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quarta-feira, 30 de novembro de 2011

O Trabalho humano

O trabalho não pode ser apenas uma ocupação ou um simples emprego para ocupar tempo e ganhar dinheiro. E ainda não se pode reduzir o trabalho à frase redutora que muitos frequentemente utilizam: «procuro um emprego, mas não procuro trabalho». Nesta frase está contido um negativismo atroz e ela encerra o tipo de sociedade que os homens actuais teimam em construir. A sociedade do lucro fácil sobre a baixa produtividade.
Por um lado, a frase em causa contém dois aspectos terríveis sobre a forma como muitos dos nossos semelhantes vêem o trabalho humano. Em primeiro lugar, nela está contida a ideia de que com o emprego consigo dinheiro para gastar o quanto a sociedade materialista e capitalista me pedir. Em segundo lugar, recuso o trabalho, porque não quero fazer nada de produtivo em favor da sociedade nem estou para me gastar com essas babuseiras de realização pessoal. Esta é morte fatal do verdadeiro sentido do trabalho humano.
Por outro, é preciso antes pensar de forma mais positiva. Não podemos ficar com esta perspectiva redutora sobre o trabalho humano. O trabalho visto num sentido positivo, que é a única forma como devia ser sempre encarado, é o caminho mais autêntico de realização humana. A vida de cada pessoa não se realiza com plena dignidade se o trabalho não existir.
A sociedade portuguesa está a ser confrontada com a proposta do governo que visa alterar o tempo de trabalho diário com mais meia hora e com o fim de quatro feriados, dois civis e dois religiosos. Por isso, está em curso entre nós um debate sem precedentes sobre esta matéria. Ainda bem que assim é. No entanto, seria útil que sobressaísse o verdadeiro debate e que os simples slogans, os interesses partidários, as investidas pelo poder e os interesses instalados não sejam pretexto para reduzir a reflexão a estridente ruído.
O trabalho realiza a pessoa humana e confere-lhe uma utilidade inalienável. Assim, preciso lembrar novamente o princípio de que a economia está ao serviço do homem e não o homem ao serviço da economia, como parecem entender algumas empresas, os governos e as multinacionais cujo o horizonte radica exclusivamente no lucro. A necessidade de produzir cada vez mais e melhor, não pode subjugar a pessoa humana a uma simples força de trabalho, tão bem ilustrada por Charlie Chaplim, no seu magnífico «Tempos Modernos».
A competitividade (a produção ou rendimento), condição essencial do progresso e do desenvolvimento, deve ser respeitadora da dignidade humana a todos os níveis. Para que tal diálogo se estabeleça com rentabilidade para todos, deve a lei prever mecanismos de interacção entre todos os interessados no trabalho humano. As empresas não podem desejar a produtividade se não estão em diálogo permanente com os seus trabalhadores nem podem somar a sua produtividade se não fomentam o real e efectivo cumprimento dos direitos e dos deveres.
JLR
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terça-feira, 29 de novembro de 2011

Felicidade...

Quantas vezes temos lembrado aos noivos e casais que o dinheiro não é a condição fundamental da felicidade o seu lar. Mas quantos ignoram ou esquecem esta realidade e antes de qualquer preparação psicológica e moral para o casamento, preocupam-se sobretudo com coisas supérfluas e com ganhar e ter muito dinheiro.
Havia um sapateiro pobre que trabalhava à porta de casa, enquanto cantarolava feliz na sua vida humilde. Tinha cinco filhos que andavam mal vestidos e mal alimentados.
Em frente à sua casita morava um homem rico, que compadecido daquela vida tão pobre, enviou ao sapateiro uma grande quantia de dinheiro.
O sapateiro ficou muito surpreendido . À noite esteve a contar o dinheiro com a mulher.
- Que vamos fazer com este dinheiro?
- Perguntou à espoa...
- Enterra-se no quintal.
- Mas podemos perder o sítio. É melhor metê-lo na arca.
- Mas podem roubá-lo. É melhor pô-lo a render.
- Disse a mulher.
- Então vamos fazer obras em casa. Vamos aumentá-la para cima e vou fazer uma oficina pintadinha.
- Isso não interessa!
- Atalhou a mulher. É melhor comprarmos um campo, pois sou filha de lavradores e tenho inclinação para trabalhar na terra.
- Nessa não caio eu!
- berrou o sapateiro.
Foram-se azedando. Berrava ela, gritava ele. E naquela noite não conseguiram dormir.
O vizinho ricaço observou tudo aquilo, mas não conseguia compreender aquela mudança. O sapateiro, cansado e triste, disse à mulher:
- O dinheiro roubou-nos a nossa alegria. O melhor é levá-lo outra vez ao vizinho e que nos deixe na nossa pobreza que nos faz amigos uns dos outros.
Agarrou a saca com o dinheiro e levou-o ao vizinho. E voltou para a sua oficina humilde a trabalhar e a cantarolar como costumava.
Tinha experimentado que o dinheiro, por mais que seja, não compra a felicidade de viver sossegadamente para a família, para os amigos, para os clientes, para toda a gente.
Mário Salgueirinho
Nota: Pequena homenagem ao Padre Mário Salgueirinho, homem profundamente inquieto com a questão crucial da vida, a felicidade. Recentemente entrou no mundo dos ressuscitados para a vida eterna. Paz à sua alma!

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

O Dinheiro

Com dinheiro pode-se comprar uma casa, mas não um lar.
Com dinheiro pode-se comprar uma cama, mas não o sono.
Com dinheiro pode-se comprar um relógio, mas não o tempo.
Com dinheiro pode-se comprar um livro, mas não o conhecimento.
Com dinheiro pode-se comprar comida, mas não o apetite.
Com dinheiro pode-se comprar posição, mas não o respeito.
Com dinheiro pode-se comprar sangue, mas não a vida.
Com dinheiro pode-se comprar remédios, mas não a saúde.
Com dinheiro pode-se comprar sexo, mas não o amor.
Com dinheiro pode-se comprar pessoas, mas não amigos.
...dinheiro não é tudo...
...............................
Nota da redacção: Porém, ajuda imenso neste mundo que a humanidade criou cuja base principal é o dinheiro... Lamento, mas tenho que acrescentar à expressão «...dinheiro não é tudo...» Mas, ajuda!
Ver imagem e texto no blogue: http://osonhocomandavida.blogspot.com/

sábado, 26 de novembro de 2011

Dois poemas inéditos de Ruy Cinatti

Navios de vento
..
Fechei a minha janela
ao vento que vem do largo
que entra pela foz do rio
e declina pela cidade
silvando pelos telhados
que lhe servem de desvio.
No rio sobem navios
que apitam de quando em quando.
Oh mudo pranto fechado,
que se ouve no meu quarto!
..
Mas o vento força a porta
sublinha-se pelas frinchas
com denodado desígnio
que me fere de malícia.
Abro a janela fecho-a
e recebo-o em minha casa
com honras de visitante,
pé atrás, outro adiante,
como se fosse esperado.
Oh pranto desenganado!
..
Não converso, não me espanto
com o que o vento sussurra
quando entra de improviso.
O que se ouve no meu quarto
é um anjo apavorado
que me pretende assustar
com uma voz de além-túmulo
ouvida algures, além mar.
Oh lamento recordado
de uma criança a chorar!
..
Eu vejo cavalos brancos
galopando sobre as nuvens,
as crinas ao ar soltando
como um cardume assustado.
O vento que me percorre
rodopia sem cessar
enche-me o quarto todo
de furtivos sentimentos
difíceis de controlar.
Oh mudo pranto fechado
a sete chaves pelo vento!
26/2/75
..............................
[Meu o testamento]

Meu o testamento
o que possuo na memória de outros
que me transcenderam
e o que me custou a declarar
a quem – cerrados dentes – tinha horizontes,
ilhas por cartografar
e sendo um dos poucos neste mundo
digno do seu nome,
não lamentarei,
antes lhe calçarei sandálias de ouro,
minhas calças por provar ainda.
Um destino de nunca acabar
dou-lhe por aumento
de uma força que nos una a todos.
..
Sim – não desistamos!
Sim – não nos magoemos!
Antes lembremos o pronunciamento
com Che Guevara e com mestre Heráclito!
Tudo flui
como num rio outro
e todos os rios cessam no mar.
Os inimigos poderão ser muitos.
Com todos eles estaremos a par.
É no mar de móveis horizontes
que nos juntaremos
a sós com os elementos
água, céu e fogo.
..
Meu o testamento
a quem o dito, a quem o testemunho,
a quem o transmito,
antes mesmo de iludir a forma
de que me revisto.
O estilo será outro, mas a forma
é imortal
e chama-se alma.
Que ma tomem os que ainda pressinto
terem o íntegro
poder de audácia
revolucionária
por nunca se satisfazerem com o mínimo
neles apenas surto
de começos sempre no plural.
..
A quem transmito o meu testamento,
cabe, piedoso,
distribuí-lo entre os mais escolhidos,
os que sonharam não serem vencidos,
os que sonharam voltar um dia ao país natal,
bemaventurados
de nobre escolha e firme propósito:
Um dia livre
de miseráveis concessões políticas;
um dia ímpar
que nos redima para toda a vida;
um dia igual
ao das minhas-nossas gerações futuras.
..
O meu desejo:
Que o meu país se encontre de novo.
Que se anuncie Portugal!
26/2/75

Ruy Cinatti
Poemas recolhidos do espólio do autor, à guarda da Universidade Católica Portuguesa
Seleção: P. Peter Stilwell

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Viver não dói

Nota: Dedicado a todas as vítimas da violência.
Definitivo, como tudo o que é simples. A nossa dor não advém das coisas vividas, mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram.
Por que sofremos tanto por amor?O certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer por termos conhecido uma pessoa tão boa, que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez companhia por um tempo razoável, um tempo feliz.
Sofremos por quê?
Porque automaticamente esquecemos o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projecções irrealizadas, por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado do nosso amor e não conhecemos, por todos os filhos que gostaríamos de ter tido juntos e não tivemos, por todos os shows e livros e silêncios que gostaríamos de ter compartilhado, e não compartilhamos. Por todos os beijos cancelados, pela eternidade.
Sofremos não porque o nosso trabalho é desgastante e paga pouco, mas por todas as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema, para conversar com um amigo, para nadar, para namorar.
Sofremos não porque a nossa mãe é impaciente connosco, mas por todos os momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela as nossas mais profundas angústias se ela estivesse interessada em nos compreender.
Sofremos não porque o nosso club perdeu, mas pela euforia sufocada.
Sofremos não porque envelhecemos, mas porque o futuro está sendo confiscado de nós, impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam, todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar.
Como aliviar a dor do que não foi vivido? A resposta é simples como um verso: «Se iludindo menos e vivendo mais!!!»
A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca quando, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade.
A dor é inevitável. O sofrimento é opcional.
Carlos Drummond de Andrade
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quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Advento: precisamos de prepararmo-nos...

Domingo I Tempo do Advento
27 de Novembro de 2011
O terror do tempo presente assusta e faz perder a esperança, porém, não sentirá o mesmo a mulher que está a dar à luz. A sua criança é fruto de dores. Por isso, os homens e as mulheres deste tempo que atravessamos são como se fossem essa mulher agoniada com sofrimento, mas certos que desse sofrimento emerge a vida em todo o seu esplendor.
É urgente dar lugar à esperança nesta hora de sofrimentos vários, de dores desmedidas e de desesperos angustiantes. Não há tempo a perder-se, cada um trás em si o lugar de Deus. O lugar do Seu nascimento.
Mas que lugar tão pobre, dirão os mais exigentes! Sim, pobres todos os corações humanos, mas lugares eleitos para o nascimento de Deus, o Senhor da esperança e da salvação para todos. O Deus da vida partilhada não se deixa intimidar com a pobreza de cada um. É dos pobres que Deus gosta. É dos lugares pobres que se faz a eleição para Ele nascer.
Este ano, é especial. O ano do espectro da crise que a todos inquieta face ao futuro. Este, o ano dos cortes salariais e do desemprego que condena várias famílias à fome e especialmente crianças a não saborearem algo especial no Natal e quem sabe pior do que isso, ter que irem para a escola sem se alimentarem convenientemente ou a estarem sujeitas à marginalização perante os coleguinhas, porque não têm vestidas as roupas que os mais novos estandardizaram para o momento. O ano onde nos surpreendemos ou não com mais pobreza e caímos na real de quanto é vulnerável a condição humana e tudo o que essa condição humana criou como definitivo e acabado. Tudo surpreendente para nós que nos habituamos à Internet, às viagens frequentes de avião, ao bem estar social e económico... Tudo parecia assegurado e garantido, mas, afinal, facilmente desmoronaram sobre as nossas cabeças as torres de Babel, que teimosamente erguemos até ao mais alto dos céus.
Eis então que continua o cheiro a cinza, o monte de entulho e as bombas em nome da paz lançadas sobre populações inocentes, são razões de sobra para o desespero. No entanto, será daí mesmo desse panorama desolador que a vida emerge, que a tristeza dá lugar à alegria e que a força do amor será mais uma vez o outro nome da paz para todos.
As entranhas do nosso ser rasgam-se e contorcem-se com a tristeza deste tempo cheio de contradições, de sombras e de penumbras obscuras que não permitem outro sentido, outra paz e outra alegria.
A quem se destina este apelo? - Diz-nos, essa voz de longe que bate de porta em porta, que «precisamos de prepararmo-nos...». - Um grito, um apelo ou uma chamada cristã, evangélica que nos sonda a todos com este pedido, para que qualquer recanto seja lugar propício para emergir a criança, para nascer a «carne» do amor, que redime todo este mundo tão necessitado de razões para viver e lutar por momentos mais férteis de prazer fecundo em favor da existência feliz para todos.
JLR
Imagem Google

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Poema à boca fechada

Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.
..
Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.
..
Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.
..
Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.
..
Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.
..
José Saramago
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segunda-feira, 21 de novembro de 2011

As Teologias Feministas

No passado dia 18 de Novembro foi criada em Lisboa a Associação Portuguesa de Teólogas Feministas, resultante do Colóquio Internacional de Teologia Feminista. Um grande momento para o futuro. Nesta associação contam-se quatro mulheres que lançaram mãos à obra e apresentam-se como o rosto desta "armada" que intentam iniciar, que esperamos que seja longo o seu caminho e muito prometedor para a viragem na hermenêutica, na linguagem e em todas as atitudes puramente masculinizadas e radicadas no poder e não no serviço. Elas são: Maria Julieta Dias, freira das religiosas do Coração de Maria, Teresa Toldy, teóloga e professora universitária, Fernanda Henriques, professora de filosofia na Universidade de Évora e Maria Carlos Ramos, licenciada em Teologia.
O acontecimento reveste-se de uma importância crucial, dado que em Portugal não tínhamos nada de organizado nesta área. Portugal, era o único país da Europa que não tinha uma associação de teólogas feministas. Espanha apresenta já uma vasta acção e profusa reflexão neste âmbito da Teologia Feminista. Acresce-se que necessitamos de trabalhos nesta matéria para que o pensar e acção da sociedade - neste domínio ainda mais as igrejas - se tornem menos masculinizadas e o poder se converta verdadeiramente em serviço tomado do exemplo do Evangelho e a acção de Jesus Cristo.
Segundo Teresa Toldy, tal necessidade radica no seguinte: "a Teologia Feminista continua a fazer sentido no interior do catolicismo. Por causa das imagens androcêntricas de Deus e pela insistência na masculinidade de Jesus como argumento para excluir as mulheres". As linguagens sobre Deus que moldam modos de ver e de configurar a realidade, estão totalmente fora do desejo de Jesus de Nazaré. Não é principal objectivo destas mulheres serem padres, até afirmam claramente não o desejarem para si mesmas, mas antes ajudar a ler e reler todas as imagens de Deus e o papel da mulher na Igreja Católica.
Uma ressalva. Não só na Igreja Católica, mas nas confissões religiosas e até face a todas as religiões, porque as hermenêuticas apresentam visões destorcidas de Deus em todas as religiões. Daí as graves consequências a que estão sujeitas as mulheres e de como o seu papel passa por uma situação de subalternidade em relação à dimensão masculina da humanidade.
Neste sentido, regozijamo-nos com esta iniciativa e desejamos que os objectivos da associação agora criada sejam concretizados. Eles são os seguintes: 1. Contribuir para o aprofundamento da investigação teológica feminista; 2. Criar condições para a troca de experiências de investigação entre investigadoras feministas de Teologia a nível nacional e internacional; 3. Relançar o debate sobre Mulheres numa perspectiva ecuménica - as várias Confissões Religiosas Cristãs e as grandes religiões - em Portugal.
As suas acções concretas passarão para já pela criação de um blog; publicação das comunicações do I Colóquio Internacional de Teologia Feminista; organização do II Colóquio de Teologia Feminista (3º fim de Semana de Novembro de 2012); Elaboração de candidatura à European Society of Women in Theological Research (ESWTR).
Face a esta luz que se forma perante um tema tão importante para o nosso futuro colectivo, desejamos as maiores felicidades e que os frutos desta iniciativa sejam abundantes para todos nós, especialmente, as mulheres cristãs.
Não quero deixar de destacar a conclusão interessantíssima da teóloga alemã Marie-Theres Wacker, que discursou sobre o seguinte tema, "Mulheres que ousaram reconstruir - o ícone do Pai-Deus misericordioso em Oseias, cap. 11". A conclusão da teóloga é a seguinte e onde me parece residir todo o cerne da questão e o objectivo essencial daquilo que se sonha para as Igrejas e sociedade em geral. Diz a teóloga: "as estruturas de sexo e género vigentes já não têm importância, nem para os seres humanos, nem para Deus".
Face a esta visão e para que a realidade enforme este desejo, falta dar passos significativos quanto à reflexão e acções concretas que venham fazer de Deus uma realidade ao serviço da convivência feliz para todas as mulheres e homens. Um Deus que faz acepção de pessoas, unicamente masculinizado e votado ao poder não existe, urge que deixemos Deus em paz e que a nossa hermenêutica radique mais naquilo que não podemos dizer de Deus e menos naquilo que pretensamente achamos que Deus quer que se diga Dele e da Sua vontade. São imensas as barbaridades que se cometeram com base nesta forma de pensamento. Às mulheres pedimos que sejam militantes na procura de caminhos que as dignifiquem e que lutem por modelos de vida na Igreja Católica que as valorizem não como sujeitos passivos facilmente subjugadas ao poder masculino, mas activas na construção de uma Igreja que Jesus sonhou feita de homens e mulheres reunidos à volta da mesa da fraternidade e nada a ver com a estrutura piramidal que subsiste em toda a linha nas igrejas e especialmente na Igreja Católica.
Está lançado o sonho e a viragem será possível quando todos nós nos empenharmos no caminho de Jesus e quando fizermos do serviço do Evangelho a luz que ilumina o pensamento e as nossas acções.
JLR
Imagem: Google

domingo, 20 de novembro de 2011

A Mentira Sagrada

Este título está num livro que saiu no fim do ano passado. Escrito por um português, Luís Miguel Rocha que vive na cidade do Porto. Após a leitura do livro cheguei à seguinte reflexão.
O enredo do livro circula diante destas questões: será que Jesus foi mesmo crucificado? Terá tudo acontecido como a Bíblia descreve? Na noite da sua eleição para o Trono de São Pedro, o Papa Bento XVI, como todos os seus antecessores, tem de ler um documento antigo que esconde o segredo mais bem guardado da História - a Mentira Sagrada (coisa que revela O Último Segredo de José Rodrigues dos Santos. Um enredo pobre com o qual recuso gastar mais tempo).
A Mentira Sagrada relata que, em Londres, um Evangelho misterioso na posse de um milionário israelita contém informações sobre este segredo. Se cair nas mãos erradas pode revelar ao mundo uma verdade chocante. Rafael, um agente do Vaticano, é enviado para investigar o Evangelho e descobre algo que pode abalar não só a sua fé mas também os pilares da Igreja Católica. Que segredos guardará o Papa? E que verdade esconde o misterioso Evangelho? Ora bem, todo este género de literatura (Dan Brown, Luís Miguel Rocha, José Rodrigues dos Santos…), recorrem ao mais comum, que se baseia em se ouvir dizer que os padres são uns grandes mentirosos e que tudo aquilo que as igrejas pregam são as maiores mentiras sobre a origem da vida e o seu destino. E que tudo isto está envolto em muitos segredos. Muito bem.
Todos sabemos que as estruturas pesadas, milenares, como é a da Igreja Católica, não estão isentas de falhas, contradições e até mesmo injustiças no trato com os seus membros. Porém, passar dessa constatação para uma generalização total parece-me excessivo e novamente podemos cair no absurdo de confundir a árvore com a floresta.
A Igreja de Cristo é muito mais que as estruturas institucionais da Igreja Católica. A verdadeira Igreja está acima dos conflitos de ordem doutrinal. Algumas manchas que preenchem a história da Igreja Católica não podem ser apenas carregadas pelos católicos, terão de ser vistas num contexto social muito mais vasto, onde crentes e não crentes tiveram um papel também relevante na manifestação dessas sombras. O estado e alguns organismos políticos e sociais tiveram tanta culpa como as instituições ligadas à Igreja Católica. O pesar da balança, «César e Deus», nem sempre foi desnivelado. Neste domínio, a «santa aliança» é prejudicial para ambos os poderes e quem perde muito mais são sempre os povos. É totalmente extemporâneo, injusto e curto de inteligência avaliar, a partir de critérios e de categorias do presente, os temas da Inquisição, as Cruzadas, O Islão, a divisão entre Igrejas Cristãs, as mulheres, os Judeus, Galileu, as Guerras religiosas, Hus, Lutero, Calvino, Zuínglio, o Tráfico de Negros, a Conversão Forçada dos Povos, O Racismo, a Violência na Propagação da Fé, as injustiças contra os adeptos de outras Religiões e outros grupos sociais mais fracos, o ateísmo, os direitos de todos os seres humanos e tantos outros.
Ninguém de bom senso pode negar que a Igreja sonhada por Cristo poderá estar distante em muitos aspectos da Igreja que temos no tempo e na história. Nenhuma instituição, por mais espiritual que seja, não pode fugir aos contratempos da vida histórica. Eles são, o carreirismo, o tráfico de influências, os jogos e conluios de poder, os comportamentos dúbios e escandalosos, as mentiras, a promoção de incompetentes servis, os privilégios da casta clerical no topo da hierarquia eclesiástica e etc... E apesar de tudo, nunca houve, não há e não parece vir a existir outra instituição que proponha tantos valores humanos como a Igreja Católica assente na doutrina cristã. A Igreja é sempre portadora da mensagem do amor cordial para todos os homens e mulheres, do diálogo aberto entre todas as culturas humanas, da fraternidade para todas as etnias. E haverá também outra instituição que consiga congregar tantas mulheres e homens ao serviço desinteressado pelos outros, sobretudo, os desafortunados deste mundo?
José Luís Rodrigues, padre. Publicado no Dnotícias do Funchal, 20 de Novembro de 2011, Secção Sinais dos Tempos.

sábado, 19 de novembro de 2011

Diz-se de Deus...

Nas errâncias desta vida, encontramos segredos, que se desvelam em palavras orquestradas em frases magníficas que dizem tudo sobre o tudo. Aqui este tudo é Deus. Esse, de quem nada pode ser dito, pensado, sonhado... É sempre o Outro, o inominável, a Alteridade por excelência. Então fico-me na sublime frase de José Saramago, que define o máximo sobre Deus e o que nós somos diante Dessa realidade que Deus é...
Diz assim:
"Deus é o silêncio do universo e o ser humano é a voz que dá sentido a esse silêncio".
José Saramago
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quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Ler a Vida

Câmara de Lobos, 14 /11/2011
Somos muitos, vivemos no Planeta que nos sustenta, todos misturados e com a liberdade de circulação. Não vivemos estacionados como as plantas, nem somos membros de qualquer rebanho.
Para que a vida se realize, terá que existir organização e respeito por ela. É uma verdade absoluta, um princípio intocável. Contudo esta organização começa por baixo, pela base. A Terra chama-se “Planeta Vivo”, mas a vida tem uma característica: é individual e autónoma em cada ser.
Reparemos no tamanho de cada um de nós. Na cadeia da vida, nos milhões de anos que já tem, nós, pessoas, somos apenas um elo de ligação entre o antes e o depois, entre a geração dos nossos pais e a geração dos nossos descendentes, embora sejamos todos e cada um responsáveis e incorporados nos veios do crescimento, da intelectualidade, do desenvolvimento e do amadurecimento civilizacionais.
Por isso nunca poderemos armarmo-nos em proprietários de uma realidade planetária, estojo da vida, onde somos apenas ocasionais e vivemos integrados numa multidão de 7 biliões.
A cidadania é o cartaz humano da vida. E qual o espectáculo que temos? Uma aberração. Uma pequena percentagem de pessoas, gente do nosso tamanho, mas hiperricos e hiperpoderosos, tendo em mão acumulações concentradas por vias obscuras e, instalados na tenda da globalização, conduzem a central do comércio universal subordinado ao lema: mercado é lucro.
E os governos como procedem? Os condutores do povo optaram por ser os cata-ventos do projecto global. Dá-lhes mais jeito andar com os senhores da riqueza, do que enfrentar os problemas reais do povo e procurar solucioná-los.
E agora, que a máquina avariou, os dinheiros não circulam, as dívidas aumentam e os juros sufocam as operações de crédito, andam inquietos. Mas propõem e impõem ao povo a conclusão a que chegaram: consertar a máquina para, depois, prosseguir o mesmo caminho.
E como fazem? Indo ao povo buscar quanto precisam. Os eleitores são o cofre dos governos. E os votos são a escritura de que dispõem. Por outras palavras: nós eleitores, educados na dignidade humana e reclamando os direitos da cidadania, passamos a ser horta dos governantes, onde tudo quanto dizem ser necessário os senhores vão recolher.
E tudo ganhou uma velocidade tal, que nem as Constituições Nacionais, nem os referendos, nem as eleições pesam nesta sucessão de acontecimentos. Só existe uma preocupação nas áreas de quem governa: que a maioria dos votos se mantenham no lado dos partidos tradicionais da governação. Quanto vale a segurança!
A condução política mundial engrenou no veio do lucro. O veio da vida vai sendo sugado e ficando para trás. Concluindo: • O trigo, tornado farinha, já não renasce; • A floresta, tornada madeira, não se renova; • A pesca desmedida deixa os mares vazios; • Os minérios extraídos geram actividades e riqueza, mas não se reproduzem; • A grande concentração de riqueza está a provocar a sufocação da vida; • O lixo acumula-se nos ares, nos mares e em terra; • A Humanidade instala-se cada vez mais na degradação social e nos parques da 3ª e 4ª idades. Viva o neoliberalismo.
Mário Tavares

Curioso convite do Papa Bento XVI

A convite de Bento XVI, esteve presente em Assis, em 27 de Outubro último, a psicanalista Julian Kristeva, a qual representou os descrentes naquela assembleia de gente crente.
Há uns anos, precisamente a 19 de Março de 2006, Kristeva “pregou” uma das conferências quaresmais, em Notre Dame de Paris, apresentando-se nestes termos:
“Têm diante de vós, minhas senhoras e meus senhores, uma mulher descrente – psicanalista, professora, escritora – persuadida de que o “génio do cristianismo” introduziu e continua a difundir inovações radicais na experiência religiosa (…) Damo-nos conta de que o humanismo cristão, quando não se fecha no dolorismo, prepara o crente a reconhecer o facto do sofrimento, em ordem a melhor partilhar os combates políticos dos que se encontram em situação de sofrimento” (J. Kristeva, Cet incroyable besoin de croire, Paris, Bayard, 2007, ps 160, 167).
Sem complexos nem receios, os convictos de razões cristãs não se colocam à parte, como grupo pio; com o à vontade próprio dessas razões, dão as mãos a outros(as), cujas vidas estão ameaçadas de ruína.
O que tocou Kristeva, de olhos abertos ao fenómeno da crença, foi a sua experiência comum dos limites e injustiças de gente à sua volta, por motivos da “compaixão” (ou seja, do sofrimento com os sofredores). A lucidez cristã conduz a esta profanidade; a racionalidade é um passaporte para o universal.
Nada nos diferencia, senão os motivos doutrinais. Encontrámo-nos, em coro comum, cantando o desejo do sofrimento ser vencido, tal a paixão que os desastres das vítimas em nós provocaram!
Quem é Julian? - Julian Kristeva, psicanalista, romancista e filósofa búlgara-francesa, publicou em italiano “Bisogno di credere” (“Necessidade de crer”) (Ed. Donzelli), um texto em que, mesmo sem renunciar às suas convicções filhas do Iluminismo, confronta-se com o universo da fé, e “Teresa mon amour. Santa Teresa d'Avila: l'estasi come un romanzo” (Ed. Donzelli), obra entre romance e ensaio, que analisa a personalidade e os escritos da santa espanhola do século XVI.
...................
Nota: que pensarão alguns hierarcas das nossas praças desta ousadia do Papa Bento XVI... Quando se vê que algumas iniciativas só apresentam pessoas com determinada tendência direitista e que a reflexão em nada se desvie do pensamento que desejam propalar. Muitas vezes há coisas que não passam de pura propaganda e isso é grave. Esta inciativa do Papa em abrir o diálogo para fronteiras inesperadas é curioso e muito interessante. Que sirva de exemplo. Que faça pensar muito boa gente que defende o puritanismo do pensamento único dentro e fora da Igreja Católica.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

O sentido de Cristo Rei segundo São Paulo

Domingo de Cristo Rei do Universo
20 de Novembro de 2011
"Deus será tudo em todos"
1Cor 15, 20-26ª,29 (20-26,28)
Alguns mestres ensinavam que não havia ressurreição dos mortos. Para refutar esta falsa doutrina, o Apóstolo Paulo primeiro estabeleceu uma base comum com os seus leitores, afirmando a ressurreição de Cristo. A evidência da ressurreição de Cristo é esmagadora. Não há confirmação mais forte de um evento histórico pelo testemunho ocular. No caso de Jesus, mais de quinhentas pessoas viram Jesus vivo depois que ressuscitou. A sua ressurreição não pode ser razoavelmente negada, e assim prova que há ressurreição dos mortos.
Por isso, as consequências da ressurreição de Cristo, são também evidentes. Cristo ou foi ressuscitado ou não. Se não foi, então a pregação apostólica foi em vão, porque acusavam Deus de algo que ele não tinha feito, e a fé é vã porque se apoia na ressurreição de Cristo. Se Cristo foi ressuscitado então todos os crentes serão ressuscitados com ele. Cristo foi o primeiro dos frutos, um sinal e uma garantia de farta colheita. Observe-se o raciocínio de Paulo: a meta máxima de Deus para o universo é que Cristo devolva a soberania de tudo a Deus depois de derrotar todos os inimigos. O último inimigo a ser derrotado é a morte, a qual Cristo venceria pela ressurreição. Sem esta, Cristo não venceria o último inimigo. Ele não entregaria o Reino a Deus e não seria depois "tudo em todos" ou o rei supremo de toda a criação. A negação da ressurreição frustra todo o plano de Deus para o universo.
Se não há ressurreição, o baptismo não tem sentido. Se for assim, aqueles que estavam sendo baptizados acreditando na ressurreição estavam apenas sendo baptizados para os mortos, para a sepultura. O sofrimento de Paulo e as escapadas por um triz da morte foram absurdas se esta vida é tudo o que existe. De facto, se não há ressurreição, deveríamos viver intensamente aqui, porque amanhã morreremos e tudo acabará para sempre. Mas, não a nossa condição divina, recebida no baptismo, que nos aponta uma outra realidade suprema, Deus, onde seremos felizes eternamente.
Mas, afinal, como são ressuscitados os mortos? Os oponentes de Paulo obje-ctaram contra a ressurreição porque não podiam imaginar como poderia acontecer. Paulo explicou a ressurreição por analogia. Enterrar um corpo é como plantar uma semente, porque a planta brota da semente, mas não se parece com ela. O corpo ressurgido sai do corpo enterrado, mas não se parece com ele. Deus tem muita experiência em preparar corpos adequados, por isso será capaz de providenciar facilmente um corpo adaptado à nossa existência eterna. Quando Cristo retornar, os mortos serão ressuscitados com corpos glorificados, os vivos serão mudados instantaneamente e todos serão levados ao grande julgamento do trono de Deus. A promessa de ressurreição deve motivar todos a perseverar e esperar no Senhor.
JLR

terça-feira, 15 de novembro de 2011

"Não sabeis que sois templo de Deus?"

1Cor 3, 9b-11, 16-17
O templo de Deus está no coração de cada pessoa. Sempre que este tema nos salta à vista, lembro-me da seguinte expressão: o coração de cada pessoa é o verdadeiro sacrário onde Deus gosta de estar.
Neste sentido, descobrimos que cada um de nós para Deus é como um edifício que Deus vai ajudando a construir. São Paulo nesta passagem da carta aos Coríntios, lembra-nos que todo aquele que crê e está na comunhão da Igreja, é o templo espiritual de Deus, porque Deus habita no seu coração. Perante esta mensagem do Apóstolo São Paulo, nós pensamos que são muitos os abusos em relação à pessoa humana e que muitas das ocupações da vida estão centradas na procura de meios e formas para menosprezar a vida em todos os seus aspectos.
Santo Agostinho, pensando no vazio do homem sem Deus, escreveu: "O nosso coração não tem descanso, ó Deus, até que encontremos descanso em Ti". É razoável crer que Deus, na Sua ânsia por ter comunhão com o homem, diga: "o meu coração anela por ti, ó homem, até que tu encontres descanso em Mim. Eu amo-te e me comprazo na tua salvação e comunhão". O que concluímos através da razão coincide com a própria afirmação das Escrituras. Deus disse ao Seu povo: "Habitarei e andarei entre eles; serei o seu Deus, e eles serão o meu povo" (2Cor 6, 16). Referindo-se aos que seriam remidos e introduzidos nessa comunhão, Deus disse: "Serei vosso Pai, e vós sereis para mim filhos e filhas" (2Cor 6, 18).
Esta verdade sobre Deus habitar entre o Seu povo deve ser vista em conexão com a Igreja. Na nova aliança, a Igreja é o templo de Deus, uma casa espiritual (1Pe 2, 5), sendo cada cristão, uma pedra viva dessa casa (1Pe 2, 5) e todo o edifício, a habitação de Deus no Espírito Santo (Ef 2, 21-22). Esta consciência devia levar-nos a todos a ter um respeito muito grande uns pelos outros, porque cada pessoa é sinal da presença de Deus.
Assim, feita a explanação da doutrina sobre a vontade que Deus manifesta em fazer habitação no mundo. Este desejo de morar entre nós parece ser de duas formas, em comunidade e individualmente. São Paulo escreve: "Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?" (1Cor 3, 16). A palavra grega que Paulo usou para "vós" está, de facto, no plural. O Espírito obviamente tinha em mente um corpo de crentes, a Igreja, e não apenas o cristão individualmente. Mas, não será por isso que veremos a nossa interpretação inibida, pelo contrário, sentiremos melhor consolo saber que a habitação de Deus é a Igreja, a qual se enforma pela nossa adesão e presença constante. E também sentimos muita alegria por saber que o nosso interior também é templo da presença de Deus. Os crentes devem sempre saber que Deus habita entre nós, Ele mora em nós.
JLR

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Poema de Guerra Junqueiro

Abílio de Guerra Junqueiro (1850-1923) Escrito/Poeta/Jornalista/Político Guerra Junqueiro, in Poesias “Dispersas”.
Que durmam, muito embora, os pálidos amantes,
Que andaram contemplando a Lua branca e fria…
Levantai-vos, heróis, e despertai, gigantes!
Já canta pelo azul sereno a cotovia
E já rasga o arado as terras fumegantes…
..
Entra-nos pelo peito em borbotões joviais
Este sangue de luz que a madrugada entorna!
Poetas, que somos nós? Ferreiros d’arsenais;
E bater, é bater com alma na bigorna
As estrofes de bronze, as lanças e os punhais.
Acendei a fornalha enorme – a Inspiração.
Dai-lhe lenha – A verdade, a Justiça, o Direito –
E harmonia e pureza, e febre, e indignação;
E p’ra que a labareda irrompa, abri o peito
E atirai ao braseiro, ardendo, o coração!
….
Há-de-nos devorar, talvez, o incêndio; embora!
O poeta é como o sol: o fogo que ele encerra
É quem espalha a luz nessa amplidão sonora…
Queimemo-nos a nós, iluminando a Terra!
Somos lava, e a lava é quem produz a aurora!

sábado, 12 de novembro de 2011

A desilusão

Entre uma subida de alegria expectante
Pode fazer-se um passo leve de desânimo
Quando se vê um rosto que se ansiava numa tarde.
Mas disse depois não quero beber a taça
Do vinho novo nesta paz que diz a colina do sol.
Agora fico-me nesta perda de não saber
O que foi o pensamento que a alegria moldou
Nos campos verdes da serenidade
Quando no sonho as flores disseram
Toda a certeza da esperança.
Não quero... Não digo da desilusão
O sofrimento que bate do vazio
Quando o som do vento penetrou os ossos
Com o frio húmido desta certeza palpitante
Que desejei na hora daquela festa.
E há desilusão porque alguém fez ilusão
Coisa no vazio à porta do nada.
JLR
.....................................
Nota: Com votos de um excelente fim de semana para todos os meus leitores...
Imagem: in O Escrevivente...

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Chegou ao fim a caridade e a solidariedade?

Em boa hora assisti às duas belíssimas conferências realizadas no âmbito da comemoração do 4º aniversário da CRIAMAR (Associação de Solidariedade Social para o Desenvolvimento e Apoio a Crianças e Jovens). As conferências realizaram-se no dia 10 de Novembro de 2011, no Teatro Municipal do Funchal. A primeira esteve a cargo da Drª Maria Barroso, que fez uma interessantíssima explanação sobre o voluntariado.
A segunda conferência pertenceu ao Padre Feytor Pinto, que se debruçou sobre a solidariedade e do quanto ela é necessária nesta sociedade de egoísmo. Cujo mote foi este, «a solidariedade é uma pedrada no charco», perante esse mar imenso de águas paradas pela doença terrível do egoísmo e da insensibilidade à partilha.
Tendo em conta que me encantou sobre maneira a conferência do Padre Feytor Pinto, farei uma breve partilha convosco dos aspectos que mais me marcaram na sua comunicação.
Começo pela conclusão. A caridade hoje já não existe, porque a caridade estava marcada pela salvação da alma e pela conquista do céu. Neste domínio, corriam-se dois riscos, o primeiro, de a caridade se circunscrever a alguns pobres (a ideia do «meu» pobre era muito forte na prática da caridade) e o segundo risco, alcançados os objectivos não era preciso fazer mais caridade.
Outro dado da conclusão, a solidariedade também já não existe, porque a solidariedade corre também o risco de se reduzir a pequenos grupos e muitas vezes fica circunscrita aos elementos de influência directa de quem está envolvido nessa solidariedade.
Por isso, resta dizer que o que resta é a cidadania, a ideia de que todos somos responsáveis por todos. Daí que devem ser os cidadãos a assumirem a prática do bem comum e se organizarem no sentido de procurarem formas e caminhos que respondam às necessidades dos cidadãos mais desamparados.
Neste âmbito a comunicação em causa segue os seguintes passos:
- Os valores positivos da sociedade actual: igualdade entre homens e mulheres; a consciência para a paz; o progresso e avanço da técnica ao serviço da pessoa humana; nova sensibilidade ética (a sociedade é cada vez mais sensível às aberrações que violem determinados valores).
A face negativa da leitura da sociedade actual: materialismo racionalista (obsessão perante os bens); individualismo subjectivista (a forte influência do «eu» sem se integrar na comunidade); permissivismo (liberdade sem respeito pelo o outro e pelo bem comum); sexualidade redutora (os afectos não existem); economicismo (pensar só em números, no lucro desenfreado… Neste domínio será importante que as empresas se abram à comunidade sem pensar unicamente no lucro).
- Face a este prisma de leitura da sociedade então propõe-se que diante da lógica do TER se enverede pelo caminho do SER; o PODER se converta em SERVIÇO e que a obsessão do PRAZER seja vivido na base do RESPEITO. O mundo contemporâneo precisa de uma sociedade que se enforme nesta base de valores para que seja mais feliz e possa construir um futuro que assenta no BEM-COMUM. Então os valores sociais para o mundo actual se nomeiam assim: a tolerância (respeito pelo outro na sua diferença), a convivência responsável (saber estar e ser dentro da comunidade), o diálogo (aceitar que o outro tem alguma coisa para me dar), a solidariedade (tornar bem vivo e visível o espírito da partilha), a cidadania (cada cidadão tem que assumir que a responsabilidade pelo o outro)… Fica o desafio citado pelo conferencista tirado do pensamento do Padre Ricardi Lombardi, no que diz respeito ao sentido do diálogo, aspecto tão urgente na sociedade actual: «Procura da verdade e o bem para todos no amor».
- Finalmente, dois aspectos: o sentido do ser PESSOA e três momentos evangélicos sobre a solidariedade activa… O ser humano é um ser em projecto (a pessoa tem planos e constrói a vida na base da sua capacidade para delinear etapas e estabelecer planos para levar a vida para diante em função do seu bem e o bem dos outros). O ser humano é um decididor (tem capacidade de fazer opções e escolhas livres). O ser humano é um ser simbolizante (a atenção a um sorriso, uma lágrima, uma palavra, um silêncio, um gesto…). O ser humano é um ser em relação (os outros são um o caminho nas relações que dão sentido à vida e que se tornam elementos essenciais para a descoberta do sentido do ser pessoa). Um ser humano é um ser em crescimento (o ser pessoa constitui-se com a abertura ao crescimento até ao momento derradeiro da vida, a morte). O ser humano é um ser em necessidade (daí se deduz como é importante o espírito de cidadania militante na responsabilidade de uns pelos outros de coração aberto à partida).
- A conferência termina com a referência a três momentos evangélicos de solidariedade cristã. Primeiro, o Samaritano. Neste exemplo, destaca-se a figura do estrangeiro que não olhando a condições abre o seu coração ao outro, cuida dele, salva-o da miséria e da morte. Saliente-se, que o conferencista revela o porquê de o sacerdote não ter acudido ao moribundo caído no canto do caminho, «ia para Jerusalém fazer uma conferência sobre o amor» - disse. Segundo momento, o Paralítico da piscina probática, onde se destaca a atitude de Jesus que dá muito mais daquilo que lhe pedem. A dádiva discreta deve ser sempre muito mais daquilo que nos foi pedido. Terceiro e último momento, o Cego Bartimeu da Porta de Jericó. A sua condição de marginalização é a pior das indignidades. A solidariedade aqui reintegra e faz entrar de novo no seio da comunidade.
Face a esta reflexão ocorre que a sociedade em geral é convocada para juntar vontades e permitir que a solidariedade seja uma expressão forte da cidadania militante de todos os homens e mulheres de boa vontade que não se tranquilizam perante as necessidades prementes que começamos a sentir em todos os quadrantes da sociedade.
JLR

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

As qualidades de cada pessoa

Comentário à Missa do próximo domingo
Domingo XXXIII Tempo Comum
6 de Novembro de 2011
São Paulo fala da volta de Jesus que será o clímax desta vida e o início de uma vida ainda melhor para cada cristão. Presenciar essa volta e esse novo começo deve ser o objectivo de todo o cristão - para si mesmo e para os seus irmãos. Nós aguardamos esse acontecimento com alegria? Queremos realmente que ele aconteça? Devemos responder positivamente não só com os nossos lábios ou as nossas mentes, mas também com as nossas vidas. Devemos viver como filhos da luz e ajudar os nossos irmãos e irmãs a andarem connosco na luz de Deus. Esta esperança no futuro, que em Deus, será sempre glorioso, dá sentido à vida presente. Assim, os cristãos não são uns desesperados agora, mas contagiam o mundo para a esperança e para a certeza de que o futuro que nos espera não é de condenação, mas a alegria da festa do amor de Deus em plenitude.
O «Livro dos Provérbios», soa como palavra certeira no mundo que nos rodeia, onde impera a desresponsabilização, o egoísmo e a luta desenfreada pelos bens - facto que põe em causa o bem comum. Este texto fará uma clara alusão à «mulher virtuosa», mas mais do que essa ideia importa salientar que, mulheres e homens, são convocados a assumirem no mundo concreto valores de respeito, empenho, compromisso, generosidade... Para que a vida se torne um bem recheado com a felicidade para todos.
A «parábola dos talentos», revela os «dons» ou «bens» que Deus distribui aos homens e às mulheres, para que depois sejam postos a render na construção da vida e do mundo. No Evangelho estes bens são os valores, o amor que se faz serviço aos outros, que se dá até à última gota de sangue se for necessário, na partilha, no serviço, na misericórdia, na fraternidade, na amizade, em todas as qualidades que cada pessoa assume e que ajudam a construir a comunidade.
Os bens que cada pessoa é capaz de pôr a render, existem para dar frutos. Se os frutos acontecem e se são benéficos para todos, a recompensa será grande. Caso seja ao contrário, as consequências serão desastrosas. Disto sabemos já muito bem. As capacidades das pessoas quando são canalizadas para a cegueira do egoísmo e a não partilha, então, temos a desgraça do mundo e a vida de muita gente fica seriamente comprometida, o sofrimento é inevitável.
No Evangelho vemos claramente como foram compensados os servos que mexeram nos talentos e os puseram a render, porque não se acomodaram nem se deixaram paralisar pela preguiça, pela rotina, ou pelo medo. O nosso mundo tal como o temos, ora desarranjado, precisa de homens e mulheres que se empenham na construção da vida para todos. Não podemos desistir e reconhecer-se com talentos, virtudes e qualidades é muito importante, para depois os colocar ao serviço da vida e do bem da comunidade. Não será fácil, diante das contingências deste mundo, mas a coragem e a força interior podem fazer mover montanhas e minorar muitos problemas.
JLR

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Deus, Esse Desconhecido

Deus é sempre o “outro”, a total alteridade. A voz do seu silêncio é sempre mais forte do que tudo o resto. Falou sempre muito alto a total ausência de Deus. Deus é para nós, mas sempre na sua ausência, porque Deus nunca se dissolve na nossa dimensão.
Na nossa imanência são só possíveis, com a sensibilidade de cada um, representações estéticas de Deus ou da realidade divina, sem que isso nos mostre formas objectivas e absolutas sobre a realidade de Deus. Sim, porque essa realidade mantém-se e manter-se-á sempre para além do homem.
Procuramos nos textos, visões de Deus ou experiências sentidas na obscuridade das inquietações dos percursos de vida densamente vividas.
Preferimos dar voz a esses que expressaram com a vida e com as palavras a face do silêncio e da ausência.
A nossa pesquisa:
S. Paulo: “A Sua realidade invisível - o seu eterno poder e a sua divindade - tornou-se inteligível, desde a criação do mundo, através das criaturas, de sorte que não têm desculpa” (Rom 1, 20). S. Tomás de Aquino: “Conhece melhor Deus quem confessa que tudo o que pensa e diz fica aquém daquilo que Deus é realmente” (in librum de Causis exposito, osc. X, lect. 6); “(…) não podemos saber o que são estas realidades espirituais, quer por meio da revelação quer pelo conhecimento natural(…)” e citando Dionísio, diz: “O raiar da luz divina ilumina-nos mas envolta numa multidão de santos véus”(…) “(…) Delas sabemos que existem, e não o que são (…)” (Expositio super librum Boetii de Trinitate, q. 6, art. 3, resp. 1-2).
Concílio Vaticano II: “Os mistérios divinos ultrapassam de tal modo a razão criada que, mesmo depois destas verdades terem sido transmitidas por revelação e recebidas pela fé, permanecem, apesar de tudo, cobertas pelo véu da própria fé e envolvidas pela sombra enquanto peregrinamos longe do Senhor, nesta vida mortal. Pois nós caminhamos na fé, não na claridade (Cons. Dogm. De Fide Catholica, cap. IV).
Se olharmos para monumentos sagrados do nosso tempo, à luz do Senhor crucificado e ressuscitado, também descobrimos muita coisa relacionada com experiências vividas e sentidas com profundo amor à existência e ao destino do homem.
Fernando Pessoa: “em qualquer espírito, que não seja disforme, existe a crença em Deus (…). Não existe crença em um Deus definido (…). Chamando-lhe Deus dizemos tudo, porque, não tendo a palavra Deus sentido algum preciso, assim o afirmamos, sem dizer nada (…). Ele, a que, por indefinido, não podemos dar atributos, é, por isso mesmo, o substantivo absoluto” (F. Pessoa/ Bernardo Soares, O Livro do Desassossego).
Sophia de Mello Breyner Andersen: “Não darei o Teu nome à limpidez/ De certas horas puras que perdi, / Nem às imagens de oiro que imagino, / Nem a nenhuma coisa que sonhei” (Antologia, Porto 19985). “Não estás no sabor nem na vertigem/ Que as presenças bebidas nos deixaram. / Não Te tocam os olhos nem as almas, / Pois não Te vemos nem Te imaginamos”.
Fernando Pinto do Amaral: “O meu gosto literário tem tendência para valorizar quase sempre os textos e os autores que escrevem direito por linhas tortas, talvez por senti-los mais radicalmente entregues ao desconhecido de si mesmos, e por isso mais próximos de uma obscura verdade (…)” (A assinatura de Deus, Ler n. 17, 1992, 44).
Herberto Helder: “Esperamos na obscuridade. / Vinde, vós que escutais, vinde/ saudar-nos na viagem nocturna:/ nenhum sol agora brilha, / nem luz agora nenhuma estrela. / Vinde, ó vós, mostrar-nos o caminho:/ que a noite secreta é inimiga, / a noite que fecha as próprias pálpebras. / E eis como a noite inteiramente nos esqueceu. / E esperamos, esperamos, na obscuridade” (H. Helder, Poesia Toda).
Miguel Torga: “Vens, e não sonho mais. / Quebra-se a onda no penedo austero. / E o mar recua, sem haver sinais/ De que te quero. // Não sei amar, ou amo o que me foge. / Já com Deus foi assim, na juventude; / Dei-lhe a paixão que pude/ Enquanto o namorava na distância:/ Depois, ou medo, ou ânsia/ De maior perfeição, / Vi-o junto de mim e fiquei mudo. / Neguei-lhe o coração. / E então, perdi-o, como perco tudo” (M. Torga Antologia Poética, Coimbra 1981, 175). Num dos seus volumes do seu monumental Diário, Torga continua em luta e desgostado: “De alguma coisa me hão-de valer as cicatrizes de defensor incansável do amor, da verdade e da liberdade, a tríade bendita que justifica a passagem de qualquer homem por este mundo”.
Vitorino Nemésio: “Que a minha dor seja um campo de graças/ E tudo o que de belo em voz eu diga/ Puro eco de Alguém; e Tu, que faças/ Ser, cantando, eu só terra e Tu cantiga, …” (Vitorino Nemésio, Obras Completas, II, INCM; 1989, p.296.).
Em jeito de conclusão ficamos com Virgílio Ferreira, que Na Tua Face lê assim: “…reparei que pouco a pouco eu ia passando através de toda a sua face enrugada e divisava através dela como de um vidro sujo a sua face antiga inatingível que estava do lado de lá e não nela, no vidro. (…) Levantamo-nos e de súbito eu vi, eu vi o rosto de Bárbara rejuvenescer, a face lisa de esplendor e imprevistamente era aí que eu repousava, na tua face, na imagem final do meu desassossego”.
JLR

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Ser servo

Santo Agostinho (354-430), bispo de Hipona (Norte de África) e doutor da Igreja, Sermão para a ordenação de um bispo, 3, 9...
O bispo que está à vossa cabeça é vosso servo. [...] Que o Senhor nos conceda, portanto, com a ajuda das vossas preces, ser e permanecer até ao fim o que quiserdes que sejamos [...]; que Ele nos ajude a cumprir o que nos ordenou. Mas, seja quem for que sejamos, não coloqueis em nós a vossa esperança. Permito-me dizer-vos isto como bispo: quero alegrar-me convosco e não ficar inflamado de orgulho. [...] Falo agora ao povo de Deus em nome de Cristo, falo na Igreja de Deus, falo como pobre servo de Deus: não coloqueis a vossa esperança em nós, não ponhais a vossa esperança nos homens. Somos bons? Somos servos. Somos maus? Continuamos a ser servos. Mas os bons, os servos fiéis, são os verdadeiros servos.
Qual é o nosso serviço? Prestai atenção: se tendes fome e não quereis ser ingratos, reparai de que celeiro tiramos as provisões; mas não te diz respeito em que prato te é servido aquilo que estás ávido de comer: «Numa casa grande não existem somente vasos de ouro e prata, mas também os há os que são de madeira e de barro» (2Tm 2,20). [O vosso bispo parece-se com] um prato de prata, um prato de ouro, ou com um prato de argila? Vê se esse prato tem pão e Quem to deu para que te fosse servido. Ele é que é o pão: «Eu sou o pão vivo, o que desceu do Céu» (Jo 6,51). Nós, portanto, servimo-vos Cristo, em lugar de Cristo [...], para que Ele chegue até vós, para que Ele seja o juiz do nosso ministério.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

A vida após a morte – por Victor Hugo

A morte não é o fim de tudo.
Ela não é senão o fim de uma coisa e o começo de outra.
Na morte o homem acaba, e a alma começa.
Que digam esses que atravessam a hora fúnebre, a última alegria, a primeira do luto.
Digam se não é verdade que ainda há ali alguém, e que não acabou tudo?
Eu sou uma alma.
Bem sinto que o que darei ao túmulo não é o meu eu, o meu ser.
O que constitui o meu eu, irá além.
O homem é um prisioneiro.
O prisioneiro escala penosamente os muros da sua masmorra. Coloca o pé em todas as saliências e sobe até o respiradouro.
Aí, olha, distingue ao longe a campina, aspirar o ar livre, vê a luz.
Assim é o homem.
O prisioneiro não duvida que encontrará a claridade do dia, a liberdade.
Como pode o homem duvidar se vai encontrar a eternidade à sua saída?
Por que não possuirá ele um corpo subtil, etéreo.
De que o nosso corpo humano não pode ser senão um esboço grosseiro?
A morte é uma mudança de vestimenta. A alma que estava vestida de sombra, vai ser vestida de luz.
O mundo luminoso é o mundo invisível.
O mundo do luminoso é o que não vemos.
Os nossos olhos carnais só vêem a noite.
A alma tem sede do absoluto e o absoluto não é deste mundo.
É por demais pesado para esta terra.
Na morte o homem fica sendo imortal.
A vida é o poder que tem o corpo de manter a alma sobre a Terra, pelo peso que faz nela.
A morte é uma continuação. Para além das sombras, estende-se o brilho da eternidade.
As almas passam de uma esfera para outra, tornam-se cada vez mais luz.
Aproximam-se cada vez mais de Deus.
O ponto de reunião é no infinito.
Aquele que dorme e desperta, desperta e vê que é homem.
Aquele que é vivo e morre, desperta e vê que é Espírito.
In A Morte, Aos que sofrem

Semana dos Seminários

Mais um tempo para rezar e pedir dinheiro... A vontade é pouca de o fazer, tendo em conta a pobreza intelectual e espiritual em que se reduziram os Seminários Diocesanos. São viveiros de formação de carreiristas, hierarcas que idolatram o Papa e os bispos. Temo que Jesus Cristo e o Evangelho estejam remetidos para as calendas. A Primeira e última palavra que conta é a da hierarquia, sem reflexão, mas fixação cega sem que se questione nada. Longe vão os tempos em que o Seminário ensinava a Bíblia numa mão e o jornal na outra (cuidado nada de confusões em relação ao Jornal da Madeira, aqui a palavra jornal tem um sentido abrangente). Há uma pobreza muito grande em termos intelectuais, o que nos revela uma forte contradição, em relação ao actual Papa que é um teológo e um filósofo.
Os Seminários empobreceram porque nos seus comandos não se colocaram os mais qualificados. Face ao medo da mudança e fixados no pensamento único, toca a garantir que a formação será feita com um sentido único, o sentido do funcionalismo puro e duro. Então é a forte componente de «funcionários de Deus» que prevalece.
Hoje, é para todos os efeitos, inaceitável a distância que o padre fazia questão de demarcar em relação às pessoas, como se fosse um extra terrestre diferente de todos os outros mortais. Os apelos à mudança da vida do padre são muito grandes, porém, por detrás dessas investidas ainda prevalece uma certa mentalidade hipócrita, algum sarcasmo e uma teimosia arrogante que nos conduz para a incerteza em relação ao futuro.
A vida do padre, o que é afinal? – É uma forma de ser cristão. Claramente, podíamos responder assim. No entanto, tal resposta levanta muitas e variadas questões que inquietam muita gente na Igreja e fora dela. A vida do padre, é uma forma de ser cristão, que implica assumir verdadeiramente o Evangelho de Jesus Cristo, mediante o acolhimento da palavra do amor e da misericórdia. A oração e a espiritualidade são sinais que identificam a vida do padre e que devem ser uma constante em toda a sua vida. O padre, é um homem encarnado que faz seus os problemas da gente com quem vive, que é capaz de ler, interpretar, discernir a realidade na qual se encontra imerso.
Muito mal andamos nós se o padre não se encontra com as pessoas, que assume uma timidez que o algema ao pensamento único e à sua pseudo autoridade sem nexo nenhuma numa Igreja onde a fraternidade deverá ser o princípio essencial da vida.
O padre, é um homem livre, livre de grupos de pressão, sem comodismos e que não se deixa atar por nenhuma ideologia. Um cristão que não seja o centro da comunidade, como muitas vezes acontece. O padre, é um servidor e guia que dá a vida pelos outros, impulsionando todos os membros da comunidade ao compromisso segundo a vocação de cada um. Todos são o círculo à volta de um centro que é a pessoa de Cristo.
Porque nesta semana se falará de Seminários, não seria interessante, não ficarmos só pelos apelos à oração e pela recolha monetária do peditório dominical pelas missas? – Não deveria ser também útil, juntarmo-nos com verdadeiro sentido de Igreja e promover um diálogo sério, sem medo e sem preconceitos sobre a vida do padre? – Que modelo de vida de padre andamos nós a propor aos jovens de hoje? – O que falta a cada um de nós para que a vida do padre seja mais cativante e sedutora? – Questões que deixo em aberto para reflexão dos padres e dos leigos.
JLR

sábado, 5 de novembro de 2011

O amor são valores bem concretos

Nota do autor do blogue: título atribuído por nós. O amor são valores bem concretos que são história na história da gente... Imagem google. Votos de bom fim de semana para todos.
Vida
É o amor existencial.
Razão
É o amor que pondera.
Estudo
É o amor que analisa.
Ciência
É o amor que investiga.
Filosofia
É o amor que pensa.
Religião
É o amor que busca a Deus.
Verdade
É o amor que eterniza.
Ideal
É o amor que se eleva.
É o amor que transcende.
Esperança
É o amor que sonha.
Caridade
É o amor que auxilia.
Fraternidade
É o amor que se expande.
Sacrifício
É o amor que se esforça.
Renúncia
É o amor que depura.
Simpatia
É o amor que sorri.
Trabalho
É o amor que constrói.
Indiferença
É o amor que se esconde.
Desespero
É o amor que se desgoverna.
Paixão
É o amor que se desequilibra.
Ciúme
É o amor que se desvaira.
Orgulho
É o amor que enlouquece.
Sensualismo
É o amor que se envenena.
Finalmente, o ódio, que julgas ser a antítese do amor, não é senão o próprio amor que adoeceu gravemente.
Francisco Cândido Xavier

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Criação

In illo tempore Deus disse
Diante de uma terra de nada
Faça-se a luz
E a luz fez-se semente
Que brotou do fundo
Da mágoa da gente
Quando os dias
Dizem do vazio
Preciso de ti.
Então Deus calou o pranto
E diz na intimidade do som
Que o nosso espírito
É paz e alimento
Na aridez de um caminho
Que dizem nosso na hora
Primeira da solene criação.
Pois, e agora fico nesta certeza viva
Do maior dom do tempo
Que o Espírito Divino
Nos ofereceu quando a partilha
Disse que a vida está cheia
De sentido naquele momento
Em que o Verbo fecundou
O regaço aberto daquela terra
Que na verdade todos dizem
Como eu digo agora
- Eis a nossa mãe.
JLR

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Estar preparado…

Comentário à Missa do próximo domingo
Domingo XXXII Tempo Comum
6 de Novembro de 2011
Santo Agostinho, pensando no vazio da mulher e do homem sem Deus, escreveu: "O nosso coração não tem descanso, ó Deus, até que encontremos descanso em Ti". É razoável crer que Deus, na Sua ânsia por ter comunhão com a humanidade, diga: "o meu coração anela por ti, ó humanidade, até que tu encontres descanso em Mim. Eu amo-te e me comprazo na tua salvação e comunhão". O que concluímos através da razão coincide com a própria afirmação das Escrituras. Deus disse ao Seu povo: "Habitarei e andarei entre eles; serei o seu Deus, e eles serão o meu povo" (2Cor 6, 16). Referindo-se aos que seriam remidos e introduzidos nessa comunhão, Deus disse: "Serei vosso Pai, e vós sereis para mim filhos e filhas" (2Cor 6, 18).
Esta verdade sobre Deus habitar entre o Seu povo deve ser vista em conexão com a Igreja. Na nova aliança, a Igreja é o templo de Deus, uma casa espiritual (1Pe 2, 5), sendo cada cristão, uma pedra viva dessa casa (1Pe 2, 5) e todo o edifício, a habitação de Deus no Espírito Santo (Ef 2, 21-22). Esta consciência devia levar-nos a todos a ter um respeito muito grande uns pelos outros, porque cada pessoa é sinal da presença de Deus.
O livro da Sabedoria que vamos proclamar na missa deste domingo, é um convite a ser feliz. Deus não é um adversário da humanidade, ciumento, preocupado em impedir a felicidade e a realização humana, mas é um Deus de amor, que se preocupa com a felicidade humana e manifesta o desejo que a humanidade se realize plenamente.
São Paulo nesta passagem da Carta aos Tessalonicenses, garante-nos que diante da promessa da ressurreição, Deus tem um plano de salvação para a humanidade. A vida presente não pode ser única e exclusivamente um drama absurdo, que se for vivido sem esperança e fé numa realidade futura de salvação pode conduzir ao desespero e à infelicidade. Por isso, sem medo de nada nem de ninguém, podemos comprometer-nos na luta pela justiça e pela paz, com a certeza de que a injustiça e a opressão não podem pôr fim à vida que nos anima. Se humanamente sairmos derrotados, divinamente, seremos vencedores. Esta certeza dá sentido à vida e retempera as forças interiores para a esperança. E a vida sem esse condimento da esperança torna-se a mais insossa tristeza do mundo.
A «parábola das dez virgens» no Evangelho de São Mateus, pretende ensinar, que nós cristãos, não podemos afrouxar a vigilância e enfraquecer o nosso compromisso com os valores do Reino. As nossas comunidades às vezes caiem no comodismo, adormecem sobre os costumes, no descuido e no deixa andar, numa vida de fé que não compromete, uma fezada, uma religião de facilidade, pouco comprometida com a realidade, sem testemunho pouco empenhado e pouco coerente… A militância religiosa é um horizonte muito distante nos cristãos. O nosso compromisso com Jesus precisa de renovação constante. Acreditar que Ele vem outra vez, deve desafiar-nos a um compromisso activo com os valores do Evangelho.
Essencialmente o texto faz um convite a estar preparado, vigilante. Assim, não significa isto, ter a «alminha» limpa e sem mancha, para que, quando nos encontrarmos com Deus face a face, Ele não nos aponte nenhuma falta não confessada e não nos leve para o céu. Significa antes, vivermos o quotidiano, de forma comprometida e animada na esperança, na fidelidade ao baptismo. «Estar preparado» passa por descobrirmos dia a dia os projectos de Deus para nós e para o mundo e procurar levá-los adiante, com alegria, felicidade e com toda a vivacidade. «Estar preparado» passa por fazermos da nossa vida, em cada instante, um dom aos outros (os irmãos), no serviço, na partilha, no amor, ao jeito de Jesus. Não há outro caminho para ser feliz e fazer os outros felizes.
JLR

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Dia dos fiéis defuntos - 2 Novembro

"As coisas visíveis são passageiras, ao passo que as invisíveis são eternas" (II Cor 4, 18)
Por estes dias de santos e de almas são elevadas as peregrinações aos nossos cemitérios para rezar aos defuntos ali sepultados e colocar-lhes junto das suas campas as apetecidas flores. Naturalmente, que falta pensar e estudar quais as razões profundas de tais peregrinações. Nunca sabemos se são feitas em nome da saudade, da estima e do amor que se nutria pelos entes queridos. Ou se esse peregrinar às sepulturas não é a inquietação da morte que cada um transporta em si, que necessita de mediações que façam esquecer e contornar o sobressalto que é saber que se vai morrer. Em tempos de crise financeira, alguma contenção nos gastos sobre a morte seria importante para que os vivos que nos rodeiam fiquem na penúria...
Se não tivermos apenas em conta a terrível perplexidade perante a morte, mas o que nos ensina uma psicóloga francesa, a vida talvez ganhe outro sabor: "não é a duração da vida que interessa, mas a sua qualidade". Aqui está a grande questão sobre a vida. Viver bem não é igual a viver muito tempo. Esta ideia está sempre muito presente no coração de muita gente. A sociedade não procura viver com qualidade, mas antes procura mecanismos e todas as formas que façam perdurar a vida o quanto mais possível. Por causa desta mentalidade, encontramos muita gente sem qualidade de vida nenhuma, mas profundamente inquieta e perturbada com o problema da morte. E mais não fazem senão procurar receitas químicas ou supersticiosas para prolongar a vida.
Nós cristãos ao olharmos os santos, encontramos um manancial de liberdade perante a morte. Os verdadeiros santos souberam acolher a morte como uma graça e como um dom. São Paulo foi tão elucidativo sobre o seu desejo profundo de se libertar deste mundo para entrar na comunhão plena com Deus, quando já sentia a sua vida plenamente fundida em Cristo: "já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim" (Gálatas 2, 20).
A morada eterna não está no cemitério, porque este lugar é o depósito dos restos mortais (não é assim que dizemos em relação aos defuntos?), por isso, o verdadeiro culto em relação à multidão dos santos de Deus não se deve fazer aí nos depósitos dos restos mortais, mas antes e provavelmente na memória que cada pessoa guarda no seu interior, o verdadeiro lugar de Deus.
É deste lugar que nos fala São Paulo. As coisas verdadeiras não estão neste mundo, onde tudo passa e se deteriora. Se nos convencêssemos disto, o mundo podia converter-se facilmente pela acção de todos num lugar paradisíaco para viver. Na bela poesia de Pedro Tamen podemos ler: "Ela não existe - nós existimos nela. / E faço este discurso envergonhado / (mas algo hei-de dizer enquanto sinto / que não é o meu fim que ali se encontra / mas o princípio) como quem senta / o rabo na borda da cadeira e escorregando / se afunda lentamente pelo chão: a viagem / é essa, esse é o rio - ou ela". Mas também José Gomes Ferreira soube definir muito bem a fórmula que nos permite olhar a morte com o seu verdadeiro sentido: "os pássaros quando morrem caem no céu". Como aprenderam facilmente os santos a pensar assim sobre a morte...
JLR