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domingo, 20 de novembro de 2011

A Mentira Sagrada

Este título está num livro que saiu no fim do ano passado. Escrito por um português, Luís Miguel Rocha que vive na cidade do Porto. Após a leitura do livro cheguei à seguinte reflexão.
O enredo do livro circula diante destas questões: será que Jesus foi mesmo crucificado? Terá tudo acontecido como a Bíblia descreve? Na noite da sua eleição para o Trono de São Pedro, o Papa Bento XVI, como todos os seus antecessores, tem de ler um documento antigo que esconde o segredo mais bem guardado da História - a Mentira Sagrada (coisa que revela O Último Segredo de José Rodrigues dos Santos. Um enredo pobre com o qual recuso gastar mais tempo).
A Mentira Sagrada relata que, em Londres, um Evangelho misterioso na posse de um milionário israelita contém informações sobre este segredo. Se cair nas mãos erradas pode revelar ao mundo uma verdade chocante. Rafael, um agente do Vaticano, é enviado para investigar o Evangelho e descobre algo que pode abalar não só a sua fé mas também os pilares da Igreja Católica. Que segredos guardará o Papa? E que verdade esconde o misterioso Evangelho? Ora bem, todo este género de literatura (Dan Brown, Luís Miguel Rocha, José Rodrigues dos Santos…), recorrem ao mais comum, que se baseia em se ouvir dizer que os padres são uns grandes mentirosos e que tudo aquilo que as igrejas pregam são as maiores mentiras sobre a origem da vida e o seu destino. E que tudo isto está envolto em muitos segredos. Muito bem.
Todos sabemos que as estruturas pesadas, milenares, como é a da Igreja Católica, não estão isentas de falhas, contradições e até mesmo injustiças no trato com os seus membros. Porém, passar dessa constatação para uma generalização total parece-me excessivo e novamente podemos cair no absurdo de confundir a árvore com a floresta.
A Igreja de Cristo é muito mais que as estruturas institucionais da Igreja Católica. A verdadeira Igreja está acima dos conflitos de ordem doutrinal. Algumas manchas que preenchem a história da Igreja Católica não podem ser apenas carregadas pelos católicos, terão de ser vistas num contexto social muito mais vasto, onde crentes e não crentes tiveram um papel também relevante na manifestação dessas sombras. O estado e alguns organismos políticos e sociais tiveram tanta culpa como as instituições ligadas à Igreja Católica. O pesar da balança, «César e Deus», nem sempre foi desnivelado. Neste domínio, a «santa aliança» é prejudicial para ambos os poderes e quem perde muito mais são sempre os povos. É totalmente extemporâneo, injusto e curto de inteligência avaliar, a partir de critérios e de categorias do presente, os temas da Inquisição, as Cruzadas, O Islão, a divisão entre Igrejas Cristãs, as mulheres, os Judeus, Galileu, as Guerras religiosas, Hus, Lutero, Calvino, Zuínglio, o Tráfico de Negros, a Conversão Forçada dos Povos, O Racismo, a Violência na Propagação da Fé, as injustiças contra os adeptos de outras Religiões e outros grupos sociais mais fracos, o ateísmo, os direitos de todos os seres humanos e tantos outros.
Ninguém de bom senso pode negar que a Igreja sonhada por Cristo poderá estar distante em muitos aspectos da Igreja que temos no tempo e na história. Nenhuma instituição, por mais espiritual que seja, não pode fugir aos contratempos da vida histórica. Eles são, o carreirismo, o tráfico de influências, os jogos e conluios de poder, os comportamentos dúbios e escandalosos, as mentiras, a promoção de incompetentes servis, os privilégios da casta clerical no topo da hierarquia eclesiástica e etc... E apesar de tudo, nunca houve, não há e não parece vir a existir outra instituição que proponha tantos valores humanos como a Igreja Católica assente na doutrina cristã. A Igreja é sempre portadora da mensagem do amor cordial para todos os homens e mulheres, do diálogo aberto entre todas as culturas humanas, da fraternidade para todas as etnias. E haverá também outra instituição que consiga congregar tantas mulheres e homens ao serviço desinteressado pelos outros, sobretudo, os desafortunados deste mundo?
José Luís Rodrigues, padre. Publicado no Dnotícias do Funchal, 20 de Novembro de 2011, Secção Sinais dos Tempos.

1 comentário:

Cisfranco disse...

Muito bem!

Conhece, certamente, o que o general Eisenhower ordenou perante as atrocidades do Holocausto. Ordenou ele, mais ou menos, o seguinte:"Filmem e tirem fotografias,o mais que puderem, porque há-de vir um dia em que algum idiota vai aparecer e dizer que isto nunca aconteceu". E sabemos como ele se não enganou. Portanto, não há que admirar. E, depois, há uma coisa muito importante, neste mundo mediatizado:É que uma atoada bem sonante, como a que refere, é o melhor marketing que há... Vende que se farta.