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domingo, 21 de outubro de 2012

A caridade que salva nestes tempos de fome

Nota do Banquete: Texto de opinião publicado no Dnotícias, 21 de Outubro de 2012.
Por José Luís Rodrigues

«Acredito ainda mais na caridade anónima, que é, felizmente, uma realidade importante, que vai salvando muita gente» - destaque Dnotícias

À falta de valores junta-se a escassez de bens essenciais, pobreza séria e fome. Não há como dizer a realidade de outra forma. 
Um exemplo. A Maria abandonada pelo marido, desempregada, ela e três filhos, um deles, o João, é doente, asmático, somam quatro criaturas dentro de uma casa, que sobrevivem à pala da caridade senão morrem de fome. 
Uma família, um caso entre imensos que nos rodeiam. Um exemplo concreto para dizermos de um universo. Antes coisas destas passavam na TV, era distante a realidade da fome, da miséria… Agora, está à nossa porta, convive connosco, é companheira de imensas famílias na nossa terra. A tragédia da fome aí está, nunca imaginávamos que viesse a estar tão perto e que pudesse ameaçar tantas das nossas famílias. E pelo andar das coisas, ninguém se pode gabar que não venha a cair neste flagelo.
Face a este panorama, temos entre nós finalmente uma instituição, o Banco Alimentar Contra a Fome (BA), que tenho grande esperança que venha a fazer um grande trabalho na recolha e distribuição de géneros alimentares. Espero que exista um grande cuidado em que se estabeleça uma ponte eficaz entre esta instituição e os principais organismos que estão no terreno nesta ajuda aos mais pobres (cito como exemplo as Conferências de São Vicente de Paulo). 
Tendo em conta este contexto de necessidades prementes, peço aos madeirenses em geral que acarinhem o BA, porque não fazem ideia do trabalho e da luta que foi necessário travar para que na Madeira tivéssemos uma delegação do BA. Primeiro, porque «nunca houve nem ia haver fome na Madeira» nem muito menos havia pobres. Porque era necessário esconder as misérias para salvar o turismo. O que resultou? - Perdemos o turismo na mesma e temos uma avalanche de pragas sobre as costas, entre elas, as principais, a pobreza e a fome. Segundo, os organismos que já existiam na Madeira que se dedicam a este trabalho da ajuda aos pobres, cada um circunscrito à sua capelinha, nada abertos a novas dinâmicas e a trabalharem em rede, tudo fizeram para impedir que o BA viesse para a Madeira. Foi uma luta sem tréguas que tive que travar contra ideias preconcebidas e preconceitos, instituições fechadas no seu egoísmo, e pessoas agarradas aos seus tachos, pouco abertas ao bem comum e nada preocupadas com os pobres, uma sede de protagonismo e um patético prestar-se a fazer fretes aos poderes estabelecidos da nossa terra.
Por isso, hoje uma delegação do BA, graças a muita persistência, luta e a um grupo extraordinário que desde a primeira hora se congregou comigo nesta causa, está entre nós para funcionar só e exclusivamente com voluntários, porque as instituições para este género de serviços a funcionar com assalariados gera desconfiança, descrédito… Entre nós há instituições assim, apresentam-se o mais profissionalizante possível, mas violam o seu carisma e falham na caridade incondicional, porque sobrecarregam as pessoas pobres com burocracias e passam uma imagem que são uma extensão da Segurança Social. Esta caridade oficial ou oficiosa dá para desconfiar.
Alguns perguntarão porque aconteceu isto? - Porque estamos na Madeira e porque temos entre nós uma anarquia total quanto à ajuda aos pobres. A baralhada das ajudas no 20 de fevereiro é reveladora. Há serviços profundamente burocratizados e fechados em capelas que beneficiam quem lá está, ora com emprego garantido e salário, ora aproveitando os donativos para si, para os familiares, os amigos e uns pobres em detrimento de outros. Quanto aos da Igreja Católica, os que acredito alguma coisa e que funcionam minimamente, são os grupos das Conferências de São Vicente de Paulo, que estão ligados às paróquias e conhecem a realidade como ninguém. 
Por fim, acredito ainda mais na caridade anónima, que é, felizmente, uma realidade importante, que vai salvando muita gente. O que é este tipo de caridade? - Aquela que cada um vai fazendo por sua livre iniciativa. São os pais para os filhos, os filhos para os pais, avós para netos, vizinhança entre si e algumas empresas.

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