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quinta-feira, 26 de julho de 2012

A abundância de Deus está no coração da humanidade


Comentário à missa do próximo domingo
XVII Tempo Comum

Já ouvi por muitas vezes pessoas interpretarem de forma errada esta passagem bíblica em Efésios 4, 2 "suportai-vos uns aos outros". Muitos interpretam a palavra "suportar" como "tolerar" e chegam ao cúmulo de dizer: " Não gosto de fulano mas suporto-o porque Deus manda!"Suportar é algo que está muito além desta concepção. Significa sustentar, estar debaixo de..., sofrer, etc. Creio que o exemplo de Cristo com a cruz às costas ilustra bem e melhor define o que verdadeiramente significa, suportai-vos uns aos outros...
Se nos remetemos ao Evangelho de Mateus, vamos encontrar uma alusão parecida com a de São Paulo, feita por Jesus. "Dá a quem te pede, e não voltes as costas ao que deseja que lhe emprestes" (Mt 5.42). Nos tempos que correm este ensinamento tem muito que se lhe diga. E pela quantidade de gente que encontramos que não é capaz de ser fiel à palavra dada nem muito menos cumprir o que promete, estamos bem arrumados com este ensinamento… Num tempo de tantos aldrabões como viver isto? – Perguntamos.
Ora vejamos, tantas vezes, ao sermos solicitados a ajudar certas pessoas necessitadas, inclinamo-nos a perguntar: «São cristãos? São sérios? O que fazem no dia-a-dia? Fumam cigarros? Passam os dias nos cafés? Vivem correctamente? Se não, por que os haveríamos de ajudar»? Obviamente, que se descobre cada vez mais a consciência de que se deve ajudar quem precisa e não quem merece. Senão… Há uma velha alegoria judaica, mais ou menos neste teor: um dia Abraão estava sentado à porta da tenda, como tinha por costume, esperando hospedar estranhos, quando viu, caminhando na sua direcção, um homem de cem anos, todo curvado e amparado no seu bordão, fatigado pelos anos e pela viagem.
Abraão recebeu-o bondosamente, lavou-lhe os pés, fê-lo sentar-se e serviu-lhe a ceia. O ancião comeu, entretanto, sem pedir a bênção de Deus nem lhe dar graças. Ao ser-lhe perguntado por que não adorava o Deus do céu, o velho disse a Abraão que adorava unicamente o fogo, e não conhecia outro deus. Diante desta resposta, Abraão no seu zelo, ficou indignado a ponto de mandar embora o velho da sua tenda, expondo-o às trevas, aos males e perigos da noite, sem protecção. Deus chamou Abraão e perguntou-lhe onde estava o estrangeiro. Ao que o patriarca respondeu: "Atirei-o para fora, pois não Te adora". Deus então respondeu: "Eu tenho-o suportado por mais de cem anos, se bem que ele me desonre, e tu não o pudeste suportar por uma noite, sendo que ele não te causou nenhuma perturbação?" Tendo em conta isto, diz a história, Abraão chamou o homem de volta, foi hospitaleiro com ele, e proporcionou-lhe sábias instruções.
Nos nossos dias onde a fome assola algumas das famílias da nossa terra, porque o desemprego e a sobrecarga de impostos faz-se sentir de forma cruel, torna-se imperioso que a nossa reflexão se centre na dimensão da partilha. O milagre da multiplicação do pão e do peixe, realizado por Jesus vem dizer isso mesmo, que cada um seja capaz de pensar nos outros e se faz a descoberta do amor de Deus que se derrama em abundância, deve sentir este apelo da partilha e da solidariedade com os mais necessitados.
Os bens materiais que o mundo produz chegariam para saciar a humanidade inteira se a ganância e a propensão humana para acumular de forma tão desregrada não existisse. No fim sobraria muito. O importante seria descobrirmos a presença de Deus em cada um, nos que podem oferecer, porque sim, Deus dá com abundância, nos outros, os necessitados, porque recolhem da amizade e da partilha os que descobriram essa fartura de Deus que não se circunscreve ao egoísmo e à ganância.
Face a esta liturgia descobrimos mais ainda que o mundo podia ser um lugar de felicidade se a humanidade se concentrasse na verdadeira riqueza, que consiste na prática de valores, tudo o resto viria por acréscimo. Enquanto a cegueira que vem do açambarcamento e do acumular desmedido acontecerem vamos continuar a saber de discrepâncias quanto ao bem-estar da humanidade e a fome, a nudez e o abandono de alguns serão sempre o pior retrato que nos é dado contemplar.   
José Luís Rodrigues

1 comentário:

José Ângelo Gonçalves de Paulos disse...

Padre José Luis, Amigo e Irmão, no mundo não encontro nenhuma doutrina, discursos ou mesmo uma práxis que substitua a do Evangelho. Dar para Jesus é uma realização pessoal de cada homem e de cada mulher. Toda as opções que fazemos temos que pensar muito nos nossos irmãos e irmãs.Sejam opções politicas, económicas, sociais, eclesiais, ecológicas. O Outro está sp presente. Seja o Homem/Mulher, seja Familia, seja a Natureza (vegetal e animal) que são tb os nossos próximos. A fome grassa pq como diz, no seu lindo texto, o egoismo e a ganância triunfam. Parace que nascemos todos e todas para o dinheiro.´É bom tê-lo e saber aplicá-lo honestamente e equitativamente.Fortunas desmesuradas são uma ofensa à nossa dignidade de cidadãos. De que me serve este raly de hj quando há gente com fome e com frio; qual o interesse do futebol qdo os jogadores cairam na teia igual à dos poderosos com mansões, aviões particulares, carros e iates de luxo para além de transformarem as próprias mulheres em prostitutas de luxo. Este nosso conterrâneo, cujo nome omito pq é para mim um vómito dessa tal pobreza que depois se transforma na riqueza avarenta e inescrupulosa. Para ignorância de todos nós. Dizer que o futebol é o nosso conforto, animação. Para mim é uma alienação pior que a aquela que disse Karl Marx "que a religião era o ópio do povo" Nem vejo futebol.E de bancada ainda pior chego a arrotar. Praticar desporto, sim. Saudável. O pão que queremos é o repartido por todos e para todos. Tenho vergonha dos milhares de seres humanos que morrem à fome todos os dias. São 30 mil.Homens e mulheres; crianças e idosos. Esqueléticos sem assistência médica, água potável, moradia adequada, emprego e trabalho com direitos e deveres. Uma Naturesa nossa Mãe e não madrasta. È isso que Deus quer e está escrito nos seus livros sagrados pq é uma utopia concreta que se realiza diariamente conforme a nossa conversão e apego a uma nova Humanidade.Do pão eucaristico saltemos para o pão da rua.Isto é, uma Eucaristia mais alargada. Um verdadeiro agapé!