em depósito. Podia descansar, comer, beber, regalar-se ao máximo. Mas nessa mesma noite Deus vem ao seu encontro e toma a sua alma. Do ponto de vista humano, até parece uma maldade, uma vingança de Deus. Mas serve esta simples história para nos ensinar que nada valem os bens deste mundo.
Muitas vezes conhecemos amigos e familiares nossos que trabalharam muito durante a sua vida e lutaram o mais que puderam para terem a sua pensão ou a sua fortuna. Quando a ela chegam, o seu corpo está limitado e até por vezes Deus chama-os para si. Nós pensamos, este homem ou esta mulher agora estava bem, tinha boas condições para viver uma vida boa, mas morreu justo agora que a vida lhe corria de vento em poupa. A vida é uma surpresa constante que não depende de nós. O reino de Deus, é a melhor fortuna que cada um pode e deve ter no seu coração. As nossas apostas estão invertidas. Precisamos de canalizar as energias para os bens que conduzem ao bem comum, ao amor, à amizade, à fraternidade universal...

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Sobre o Pai-nosso

Não digas «pai», se a cada dia não te comportas como um filho.
Não digas «nosso», se vives isolado no teu egoísmo.
Não digas «que estais nos céus», se só pensas nas coisas terrenas.
Não digas «santificado seja o vosso nome», se não o honras.
Não digas «venha a nós o vosso Reino», se o confundes com coisas materiais.
Não digas «seja feita a vossa vontade», se não a aceitas quando é dolorosa.
Não digas «o pão nosso de cada dia», se não te preocupas com quem passa fome.
Não digas «perdoai-nos as nossas ofensas», se manténs rancor contra o teu irmão.
Não digas «livrai-nos do mal», se não tomas posição contra o mal.
Não digas «ámen», se não compreendeste nem levaste a sério a palavra do Pai-nosso.
In SNPC
Nota da redacção: Lembro-me num destes últimos anos, que uma vez nas andanças da Visita Pascal ou Visita do Espírito Santo entramos em casa de uma família de Religião Islâmica, quase não falavam português. Logo no início conversamos um pouco contando que seríamos despachados. Dado que tal não aconteceu pelo meio do diálogo urdi o pedido de uma oração que fosse o mais universal possível, lembrei-me do Pai-Nosso, rezamo-la juntos, pelo balbuciar dos lábios do homem da casa, sai dali com a certeza que ele tinha rezado connosco. Esta é de facto a mais universal das orações do Cristianismo, se desvirtuada dá em tudo o que se pode meditar nesta forma de interpretar a oração do Pai-Nosso.

terça-feira, 27 de julho de 2010

A crise da Igreja não é uma fatalidade irremediável

Hoje não há um mundo cristão. Não existem sociedades cristãs. Mas um mundo onde há cristãos e sociedades multifacetadas onde estão também os cristãos. Quando o Papa faz apelo à Europa para que reencontre as suas raízes cristãs, o Papa está a fazer apelo à ideia de uma situação sobre a qual em definitivo se voltou a página.
A organização da Igreja, o seu funcionamento, os seus hábitos e a sua maneira de se governar foram moldados numa época em que existia um Ocidente todo cristão. Tomar consciência de que este já não existe é, desde logo, difícil de admitir e tem como consequência a necessidade de repensar a organização, o funcionamento, os hábitos e as maneiras de governar.
Por isso, Como conceber uma Igreja diferente? - Pensar o governo da Igreja, mudar o seu funcionamento, mudar os hábitos, incluindo o governo, e inventar novos equilíbrios não são coisas fáceis de serem acolhidas por todos os cristãos. Muitos não admitem isso e sofrem com a diminuição da influência da Igreja.
Os que entram na Igreja já com idade mais avançada e, aqueles que, tendo sido baptizados, deixaram a Igreja para voltarem mais tarde ou ainda todos aqueles que a melhor coisa que sabem viver é a indiferença face a tudo o que diz respeito à Igreja Institucional, não sentem o vazio de alma, os crentes de origem e de prática são duramente afectados pela crise que a sua Igreja atravessa (aqui lembro um livro extraordinário de Leonardo Boff, sobre o que é a crise: «Crise, Oportunidade de Crescimento» Verus ed.).
No tempo da cristandade, os fiéis viviam um inconsciente colectivo muito forte. Herdaram das gerações anteriores a memória do que a Igreja foi no passado, do que era num país cristão, do lugar da fé numa cultura moldada por ela. Os fiéis limitavam-se a receber e pouco ou nada reflectiam.
Estes cristãos são, hoje, multidões, participam na animação da Igreja, sustentam a imprensa e as edições religiosas, contribuem para a saúde financeira da instituição, mas todos os estudos o provam: estão fortemente desestabilizados num mundo que se tornou não cristão e que, a seu ver, renega as suas origens. A Igreja, porém, custa-lhe entender que os cristãos de hoje não são iguais aos de ontem. Os cristãos são pessoas adultas, pensam pela sua própria cabeça, lêem livros, revistas, jornais e estão conectados via iternet. A sua formação é muito grande. Não se contentam com pouco. São autónomos, livres de escolher e de decidir. Não se contentam com meia dúzia de coisas banais e sem sentido. A Igreja precisa de dar uma volta muito grande. Precisa de discernir e ver bem a realidade que a envolve. A linguagem sobre a esperança tem que ser outra, a mensagem precisa de adaptação ao mundo actual. O respeito pelas pessoas tem que ser grande, para que a Igreja se apresente como uma instância respeitada e autorizada.
O silêncio pensado, estrategicamente vivido não serve a Igreja. Por isso, requer-se uma Igreja amiga, solidária, transparente, misericordiosa e atenta a todas as coisas da vida, sejam boas ou más, favoráveis ou desfavoráveis. Nada deve escapar à sua acção, mas sempre com um profundo respeito pelos homens e mulheres de cada tempo e de cada lugar.
Por outro lado, as reacções dos cristãos são diferentes, variam entre a interrogação e uma profunda perturbação. Primeiro, não compreendem determinadas posições da sua Igreja oficial. Ficam chocados ou revoltados por verem a sua fé reduzida, em exclusivo, a questões morais pelos não crentes (a Igreja é sempre muito mais falada pelas suas posições morais do que por outras questões não menos essenciais para a vida do mundo e das sociedades). Sentem-se ofendidos pela indiferença manifestada pelo mundo actual em relação ao facto religioso. Ficam escandalizados como a Igreja é tratada pelos meios de comunicação social (a Igreja é notícia apenas e quase só quando há misérias). Muitos têm dificuldades em fazer-se entender pelo mundo e pelas mulheres e homens concretos quando pretendem falar daquilo em que acreditam e quase chegam a pensar que existe um complô contra Deus, contra a fé e contra a sua Igreja (frequentemente encontro pais, sobretudo, as mães, angustiadas com as reacções dos seus filhos quando elas lhes falam de Deus e da Igreja).
Há um vazio geral muito preocupante. Por isso, urge reacender a esperança e deixar que o mivimento de São Paulo nos anime na criatividade do anúncio do Evangelho de forma sempre nova e aberta ao mundo de hoje. Não se pode temer o mundo nem muito menos o pensar e o modus vivendi das pessoas da vida actual.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

A importância dos avós

Aos meus avós
Os meus já morreram. Não sinto infelicidade por isso. É a lei da vida.
Porque conheci os meus quatro avós, sinto uma felicidade muito grande por isso. O tempo que Deus concedeu para eu viver com eles foi suficiente para aprender e saborear o melhor do mundo.
O avô materno foi o primeiro a partir do mundo dos vivos. Vi a sua morte.
Nunca mais esquecerei aquele tombo fatal de costas, fulminado por um ataque cardíaco sem piedade.
Ainda eu criança anunciei a minha mãe essa ruptura impiedosa. Alto e bom som do lugar da morte proclamei para quem quis ouvir, o avô morreu. As crianças são assim, não sabem dos rodeios, só a verdade sempre. Não me lembro das consequências de tal anúncio.
Ficou dele a sua amizade a partir deste episódio. Os meus tios ofereceram-me um casal de coelhos. Passado pouco tempo um coelho morreu, talvez seja a primeira perda da minha vida.
Regressei ao lugar de origem dos coelhos, obviamente, que meus tios não quiseram repor a parelha, mas que culpa tinha eu que um deles tivesse morrido. Chorei amargamente durante horas, este avô, bondosamente, secou as lágrimas e ofereceu amavelmente o coelho que me faltava. Como lhe sou grato por este gesto. E se tal não tivesse acontecido como sarar a ferida de uma perda a uma criança? – Só ele nessa hora percebeu, sem o saber tecnicamente, do meu drama e quanto seria importante para mim ter dois coelhos e não apenas um. O coelho solitário deve ter sido eternamente grato pela minha luta.
A minha avó materna também me marcou profundamente.
Guardo dela a sua paciência, a sua bondade e tenacidade no sofrimento.
Coisas do antigamente, dirão, mas valores importantes para levar adiante a marcha da dureza da vida, que se abatia duramente sem acepção de pessoas. Esta avó cravou-se abundantemente de cravos amargos no ardiloso feito da criação. Esse testemunho ficou para sempre na memória deste neto.
Dos avós paternos ficaram ainda mais recordações. A sua tez enrugada enformam uma silhueta de beleza velha, mas esplendorosa de uma luz indescritível, quase inefável para quem saboreia uma coisa boa, mas não sabe dizer com palavras. E que importa isso. Para mim nada.
A avó sabia muito da vida. A ruralidade foi a sua escola, a universidade. E não era preciso mais para ser feliz. Não gostava do seu nome, Silvina, não temia a morte, frequentemente nos dizia, «não pedi para nascer, também não peço para morrer». Assim foi, sem pedir morreu serenamente sem nunca abdicar do seu copito de Genebra. Uma bebida que não era, a meu ver, nem licor nem aguardente, dizia que lhe fazia bem à barriga. Que mal tinha isso se lhe dava algum prazer tomar um copito do que gostava. Outro aspecto desta avó, prende-se com o prazer do leite de cabra. Pela manhã lá ia a avó ao curral apertar os tetos das cabras para sair esse néctar natural e quentinho para dentro do caneco. Finda essa azafama o caneco era posto à boca e ela bebia o leitinho todo até ao último pingo. Este viver regrado e sob o sabor da natureza deu-lhe durabilidade e muita saúde para viver neste mundo 80 e tantos anos.
O meu avô paterno foi o meu primeiro mestre. O maior pedagogo. O melhor professor.
Deste avô vi as suas multifacetadas habilidades. O cavador exímio. O capador (castrador) dos animais machos (cabritos e porcos), era solicitado pela freguesia inteira e fora dela. Outra habilidade curiosa deste avô era tirar dentes, quase se pode dizer que o dentista da zona, a ele acorria pessoas de todos os lados. Por isso, chamavam-lhe o «tira dentes». O enxertador de árvores como ninguém, nenhum enxerto às suas mãos recusava não «pegar» (rebentar, dar refilo). Falta ainda referir que era também barbeiro e cortador de cabelos.
Ora como se vê, estamos perante o homem dos sete ofícios. Enquanto a sua vista alcançou e as pernas ajudaram sempre esteve disponível para realizar os seus préstimos sem qualquer sombra de mercantilismo. Homem justo. Amigo de todos sem excepção. Solícito para que a qualquer hora do dia ou da noite acorrer aos pedidos que lhe era feitos.
Como é bom guardar em memória esta riqueza do nosso passado. É a nossa primeira escola. O berço onde se tomou o leito da vida como alicerce para o futuro que se está fazendo até aquela hora do encontro feliz da vida eterna. E são eles que desejo em primeiro lugar encontrar para o grande abraço de gratidão pelo amor que me deram enquanto foi possível aqui comungar do seu convívio. Obrigado avós.

domingo, 25 de julho de 2010

A inveja é necessária

Nota da redacção: Porque nos inquietamos tanto com a inveja, ora porque somos vítimas dela ora porque ela se instalou dentro de nós? Eis aqui um quadro interessante que coloca a inveja no devido lugar e melhor assenta como uma luva nos invejosos e nos que são vítimas dessa força que de alguma forma preenche o coração de tantas criaturas deste mundo e que senão canalizada para o devido lugar pode fazer imensas vítimas e outros tantos vitoriosos porque resultou em cheio a sua prática. Afinal, eis a verdadeira utilidade da inveja, quase podemos dizer, graças a Deus que a inveja existe...
«Aqueles que são invejados entristecem-se com o rancor que sentem à sua volta; se são orgulhosos, por receio de algum prejuízo; se generosos, por compaixão dos que invejam. Mas depressa se alegram: se me invejam, isso quer dizer que tenho um valor, dos méritos, das graças; quer dizer que sentem e reconhecem a minha grandeza, o meu triunfo. A inveja é a sombra obrigatória do génio e da glória, e os invejosos não passam, de forma odiosa, de admiradores rebeldes e testemunhas involuntárias. Não custa muito perdoar-lhes, quando existe o direito de me comprazer e desprezá-los. Posso mesmo estar-lhes, com frequência, gratos pelo facto de o veneno da inveja ser, para os indolentes, um vinho generoso que confere novo vigor para novas obras e novas conquistas. A melhor vingança contra aqueles que me pretendem rebaixar consiste em ensaiar um voo para um cume mais elevado. E talvez não subisse tanto sem o impulso de quem me queria por terra. O indivíduo verdadeiramente sagaz faz mais: serve-se da própria difamação para retocar melhor o seu retrato e suprimir as sombras que lhe afectam a luz. O invejoso torna-se, sem querer, o colaborador da sua perfeição».
Giovanni Papini, in 'Relatório Sobre os Homens'

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Comentário à Missa do Próximo Domingo

Domingo XVII Tempo Comum
25 de Julho de 2010
A oração sem força e a força da oração
O tema fundamental que a liturgia nos convida a reflectir, neste domingo, é o tema da oração. Ao colocar diante dos nossos olhos os exemplos de Abraão e de Jesus, a Palavra de Deus mostra-nos a importância da oração e ensina-nos a atitude que os crentes devem assumir no seu diálogo com Deus. Eis, então uma breve reflexão sobre o tema da oração.
A oração tem um poder espiritual muito forte em todos aqueles que acreditam ou alimentam a sua fé e a sua esperança nesse alimento eficaz de transformação das misérias humanas em caminhos de sentido. A oração transforma e liberta da opressão interior do sofrimento e pode dar valor ao sem valor. O sem sentido da existência encontra, por vezes, razões para o coração que as mentes, alimentadas apenas e exclusivamente pela frieza do pensamento, não vêm nem podem ver essa luz forte que brilha da força da oração.
Não existem orações estereotipadas, porque essa expressão emana do coração de cada um. A oração não se verga a esta ou àquela maneira de rezar, a este ou aquele conteúdo de oração. Cada crente expressa esse sentir como sabe e pode ou sente e deseja. A ninguém é lícito definir as formas de rezar e os conteúdos da oração.
Em primeiro lugar a oração serve para despojar e elevar para outros domínios (a realidade transcendente/divina) quem acredita nessa forma de se expressar. A seguir, a oração serve para alimentar o coração de quem a faz. Se a oração cair em formas mágicas de invocação do divino levam irremediavelmente ao seu descrédito e à revolta interior do orante. É o desencanto.
Sabemos que os caminhos de Deus são insondáveis para o homem e os seus desígnios são quase sempre contrários aos dos homens. Por conseguinte, se a oração não estiver esclarecida, a frustração pode ser inevitável. A força da oração reforça os crentes e segura-os na esperança e no sentido da dor e do sofrimento, embora, sabendo que as rupturas da vida sejam inevitáveis.
Por vezes, saem tortas as pretensões daqueles que rezaram muito para que qualquer coisa não suceda, porém, aconteceu não como se esperava. A sensação de desencanto e o descrédito em relação à oração surge como consequência óbvia. Quando tal acontece a oração está desvirtuada e o esclarecimento sobre ela não está feito. Será, então, preciso entender que a força da oração é antes para quem a faz e não para o fim que pretendemos: para Deus ou para os desejos que queremos que se realizem a partir de Deus.
Quero dizer, que não existe lugar para a magia e para a bruxaria na oração. Ela é sempre um caminho que eleva as almas para o domínio de Deus. Daí, que fazer da oração um acordo ou um negócio de permutas não faz sentido e perverte sempre o caminho do orante e o conteúdo da própria oração.
Pensar que Deus concede isto ou aquilo porque se reza ou não reza, é um pensar errado sobre Deus e sobre a sua acção. Deus age mesmo antes de lhe pedirmos e concede a sua graça sempre que a invocarmos ou não. A sua misericórdia é muito maior que o nosso pensar e as nossas palavras.
Não será perverso dizer que Deus não deseja o sofrimento dos seus filhos, fica bem pensarmos que toda a realidade limitada do homem encontra redenção e salvação no coração imenso de Deus. Neste sentido, aquela realidade limite que aos nossos olhos está incontornavelmente perdida - muito antes do fim e do nada segundo o nosso modo de ver - já entrou no mais íntimo de Deus e aí encontrou a alegria da libertação.
Às vezes admira e surpreende que aqueles que acreditam verdadeiramente na acção de Deus, perante o sofrimento e a morte revelam uma serenidade, uma paz e uma alegria interior tão intensas que nem o desespero e as lágrimas dos outros os vergam ao fundo da existência (o choro e a tristeza). Sabem e confiam que Deus já revelou o seu rosto de luz sobre aquele caminho menos bom da nossa condição.
Como falamos de oração lembro-me daquela intensa oração de Pedro Paixão que nos dá neste essencial livrinho que leio neste momento “muito meu amor” das edições Livros Cotovia. Fica esta oração como exemplo de como alguém reza e fica também como chamada de atenção para aqueles que entendem que oração não tem força ou ainda para aqueles que consideram a oração um rol de chavões estereotipados.
O autor referido escreve assim: “Viver todos os dias cansa” - é o título da oração. Depois, continua a sua invocação: “Meu deus, livra-me de mim. Pai, continua a ser o nosso pai. Faz com que a nossa vida seja o sinal de outra vida. Ajuda-nos a aceitar, na incerteza destes dias que parecendo ser tudo-nada são, o que chega e o que vai. Não nos deixes desesperar mais do que o necessário para continuarmos despertos e para que depois possamos descansar na tua paz. Continua a mostrar-te sem nunca te vermos porque não somos dignos da tua presença e enorme é a nossa aflição. Fizeste-nos à tua imagem e sem ti enlouquecemos. Quiseste que só te encontrássemos com a alma e perdemo-nos com os olhos da distracção. Acompanha o meu filho e os filhos de todos os outros, por mais que se percam que te possam de novo encontrar. Perdoa-nos as palavras injustas, a insensatez dos nossos actos, a grande ignorância que se esconde na nossa vaidade. Ajuda-nos a ser fiéis ao que prometemos, assusta-nos quando levianamente trocamos o que importa pelo que não tem importância, castiga-nos quando julgamos que sozinhos conseguimos fazer o que quer que seja. Somos feitos de ossos, pele e carne. E de uma parte divina que quer voltar a ti, nosso pai.” - Assim termina o seu magnífico livrinho.
Faço minhas as palavras orantes do autor e rezo com ele por todos os que certeiramente continuam a procurar na força da oração alimento para os passos tortos da vida. Tudo se torna diferente na vida se bebermos o vinho novo dos cachos belos da vinha de Deus.
José Luís Rodrigues

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Pe. Henri Le Boursicaud - O grande amigo

"A beleza é de todos aqueles que a sabem e desejam saborear..."
O Pe. Henri Le Boursicaud, com os seus 90 anos no próximo dia 23 de Agosto, tem viagem marcada para Vila Velha (Fortaleza-Brasil) para o próximo dia 12 de Agosto. Ele que partilhou toda a sua vida, até ao último centavo e ao limite das suas forças, com os mais pobres desde os bairros de lata de Champigny (Paris) até às sanzalas do Congo, do Benin, dos Camarões, de Madagáscar, de Cabo Verde, até às favelas do Haiti, de São Paulo e de Fortaleza,não resistiu ao convite último do seu amigo José Airton para ir acabar seus dias entre os mais pobres de Vila Velha."PARTILHA" é a palavra mais repetida em todos os seus livros, palavra que o leva a não possuir mais do que um boné, um casaco, 2 camisas, 2 cuecas, dois pares de meias e uns sapatos já quase desfeitos. A sua pequena reforma, de seiscentos e poucos euros tem ainda servido para socorrer quantos sofrem, onde quer que seja. Foi o caso de todas as comunidades de Emaús que foi ajudando a fundar aos longo da sua vida em todos aqueles países, e mais alguns como foi caso da Roménia, da Irlanda e Checoslováquia e de Portugal,mas também as vítimas do terramoto do Haiti e das inundações da Madeira... "PARTILHAR" ...se algum amigo ou amiga deseja participar nesta partilha do Pe. Henri, desprendendo-se dum pouco que lhe sobre,não hesite em contactar-me.Perdi a vergonha de pedir ao ver uma mãe jovem a chorar, com uma das suas filhinhas ao colo e outra pela mão, nos seus peitos não havia leite, tenho a certeza. Perdi a vergonha de pedir ao escutar a voz dum pequenino pedindo-me pão - não guloseimas ou brinquedos - fazendo brotar dos meus olhos algumas lágrimas envergonhadas por não poder socorrê-lo naquele instante. Já não havia um cêntimo na minha algibeira, nem do José Airton... Deus não nos vai perguntar se fomos a muitas ou poucas missas. Vai sim dizer-nos: "Tive fome e tive sede...estava tuberculoso...não tinha água nem saneamento...não havia escola...chovia-me em casa (?) como na rua...quando a maré subia, a água do rio entrava dentro e eu vivia no lamaçal...éramos cinco e só tínhamos um colchão velho... não te lembras de me ter visto?..."
Raúl Ribeiro
Nota da redacção: Tenho a honra de guardar como memória da minha vida a presença deste homem nas paróquias onde sou actualmente pároco, São José e São Roque na cidade do Funchal, Madeira. Durante um fim de semana inteiro pregou nas missas destas comunidades, um grande momento, que se tornou inesquecível para muita gente. Obrigado a Deus por isso.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Concerto com máquina de escrever - extraordinário

O que é pequeno é bonito

«A candidatura de Portugal, em conjunto com a Espanha, à organização do Campeonato do Mundo de Futebol em 2018, deverá desde já pensar, para poder ser um acontecimento desportivo socialmente útil e eticamente sadio. Mas se “a cultura da alta competição é a do dinheiro, do individualismo, do egoísmo, da batota” como diz Jean-Philipe Acensi da Agência para a Educação pelo Desporto, então é melhor ocuparmo-nos da “baixa competição” no relvado da aldeia. Que, essa sim, tem um papel social e educativo a desempenhar. E “o que é pequeno é bonito”».
ERNESTO CAMPOS

terça-feira, 20 de julho de 2010

Perguntarei ao Cristo

Perguntarei ao Cristo
Se um dia puder
perguntarei ao “Cristo”porque o pintam branco
Os homens do norte.
Perguntarei ao “Cristo”porque será que
sendo judeu, o amam tanto,
odiando os outros judeus.
Perguntarei ao “Cristo”porque odeiam tanto
O homem negro,
os homens do norte.
Se um dia puder
perguntarei ao “Cristo”“quando virá”,
para conversarmos e depois lhe dar
as boas noites e dormir, que os homens do norte
Estão surdos.
Delmar Maia Gonçalves

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Só para lembrar à curta visão do ser ilhéu

Nota da redacção: Serve a presente citação apenas e só para lembrar às doutas mentes que governam a diocese do Funchal e a nós todos, que Somos Igreja...
Vem esta citação do Professor Anselmo Borges a propósito da bela entrevista que Frei Bento Domingues concedeu no Sábado passado ao DN do Funchal e que mereceu o mais estapafúrdio comentário da auto denominada voz da Diocese do Funchal, na qual não me revejo em absoluto. Lembramos também que o nome Frei Bento Domingues coloca-nos perante um dos mais importantes teólogos portugueses da actualidade, com muitas provas dadas nesta área quer a nível nacional quer internacionalmente falando. Não merecia que a Diocese lhe prestasse tamanha ofensa. Já não é a primeira vez, que se ofende figuras nacionais, só porque, desassombradamente, colocam o dedo da nossa insarável ferida, o «matrimónio» entre a Igreja da Madeira e o partido que governa a Madeira. A isso chama-se cooperação. Ó santa ignorância e não nos façam de parvos com a ilusão que nos cegam com poeira atirada aos olhos.
Qual será o porquê de entregar pronunciamentos oficiais da Diocese do Funchal, a gente tão impreparada, que faz doer a alma? - Salta-nos a palavra seguinte para tais pronunciamentos, ridículo, apenas e só... E quem entra por aí que assuma a responsabilidade do ridículo, mas que fale só e unicamente em seu nome pessoal. Não se nomeie voz oficial, nem muito menos juiz da Igreja, porque a Igreja não precisa de juízes, mas de profetas ousados e discípulos corajosos do Mestre Jesus Cristo. Confundir a voz da Igreja com a voz do Jesus de Nazaré, é a maior das ofensas ao Evangelho. Mas, que se há-de esperar de tamanha miséria em que caiu a nossa Igreja. Responsáveis? - Os pobres padres, feitos bispos pelos amigalhaços que depois nos disseram a nós, o povo, serem fruto da acção do Espírito Santo. Mas, a quem serve esta manipulação ao redor do Espírito Santo? - Nem ao Espírito Santo nem muito menos à Igreja de Jesus Cristo, pela qual derramaram o sangue a multidão de mártires que a história do Cristianismo pode contar.
Coitado do Espírito Santo, não sabe de metade da missa que tais senhores rezam todos os dias, devotamente, com o cálice do orgulho e o pão da ignorância que o pretenso poder lhes confere. Fiquem-se com o ridículo que tais pronunciamos lhes conferem, porque, nós vamos adiante por outros caminhos. Porque, por um lado, não nos revemos numa igreja que não aceita o diferente, o debate de ideias, a ousadia das iniciativas pastorais, a coragem perante os poderes dominantes deste mundo... Ora, tudo o que a seguinte citação refere em baixo.
Por outro lado, como aceitar uma igreja que tolera gente sexualmente doente, abusadores de menores, vulgo, pedófilos, frustrados com aventuras amorosas, carreiristas ignorantes e pobres de espírito que se fazem vozes do dono, seguros que a bajulice os irá recompensar com mordomias e o pretenso poder? - Não, não e não, estamos contra esta forma de ser igreja e queremos antes uma Igreja de irmãos que tomam o pão da vida e o cálice do amor pelo «Bem-Comum» todos os dias na Eucaristia de Jesus de Nazaré e não nas missas do poder dos senhores deste mundo.
A seguir já estou a ver as baboseiras da comunhão e da devoção ao Papa e aos bispos que muitos só sabem fazer e lembrar aos que eles consideram perdidos, só porque pensam de modo diferente da ortodoxia que interpretam à sua maneira puramente pessoal, porém, lembro que o Cristianismo não teria passado de mais uma singela seita se tais baboseiras tivessem feito história. São Paulo, é a figura sintomática dessa «afronta» que vós dizeis ser pensar de modo diferente da vossa ortodoxia. Por isso, deixemo-nos de tontices e vamos preencher o coração com a abertura ao debate de ideias como reclamou o Bispo D. Januário Torgal Ferreira, quando dizia há dias na sua crónica semanal, que na Igreja portuguesa nada se debate e essa era uma das grandes lacunas da nossa Igreja actual. De resto, só a Deus se deve prestar contas.
Por fim, termino com a prometida citação de um «cubano». Mas, espero que a condição do ser ilhéu não nos encurte a distância da sabedoria nem os limites geográficos sejam norma para aferir o que quer que seja, porque, se tal se fizer regra, então, que sirva para todos os domínios sem excepção e depois ver-se-á a pobreza em que nos tornamos.
«A doutrina social católica assenta nos seguintes princípios: "o bem comum, a solidariedade, a opção pelos pobres, a subsidiariedade, o destino comum dos bens, a integridade da criação, o centramento nas pessoas", que se baseiam e seguem o Evangelho.
Estes princípios deveriam "capacitar-nos enquanto Igreja para criticar construtivamente todos os sistemas e políticas sócio-político-económicos", especificamente a partir dos seus efeitos sobre os mais pobres e vulneráveis. Mas, cá está: para poder criticar, a autoridade da Igreja deve estar também disposta a submeter-se à crítica e seguir ela própria os princípios que prega.
O princípio de subsidiariedade deixou de aplicar-se na vida da Igreja por causa da centralização das decisões no Vaticano e "a ortodoxia é cada vez mais identificada com opiniões e perspectivas conservadoras, seguindo-se daí que o que cheira a 'liberal' é suspeito e não ortodoxo".
Como reconciliar diferentes visões e modelos de Igreja? O bispo não tem a resposta, mas sabe que "devemos encontrar uma atitude de respeito e reverência pela diferença e diversidade enquanto procuramos uma unidade viva na Igreja"».
Citação de «O restauracionismo na Igreja», por ANSELMO BORGES, DN - Lisboa, 17 de Julho de 2010.

Para pensar antes de rir

Numa aldeia longínqua, onde todas as mulheres tinham a mania de pôr os"cornos" aos maridos, vivia um padre muito antigo que, já tão cansado deouvir as mulheres a dizerem sempre o mesmo pecado, arranjou a seguintedesculpa.
Fez uma reunião com todas as mulheres da aldeia e combinaram que, em vez dedizerem que tinham posto os "cornos" aos maridos, tinham escorregado na ponte.
E assim foi. Quando as mulheres enganavam o marido diziam que tinhamescorregado na ponte. Certo dia, o padre que adoeceu e morreu e tiveram dearranjar um outro padre mais novo. Só que este padre não sabia o que queria dizer "escorregar na ponte" e como eram muitas mulheres a dizerem o mesmo ele estranhou e foi falar com o presidente: - Oh senhor presidente, você sendo um presidente muito cuidadoso com esta aldeia tem de ver se arranja a ponte porque as mulheres estão fartas de lá escorregar!
O presidente, como sabia o que isso queria dizer, fartou-se de rir. O padre viu-o a rir e disse: - Está a rir-se mas a sua mulher já lá escorregou mais de cem vezes!
Nota da redacção: Nada melhor para começar, depois de uma breve ausência. Uma anedota cheia de pontos de reflexão. Tudo correu bem. Este tempo serviu para aprender muito e, especialmente, retemperar forças espirituais e físicas. Mas, ainda falta as férias a sério. Aguardemos.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Comentário à Missa do Próximo Domingo

Domingo XV Tempo Comum
11 de Julho de 2010
Amar a Deus e ao Próximo
A liturgia deste domingo procura definir o caminho para encontrar a vida eterna. É no amor a Deus e aos outros, que encontramos a vida em plenitude.
O Evangelho sugere que essa vida plena não está no cumprimento de determinados ritos, mas no amor (a Deus e aos irmãos). Como exemplo, apresenta-se a figura de um samaritano – um herege, um infiel, segundo os padrões judaicos, mas que é capaz de deixar tudo para estender a mão a um irmão caído na berma da estrada. «Vai e faz o mesmo» – diz Jesus a cada um dos que o querem seguir no caminho da vida plena.
A primeira leitura reflecte, sobretudo, sobre a questão do amor a Deus. É importante a descoberta de Deus para que a consequência do amor aos outros seja uma realidade na nossa vida concreta do dia a dia.
Na segunda leitura, Paulo apresenta-nos um hino que propõe Cristo como a referência fundamental da vida toda. Ele é o centro à volta do qual se constrói a história e a vida de cada crente. Cristo como exemplo de amor a Deus e ao próximo sem acepção de pessoas.
A Liturgia deste domingo, ensina-nos que a vida autêntica, radicada no amor de Deus, não se reduz a ritos herméticos, seguros e anacrónicos. Mas, antes devemos olhar para os outros como caminho para Deus, para a salvação, mesmo que algumas vezes sejam um «inferno», como nos ensina o filósofo Jean Paul-Satre. Não, segundo o ensinamento de Jesus com a Parábola do Bom Samaritano, descobre-se a graça que podem ser os outros no caminho do amor e da salvação, sem fazer acepção de pessoas para que não se fale entre nós em intolerância, xenofobia ou outro mal que despreza o direito da vida para os outros. Porque «quem não ama, já morreu», podemos reproduzir este axioma a partir da primeira Carta de São João: «Quem não ama permanece na morte».
Aqui faz sentido lembrar a escrito de Dostoievskyque diz o seguinte: «o primeiro passo é o mais difícil, quer para o crime quer para a santidade». De facto, basta muitas vezes um primeiro passo para que a vida se encontre entre esse brilho maior de Natália Correia, que se encontrava entre «o sorriso e a paixão».
Pois bem, deixemos os absurdos maquinais das regras vazias, sem carne, para gestos humanos mais de acordo com o ensino sábio de Eduardo Prado Coelho: «Amar os homens é amá-los como eles são – com as suas misérias, as suas cobardias, os seus sonhos obscenos, os seus filmes pornográficos, a sua ferocidade animal, com o que neles é sublime e com o que neles é abjecto. Amar os homens não é conhecê-los, mas conhecê-los até aos limites, naquilo que, de demencial, absurdo ou inumano, eles são capazes. E é nisso que a arte nos ajuda» (in «O Inferno em Papel Bíblia», Público 4/3/1991). Grande desafio este da descoberta de Deus no caminho dos outros. Nisto consiste a vida eterna.
José Luís Rodrigues

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Meditação - Para uma espiritualidade da cura

Nota da redacção: uma bela reflexão para todos os que consideram as curas e milagres de Jesus fora do âmbito da espiritualidade. Quando tal acontece, vemos as asneiradas que vemos...
Alguns cristãos ficam embaraçados com as curas de Jesus. Não sabemos verdadeiramente o que fazer das curas miraculosas narradas pelos evangelhos. É possível crer atualmente em milagres? Seja qual for a resposta, como poderemos ignorar o facto histórico que Jesus fazia curas?
Em primeiro lugar, importa sublinhar que Jesus pretendia uma cura integral. A nossa distinção moderna entre cura física e psicológica ou espiritual é desconhecida da Bíblia, assim como das tradições africanas. Mesmo quando os sintomas se manifestavam claramente sobre o corpo ou dentro dele, é de maneira holística que aquelas tradições compreendem a doença e o tratamento, abordagem que os médicos ocidentais começam hoje a redescobrir.
Neste sentido, a atividade curativa de Jesus ultrapassou em muito as curas miraculosas descritas pelos evangelhos. O seu hábito de tratar as pessoas como objeto de um perdão incondicional, libertando-as de toda a culpabilidade ou de todo o pecado, tinha um poderoso efeito curativo sobre aqueles a quem se repetia a torto e a direito que eram culpados.
Podemos facilmente imaginar como a aproximação de Jesus a estes casos poderia levar qualquer pessoa às lágrimas, como se pode ver claramente no episódio da mulher que chora de maneira tão abundante que o narrador pôde escrever que as suas lágrimas banharam os pés de Jesus (Lucas 7, 38). “Os teus pecados estão perdoados”. “A tua fé te salvou-te. Vai em paz » (Lucas 7, 48, 50).
É importante reter que a palavra traduzida aqui por “curada”, sesoken (que também se pode traduzir como “restabelecida” ou “salva”) é utilizada nos evangelhos para designar tanto o que poderíamos chamar uma cura física como uma cura espiritual.
O carácter holístico da atividade curativa de Jesus aparece distintamente na história do paralítico que é feito passar pelo teto (Marcos 2, 2-12 e narrativas paralelas). Jesus cura-o dizendo-lhe de uma maneira inesperada: “Os teus pecados estão perdoados”; e depois: “Levanta-te e vai para tua casa”. Este homem sofria manifestamente de um sério complexo de culpabilidade que paralisava todo o seu corpo. Depois de um profeta como Jesus lhe ter assegurado que os seus pecados tinham sido perdoados e que não havia mais nenhuma razão para se sentir culpado, pôde levantar-se e andar.
Dificilmente se pode exagerar o efeito curativo da pregação e do ensino de Jesus. Ao repor o mundo no seu lugar, deve ter dado um apaziguamento incalculável àqueles e àquelas que se sentiam esmagadas e desfavorecidos pelo sistema da época. Tanto nas suas parábolas como nos seus ensinamentos diretos, Jesus procurava abrir os olhos dos seus contemporâneos para que eles vissem o mundo de maneira diferente, para que eles o vissem tal como é verdadeiramente e, sobretudo, para que eles vissem Deus como nosso Pai que ama e que perdoa, que é nosso abba.
É através da metáfora da visão que Jesus exprime esta consciência. “A lâmpada do corpo são os olhos; se os teus olhos estiverem sãos, todo o teu corpo andará iluminado” (Mateus 6, 22 e paralelos). Pelo contrário, alguns não vêem nitidamente porque têm um “argueiro” no olho (Mateus 7, 3). E é bem verdade que ver as coisas tal como elas são verdadeiramente torna-nos livres. E cura.
A boa nova do reino ou da família de Deus, onde todos serão iguais e onde tudo será partilhado, e o começo da sua realização nas comunidades que já se formavam em torno de Jesus e nessas refeições festivas que construíram a sua reputação devem ter sido acolhidas com uma enorme gratidão e criado uma grande onda de esperança, dado que conseguiram curar séculos de feridas, ressentimentos, inseguranças e angústias. Que paz e conforto esta boa nova deve ter trazido a um povo inquieto!
Albert Nolan (adapt.) In Spiritualité 2000, Trad. / Adapt.: rm© SNPC (trad.) Imagem: del Piombo, Ressurreição de Lázaro

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Dalai Lama fez 75 anos

O líder tibetano acaba de cumprir 75 anos. Na VISÃO de amanhã pode ler-se uma reportagem em Dharamsala, onde o Dalai Lama vive exilado há 51 anos.
Nota da Redacção: Grande figura do nosso tempo...

Fé e Beleza

Igreja precisa de celebrar novo pacto criativo com o mundo das Artes.
Na linha dos seus predecessores, o Papa Bento XVI tem declarado que a Igreja precisa de celebrar um novo pacto criativo com o mundo das Artes. São palavras para tomar a sério e traduzir em cada realidade nacional. Não há razões para a Igreja realizar a sua missão (que tão intimamente se liga não só à Verdade e ao Bem, mas também à Beleza) de costas voltada para os grandes criadores do seu tempo. Um catolicismo que descure a expressão da Beleza é seguramente um catolicismo diminuído.
A Beleza para a Igreja não é um ornamento. Se o Mistério de Deus se soletra pela tríade Verdade, Bem e Beleza, quer dizer que esta última integra o património íntimo que dá substância à própria Fé. Sem a Beleza a experiência cristã permanece incompleta, por que Deus é Beleza, esplendor, glória. Nós sabemos bem os riscos de um cristianismo puramente histórico, articulado simplesmente entre convicções e práticas. O cristianismo é também um sobressalto de infinito, paixão pelo absoluto, uma epifania que nos transcende, uma inexplicável emoção que nos derruba nos caminhos de Damasco que são os de todas as vidas.
Dizia o Papa Paulo VI aos Artistas, num discurso que Bento XVI tem citado: "Nós temos necessidade de vós. O nosso ministério precisa da vossa colaboração. Porque, como sabeis, o Nosso ministério é pregar e tornar acessível e compreensível, aliás comovedor, o mundo do espírito, do invisível, do inefável, de Deus. E nesta operação... vós sois mestres. É a vossa profissão, a vossa missão; e a vossa arte é extrair do céu do espírito os seus tesouros e revesti-los de palavra, de cores, de formas de acessibilidade… E se a Nós viesse a faltar o vosso auxílio, o ministério tornar-se-ia balbuciante e incerto".
A Igreja em Portugal precisa de um virar de página nesta matéria. Há ainda demasiados subprodutos que circulam, numa espécie de contrafacção estética e de ruído. Urge uma estação de exigência e o celebrar de um compromisso capaz de dar à nossa Evangelização uma estética consistente, coerente e contemporânea.
José Tolentino Mendonça

terça-feira, 6 de julho de 2010

A Palavra é a origem de tudo

Uma palavra. A primeira. Com ela tudo começa. Assoma à porta e chama as outras. Acena, grita, baila, canta, seduz, proibe, expulsa. Não há ideias em mim. Apenas palavras. Nomes. Divididos em categorias. Pequenos, médios e grandes. Conhecidas e desconhecidas. Inventadas e por inventar. Assim são as palavras. Assim me encantam elas.
Nunca penso no que escrevo. Vai-se fazendo. Umas vezes depressa,outras devagar. As palavras. Estas e todas. Respiram, ofegam, explodem, as palavras. Estas e todas as outras. As mortas e as vivas. Palavras, vagas, duvidosas. Precisas, específicas. Subtis, pesadas. Falsas, verdadeiras. Vãs, objectivas. Tristes, alegres. Palavras sem fim. Palavras dentro de palavras. Milhões de anos a falar. Os mortos ainda falam. Nas palavras. Os vivos já se sabem mortos. Nas palavras.
Palavras de amor, de ódio. Palavras cheias de tudo e de nada. Palavras cheias de mim e de ti.
Cada uma é infinita. Uma palavra é uma ilha, um continente, um satélite, planeta, uma estrela, uma galáxia, uma nebulosa, um universo (um buraco negro, que tudo devora).
As palavras são negras, brancas, azuis, amarelas, vermelhas, verdes, castanhas, cinzentas, mas apenas tu és VIOLETA...
Esta é a palavra mágica - onde tudo começa e acaba, CENTRÍPETA - nela assentei todas as outras; nela cumpro o meu destino: de nunca a esquecer, mesmo nos dias em que me ausento do mundo...
EMANUEL BENTO
PS: Porque sou um homem de palavra (e de palavras)...
Nota: título do autor do blog

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Reino de Deus: unidade na pluralidade

Por Grão de Mostarda
«Vocês são o sal da terra. Mas se o sal perde as suas qualidades, poderá novamente salgar?. Já não presta para nada, senão para se deitar fora e ser pisado por quem passa. Vocês são a luz do mundo. Uma cidade situada no alto de um monte não se pode esconder. Também não se acende um candeeiro para o pôr debaixo da caixa. Pelo contrário, põe-se mas é num lugar em que alumie bem a todos que estiverem em casa. Do mesmo modo, façam brilhar a vossa luz diante de toda a gente, para que vejam as vossas boas obras e dêem louvores ao vosso Pai que está nos céus» Mateus 5, 13-16 (tradução ecuménica de a Bíblia para todos). O autor do evangelho de Mateus coloca este discurso de Jesus imediatamente a seguir à proclamação das bem-aventuranças, apresentadas às discípulas e discípulos como «plano de vida». Jesus diz-lhes que a sua felicidade não dependerá de um conjunto de situações ou circunstâncias de poder ou de glória; dos seus méritos pessoais ou das suas grandes capacidades; da sua influência social, política ou financeira. Pelo contrário, Jesus considera como felicidade o que, na lógica normal das sociedades, é olhado com desprezo: a pobreza, o choro, a humildade, a fome e a sede, a misericórdia, a integridade, a pacificidade, a perseguição, o insulto e a calúnia… Esta passagem de Mateus é um dos textos evangélicos mais apelativos à concretização da unidade dos cristãos. Jesus não propõe uma estrutura demarcada do quotidiano ou paralela à organização social e política dos povos. O que aponta é uma integração activa na vida da humanidade, motivadora de novos comportamentos, solidários e fraternos, expressos nas bem-aventuranças. E não dando uma orientação uniforme, Jesus socorre-se de elementos integradores do quotidiano, de forma plural, para apontar o modo de estar na vida dos que aceitam a sua proposta de «Reino de Deus». Ao utilizar o exemplo do sal, Jesus expressa a própria natureza da comunidade cristã: dar «sabor» à vida das mulheres e homens, a exemplo do sal na comida – sem se envidenciarem, os cristãos constituem presença actuante, não à maneira dos que dirigem o mundo, que para si tomam o protagonismo. Ser sal é estar presente com a mesma naturalidade com que o sol se levanta, depois de cada noite. Ou seja, quando o sal está presente na dose certa, torna-se agradável, mas quando falta, a comida fica menos apetecível. Por isso, Jesus não refere a quantidade de sal, mas a sua qualidade. Perdendo a sua força, será rejeitado, pisado… Quando Jesus refere, aos que o escutam, a necessidade de serem luz – «façam brilhar a vossa luz diante de toda a gente» – parece contradizer o que antes afirmara, ao dar o exemplo do sal. Na verdade, Jesus coloca uma condição a esta luz: «que alumie bem a todos que estiverem em casa». Ou seja, esta luz não existe para ofuscar. A sua missão é iluminar, mostrar o que está à sua volta, para que os olhos (os corações) ganhem consciência da vida e dos acontecimentos, partilhando decisões e caminhos. Sendo condimento e luz, as discípulas e os discípulos de Jesus constituir-se-ão como «cidade situada no alto de um monte» que toda a gente vê. Ao comparar com uma cidade os que aceitaram o «plano de vida» das bem-aventuranças, Jesus sublinha a sua multiplicidade de opções, de serviços, de intervenções e de empenhamentos. No fundo, a pluralidade dos carismas na comunidade dos crentes. Tal como uma cidade, ela tornar-se-á espaço de acolhimento das esperanças e necessidades da humanidade… Um mesmo coração – a cidade –, mas diversos dons – diferentes serviços.
Fazendo eco das palavras finais de Jesus, neste discurso – «para que vejam as vossas boas obras e dêem louvores ao vosso Pai que está nos céus» –, o teólogo católico José María Castillo escreve: «Quando isto acontece, o mundo ilumina-se e glorifica-se a Deus. E a vida passa a ter sentido» (1).
(1) La Religión de Jesús – comentário al evangelio diario, ciclo B (2008-200)
imagem: blog.cancaonova.com

sábado, 3 de julho de 2010

Outro mundial que ninguém quer ver

África e o futebol: um relato de paixão, pobreza e criatividade Jessica Hilltout percorreu dez países do continente africano para documentar a paixão pelo o futebol, ainda que por vezes seja impossível o acesso a coisas tão elementares (para as sociedades ocidentais) como uma bola ou um par de ténis.
“Cada bola era para mim uma pequena joia”, refere a fotógrafa belga de 33 anos, acrescentando que muitas vezes são as crianças da criação destas peças de artesanato.
No livro de notas das duas viagens, a autora refere que não há nenhuma povoação em África que exista em futebol. “É a única actividade que não custa nada”, explica: “As bolas são feitas à mão, há sempre por perto um terreno relativamente plano; a madeira fornece os postes para a baliza”. “Todas as pessoas que estão na sombra do campeonato mundial [de futebol] serão as estrelas deste livro”, escreve Hillout, sublinhando que o seu álbum “não é só sobre futebol ou sobre África” na medida em que procura “captar a beleza e a força do espírito humano”.
Nota da redacção: Eis outro mundo, que passa ao lado, muito ao lado, da sujeira dos negócios do futebol rico da FIFA, dos grandes clubes europeus e outros. Este é o «mundial» que ninguém quer ver.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

O Cemitério Alegre da Roménia

Na aldeia de Săpânţa, na Roménia, há uma bizarra atração turística. O cemitério local, conhecido como o Cemitério Alegre, difere da esmagadora maioria de locais semelhantes no mundo. As centenas de lápides são um mar de cores vivas, onde predomina o azul. Esculpidas em madeira, as lápides contêm poemas que sintetizam a forma como viveu, ou como morreu, a pessoa que lá se encontra sepultada. A tradição é recente. Stan Ioan Patras começou a gravar as primeiras lápides em 1935. Quando morreu já tinha treinado sucessores e foi ele próprio enterrado debaixo de uma lápide onde se lê:
Desde pequenino
Me chamaram Stan Ion Patras
Ouçam-me boa gente
O que eu digo não são mentiras
Todos os dias da minha vida
Não desejei mal a ninguém
Mas só e apenas o bem
A quem quer que me pedisse
Ó meu pobre mundo
Como foi dura aqui a minha vida.
Filipe d'Avillez /// Fotografia: Franz Bauer © SNPC

Uma homenagem a alguns políticos que temos

Nota da redacção: Não sabemos quem é o autor, mas quem escreveu isto, foi, simplesmente, genial...
ANTES DA POSSE
O nosso partido cumpre o que promete.
Só os tolos podem crer que
não lutaremos contra a corrupção.
Porque, se há algo certo para nós, é que
a honestidade e a transparência são fundamentais.
Para alcançar os nossos ideais
mostraremos que é uma grande estupidez crer que
as máfias continuarão no governo, como sempre.
Asseguramos sem dúvida que
a justiça social será o alvo da nossa acção.
Apesar disso, há idiotas que imaginam que
se possa governar com as manchas da velha política.
Quando assumirmos o poder, faremos tudo para que
se termine com os marajás e as negociatas.
Não permitiremos de nenhum modo que
as nossas crianças morram de fome.
Cumpriremos os nossos propósitos mesmo que
os recursos económicos do país se esgotem.
Exerceremos o poder até que
Compreendam que Somos a nova política.

DEPOIS DA POSSE!!!!!
* Basta ler o mesmo texto acima, DE BAIXO PARA CIMA

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Celebrar a Madeira para todos

01 de Julho de 2010
Mais um feriado... Para celebrar a Região Autónoma da Madeira. Mais um dia de descanso para alguns, especialmente, funcionários públicos e afins.
A nossa terra está inquieta e afunda-se numa crise muito grande, não só em termos económicos, mas também numa crise de valores. Ora vejamos, quanto à economia não nos compete falar, esta crise é mundial, por isso, não íamos passar incólumes aos seus efeitos, também se sofre se todo o mundo sofre. Penso que foi prejudicial ter-se canalizado tantas energias para o turismo, esquecendo todos os outros sectores. O mais dramático e inquietante é o desemprego que daí advém e que acarreta situações muito tristes para as famílias e para a realização das pessoas e, de modo especial, para os nossos jovens que estão manietados quanto ao futuro. Seria interessante contabilizar quantos jovens regressam para a Madeira após a conclusão do curso universitário no Continente?
Porém, falta construir uma terra mais igual nas oportunidades. O desenvolvimento, que se reconhece, virado só e unicamente para as vias de comunicação e outras obras importantes para a promoção das nossas populações foram muito importantes. Embora se esperasse daí mais emprego e mais rentabilidade económica. Muita coisa construída pela Madeira dentro está às moscas.
Não sei como, mas talvez fosse agora importante canalizar os recursos, que são escassos, para outro desenvolvimento. Falta fazer a aposta nas pessoas, para que tenhamos comunidades mais cultas, mais humanas e mais solidárias. Não é compreensível que os níveis de pobreza e de abandono dos nossos idosos sejam uma realidade preocupante na nossa terra. Não basta construir lares e centros de dia para a terceira idade. E depois quem os suporta? - Alguns padres que depois de montadas tais estruturas se vêem agora desamparados sem recursos económicos, problemas laborais com o pessoal empregado e até com questões judiciais... Alguns padres neste momento passam situações de algum desespero, porque foram literalmente abandonados pelos poderes públicos e pela própria estrutura hierárquica da igreja.
Há um dado curioso e interessante que vem dos países vindos das ditaduras comunistas no Leste da Europa, não existe ninguém analfabeto. Não há índices de analfabetismo. É óbvio que estes antigos regimes não são exemplo para nós em quase nada, porém, neste aspecto da educação universal, deram cartas e são um exemplo para nós. Mais razões encontramos nos nossos regimes actuais, campeões de humanidade e dos direitos humanos universais, para reclamarmos porque não têm esta preocupação universal, isto é, criar oportunidades para todos a todos os níveis.
Penso que tal não acontece, porque baseamos o desenvolvimento, nos grandes gupos dominadores da riqueza. Para estes os governos dão-lhes tudo e são favorecidos com todos os meios legais e económicos para que tenham sempre sucesso (vulgo, lucros). Daí que os sem dinheiro (os pobres ou os mais frágeis da sociedade) são esquecidos e só se lhes dá alguma importância quando têm que votar. E como se lhes dá importância? - Com festas animadas com uns cantores rascas, comida e bebida de borla, porque aos pobres basta-lhe diversão e barriga cheia para venderem a dignidade.
Esta imagem que fica da nossa terra, não motiva muito para grandes celebrações. Por isso, apelamos a que todos, digo, todos os madeirenses, tomem a peito o seu empenho pela construção de uma Madeira que nos faça sorrir a todos e não apenas alguns senhores que se instalaram na poltrona do dinheiro, agarrados a uma teta que se chama Autonomia.
José Luís Rodrigues