Convite a quem nos visita

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

A vocação é coisa séria

Tendo em conta que o tema da liturgia do Próximo Domingo é sobre a vocação, fica este texto interessante sobre a vocação.
Por: FILIPE RESENDE
In Audácia, Novembro de 2004
Olá Invencível!
Há dias escutei esta frase: «Já não há médicos por vocação! O que conta são os zeros nos salários que recebem ao fim do mês!» Fiquei pensativo: «O que será dos doentes que caírem nas mãos destes profissionais? Serão bem tratados? Serão atendidos como pessoas?» Respirei fundo. Quase me resignei. «Afinal - disse para os meus botões -, são muitas as pessoas que têm um emprego sem vocação para o que fazem.» Todavia, não fiquei convencido e a minha consciência disse: «É necessário ter vocação para o trabalho que se faz!»
Todos somos chamados
Quando se fala de vocação, é habitual pensar só em padres, freiras ou missionários. Mas isto é um erro. De facto, todos somos chamados a cumprir um projecto de vida ao longo da existência. Quem chama é Deus. E as circunstâncias da vida costumam ser os meios que tornam perceptível tal projecto.
Ser chamado é ter vocação. Os esposos, para se casarem, hão-de ter vocação para o matrimónio. O médico, mecânico, professor... todos devem de ter vocação para a tarefa que realizam. Ou seja, cada um deve fazer-se a pergunta: qual é a minha vocação? O que é que sou chamado ou chamada a realizar na vida?
É importante «perder» tempo a reflectir sobre esta questão no início da juventude. Por tradição, os adultos perguntam: «O que queres ser quando fores grande?» Mas a vocação não é o que «eu quero ser». A pergunta deve ser: a quê é que sou chamado(a)?
A escola da vocação
Na infância acontece uma descoberta fundamental. Cada um reconhece que tem uma inclinação, um jeito para fazer melhor umas coisas do que outras. Isso é um dos sinais da vocação. Deve-se, então, aperfeiçoar as qualidades pessoais.
Depois, há factores que despertam a consciência. A escola, o contacto com outras pessoas, os meios de comunicação social, a Igreja são alguns destes factores. Então, surge a noção de que há realidades no mundo com as quais se está em desacordo. Reage-se assim aos médicos ou enfermeiros que não tratam os doentes como pessoas; às leis injustas que só beneficiam uns poucos; ao drama da multidão de pobres confrontada com a excentricidade dos ricos; aos políticos que prometem e não cumprem; aos padres que já não dizem nada de jeito nas missas; aos professores que não sabem ensinar...
Ao mesmo tempo, a consciência diz que cada pessoa tem a responsabilidade de trabalhar para a mudança, para o aperfeiçoamento da vida e do mundo. Então, o jovem pergunta-se: com as minhas qualidades, como é que posso ser útil para construir um mundo melhor? E é daqui que surgem as respostas: médico, enfermeiro, advogado, economista, sacerdote, missionário, carpinteiro, sapateiro, político ou…
Que profissão escolher?
Quantas vezes a escolha do curso não se baseia no salário ou no prestígio de determinada profissão? E os pais não condicionam a escolha com as suas preferências?
A escola mostra as opções profissionais. Os psicólogos dão orientações. Porém, há tendência para desprezar as profissões tidas como menos importantes socialmente.
Deve-se, por isso, pensar de modo diferente. A felicidade e realização pessoal vão depender da orientação vocacional e profissional. Quem não quer ser um advogado infeliz, um enfermeiro que não gosta dos doentes, ou, até, um carpinteiro que só martela os dedos, esse pára e pensa bem na sua vocação.
Talvez as famílias não sejam uma escola onde se aprende a vocação. É possível que a Igreja tenha dificuldades em mostrar o melhor caminho aos mais novos. Todavia, a cultura da vocação é algo que urge cultivar. Há muita gente pronta a ajudar. Pede ajuda. Mas tu tens a última palavra! Descobre a tua vocação e serás feliz!
A vocação do grão de trigo
Era uma vez um grão de trigo. Foi escondido na terra pela mão do lavrador. No escuro, debaixo da terra, o grão pensava para si mesmo: «Porque é que vim aqui parar? Não escolhi este lugar, nem tão triste solidão! Eu nasci para ser grão! Porque me veio enterrar o lavrador? Tenho vida para dar!» E continuava a gritar o pobre, esquecido no seio da Terra-mãe.
O tempo ia correndo e o pobre grão sofria sem ver fim ao seu desterro. Até que a terra intervém e, agarrando-o bem a si, segreda-lhe com carinho: «Se aceitares o desafio que está dentro do teu ser!... Se não tens medo de romper a “capa” que te atrofia, verás de novo a alegria e a vida renascerá. Multiplicarás o teu valor, serás pão, serás Amor, n’Aquele que se dá a nós.»
E o grãozinho, sorrindo, dia a dia, foi-se abrindo. E a planta nova cresceu e deu fruto como foi prometido.

2 comentários:

Joel Duarte Benisio disse...

Padre, que belíssima reflexão. As leituras que faço no seu blog contribuem para que eu faça as minhas reflexões como ministro. Mt obrigado e quando puder, faça-me uma visita:
http://www.palavraemmim.blogspot.com/
Abraços, Joel

José Ângelo Gonçalves de Paulos disse...

Outro majestoso texto, Padre José Luís. Vocação realmente é o que faz falta ao Mundo actual em todas as profissões e atitudes que venhamos a tomar. Mas, está difícil. Tudo se foi, em minha terrível opinião. Hj vamos mais pelas facilidades dos cursos e pela vagas que há do que propriamente pelo chamamento e inquietação que as pessoas têm ou sintam. Ainda vive-se o dualismo das profissões boas (licenciaturas) e outras menores (pos que não tiveram possibilidades de estudar.). É tão rico o que faz artisticamente um móvel ou constrói casas e estradas como o que é médico, padre, etc.O Mundo precisa de pessoas sérias e empenhadas. Um bom agricultor é tão artista como um bom músico ou pintor. Os cifrões deu cabo deste tudo. E perdeu-se a alma. Vem Senhor Jesus porque os homens e mulheres do sec XXi precisam tanto de ti tal como há 2000 anos.