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segunda-feira, 4 de abril de 2011

Mandrágora – partilhar enganos

Juntar várias forças humanas para partilhar enganos. A ciência, a família, a Igreja, a ética que a todos devia orientar para o bem, juntam-se para a partilha mais absurda, satisfazer instintos puramente humanos, para não dizer animalescos.
Nesta trama de enganos o absurdo toma conta dos personagens sedentas de resposta aos mais disparatados apetites. Neste entrecruzar de interesses patéticos a moral não conta, a intrujice marca as regras. Basta saber-se que em vista dos fins o bem pode ser mal e o mal pode ser bem.
Ora de que falamos afinal? – Mandrágora, de Niccolò Machiavelli, espectáculo levado à cena pelo Teatro Experimental do Funchal (TEF), no Cineteatro de Santo António, Funchal. Trata-se de uma peça que nos fala de um jovem rico que se apaixona por uma mulher casada, que não consegue engravidar, cujo marido deseja desesperadamente um filho varão. O jovem sabendo desta situação, está disposto a tudo para conquistar esta mulher, recorre a um mercenário da localidade para o ajudar na trama para levar a cabo os seus fins. E conseguirá. Acertados os respectivos fins começa a trama com a colaboração de todos, destacando-se a ajuda crucial da «velhaca sabidona» da sogra e do frade, que em nome da ajuda aos pobres, procura todas as artimanhas para extorquir todo o dinheiro possível de todas as partes interessadas neste imbróglio. A ele cabe-lhe o papel de convencer a bela esposa, Lucrécia, do mais que feio, gordo e porcalhão Dr Nícias, a dormir com o jovem apaixonado, Calímaco, coadjuvado pela repugnante sogra. É destes personagens que se percebe plenamente que a moral em vista dos fins pode passar a letra morta. O enredo da hipocrisia redunda na conclusão do autor, Niccolò Machiavelli, ao dizer: «no mundo só existe o vulgo», e é necessário saber-se que para tal vulgaridade «todos os homens são culpados» e que a perversidade e a maldade destes se revelarão «sempre que se lhes apresentar ocasião e liberdade para isso» (ver folheto informativo da peça). A nossa Democracia, quando desvirtuada, resulta nesta miséria inconcebível.
Como se percebe, estamos perante uma mensagem que se reveste de uma actualidade muito grande. O tempo que nós vivemos mergulhado na vulgaridade e na moral hipócrita, que leva os povos, as sociedades ao descalabro do «maquiavelismo» dos interesses pessoais, sem que os meios sejam questionados para alcançar os fins. Nada disso importa, basta que os apetites individuais encontrem satisfação absoluta, mesmo que sejam enviados às urtigas valores como, dignidade, fidelidade, compromissos e, especialmente, o bem de todos.
Dado que a peça será resposta entre os dias 14 a 20 de Abril, quem poder não deixe de assistir a este momento alucinante de mensagem muito interessante e actual.
Nota: Para quem não saiba, Mandrágora na peça, é uma poção para despertar o apetite sexual...
JLR

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