Convite a quem nos visita

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

O chão do mundo

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Umas sombras cairam naquele chão
onde as folhas falaram da morte
como se tivessem terminado no húmus
da penumbra da noite branca
de uma vida que quisemos distante.
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Os deuses vieram ao nosso encontro
e sobrou de calor ardente a esperança
que naquele chão não fora mais vista
porque sempre calaram o fogo da vida
aqueles que não viram o mar imenso da fé.
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Não e não aos calores da ausência do mundo
antigo e presente que nos fizeram viver
pois sei e sempre soube que nada nem
ninguém pode matar o sabor do vento
em todas as praças e artérias desta cidade.
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Vivo em mim e em ti o momento caído
do céu como a única graça do amor
divino em cada hora do abraço do sonho.
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O ideal da vida não tem preço
e em ti descanso o pensamento
sentido no sorriso aberto
ao esplendor da única justiça
que veio plantar o desejo da paz
em todos os cantos do mundo novo.
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Já sei o melhor que virá
e que venha sentido em cada gesto
na luminosidade do rosto da terra
onde a vida sempre recomeça.
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Óh... Momento maior de bondade
sem que o mistério possa dizer:
- eis o fim!
JLR

Pensamento sobre a educação

Dir-se-á: a educação está em crise porque a sociedade está em crise. De acordo. Mas justamente por isso. Porque a sociedade está em crise de rotura, de mutação, de desorientação, importa procurar – e encontrar – os novos vínculos do pacto, as novas modalidades do convívio, as novas perspetivas de solidariedade. A educação oferece esse espaço e, em parte, esse poder. Porque não existe educação digna desse nome sem formas e sem normas, sem estruturas e sem conteúdos, sem métodos e sem valores.
Que princípios deverão orientar a nova educação do nosso Povo? (...) Ousamos esquematizar: os princípios que tenham em conta a aliança do cérebro, da mão e do coração; os princípios da liberdade, da igualdade e da dignidade de todos os homens; os princípios que possam unir o sentido científico, o sentido tecnológico e o sentido comunitário desde a célula familiar à Sociedade Mundial.
Padre Manuel Antunes (3.11.1918 - 18.1.1985)

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Morrer para dar vida

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Em entrevista à BBC, o voluntário Yasuteru Yamada, que tem 72 anos e
negocia com o reticente governo japonês e a companhia, usa uma lógica
tão simples quanto assombrosa.
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"Em média, devo viver mais uns 15 anos. Já um cancro vindo da radiação
levaria de 20 a 30 anos para surgir. Logo, nós que somos mais velhos
temos menos risco de desenvolver cancro", afirma Yamada.
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É arrepiante. Na contramão do individualismo atual - e lidando de uma
maneira absolutamente realista em relação à vida e à morte -,
sexagenários e septuagenários querem dar uma última contribuição: serem
úteis nos seus últimos anos e permitir que alguns jovens possam chegar
às idades deles com saúde e disposição semelhantes.
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O que mais impressiona em toda a história é a matemática da vida. A
morte não é para eles um problema a ser solucionado - ou talvez
corrigido, pela hipótese mística da vida eterna que medicina e
biologia tentam encampar e da qual as revistas de boa saúde tentam nos
convencer; a morte é, de facto, a constante da equação.
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Nada que o mundo ocidental não conheça. O filósofo alemão Georg
Friedrich Hegel (1770-1831) certa vez definiu "mestre" como alguém
desapegado da vida a ponto de enfrentar a morte, enquanto "servo"
seria um escravo do desejo de continuar vivo - e que obedeceria mais
às regras que lhe garantissem a sobrevida. Em consequência, o servo
anula sua vontade de transformar o mundo e a si mesmo.
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Criados numa sociedade de consumo, corremos o risco de levar essa
escravidão às últimas, defendendo a boa saúde e os confortos com muito
mais afinco do que aquilo que podemos fazer por nós e pelos outros
enquanto ainda gozamos dela.
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Os senhores do Japão ensinam que a morte é a hora em que podemos
continuar a existir na memória das pessoas - uma oportunidade que,
para mim, eles não perdem mais.
Nota: Jesus no Evangelho anuncia: «Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, caído na terra, não morrer, fica só; se morrer, produz muito fruto» (Jo 12,24). Interessante como esta palavra continua ser prática concreta em tantos cantos do mundo.
Recebido por mail....

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Que advertência tão actual...

D. António Ferreira Gomes (1906-1989):
“A ‘pastoral da inteligência’ deve pois começar por reconhecer a ‘modernidade’, com os seus riscos, como a grande oportunidade para a evangelização da inteligência, da qual deve descer, como das montanhas desce a água da chuva, o exemplo e o estímulo para o ‘florescimento do deserto’.” (Cartas, 85).
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Pequena nota sobre D. António Ferreira Gomes (1906-1989), figura do bispo portuense, que é emblemática não só por ter pago com dez anos de exílio (1959-1969) o seu amor à verdade, a sua fidelidade à doutrina social da Igreja, mas por ser um grande homem do pensamento português, pela inovação com que lê a tradição nacional. O ter aliado a intervenção da reflexão com a vivência do testemunho guindam o perfil da sua estatura moral a um nível fora do comum. Faz doutrina ao longo de quase quarenta anos, variando de temas segundo a realidade que tinha diante e a partir das referências da renovação da doutrina cristã, desde Pio XII ao Concílio, desde S. Tomás a Rahner. Reflecte, como poucos, o carácter ético da busca da verdade, em diálogo e confronto com os grandes “mestres da suspeita” como Nietzche, Marx e Freud.
Homem livre, configurando a liberdade em referência ao Absoluto, defende os direitos humanos em tom profético, com intransigência de génio. Entusiasma-se com o II Concílio do Vaticano e percebe as resistências interiores à mudança de perspectiva, exigida pelo fim do constantinismo. A dimensão sócio-política das suas reflexões integra-se perfeitamente e unicamente na missão pastoral da Igreja. Foi sempre impulsionado pelo dever de bispo que D. António abriu caminho a um diálogo com a cultura contemporânea, consciente e atento observador das suas manifestações concretas no viver da sociedade. O diálogo crítico que entabulou com a modernidade partiu da novidade do evento Jesus Cristo, pela ligação entre história e Revelação acontecida nele. Ao caminhar para uma civilização de liberdade e de amor, como meta da história, estava ciente do mundo ecuménico e pluralista e lançava pontes para uma relação entre cultura e transcendência.

sábado, 20 de agosto de 2011

A vida de São Roque

Roque de Montpellier (Mompilher), conforme à tradição, nasceu nesta cidade francesa numa família da classe nobre ou ao menos da rica burguesia mercantil. O pai chamava-se João, a mãe Líbera (ou Franca) e segundo algumas fontes teria sido oriunda da Lombardia. No que diz respeito ao apelido, alguns historiadores propuseram uma família «Delacroix», outros «Roq» ou semelhantes, apoiando assim a tese de que Roch não seja um nome mas sim um sobrenome; porém depois de anos e anos de pesquisas as várias hipóteses não levaram a nada de realmente concreto.
Conforme à tradição, Roque cresce num meio ambiente profundamente cristão e manifesta bem cedo sinais de santidade. Pelos vinte anos de idade perde ambos os pais e toma a decisão de viver a fundo o exemplo de Cristo; vende todos os seus bense veste o traje do peregrino, fazendo o voto de ir a Roma. Mas a longa viagem dele na Itália padece contínuas deviações, para acompanhar a difusão da peste. Com efeito, Roque, em vez de fugir do contágio, põe-se corajosamente ao serviço dos doentes, os ajuda e os reconforta, e até obtém de Deus a faculdade de curá-los milagrosamente.A primeira das etapas assinaladas é Acquapendente, na província de Viterbo. Roque chega aí por volta de 1367 e vai, como de costume, para um hospital, apesar da resistência do prior, Vicente, que não queria expó-lo ao contágio. Entra depois a Roma neste ano ou no seguinte, tendo Urbano V regressado pouco antes do exílio francês de Avinhão onde os pontífices ficaram quase sessenta anos, e aqui cura um misterioso cardeal ou alto prelado, que por gratidão o apresenta ao papa, numa emocionante audiência particular. Mora em Roma alguns anos, e depois retoma o caminho em 1370-71. Em Placência contrai a peste e logo tem que afastar-se do povoado; abriga-se num bosque – de acordo com a tradição, perto de Sarmato – e escapa da morte por fome graças à um cão, que cada dia lhe traz um bocado de pão. O rico dono do animal é o nobre Gotardo (geralmente tido por membro da família Pallastrelli, mas há dúvidas sobre isso), o qual, alertado pelos vaivéns do cão, segue-o e descobre o abrigo de são Roque; dentro em breve torna-se seu discípulo e consagra-se também a Cristo, renunciando aos seus bens. Depois de sarado, Roque despede-se do amigo e decide voltar à pátria.Os antigos testemunhos sobre os últimos anos da vida dele já não ficam sustentáveis. Ele não morreu em Montpellier, como parece indicar Diedo, nem em Angera, como afirmam os Acta Breviora. Roque acha-se envolvido numa guerra, talvez a entre o Ducado de Milão e a aliança em volta do Estado da Igreja (1371-75); a zona de Placência era com efeito um dos pontos nevrálgicos do conflito, logo parece verossímil que Roque, depois de ser preso como «espião», seja levado para Voghera, onde encontrava-se Castellino Beccaria, o superintendente militar dos Visconti. Cativo por quase cinco anos, Roque vive aquela prova como uma espécie de purgatório de expiação dos pecados e morre aos 16 de agosto, num ano entre 1376 e 1379.
Imagem: a foto de São Roque que ilustra este texto, é uma magnífica imagem de Machado de Castro, que está por destrás do altar da Igreja de São Roque do Funchal. Uma imagem riquíssima e muito bela. Nestes dias é o centro das atenções na Paróquia de São Roque do Funchal, celebra-se a festa em sua honra nesta paróquia. Bom fim de semana para todos...

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

A bondade da vida

«Vamos rir chorar e aprender. Aprender especialmente como casar Céu e Terra. Vale dizer, como combinar o cotidiano com o surpreendente, a imanência opaca dos dias com a transcendência radiosa do espírito, a vida na plena liberdade com a morte simbolizada como um unir-se com os ancestrais, a felicidade discreta nesse mundo com a grande promessa na eternidade. E, ao final, teremos descoberto mil razões para viver mais e melhor, todos juntos, como uma grande família, na mesma Aldeia Comum, generosa e bela, o planeta Terra.»
Leonardo Boof, Teólogo brasileiro.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Pobreza evangélica

Por Dom Pedro Casaldáliga
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Não ter nada.
Não levar nada.
Não poder nada.
Não pedir nada.
E, de passagem,
não matar nada;
não calar nada.
Somente o Evangelho, como uma faca afiada.
E o pranto e o riso no olhar.
E a mão estendida e apertada.
E a vida, a cavalo, dada.
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E este sol e estes rios e esta terra comprada,
como testemunhas da Revolução já estalada.
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E mais nada!
Nota: o bispo considerado «bispo vermelho» lembra o que importa no anúncio do Evangelho. Fora disto fica o poder absoluto e a ostenção próprias deste mundo, mas que no fim não passam de miséria. Só para que nos lembremos.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Comentário à Missa do Próximo Domingo

Domingo XXI Tempo Comum – Ano A
21 de Agosto de 2011
O poder das chaves
A Primeira leitura é muito interessante. Shebna, administrador do palácio, será substituído nas suas funções. Irá ser despojado das insígnias do seu poder (a túnica, o cinto, a chave do palácio), as quais serão revestidas por Elyaqîm. O novo administrador do plácio será Elyaqîm receberá, o “poder das chaves”. A corrupção e o mau uso do cargo, fizeram cair em desgraça o administrador infiel. O profeta quer lembrar que a autoridade, qualquer que ela seja, deve ser exercida como um serviço ao bem comum. Lembra que quem tem tal responsabilidade deve ser um pai para todos e deve procurar o bem de todos com solicitude, com amor, com justiça.
Na Segunda leitura, São Paulo diz-nos que Deus é sempre «mais» do que aquilo que o homem possa imaginar, mais sábio, mais poderoso, mais misericordioso e mais misterioso… A nós cabe-nos contemplar e acolher essa realidade. Todo aquele que tem autoridade deve com mais diligência procurar viver no seu cargo os valores que o Apóstolo nomeia. Eles são: a profundidade da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus… Com tais valores teríamos governos e todos as formas de autoridade verdadeiramente ao serviço de todos, muito longe da corrupção e da ganância. O poder não seria nunca mais uma tosquia frequente do povo, mas antes seria um bem, uma forma de criar felicidade, bem-estar, saúde, educação e condições condignas para o povo. Mas, o que vemos com frequência, de quem detém o poder das chaves, a má criação, o péssimo exemplo, a mediocridade, os desvios para alguns dos bens que são de todos… O poder, qualquer que ele seja, muitas vezes torna-se um ninho de ladrões, porque falta a consciência da responsabilidade e uma prática que pense em todos e não apenas nos amigalhaços.
O Evangelho, em primeira mão, Jesus é o Filho de Deus, reconhecê-Lo e confessá-Lo como tal é o elemento principal da fé cristã. É o que Pedro faz de forma convicta. Assim, Jesus considera Pedro como a «rocha» e confere-lhe o «poder das chaves». A Pedro, é conferido o «poder» maior do serviço na comunidade dos crentes em Jesus. Pedro assume todos os valores do poder-serviço que o profeta anunciou e São Paulo proclamou. Jesus nomeia Pedro para «administrador» da Igreja, com autoridade para interpretar as palavras de Jesus, para adaptar os ensinamentos de Jesus a novas necessidades e situações, e para acolher ou não novos membros na comunidade dos discípulos do Reino (porém, atenção, todos são chamados por Deus a integrar a comunidade do Reino, mas aqueles que não estão dispostos a aderir às propostas de Jesus não podem aí ser admitidos). Este discernimento compete a todos os que receberam a responsabilidade do anúncio da Boa Nova da salvação. Por fim, todos são envolvidos pela comunhão e a unidade do amor de Jesus, vivendo com coragem todos os valores apresentados pelo Evangelho relativamente ao «poder das chaves».
JLR

terça-feira, 16 de agosto de 2011

A perfeita alegria

Nas Florinhas, S. Francisco explica a frei Leão em que consiste «a perfeita alegria», dizendo-lhe:
«Quando estivermos em Santa Maria dos Anjos, tão molhados pela chuva, enregelados pelo frio, enlameados de barro, aflitos de fome e batermos à porta do lugar, e o porteiro vier irado e disser:
«Quem sois vós?»
E nós dissermos: «Nós somos dois dos vossos frades.»
E ele disser: «Vós não dizeis a verdade, aliás sois dois marotos que andais a enganar o mundo e a roubar as esmolas dos pobres; ide embora»; e não nos abrir, e nos fizer ficar fora, na neve e na água, com o frio e com a fome até de noite; então, se nós suportarmos tanta injúria e tanta crueldade, e tantas despedidas pacientemente, sem nos perturbarmos, e sem murmurar dele, e pensarmos humildemente que aquele porteiro nos conhece de verdade, que Deus o faz falar contra nós; ó frei Leão, escreve que aqui há perfeita alegria.
E se, apesar disso, continuássemos batendo, e ele saísse para fora perturbado, e nos expulsasse como velhacos importunos, com vilanias e bofetões, dizendo: «Ide embora daqui, ladrõezinhos muito vis, ide ao hospital, porque aqui vós não comereis, nem vos abrigareis»; se nós suportarmos isso pacientemente, com alegria e com bom amor; ó frei Leão, escreve que aqui há alegria perfeita.
E se nós, mesmo constrangidos pela fome, pelo frio e pela noite, ainda batermos mais, chamarmos e pedirmos por amor de Deus, com muito pranto, que nos abra e nos faça entrar assim mesmo, e ele escandalizado disser: «Estes são patifes importunos, fá-los-ei pagar bem isto, como merecem»; e sair para fora com um bastão cheio de nós, e nos agarrar pelo capuz e jogar por terra, e nos revirar na neve e nos bater, nó por nó, com aquele bastão: se nós suportarmos todas essas coisas pacientemente e com alegria, pensando nas penas de Cristo bendito, que temos que aguentar por seu amor; ó frei Leão, escreve que aqui e nisto há perfeita alegria.»
Este texto interroga-nos: quem é «fraco» neste relato? Os dois frades que batem à porta, pedindo com insistência que os abriguem do frio e da noite? Ou quem não os quer acolher, apresentando pretextos e não escutando as suas razões? Ou seja, quando se vê a debilidade de uma pessoa? Quando e por que razão essa debilidade nos incomoda? Quando sentimos que uma pessoa é insuportável? Por que motivo determinado comportamento de uma pessoa nos aborrece?
- Assim: «é precisamente pela paciência de Deus que nos é permitido... experimentar a força superior do amor, enquanto toleramos o próximo nos seus aspetos contraditórios, nas suas facetas negativas e na sua culpa. Quem exerce esta paciência também está em condições de entrar com toda a liberdade no mundo do inimigo, e de começar a reconhecer precisamente nele aquele que Deus ama, a respeitá-lo no seu mundo e a garantir-lhe sempre o seu próprio amor» (U. Falkenroth).

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Pessoas raras fazem notícias raras

Declarações raras, notícias raras e pessoas ainda mais raras nos tempos que correm. Eis as preciosidades: «Quando assumimos cargos ou funções temos que pensar no serviço público que prestamos» e mais: «Eu assumi um compromisso, não vou reagir, nem comentar o que se diz de bem ou mal sobre mim. Isso não interessa, a pessoa aqui interessa pouco. Quando assumimos cargos ou funções temos que pensar no serviço público que prestamos. Quando assumi este lugar sabia ao que ia de modo que a pessoa interessa muito pouco, interessam as funções que desempenho», dixit o sr. juiz Paulo Barreto, no Diário de Noticias de hoje. Vamos apoiar este homem, porque está a ser acossado por gente que de verticalidade, consciência de missão e interesse público estão a léguas. Por isso, mijam-se e bêbedos de arrogância e auto convencimento no alto dos seus pedestais (vulgo entre nós, molhes) acham que podem mijar tudo e todos. Indignação é preciso.
Hoje dia de Nossa Senhora da Assunção, entre nós Nossa Senhora do Monte, proclamamos nas missas o «Canto de Maria» o «Magnificat». Esse canto maravilhoso que enaltece as maravilhas de Deus e aponta os caminhos de libertação do futuro.
Neste dia, nas muitas missas celebradas por todo o lado, o nosso povo ouve da mesa da palavra o seguinte: «Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes» (Lc 1, 52). É caso para perguntarmos: ouvirá as explicações correspondentes aplicadas à realidade concreta de hoje? Ou antes a sempre vazia explicação que mais serve para anjos do que para gente deste mundo? - A meu ver o sr. juiz Paulo Barreto dá-nos uma lição extraordinária de como se deve viver perante os tais poderosos e dos pretensiosos dominadores de tudo. Eis uma grande homilia de um juiz. Às vezes os padres abdicam de ser profetas e outros sem o terem que ser obrigatoriamente, assumem essa condição e dá-nos lições maravilhosas. Ainda bem.
Maria louva Deus porque constatou que quando alguém se eleva de forma indevida, injusta ou titânica, Deus o coloca no seu devido lugar. O orgulhoso é um mentiroso pois supervaloriza-se indevidamente. Um orgulhoso é incapaz de valorizar outras pessoas. Não sabe conviver com a crítica nem com a diferença. E muito menos se submete às regras e se as deseja não são para si mas para os outros. São os escribas e fariseus que impõem os fardos pesados aos simples, mas que eles nem com a ponta do dedo são capazes de lhe tocarem.
Mais se ouvirá de Maria o seguinte: «Encheu de bens os famintos e aos ricos despediu de mãos vazias». Esta mulher, tem certeza de que a justiça triunfará, mesmo que tudo indique o contrário. Neste sentido, também nos prostramos diante deste desejo. E pelo mesmo caminho o poeta idealizou e disse-o à maneira de Maria, «Quando é que passará esta noite interna, o universo, / E eu, a minha alma, terei o meu dia? / Quando é que despertarei de estar acordado?» (Poema «Magnificat», Álvaro de Campos). Muitas vozes de ontem e de hoje apontam para o futuro. Quem tem ouvidos que oiça. Abraço e bom dia santo para todos.

JLR

sábado, 13 de agosto de 2011

Crise? Qual crise?

Nota: Bom fim de semana para todos os meus leitores e continuação de boas férias se for o caso. Um abraço para todos... Recebi o seguinte texto por mail. Interessante para a judar a descomprimir.
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"Não pretendemos que as coisas mudem, se sempre fazemos o mesmo.
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A crise é a melhor bênção que pode ocorrer com as pessoas e países, porque a crise traz progressos.
A criatividade nasce da angústia, como o dia nasce da noite escura.
É na crise que nascem as invenções, os descobrimentos e as grandes estratégias.
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Quem supera a crise, supera a si mesmo sem ficar "superado".
Quem atribui à crise os seus fracassos e penúrias, violenta o seu próprio talento e considera mais aos problemas do que as soluções.
A verdadeira crise é a crise da incompetência.
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O inconveniente das pessoas e dos países é a esperança de encontrar as saídas e soluções fáceis.
Sem crise não há desafios, sem desafios a vida é uma rotina, uma lenta agonia.
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Sem crise não há mérito.
É na crise que se aflora o melhor de cada um.
Falar de crise é promovê-la, e calar-se sobre ela é exaltar o conformismo.
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Em vez disso, trabalhemos duro.
Acabemos de uma vez com a única crise ameaçadora, que é a tragédia de não querer lutar para superá-la."
Albert Einstein

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

A Mística de São João da Cruz sobre Jesus Cristo

São João da Cruz (1542 – 1591), carmelita, Doutor da Igreja
A Chama viva do amor. Estrofe 2
«Jesus estendeu a mão e tocou-o»
Mas Tu, oh vida divina, nunca matas senão para dar vida, e nunca chagas senão para sarar! Quando castigas, tocas levemente, e isso basta para destruir o mundo; mas também quando acaricias, amoldas-Te perfeitamente e, assim, o prazer da Tua doçura é incontável. Chagaste-me para me curar, oh divina mão, e mataste em mim o que me trazia morto sem a vida de Deus que agora me vejo viver. Tudo isto fizeste com a liberalidade da Tua graça generosa que tiveste para comigo quando me tocaste com o toque «do resplendor da Tua glória e imagem fiel da Tua substância» (Heb 1, 3), que é o Teu Filho Unigénito, no qual, sendo Ele a Tua sabedoria, «tocas com vigor de uma extremidade à outra» (Sb 8, 1). Este Teu filho Unigénito, oh mão misericordiosa do Pai, é o toque delicado com que me tocaste e me chagaste na força do Teu cautério.
Oh, pois Tu, toque delicado, verbo, Filho de Deus, que, com a suavidade do Teu ser divino, penetras subtilmente na substância da minha alma e, tocando-a delicadamente, toda a absorves em Ti em modos divinos de suavidade e doçura, «das quais nunca se ouviu falar em Canaã nem foram vistas em Temã» (Br 3, 22). Oh, pois, forte e de certa maneira excessivo toque dedicado do Verbo, tanto mais delicado foste para mim quanto fendeste as montanhas e quebrastes os rochedos no monte Horeb com a sombra do Teu poder e força que ia à Tua frente, e tão doce e vivamente Te manifestastes ao profeta no sopro de uma brisa suave (1Rs 19, 11-12). Oh brisa suave, sendo tão suave e delicada, diz, Verbo, Filho de Deus, como tocas suave e delicadamente, sendo tão terrível e poderoso? [...] «Ao abrigo da Tua face, que é o Verbo, os defendes das maquinações dos homens.» (Sl 30, 21).
- Muito belo este pensamento místico de São João da Cruz. Vale a pena ler e rezar em silêncio...

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Comentário à Missa do Próximo Domingo

14 de Agosto de 2011
Domingo XX Tempo Comum
A Cananeia
A primeira leitura descreve o ambiente de Jerusalém após o regresso da Babilónia. O povo de Deus enfrenta uma época nada fácil. Os retornados estão desiludidos, pois a tarefa da reconstrução apresenta-se demorada e difícil. O país está arruinado, as cidades destruídas e desabitadas, os campos incultos e abandonados. Os ricos bem depressa começam a oprimir os pobres e a esmagar os humildes. Quanto à religião há uma recusa de Deus e dos seus planos e o recurso a práticas totalmente pagãs.
A essa comunidade desiludida e decepcionada, o profeta anuncia que está para chegar um tempo novo. Deus vai oferecer a Sua salvação a todos os povos, há uma clara viragem na fé de Israel, uma certa abertura à universalidade. Grande revolução no universo religioso do Povo de Deus.
Nos nossos tempos, por um lado, o intercâmbio de ideias, de experiências, de notícias, o contacto fácil, rápido e directo com qualquer pessoa, em qualquer canto do mundo, contribuem para nos abrir horizontes, para nos ensinar o respeito pela diferença, para nos fazer descobrir a riqueza de cada povo e de cada cultura… Por outro lado, o egoísmo, a auto-suficiência, o medo dos conflitos sociais, o sentimento de que um determinado estilo de vida pode estar ameaçado, provocam o racismo e a xenofobia e levam-nos a fechar as portas àqueles que querem cruzar as nossas fronteiras à procura de melhores condições de vida… A Igreja é a comunidade do Povo de Deus. Todos os seus membros são filhos do mesmo Deus e irmãos em Jesus, embora pertençam a raças diferentes, a culturas diferentes e a extractos sociais diferentes. Nisto toda a mensagem bíblica nos ensina que Deus não faz acepção de pessoas. A salvação é para todos.
Na segunda leitura tirada de São Paulo podemos concluir o seguinte, a recusa de Israel fez com que o Evangelho fosse proposto aos gentios. Por isso, podemos dizer, há males que vêm por bem; Deus escreve direito por linhas tortas…
Os gentios, que antes estavam longe de Deus, agora tiveram acesso à sua graça; e os judeus, que agora se afastaram dos dons de Deus, hão-de também alcançar a graça. Parece enquadrar-se tudo no projecto salvífico de um Deus que permitiu que todos sejam rebeldes, a fim de sobre todos deixar cair a sua misericórdia. A misericórdia de Deus não abandona nenhum dos seus filhos. Este texto – implicitamente – convida a não nos arvorarmos em juízes dos nossos irmãos. Por um lado, porque o comportamento tolerante de Deus nos convida a uma tolerância semelhante; por outro, porque aquilo que nos parece estranho e reprovável pode fazer parte, em última análise, dos projectos de Deus.
No Evangelho, Jesus em ruptura com os fariseus e os doutores da Lei, “retirou-Se dali e foi para os lados de Tiro e de Sídon”. A recusa de Israel em acolher a proposta do Reino vai fazer com que a pregação de Jesus se dirija para fora das fronteiras de Israel.
Uma mulher fenícia (estrangeira, inimiga, oriunda de uma região com má fama e, ainda por cima, “mulher”) merecerá a graça da salvação?
Não admira, portanto, que os fariseus e doutores da Lei, defensores intransigentes da Lei e da pureza da fé, considerassem os habitantes dessa zona como “cães” (designação que, para os judeus, tinha um sentido altamente pejorativo).O apelo da mulher fenícia vai no sentido de que ela possa, também, ter acesso a essa salvação que Jesus veio propor.
No final de toda esta caminhada de afirmação da “bondade” e do “merecimento” desses pagãos que a teologia oficial de Israel desprezava, Jesus conclui: “Mulher, grande é a tua fé. Faça-se como desejas”.
O que é determinante, para integrar a comunidade do Reino, não é a raça, a cor da pele, o local de nascimento, a tradição familiar, a formação académica, a capacidade intelectual, a visibilidade social, o cumprimento de ritos, a recepção de sacramentos, a amizade com o pároco, os serviços prestados à “fábrica da igreja”, mas a fé (entendida como adesão a Jesus e à sua proposta de salvação).
O exemplo da mulher cananeia leva-nos a pensar, por contraste, nesses “fariseus e doutores da Lei” que rejeitam a oferta de salvação que Deus lhes faz, em Jesus. Estão cheios de certezas, de convicções firmes, de preconceitos; mas não têm o coração aberto aos desafios que Deus lhes faz… Conhecem bem a Palavra de Deus, têm ideias definidas acerca do que Deus quer ou não quer, são orgulhosos e auto-suficientes porque se consideram um povo santo, eleito de Deus, mas não têm esse coração humilde e simples para acolher a novidade de Deus…
Teoricamente, ninguém põe em causa que a Igreja nascida de Jesus seja uma comunidade aberta a todos os homens e mulheres, de todas as raças, culturas, classes sociais, quadrantes políticos…
Os homens e as mulheres, os casados e os divorciados, os pobres e os ricos, os instruídos e os analfabetos, os conhecidos e os desconhecidos, os bons e os maus, os novos e os velhos, todos são acolhidos na comunidade cristã sem discriminação e todos são convidados a pôr a render, para benefício dos irmãos, os talentos que Deus lhes deu?
Evangelho sugere uma reflexão sobre a forma como acolhemos o estrangeiro, o irmão diferente, o “outro” que, por razões políticas, económicas, sociais, laborais, culturais, turísticas, vem ao nosso encontro. Se Deus não discrimina ninguém, mas aceita acolher à sua mesa todos os homens e mulheres, sem distinção, porque não havemos de proceder da mesma forma?
Resumo dos comentários do Portal dos Dehonianos…

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

A ARTE DE CALAR

"O silêncio é um momento vivificante de graça, em que a criatura se cala, mas o Espírito fala".
Calar sobre a sua própria pessoa, é humildade.
Calar sobre os defeitos dos outros, é caridade.
Calar quando se sofre, é heroísmo.
Calar diante do sofrimento alheio, é covardia.
Calar diante da injustiça, é fraqueza.
Calar quando o outro fala, é delicadeza.
Calar quando o outro espera uma palavra, é omissão.
Calar e não falar palavras inúteis, é penitência.
Calar quando não há necessidade de falar, é prudência.
Calar quando Deus nos fala no coração, é silêncio.
Calar diante do mistério que não entendemos, é sabedoria.
Não sei quem é o autor, porém, é muito interessante e se levado à prática por todos nós, o mundo tornava-se um lugar onde era possível viver bem....

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Dia de Santa Edith Stein

9 de Agosto, dia de Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein), religiosa, mártir, padroeira da Europa, +1942
Edith Stein nasceu em Breslau, atualmente Wroclaw, capital da Silésia, na Alemanha (cidade que, depois da Segunda Guerra Mundial, passou a pertencer à Polónia), no dia 12 de Outubro de 1891, quando se celebrava a grande festa judaica do Yom Kippur, o Dia da Reconciliação.
No dia 21 de Abril de 1935, domingo de Páscoa, faz seus votos religiosos e três anos depois, no mesmo dia, seus votos perpétuos. A sua vida será uma “Cruz” transformada em “Páscoa”.
Na Alemanha, os nazis começam a semear o ódio ao povo judeu. Ela pressagia o destino que a aguarda. Tentam salvá-la, fazendo-a fugir para a Holanda, para o Carmelo de Echt. Membros das SS não tardam a invadir o convento e prendem Irmã Benedita e sua irmã Rosa, também convertida ao catolicismo.
Três dias antes da sua morte, Edith dirá: “Aconteça o que acontecer, estou preparada. Jesus está aqui conosco”. (06-08-1942).
Após vários tormentos, no dia 9 de Agosto de 1942, na câmara de gás do “inferno de Auschwitz", morria a mártir da Cruz, Irmã Teresa Benedita. Foi beatificada no dia 1º. de Maio de 1987, em Colônia, e canonizada em 1999 pelo papa João Paulo II.
O mesmo Papa a declarou, com Santa Catarina de Sena e Santa Brígida da Suécia, padroeira da Europa.
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A Tempestade 1940
"Sou Eu, não temais"
(Jo 6, 20)
.........
Senhor, como são altas as ondas
e tão escura a noite!
Não poderias dar-lhe alguma
claridade?
...
Segura o leme com mãos firmes,
tem confiança, mantém a calma.
A tua barca é-Me preciosa.
A bom Porto a levarei.
Mantém sem desistires os olhos na
bússola,
é ela que ajuda a chegar ao destino
no meio de noites e tempestades.
...
A agulha da bússola oscila,
mas mostra segura a direcção.
Ela te indicará o Cabo
aonde quero que arribes.
...
Tem confiança, mantém a calma:
por noites e tempestades
a Vontade de Deus, Fiel te guiará
se vigilante for o teu coração
...
Edith Stein

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Ser poeta

.
Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Áquem e de Além Dor!
..
É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!
...
É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!
....
E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!
Florbela Espanca

sábado, 6 de agosto de 2011

Pensamento em volta

São João Damasceno (c. 675-749), monge, teólogo, doutor da Igreja, diz o seguinte: «Hoje é o abismo da luz inacessível… As coisas humanas tornam-se as de Deus, e as coisas divinas, as do homem». Sabe bem entendermos que Deus, hoje, se manifesta a cada um de nós, para oferecer o que é «Seu» a «nós» e tudo o que é de «nós» passar a ser «Seu». Nesta correlação confirmamos em absoluto a nossa divindade e descobrimos a resposta às questões existenciais, de onde viemos? E para onde vamos? - Resposta: «feitos à imagem e semelhança…» e peregrinos da sublime transfiguração divina. É de Santo Ireneu que sabemos, em Jesus Cristo divinizamo-nos. Não há maior fortuna do que esta.
JLR
Nota: com votos de bom fim de semana para todos os meus leitores e boas férias se for o caso para alguns...

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Terrorismo cristão na Europa

É grave, muito grave que vários dos novos movimentos que povoam a Igreja Católica actualmente sejam claramente conservadores e restauracionistas. Fazem jus a acção da Igreja Católica, sobretudo nos últimos dois Papados. São chamados de «Irmandades ou seitas formadas com o propósito enganoso de neo-espiritualismo». É perturbante que tais movimentos tenham sucesso e encontrem adeptos sobretudo entre as camada mais jovens, se pensarmos que tais «escolas» ou «catequeses» ou «oração», dizem respeito à rede de práticas que levam à iniciação de cultos esotéricos, paganismo, heresias anti-gnóstica Católica e todo o género de ideologias anti-cristãs.
A revista italiana, «Religioni e sette nel mondo», do Grupo de Pesquisa e Informação sócio-religiosa (GRIS), dedicou uma edição às «Ordens de Cavalaria» contemporânea, com o objectivo de distinguir o verdadeiro e o falso dos neo-templários.
A revista denuncia também que a «falsificação contemporânea de cavalaria e o enganoso neo-espiritualismo», surge «Graças aos romances de ficção científica e sagas de Tolkien» o espírito do fascínio da Távola Redonda e seus rivais atrai principalmente os mais jovens. Diz a revista «um grande número de pequenos grupos atrai um grande público, especialmente os jovens, para ambientes onde são disseminadas doutrinas, lendas e teorias com valores e práticas que são claramente anti-católicas».
Aqui pensamos no «terrorista da Noruega». Falamos de Anders Behring Breivik. Ou, como o próprio assinou no seu manifesto de 1.500 páginas, Andrew Berwick. O próprio explica o seu pensamento. Pensa o quanto despreza a democracia liberal e as sociedades pluralistas do Ocidente. E manifesta um ódio pela «cultura da tolerância» e pelo horrendo materialismo dos ocidentais. O puritanismo em relação ao «sexo» é arrepiante e deriva dos comportamentos sexuais «devassos» da mãe e da irmã. A sua simpatia pela Maçonaria e pelos Templários, é sintomática.
Uma breve nota sobre a Ordem dos Templários. «Na idade média, a Igreja católica cria As Cruzadas. Exércitos cristãos que defenderiam os domínios dos papados da invasão dos "infiéis" islâmicos. E dentro delas surge a Ordem dos Cavaleiros Templários, ou Templários. Primeiramente chamada Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, foi criada por nove monges guerreiros chefiados por Hugo de Payens, em 1118. Recebe anuência do Papa Clemente V, e tem como missão, a princípio, proteger os peregrinos que se dirigiam ao Templo de Salomão, em Jerusalém, para orar. Torna-se tão poderosa e influente com conquistas e vitórias nas batalhas, que desperta a inveja e a ganância do Rei da França, Felipe IV, chamado o Belo, que arma um complot juntamente com o Papa, para extingui-la. O que vem acontecer em 1314, com a morte na fogueira dos seus últimos líderes, acusados de heresia, prática de rituais pagãos, e outros crimes» (in blog: seuguara.br).
Obviamente que não pretendemos relacionar que qualquer forma de terrorismo com a doutrina ou prática concreta da Igreja Católica. Mas, acções de absolutismo papal, tentativas restauradores, promoção do integrismo e do conservadorismo, fazem nascer movimentos de pensamento e práticas herméticas que violentam a democracia, a tolerância e o respeito pela diversidade. Tudo contrário à lógica do Evangelho de Jesus Cristo.
JLR
Imagem Google

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Comentário à Missa do próximo Domingo

Domingo XIX Tempo Comum
7 de Agosto de 2011
Vencer o medo
Na montanha, o profeta Elias experimenta a presença de Deus. Deus manifesta-se de modo silencioso e pacífico, não no «vento forte» nem no «tremor de terra», nem no «fogo», mas na «brisa suave». Quando a sente, Elias saiu e ficou à entrada da gruta, cobrindo o rosto com o manto, porque nenhum homem pode ver a Deus face a face. Este gesto define a atitude do profeta, entrega-se confiante à acção de Deus e está disponível para o Seu serviço. Precisamos de profetas que se animam com a «ligeira brisa» e que os faça sair da «gruta» do medo e da falta de coragem para revelar toda a verdade da esperança e do amor de Deus em favor de todos, numa luta sem tréguas contra todas as injustiças deste mundo. Precisamos de profetas que denunciam a escravidão do egoísmo, da lógica que tornam os pobres cada vez mais pobres e os ricos cada vez mais ricos. O profeta de Deus, é aquele que não se afunda nas águas impetuosas do mar da vida, mas confiante este a mão Jesus, o salvador, para salvar-se a si próprio e levar adiante a salvação dos outros. São este que Jesus protege e envia para o mundo.
O Evangelho de João diz-nos que, após a multiplicação dos pães, as multidões queriam aclamar Jesus como rei. Jesus foge das expectativas de um Messias triunfalista cheio de poder. Por isso, Jesus despede a multidão, manda os discípulos para o barco e retirou-se para o monte para fazer oração. Este trecho de Mateus, tempestade no Mar, Jesus que caminha sobre as águas, cena de Pedro com Jesus revela elementos típicos das aparições de Jesus após a ressurreição. A tempestade tem a ver com as perseguições e todas as dificuldades que aqueles que seguem Jesus sempre encontrarão na sua acção. O mais importante salientar é que nessa contingência, o pior que pode acontecer será o medo e a falta de fé em Jesus que acompanha todos aqueles que trabalham em seu nome. Pedro destaca-se neste episódio para revelar que, ele assumindo o primado não pode deixar de confiar em Jesus que sempre está por perto para ajudar a vencer os receios e puxar para cima todos os que se afundam no medo e na ausência de esperança. É curioso que logo que Jesus subiu para o barco, o vento amainou. Que nesse vacilar, ninguém se esqueça de estender a mão...
São Paulo manifesta o seu desgosto, ao ponto de desejar ser separado de Cristo, pelo facto de os israelitas não terem aceite Jesus como Messias. O povo de todas as condições religiosas para aceitar Cristo, o enviado do Pai, recusou-O. Neste sentido, Paulo apela ao perdão e antes desejava ser prejudicado em favor da salvação de muitos. E mais ainda, confia São Paulo que essas condições favoráveis em relação ao povo judaico (a adopção, a glória, a aliança, a lei, o culto, as promessas, os patriarcas) não se apagarão pelo facto de terem recusado aceitar Cristo. Este sentimento não é um puro sentimentalismo beatífico em relação aos que não creiam, mas uma forte esperança na bondade de Deus acontece de muitas formas em todos os corações, mesmo até naqueles que recusaram uma aceitação mais explícita e concreta de Jesus Cristo.
JLR

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

"Eu fui para converter os índios e eles me converteram"

No domingo 24 de julho, à idade de 75 anos, faleceu na capital do México o historiador e sacerdote jesuíta Jan de Vos Van Gerven, perito em línguas indígenas e líder da teologia marxista da libertação – contrária à doutrina católica – que influiu no pensamento do falecido Bispo mexicano Samuel Ruiz.
Conforme informa o jornal mexicano La Jornada, Jan de Vos faleceu logo depois de uma cirurgia por uma severa condição cardiovascular.
Os restos do historiador e conhecedor das línguas indígenas do México foram levados a San Cristóbal de las Casas, estado de Chiapas. Nessa cidade ele residiu desde que chegou ao país em 1973.
Entrevista a Jan de Vos:
Eu tenho 70 anos e o coração inteiro e entregue, mesmo com quatro "pontes de safena". Nasci em Antuérpia, cidade cinzenta e monótona, e mudei para a luz da América. Fui jesuíta e sempre serei apaixonado companheiro de Jesus. A revolução e uma mulher me tiraram dos meus livros de história para a protagonizarmos juntos. A religião maia não é inferior à nossa.
- Minha família era muito católica: meu pai era um deputado democrata cristão e minha mãe rezava para ver um de seus nove filhos no altar. E conseguiu: me tornei um jesuíta.
- Você deu aulas em uma escola?
Eu fui para a Colômbia como missionário. Eu comprei a melhor rede do mundo. Fazem-nas na cadeia de Mérida, no Yucatan mexicano. Os prisioneiros me venderamuma uma enorme rede de casal (me apercebi disso na floresta, diante dos risos furtivos dos nativos).
- Você ilumina seu rosto ao lembrar isso.
- Eu vi a luz! Da Bélgica maçante e monótona para a selva e o oceano do Chocó. Na estação seca, subia os rios pela floresta até às aldeias indígenas com dois pares de sapatos: um par seco em minha mochila, enquanto o usava o outro. Eu estava tão feliz que me recusei a voltar. Enquanto isso, Gustavo Gutierrez escreve sua Teologia da Libertação no Peru.
- A América Latina fervia de indignação.
- Eu fui para o México e descobri o mundo maia. Eles me mandaram para converter, mas logo percebi que há 500 anos se estava tentando evangelizar os Maya sem sucesso: aquilo não ele não fazia nenhum sentido.
- Por quê?
Falhamos porque pensávamos que éramos superiores aos índios. Eu quis conhecê-los antes de lhes impor qualquer coisa. Pratiquei a observação participativa antropológica praticada com os Maya durante 30 anos e estudei sua história: escrevi dez livros.
- Alguma conclusão?
- Os Maias acabaram me convertendo.
- Como?
-Me fizeram pensar. Para aprofundar a minha fé, eu decidi ir estudar teologia em Tübingen. Eu era um aluno de Ratzinger ...
-Ele agora tem muitos mais alunos.
Hoje Bento XVI -... ... E de Hans Kung.
- Foi hóspede dos opostos.
-Ratzinger, escrupuloso e disciplinado, ensinava uma disciplina do Neo-Tomismo. Ao contrário, Küng era um playboy da teologia.
- Popular?
-Para nosso escândalo vinha nos dar aula de teologia num Porsche vermelho. Quando chegou Maio de 68, Kung aceita alegremente debate após debate, mas Ratzinger se assustava muitíssimo com o assalto às aulas dos estudantes. Eu decidi voltar para os meus Mayas.
- Você os viu com olhos diferentes?
Reli a Bíblia. Descobri que a religiosidade deles era diferente, mas não inferior à nossa. Nossa religião é baseada na revelação feita pelos profetas e o último é Jesus de Nazaré, o filho de Deus para os cristãos, que, finalmente, nos dá a divulgação completa.
- Não acho que é a única verdadeira?
- Antes de Moisés, todos nós vivíamos a mesma religiosidade de culto à fertilidade e à terra que vivem os mayas, a fertilidade e a vida da terra maya: comungam com a natureza, a revelação eterna e quotidiana.
- Poderia se dizer que isso é idolatria e animismo.
- Nós todos fomos como eles. Moisés vai para Canaã e destroi a religião da natureza. Aqui começa o divórcio entre as religiões dominantes e nosso meio ambiente.
- Por quê?
- Moisés e seu povo não são agricultores, mas nômades, e Javé é um deus tribal. Guia só o seu povo na batalha para dominar as outras tribos, porque lhes ordenou: "repovoai a terra e submetei-a"
- Não não parece um lema do Greenpeace.
- Em vez disso, os maias resistiram a 500 anos de evangelização, porque consideram a terra como sua mãe. Toda vez que semeiam, lhe pedem perdão "Perdoa-nos, Mãe, devemos abrir-te para poder comer." E não entendem que alguém possa comprar ou vender a terra sem trair a sua alma. Como é que alguém pode comprar ou vender sua mãe?
-Não me faças dizer nomes...
- Eu me recuso a considerar a minha religiosidade superior à religiosidade maya : aprender com eles! Eu vi, impotente, como destruimos a floresta para a subjugar e explorar.
-Você é um relativista moral: condenado.
- Eu sou o que eu vivi.
- E, sendo assim, você ainda é cristão?
- Eu não sou um jesuíta, mas" um companheiro de Jesus". Eu acredito em Jesus, sem intermediários e o vejo a nosso lado todos os dias: Jesus era um desajustado, um pária, que era contra a religião estabelecida. Os poderosos e os sacerdotes o condenaram à morte, mas Jesus vive hoje na luta dos que sofrem: os despossuídos, os bem-aventuradosa que herdarão a mãe-terra porque a amam e morrerão por ela.
- E você acabou sendo zapatistas.
-Pelo amor aos indígenas ... e a uma mulher.
- Muito jovem, não é? Que perigo!
- Ela era a filha do fundador do Fundo de Cultura Económica: uma intelectual comprometida e mulher revolucionária as 24 horas.
- Eu não sei se seria minha companheira ideal.
- Ufa! Não era fácil viver com ela! Mas agradeço a ela e à revolução duas coisas: ter-me tirado do passado e ter-me arrancado do escritório. Eu parei de escrever a história sozinho para a poder protagonizar com ela.
- Como?
- A maioria dos zapatistas tinham sido catequizados por mim ou por meus companheiros...
- Vocês jesuítas eram um perigo.
-... Quando o comandante David pegou minha mão, docemente me lembrou que ele foi meu aluno. Ele me pediu para escrever a história da Mayas, "porque a nossa história é o fundamento da nossa dignidade."
- Um belo encargo...
- Procurei patronos e o editei luxuosamente em quatro línguas maia e em espanhol. Vendemos 10 mil: cada um ao preço de uma cerveja. Hoje o chamam de "livro negro" pela cor das capas e o lêem com orgulho. A revolução continua agora nos municípios: sem câmaras, mas mais do que nunca perto do povo.
Tradução do Espanhol: João Tavares

Pode Ser Que Um Dia Deixemos De Nos Falar...

.
Pode ser que um dia deixemos de nos falar...
Mas, enquanto houver amizade,
Faremos as pazes de novo.
..
Pode ser que um dia o tempo passe...
Mas, se a amizade permanecer,
Um de outro se há-de lembrar.
...
Pode ser que um dia nos afastemos...
Mas, se formos amigos de verdade,
A amizade nos reaproximará.
....
Pode ser que um dia não mais existamos...
Mas, se ainda sobrar amizade,
Nasceremos de novo, um para o outro.
.....
Pode ser que um dia tudo acabe...
Mas, com a amizade construiremos tudo novamente,
Cada vez de forma diferente.
Sendo único e inesquecível cada momento
Que juntos viveremos e nos lembraremos para sempre.
......
Há duas formas para viver a sua vida:
Uma é acreditar que não existe milagre.
A outra é acreditar que todas as coisas são um milagre.
Albert Einstein

terça-feira, 2 de agosto de 2011

A nossa dignidade e a dignidade dos outros

Citado por Frei Bento Domingues (Público de Domingo 31 de Julho de 2011):
«Fragmento da Ode Marítima, de Álvaro de Campos: “As viagens, os viajantes – tantas espécies deles!/ Tanta nacionalidade sobre o mundo! Tanta profissão!/ Tanta gente!/ Tanto destino diverso que se pode dar à vida,/ À vida, afinal, no fundo sempre, sempre a mesma!/ Tantas caras curiosas! Todas as caras são curiosas/ E nada traz tanta religiosidade como olhar muito para gente./ A fraternidade afinal não é uma ideia revolucionária./ É uma coisa que a gente aprende pela vida fora, onde tem que tolerar tudo/ E passa a achar graça ao que tem de tolerar,/ E acaba quase a chorar de ternura sobre o que tolerou!/ Ah, tudo isto é belo, tudo isto é humano e anda ligado/ Aos sentimentos humanos, tão conviventes e burgueses,/ Tão complicadamente simples, tão metafisicamente tristes!/ A vida flutuante, diversa, acaba por nos educar no humano./ Pobre gente! Pobre gente toda a gente!”
Alain Badiou considera a Ode Marítima um dos maiores poemas do século XX. No entanto, para este filósofo é “impossível – e contudo real – que povos notoriamente orgulhosos da liberdade individual, da privacidade, dos direitos do cidadão e do homem, da singularidade e dos particularismos, se tenham transformado em pouquíssimo tempo numa massa de ovelhas, controlados, vigiados, espiados, monitorizados em toda a sua actividade através de uma tecnologia invasiva e lesiva da descrição e da delicadeza, tratados como malfeitores e terroristas potenciais, enlatados em meios de transporte semelhantes a carne de animal, frustrados, presos e misturados com a má educação generalizada, vexados pelo software que não prevê excepções, obrigados a uma vida programada nos mínimos detalhes e que elimina qualquer experiência do poético, que não deixa espaço para a meditação e para a elaboração da experiência, submersos por um cúmulo de idiotice e por uma publicidade asfixiante”.
Invocando direitos humanos inalienáveis, umas vezes reclamamos o reconhecimento da singularidade de cada pessoa contra todas as formas de massificação. Outras, exigimos sistemas de vigilância e segurança que não permitam a preparação e o desenvolvimento de programas de destruição, como o realizado na Noruega. A sabedoria das nações ainda não consegue compaginar esta dupla exigência e, também, não pode prescindir de a procurar simultaneamente.
Não há soluções definitivas. Não se pode impor a ninguém que se torne o guarda da dignidade do outro. Já conhecemos, no entanto, a diferença entre os frutos da cultura do ódio e da cultura do amor.
Nota: Bela reflexão para todos o que andam para aí a defenderem videovigilâncias em tudo o que é canto.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

As Fêmeas do Lucro

Nota da redacção: Texto interessante sobre o estado das coisas. Eles são o flagelo da pobreza, a fome, a corrupção, o açambarcamento dos bens que são de todos por alguns cegos pela ganância e o egoísmo - uma série de situações que escravizam a humanidade e a inferiorizam à indignidade... A visão seguinte é importante sobre o desarranjo em que está o nosso mundo. É preciso pensarmos todos, o mundo e a vida em sociedade, porque estão em causa muitos valores que a serem esquecidos remetem a dignidade da vida para o caixote do lixo. Obrigado ao padre Tavares pela reflexão...
Os prostitutos do dinheiro nós sabemos bem quem são. Uns andam bem vestidos, procurando significar dignidade, autoridade e justiça: são governantes, políticos, banqueiros, grandes empresários, etc. Outros não têm cara nem qualquer identificação: são os abstratos donos do grande capital, das drogas, das máfias e mais.
Todos circulam bem na Sociedade e fazem dela a sua amante. Usam estratégias. A primeira estratégia neste último desenvolvimento mundial foi de atracção: o dinheiro a rodos, o facilitismo, os empréstimos, um mundo cor-de-rosa a entrar pela porta dentro, a revolução industrial distribuída ao domicílio.
Agora é o tempo da submissão. Está projectada no grande ecrã a crise, melhor, as muitas crises.
Quantos milhões estarão rendendo os apertos nos impostos, a redução dos benefícios e direitos sociais das pessoas e a contínua perda de emprego? Quantos bilhões tentarão sugar aos portugueses, gregos e irlandeses com as troikas? E muitas outras troikas se anunciam.
A Sociedade aceita quase como natural estes acontecimentos e nem dá pelo disfarce. Todos nós vivemos enleados nas suas redes e, quer queiramos quer não, somos usados como as fêmeas do lucro.
Qual o esquema que utilizam? O peso do dinheiro é quem dá ordens. Nós o temos, nós mandamos. Segundo eles a regra nº 1 do desenvolvimento mundial é o comércio. Dizem que é histórico, já com milénios, portanto indiscutível. E, no mercado, quem tem dinheiro é quem dá cartas.
É verdade que existe a política e os governos e temos que, pelo menos, parecer que os respeitamos. Porém, de qualquer modo, estamos acima.
Porque fazemos parte da Sociedade e vivemos dela, também pagamos alguns impostos. Mas a nossa casa contributiva são os paraísos fiscais. Depois fazemos parcerias, (compras de consciências no escuro), com os governantes, políticos e outros, para termos leis favoráveis, polícias protectoras e justiça tolerante.
Demos um pouco de atenção às grandes injustiças nascidas destas lógicas e comportamentos de ambição assassina.
A riqueza acumulada em poucas mãos já vai muito longe. A revista Visão de 7 de Julho, na pg. 59, trazia em letras bem visíveis: “1% da população mundial detem 57% da propriedade global e utiliza os paraísos fiscais para aliviar a carga fiscal.”
Já repararam na enormidade do crime que isto comporta? Não tem nada a ver com a propriedade privada das pessoas, das famílias, das pequenas e médias empresas, bens produzidos e manuseáveis pela capacidade dos próprios donos.
Estas superriquezas superpolíticas e supergovernamentais são a degradação e destruição da identidade das pessoas, da identidade da Natureza, da biodiversidade, o sustentáculo da vida e, por fim, do Planeta, a casa da Humanidade.
Segundo a FAO, actualmente 75% dos alimentos mundiais são gerados de apenas 12 plantas e 5 espécies de animais. O restante vai desaparecendo porque é pouco lucrativo.
Podemos dizer: o doido anda à solta, a vida está no cofre e ele com a chave na mão.
O dinheiro é o sangue social que dá vida às comunidades humanas. É o fruto do labor humano que, durante milénios, produziu riqueza, um património vivo em favor dos vivos. É a doação dos que vão morrendo, as mãos dadas entre as gerações que se sucedem.
Este bem social foi, aos poucos, sendo sugado por este grupo que traz nas veias o sangue negreiro dos colonizadores que, nos séculos XVI, XVII e XVIII arrasaram o Novo Continente.
Estes “donos do mundo”não são produtores de riqueza. São sim os açambarcadores do suor humano, instalando nas sociedades o desemprego, a miséria e a morte. Até, pela desmontagem que provocaram na vida laboral, já impedem as pessoas de viver do suor do seu rosto.
Aonde já chegamos: as pessoas arrancadas ao seu direito natural de viver da dignidade do seu labor!?...
Um abraço para as vítimas e um grito em favor da organização na resistência. Superemos o mundo democrático das subserviências em votos, serviços e mão estendida. Construamos povos de mãos dadas, de olhos abertos e dinâmicos na execução das suas obrigações e direitos.
Temos de descobrir gente com dignidade e de pé, para ocupar os cargos da responsabilidade política, social e de justiça.
Mário Tavares
Imagem Google

Patriarca chamado ao Vaticano para se explicar sobre ordenação de mulheres

Por António Marujo
Igreja forçou bispo australiano a sair do cargo por causa da mesma questão, um mês e meio antes das afirmações do responsável português. D. José Policarpo já tinha publicado esclarecimento...
O cardeal-patriarca de Lisboa foi chamado a uma audiência com o secretário de Estado do Vaticano, Tarcisio Bertone, por causa da sua afirmação de que não há obstáculos teológicos à ordenação de mulheres. A conversa foi em Castelgandolfo, a residência estival do Papa nos arredores de Roma, antes de dia 14 de Julho, por ocasião de uma ida de D. José Policarpo a Roma, para uma reunião do Conselho Pontifício para a Nova Evangelização, de que faz parte.
Numa entrevista à revista da Ordem dos Advogados, publicada em meados de Junho, o patriarca afirmava, sobre a ordenação de mulheres: "Penso que não há nenhum obstáculo fundamental. É uma igualdade fundamental de todos os membros da Igreja."
Por causa desta afirmação, transcrita e comentada em Roma, por dois "vaticanistas", o cardeal Bertone falou com D. José Policarpo. Segundo o PÚBLICO soube - o facto tem sido tema de conversa entre o clero de Lisboa desde então -, o patriarca foi bem tratado, pois o Vaticano temia que D. José pudesse reagir mal a uma advertência severa. "Foi tratado nas palminhas", nota um padre de Lisboa, falando do tom da audiência.
Dias antes desse encontro, o patriarca recebera uma carta do cardeal William Levada, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (cargo anteriormente ocupado pelo actual Papa Bento XVI), órgão que zela pela Teologia oficial. A carta foi-lhe entregue em mão pelo núncio apostólico (embaixador da Santa Sé) em Lisboa, a 2 de Julho, dia em que o patriarca presidiu a uma missa de ordenações no Mosteiro dos Jerónimos. Outro padre afirma que o cardeal manifestou um ar grave após ter lido a carta.
Doutrina é "infalível"
Logo a seguir, no dia 6, o patriarca publicou um esclarecimento no site do patriarcado de Lisboa na Internet. No texto, afirmava que, na entrevista, não tivera "na devida conta as últimas declarações" dos papas sobre o tema, dando assim azo a "reacções várias e mesmo indignação".
O facto tem provocado controvérsia entre muitos padres e outros católicos que entretanto vão sabendo do que se passou - e que questionam tanto a afirmação centralista do Vaticano como o modo como D. José recuou da sua posição inicial. Já não é, de facto, a primeira vez que o patriarca diz o que pensa sobre o assunto. Só que, desta vez, as declarações foram citadas por dois jornalistas do Vaticano, o que aumentou o seu efeito.
A 4 de Julho, o PÚBLICO deu notícia desses comentários. John Allen Jr., correspondente do National Catholic Reporter em Roma, notou que as declarações do patriarca apareceram um mês e meio depois de um bispo australiano ter sido demitido por causa da mesma questão. William Morris, bispo de Toowoomba, admitira em 2006 o debate sobre o tema. No início de Maio deste ano, o Vaticano forçou-o a sair do cargo. Numa carta em que lhe anunciava a decisão, o Papa Bento XVI dizia que a doutrina da Igreja sobre o tema é "infalível".
Na mesma altura, ainda na segunda quinzena de Junho, o Vatican Insider, site de informação religiosa do diário italiano La Stampa, o vaticanista Andrea Tornielli acrescentava que as declarações do patriarca desalinhavam do que já tinham dito João Paulo II e Bento XVI.
De facto, não é nova a ideia expressa pelo patriarca. Em 1999, com um ano no cargo, dizia D. José, no livro-entrevista Igreja e Democracia (ed. Multinova): "Que [as mulheres] eram capazes - as que tivessem vocação para isso - não tenho dúvidas. (...) As razões pelas quais a Igreja Católica não se abriu ainda a essa hipótese são sobretudo as da tradição apostólica, que foi sempre de homens." E acrescentava: "Terão de ser as comunidades e a Igreja, como um todo, a amadurecerem o assunto. É um facto que hoje, mesmo dentro da Igreja Católica, se aceitam mulheres em papéis que há trinta anos eram impensáveis."
"Se Deus quiser"
Em Maio de 2003, em Viena de Áustria, D. José Policarpo respondeu no mesmo sentido a uma pergunta de uma jornalista, numa conferência de imprensa do Congresso Internacional para a Nova Evangelização.
Na entrevista agora em questão, o patriarca falava de uma carta do Papa João Paulo II, de 1994, e de um esclarecimento, um ano depois, da Congregação para a Doutrina da Fé, presidida pelo então cardeal Joseph Ratzinger. Os dois textos diziam que o tema pertencia ao "depósito da fé".
D. José Policarpo acrescentava: "Penso que a questão não se dirime assim; teologicamente, não há nenhum obstáculo fundamental; há esta tradição, digamos assim... Nunca foi de outra maneira." E, antecipando o que a si próprio lhe iria acontecer, dizia ainda: "No momento que estamos a viver, é um daqueles problemas que é melhor nem levantar... Suscita uma série de reacções." A mudança, terminava, acontecerá "se Deus quiser que aconteça, e se estiver nos planos Dele acontecerá".
No esclarecimento publicado a 6 de Julho, e que pode ser lido na íntegra no site do patriarcado, o cardeal dizia que nos primeiros tempos do Cristianismo "é notória a harmonia entre o facto de o sacerdócio apostólico ser conferido a homens e a importância e dignidade das mulheres na Igreja". E, depois de citar a carta de João Paulo II, afirmava que seria para ele "doloroso" que as suas palavras "pudessem gerar confusão" na adesão "à Igreja e à palavra do Santo Padre".
in Público
Estamos esclarecidos?
O esclarecimento que o Senhor Cardeal Patriarca de Lisboa tão prontamente e estranhamente escreveu sobre a ordenação das mulheres é merecedor de uma leitura muito cuidada. Primeiro porque de esclarecedor tem pouco e depois porque o que deixa nas entrelinhas é muito esclarecedor.
Não é minha preocupação analisar aqui o tema da ordenação das mulheres até porque já houve quem o fizesse com grande maestria. A minha preocupação é bem diferente. Tem fundamentalmente a ver com a forma como este esclarecimento é feito.
Em primeiro lugar é dito pelo Senhor Cardeal Patriarca que este tema foi sempre por si abordado de forma não sistemática. Será que um assunto que tanta tinta tem feito correr entre adeptos e não adeptos não lhe merecia uma análise e um interesse mais cuidado? Esta afirmação vinda de um sacerdote é estranha, de um teólogo reconhecido é pouco abonatória mas vinda de um Cardeal Patriarca é desconcertante e preocupante.
Em segundo lugar e imitando o estudante que prepara o seu exame em cima da hora faz uma observação que me deixa estarrecido: “por não ter tido na devida conta as últimas declarações do Magistério sobre o tema, dei azo a essas reacções ”. Quer isto dizer que o nosso Cardeal Patriarca de Lisboa não leu ou não prestou a devida atenção ao que os dois últimos papas escreveram sobre este assunto. Um exemplo de sinceridade…
Por último conclui que somos convidados a acatar o Magistério do Santo Padre e que a comunhão com o Santo Padre é uma atitude absoluta no exercício do seu ministério. Aqui está uma atitude reveladora de quem pensa pela sua cabeça ou segundo alguns de quem tenta proteger a sua. Decifrando o emaranhado deste texto ele serve apenas para dizer desdizendo aquilo que se disse antes. Esclarecidos?
Nota: Isto está mesmo bonito.... Uma ortadoxia da Igreja Católica ancrónica e totalmente fora da realidade do mundo de hoje. Uma pena muito dolorosa. Vamos continuar na oração militante. Pelo sonho é que vamos, já dizia o poeta Sebastião da Gama, e porque não dar azas ao sonho que muitos ainda teimam em fazer crer que é inútil sonhar à luz do Evangelho de Jesus Cristo.