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terça-feira, 25 de outubro de 2011

Nascer de novo

Nascer: fincou o sono das entranhas.
Surge o concreto,
a dor de formas repartidas.
Tão doce era viver
sem alma, no regaço
do cofre maternal, sombrio e cálido.
Agora,
na revelação frontal do dia,
a consciência do limite,
o nervo exposto dos problemas.
..
Sondamos, inquirimos
sem resposta:
Nada se ajusta, deste lado,
à placidez do outro?
É tudo guerra, dúvida
no exílio?
O incerto e suas lajes
criptográficas?
Viver é torturar-se, consumir-se
à míngua de qualquer razão de vida?
..
Eis que um segundo nascimento,
não advinhado, sem anúncio,
resgata o sofrimento do primeiro,
e o tempo se redoura.
Amor, este o seu nome.
Amor, a descoberta
de sentido no absurdo de existir.
O real veste nova realidade,
a linguagem encontra seu motivo
até mesmo nos lances de silêncio.
..
A explicação rompe das nuvens,
das águas, das mais vagas circunstâncias:
Não sou Eu, sou o Outro
que em mim procurava seu destino.
Em outro alguém estou nascendo.
A minha festa,
o meu nascer poreja a cada instante
em cada gesto meu que se reduza ser retrato,
espelho,
semelhança
de gesto alheio aberto em rosa.
..
Carlos Drummond de Andrade
Nota: Poema belíssimo, onde se vislumbra o mesmo desafio do Evangelho de São João. Jesus anunciou a Nicodemos, um respeitado líder e mestre judeu: "Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus" (João 3,1-21). São muitas as vezes na vida que precisamos mesmo de assumir este desafio. Nascer de novo dos escombros do egoísmo, este veneno terrível que inferioriza a humanidade. Nascer de novo da ganância que rouba o pão-nosso de cada dia de tanta gente, votada a morrer de fome e de sede, porque lhes roubaram o necessário para a vida. Nascer de novo da tragédia da injustiça que torna este mundo tão desigual, luxuoso em demasia para alguns e lixeira para uma grande parte. Nascer de novo da irresponsabilidade perante os outros e perante os bens destinados à salvação de todos. Nascer de novo das desigualdades dentro das comunidades, onde alguns são idolatrados e o resto é ralé que deve andar calada e submissa às regras e manias de meia dúzia. Nascer de novo do fariseísmo que degrada as nossas sociedades. Afinal, cada um nascer de novo de tudo o que sinta e saiba que faz mal para si e para os outros.

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