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domingo, 3 de julho de 2011

500 anos da Diocese do Funchal

Por José Luís Rodrigues
A Igreja da Madeira, apresenta-se hoje à sociedade celebrando os seus 500 anos de existência. Uma longa data. Durante os próximos três anos até ao dia 12 de Junho de 2014 iremos ouvir falar muito desta realidade. Mau será que se intente cantar apenas os momentos gloriosos, exaltando as figuras mais proeminentes (bispos e padres), esquecendo as mulheres e homens concretos que fizeram a Igreja e quiçá os verdadeiros agentes da evangelização. Também se espera que a Igreja se volte para dentro, se penitencie pelo mal feito, pense nos desafios actuais, enfrente a teia em que está mergulhada a sociedade madeirense que a enrodilhou numa «santa aliança», que se purifique das nuvens negras que a ensombram, o caso Ribeira Seca e o Jornal da Madeira à cabeça da lista.
Mau será se ficar para além desta etapa dos 500 anos a ideia triste que as celebrações se reduziram a belos discursos, a muitas palmas, tapetes de flores para se passearem as figuras dos diversos poderes. Os tapetes de flores que foram o ex-líbris das nossas festas ao Santíssimo Sacramento, agora servem para promover espectáculos profanos e para receber bispos e novos padres nas paróquias. Um sacrilégio, uma idolatria sem precedentes na nossa história de 500 anos.
Mau será que as celebrações dos 500 anos se reduzam a festanças e comezainas só para alguns de modo especial os que não são nem muito menos fazem a Igreja da Madeira, mas que em determinados momentos se aproveitam dela para servir os seus intentos puramente mundanos. A celebração dos 500 anos devia servir para que a Igreja se tornasse menos clericalista, menos açambarcada por alguns como se fossem donos de tudo, onde a transparência das contas seria uma rotina e o seu património estava bem claro perante os baptizados. Uma organização transparente a este nível seria muito benéfica para a nossa Igreja. Uma reorganização dos serviços da caridade, com menos burocracias, menos acessão de pessoas e de famílias. Afinal, uma caridade totalmente desinteressada em relação aos mais necessitados, os verdadeiros pobres da nossa terra.
A meu ver chega de levar adiante formas e fórmulas ditas de evangelização que aconteceram em muitos momentos da história da Igreja da Madeira. Tal acontece porque a Igreja perdeu a fidelidade ao Evangelho e imiscuiu-se na política. A Igreja não tem jeito para fazer política, isto é, deve ser a Igreja profundamente política, na verdadeira acepção da palavra, mas não deve ser partidária. Não deve tomar partido por nenhum sistema político nem muitos menos estar ao lado de nenhuma força partidária. Sempre que tal aconteceu o mundo perdeu e a Igreja ainda muito mais perdeu.
Por fim, nos nossos dias, como já o foi também noutros tempos, não deixa de ser curioso e divertido ver o Papa e os bispos a defenderem a democracia, a separação da Igreja e o Estado, e alguns representantes políticos, leigos e laicos do Estado e da vida pública, a defenderem a hierarquia e a apelarem à prática da espiritualidade.
A mistura da Igreja com as políticas vigentes é fatal para a Igreja, porque entra mesmo sem o desejar num descrédito muito grande. Se, por um lado, não lhe falta bens materiais para erguer igrejas, fazer beatificações, realizar manifestações populistas entre tantas outras acções. Por outro, falta-lhe presença nas coisas da sociedade, presença séria nas instâncias da educação, da política e dos meios de comunicação social. A nossa Igreja precisa de reacender a esperança no mundo, perder o medo e encontrar lucidez para pensar em respostas pastorais que a relancem numa pastoral séria e ousada.
A espada e o hissope não servem para evangelizar. Hoje espera o mundo que a Igreja carregue a cruz da vida das mulheres e dos homens concretos e que caminhe com todos até ao Calvário da vitória.
Nota da redação: publicado neste domingo 3 de Julho de 2011 no Diário de Notícias do Funchal, na Secção Sinais dos Tempos....

1 comentário:

Erlon Andrade disse...

Essa é uma realidade triste de todas as igrejas no mundo. Sejam católicas ou protestantes.

Abraços