Convite a quem nos visita

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Homenagem ao grande médico da dor

- Dr. Rui Silva, médico dos cuidados continuados do Hospital Central do Funchal...
Os tratadores da saúde também morrem. Neste dia, Deus chamou à sua casa, o Dr. Rui Silva (o Ruizinho, como várias vezes escutei dos lábios carinhosas da sogra, que recentemente também subiu os degraus da casa de Deus Pai).
Deixo aqui uma singela homenagem ao grande homem e médico, que Deus me proporcionou conhecer. Não esqueço a sua bondade, o seu silêncio, a sua paz, a sua preocupação constante pelos outros, a sua fé e o grande mistério que foi toda a sua longa luta contra a doença.
Uma grande lição que nos deu a todos o Dr. Rui Silva. Obrigado Dr. Rui e que nesta hora liberto de toda a dor, após a morte (a maior das terapias da dor), goze para toda a eternidade a grande recompensa do amor de Deus, que sei estar reservada no coração de Deus Pai para todos aqueles que como o Dr. Rui se entregam de alma e corpo ao serviço da vida para todos. É isso que guardamos de si e mais sabemos que o seu testemunho fica entre nós, para dar muito fruto de libertação da dor que faz da vida deste mundo muitas vezes um calvário para tantos.
Da sua vida neste mundo confirma-se em absoluto para nós a palavra do Evangelho: «Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto» (Jo 12, 24).
Ah meu grande irmão e amigo… Como te agradeço a Eucaristia mais importante da minha vida, celebrada no quarto do teu martírio. Ali estavas contorcendo-te por causa das dores e vergado ao peso da cruz, mas rezaste e comungaste o Pão da esperança e do amor de Deus, que é a Eucaristia. A emoção foi forte, porque o mistério é denso, mas a esperança alegrava por dentro, porque sabíamos já que esta «festa» era importante para ti, que a pediste, como antecipação da «festa» maior que Deus já te preparava no céu. Aí a tens. Olha por todos nós, pela tua família que te amou com amor forte, pelos teus doentes que não sabem reclamar nada de ti e por todos os que tiveram a sorte de contemplar em ti o mistério. Deste mistério que foste neste mundo, tiram ensinamentos de coragem e força para fazerem tudo do modo desinteressando como tu o fazias para que nas tuas mãos a dignidade dos outros não fosse palavra vã.
Em António Gedeão, aprende-se na condensação das palavras o essencial. E isso nos basta...
......
Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.
......
Até um dia grande irmão e amigo…
José Luís Rodrigues

domingo, 29 de janeiro de 2012

A espada de Dâmocles

Como isto é tão cruelmente verdadeiro...
Esta - a da espada de Dâmocles - é uma estória sábia. Cícero também se lhe referiu nas Tusculanae Disputationes.
Conta-se que Dionísio, tirano de Siracusa, que vivia num luxuoso palácio, com o poder todo e servos às ordens para tudo, tinha um amigo invejoso e bajulador. Que sorte a tua!, repetia-lhe. O rei, cansado de o ouvir, propôs-lhe que o substituísse por um dia. E Dâmocles viu-se com uma coroa de ouro na cabeça e, cercado de honras, de luxo e de prazeres, julgou-se o homem mais feliz do mundo. Sentado à mesa, onde se servia um banquete lauto, com vinhos raros, perfumes e música, inebriado, levantou os olhos. E o que viu? Uma enorme espada flamejante, afiada e pontiaguda, presa ao tecto apenas por um fio, que pendia sobre a sua cabeça. Aterrado, todo o entusiasmo se esvaiu e o rosto empalideceu. Era essa espada pendente que Dionísio via todos os dias, na ameaça constante de algo ou alguém cortar o fio.
«Não é sob a espada de Dâmocles que nos encontramos todos?» Por Anselmo Borges, DN- Lisboa, 28 de Fevereiro de 2012

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sábado, 28 de janeiro de 2012

O Baptismo

Baptizais: arrancais dum anjo um satanás.
Desinfectais Ariel banhando-o em aguarrás
De igreja e no latim que um malandro expectora.
Dizeis à noite: - limpa a túnica da aurora,
E ao rouxinol dizeis: - pede a bênção da c'ruja.
Dais os lírios em flor ao rol da roupa suja,
Representais a farsa estúpida e sombria
Dum cónego a lavar um astro numa pia,
Finalmente extraís da inocência o pecado,
Que é o mesmo que extrair duma rosa um cevado;
E tudo isto porquê? - Porque na bíblia um mono
Devora uma maçã sem licença do dono!
Guerra Junqueiro, A Velhice do Padre Eterno
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sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Auschwitz-Birkenau: o campo de fábrica da morte

No dia 27 de Janeiro de 1945, por volta das 15 horas, os soldados da frente ucraniana chegaram ao campo de Auschwitz-Birkenau, na Polónia, o maior centro de extermínio do Terceiro Reich. 65 anos depois, as feridas ainda não sararam.
7.000 sobreviventes foram libertados nesse dia. Dez dias antes, as SS tinham evacuado mais de 60 mil prisioneiros. Muitos milhares morreram nessa caminhada para a morte.
Este ano, os que assistam às cerimónias dos 65 anos de libertação de Auschwitz podem fazer uma ideia do que se passou.
É o caso de Olga Sokolova:
“A exposição mais emotiva talvez seja a colecção de cartas que os oficiais soviéticos enviaram depois de entrar no campo e enfrentarem esse horror de perto. Foram eles que alcunharam o campo de fábrica da morte. Estavam profundamente traumatizados com o que viram”.
Entre 1940 e 1945, um milhão e trezentas mil pessoas foram deportadas para Auschwitz-Birkenau. Só 200 mil escaparam aos fornos crematórios, às câmaras de gás, e às experiências do doutor Mengele. É difícil fazer-se uma ideia do que aquilo foi. Jerzy Michnol tinha quinze anos em 1945.
Jerzy Michnol:
“Quando íamos tomar banho não sabíamos o que se ia passar. Dependia de um dedo apontado para cima ou para baixo. Pensávamos que cada duche seria o último. Era terrível. A vida dependia da decisão de um oficial das SS. Podia mandar-nos para o duche ou para câmara de gás”.
Nota do autor do blogue: Mais palavras para quê para qualificar a maior bárbarie da história da humanidade... Diante da vida lembremo-nos do pior que já foi feito, para que tenhamos sempre muita força para fazer o bem.
Texto e imagem: Google (euronews)...

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Um espírito impuro dos tempos de hoje

Comentário à Missa do Próximo Domingo
29 de Janeiro de 2012
Paulo, convida os crentes a repensarem as suas prioridades e a não deixarem que as realidades transitórias sejam impeditivas de um verdadeiro compromisso com o serviço de Deus e dos irmãos. A vida do dia-a-dia vai-nos empurrando em direcção aos nossos problemas, questionando as nossas opções, fazendo-nos avançar ou recuar. E questiona sobretudo a dimensão daquilo a que nós chamamos problemas.
Por isso, reparemos… Novecentos e sessenta e três milhões de pessoas (963 000 000) vivem situações de fome ou forte privação alimentar, em todo o mundo. E, tudo indica, a tendência é que isto se agrave. São números da FAO.
Apesar da abundância de víveres no mundo, mais de 800 milhões de pessoas continuam a ir dormir de estômago vazio; milhares de crianças morrem, a cada dia, devido a consequências directas ou indirectas da fome, da subalimentação crónica. Enquanto as riquezas acumuladas no mundo permitem todo tipo de esperanças, a pergunta é a mesma: é possível acabar com a fome?
Seguramente alguns pontos foram marcados na luta contra esse flagelo. No decorrer do século XX, a produção de víveres aumentou a um ritmo mais constante do que o da população mundial, que mais do que duplicou. No entanto, o acesso desigual aos alimentos e aos meios de produção continua a privar milhões de seres humanos do direito mais fundamental, o de uma alimentação sadia e nutritiva.
A solução deverá passar pela duplicação da produção de alimentos, o que significa que terá que haver um substancial reforço do apoio à actividade agrícola, um pouco por todo o mundo. É curioso este paradoxo. A agricultura é algo a que, muitas vezes de forma provinciana, se procura «escapar». Não é moderno, não é alegadamente rentável, é demasiado exposto às vicissitudes do clima, é demasiado «subsidio-dependente», dirão alguns.
Às vezes, chegamos à conclusão que o nosso foco está descentrado, e verificamos o quão privilegiados somos. Continua a ser difícil arrancar de nós mesmos a carapaça dos pequeninos problemas que muitas vezes criamos. Mas estes outros continuam a alastrar, e a aproximar-se, cada vez mais, de nós todos. Face a estes problemas que afectam muitos milhões de seres humanos, devemos deixar de nos consumirmos nos pequenos problemas que levantamos aqui ou ali, como se nisso estivesse o centro do mundo e da vida.
Paulo procura guiar-nos para o essencial e convoca para «o que é digno» para todos nós e mais apela que o essencial «pode unir ao Senhor sem desvios». Os grandes problemas do nosso mundo requerem uma união firme de toda a humanidade, para que se acabe com este escândalo da fome e de todo o género de pobreza que ainda consome grande parte da humanidade. E se antes pensávamos que estes problemas, eram só dos outros e distantes, afinal, enganamo-nos, estão aí a tocar já a famílias cada vez mais próximas de nós.
José Luís Rodrigues
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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Pequeno manifesto contra a cegueira interior

Dia 25 de Janeiro de 2012:
«Estava a caminho e já próximo de Damasco, quando se viu subitamente envolvido por uma intensa luz vinda do Céu» (Act 9,3).
Saulo foi enviado pelo caminho de Damasco para se tornar cego, pois se ele cegou, foi para ver o verdadeiro Caminho (Jo 14,6). [...] Perdeu a vista do corpo, mas o seu coração foi iluminado para que a verdadeira luz brilhasse,quer aos olhos do seu coração, quer aos do corpo. [...] Foi enviado para dentro de si mesmo, para se procurar a si mesmo. Andava errante na sua própria companhia, viajante inconsciente, e não se encontrava porque interiormente tinha perdido o caminho». (São Fulgêncio de Ruspe (467-532), bispo no Norte de África, Um sermão atribuído, nº 59; PL 65, 929).
Nota do autor do blogue: Como precisamos de cegar os olhos da cara para dar lugar à visão dos olhos interiores, porque, às vezes, parece, que esses estão totalmente cegos.
Se assim não fosse não nos calaríamos perante esta incerteza quanto ao futuro, não nos calaríamos perante a injustiça que alguns intentam levar a adiante prejudicando a maioria, porque os seus interesses se sobrepõem a tudo e a todos.
Se não estivessemos cegos, também não nos calaríamos perante a escalada de roubos (impostos desmedidos) que nos fazem descaradamente em cada dia que passa. Não nos calaríamos perante a fome que bate à porta das famílias que tanto entristece as nossas crianças. Não nos calaríamos perante a tristeza de vermos o mundo desconcertado por meia dúzia de gente que se diz iluminada, mas votada a interesses familiares, de grupos, de partidos e de outros. Não nos calaríamos perante o domínio dos grupos económicos, que tudo fazem para manter só e unicamente os seus negócios, em detrimento da livre concorrência que beneficia o elo mais fraco que somos nós a população consumidora.
Bom, se a visão interior não estivesse tão cega o mundo seria um lugar habitável, um lugar de paz e de felicidade para toda a humanidade. Que o grande São Paulo de Tarso nos anime na firmeza da esperança e na convicção da paz e da felicidade. Que esta procura nunca se cegue totalmente.
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terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Os doutores da Lei e Jesus

Os doutores da Lei que tinham vindo de Jerusalém para ver a acção de Jesus diziam: “Tem dentro si o chefe dos demónios, Belzebu, e é por ele que os expulsa”. Jesus, porém, convidou-os a aproximarem-se e disse-lhes: “Como pode o demónio expulsar o demónio? Um reino que esteja dividido entre si não subsistirá. Ninguém pode entrar na casa de um homem forte e levar os bens, se não o amarra antes…” (ver Marcos 3, 22-30).
.................
“”(…) definitivamente, o que os letrados colocam em questão é se Jesus trazia salvação ou, pelo contrário, tinha um demónio dentro (…). É o mais grave que se podia dizer dele. O que mais o desprestigiava. E o que mais o podia humilhar.
Além do mais, nas leis do judaísmo estabelecia-se que quem realizasse actividades satânicas ou demoníacas merecia a pena de morte (…). Sem dúvida, uma das coisas que mais impressionam nos evangelhos é a resistência psicológica e espiritual de Jesus para suportar as piores acusações e as mais injustificadas denuncias.
(…) De um modo provocatório (próprio das parábolas), Jesus compara aqui as suas próprias acções com as de um personagem de tipo transgressor, neste caso, um ladrão que se mete na casa de um homem a quem amarra e lhe rouba os bens (…) A força de Jesus estava na sua profunda humanidade sem contradições, em plena transparência…”
Teólogo espanhol: José María Castillo
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segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Farto de cavacadas e dos pobres de espírito

Como eu, farto de cavacadas estão milhares de portugueses. Podres de ricos, ingratos, ressentidos e profundamente insensíveis ao que se passa neste momento a milhões de portugueses como consequência das cavacadas destes senhores.
Estes pobres de espírito vivem da baixa política e do grande ressentimento das pequeníssimas contrariedades que a vida lhes vai pregando.
Estes pobres de espírito são ingratos e singraram na vida porque alguém sorrateiramente sábio os apadrinhou e eles sempre com o maior sentido do oportunismo souberam colocar-se em bicos de pés na hora certa e no lugar certo.
Estes pobres de espírito não sabem o que é lutar pela vida. À pala de benesses ao abrigo de leis absurdas e injustas sempre tiveram tudo ali à mão de semear.
Estes pobres de espírito não olham para os lados e não sabem o que é a dor dos outros, que fazem o maior dos exercícios mensalmente para cumprirem os seus deveres financeiros com os parcos rendimentos que a «sorte» da vida lhes confere. São milhares de famílias nestas circunstâncias neste momento no nosso país que passam por isto e estes pobres de espírito estão-se nas tintas para tal.
Estes pobres de espírito vivem do luxo e da boa vida que a injustiça deste mundo lhes proporciona. Não sabem o que são sacrifícios, nunca sentiram qualquer vontade para renunciar a alguma coisa. Nunca o fizeram nem nunca o farão. Limitam-se à queixinha patética porque uma miséria lhes será tirada. O mais curioso ainda, é que podem ser profundamente católicos e quiçá dos tais «praticantes» de missa diária e de oração frequente. Mas no fundo trata-se de outros cultos.
Estes pobres de espírito alimentam-se do culto do ego e vivem para as grandes manifestações, nenhum escrúpulo nesta hora lhes assalta quanto aos gastos elevadíssimos que se fazem para propagandear a sua pessoa, o seu cargo e as suas acções.
Estes pobres de espírito vivem das fotografias na comunicação social, encavacam o caminho dos outros e não permitem o diferente. O contraditório é sempre uma ameaça atroz que deve ser combatida, porque lhes põe em causa os intentos puramente pessoais e não permite que o seu ego se engrandeça com a frívola imagem que querem passar para a sociedade.
Estes pobres de espírito são uns frouxos sem conteúdo nenhum. Não lhe sabemos de um sinal de coragem, uma réstia de entrega a uma causa que faça sofrer e ir até à morte se for necessário. São uns covardes que se abrigam no quentinho da oficialidade e da ortodoxia.
Estes pobres de espírito vivem para si mesmos, para os amigalhaços e familiares. O resto é paisagem que eles acham que dominam e que servem apenas para os sufragar ou aplaudir nas balelas que vão dizendo e fazendo.
Estes pobres de espírito vivem das grandes coisas, de massas, de protagonismos momentâneos sem qualquer preocupação com o futuro. Conta a ocasião em grande, sem olhar a gastos e a sofrimentos vários que muitas destas megalomias implicam para os outros. Adiante é sempre o caminho desvabrando o o prazer do ego e do poder.
Estes pobres de espírito não percebem que estamos fartos deles. Pudera! Pouco ou nada devem à inteligência.
Pois, pois… E em tudo e neste tudo de sombrio em que se tornou o nosso presente e o nossos futuro, lá vamos nós sem rumo adiante até ao fundo do vazio imenso do nada. Com isto tudo estou seriamente preocupado.
Quanto a esta ideia dos pobres de espírito, muito mais haveria que dizer. Por isso, deixo espaço para que cada um dos leitores deste texto possa também fazer o seu rol. Força. Adiante…

domingo, 22 de janeiro de 2012

O ecumenismo e Assis

por ANSELMO BORGES
Não creio que haja guerras exclusivamente religiosas, já que estão sempre presentes outros interesses: económicos, políticos, geoestratégicos, instinto de sobrevivência e expansão. De qualquer forma, é uma vergonha que em nome de Deus se tenha derramado e continue a derramar tanto sangue, a exercer tanta violência e a espalhar tanto sofrimento. Esta é a verdadeira blasfémia.
Esta vergonha vem à consciência concretamente nestes dias (18-25 de Janeiro) dedicados ao diálogo ecuménico entre as diferentes Igrejas e confissões cristãs, na chamada Semana da Unidade dos Cristãos.
O ecumenismo - a palavra vem do grego oikuméne, com o significado de Terra habitada: o Homem é, por natureza, ecuménico, universal -, enquanto movimento para alcançar a união dos cristãos, teve início no princípio do século XIX, mas, oficialmente, inaugurou-se com a Assembleia de Edimburgo em 1910. No entanto, só em 1948 se realizou em Amesterdão a primeira Assembleia Geral do Conselho Ecuménico das Igrejas, e a Igreja Católica só fez a sua conversão ecuménica profunda no Concílio Vaticano II (1962--1965), cujo cinquentenário se celebra este ano.
Há hoje um arrefecimento no movimento ecuménico. As razões são múltiplas, mas talvez uma das mais pertinentes esteja no facto de já se não ver motivo para que os cristãos continuem a considerar-se "irmãos separados". Não estão eles unidos no fundamental? O fundamental, como diz São João, é acreditar em Deus, que é Amor, e no seu enviado Jesus Cristo, que deu testemunho desse Amor até à morte. Unidos no essencial, por que não se reconhecem mutuamente?
Logo no início, houve, entre os cristãos, conflitos de interpretações, dizendo os Actos dos Apóstolos que chegaram a "altercações violentas". Reuniu-se então uma assembleia, e é interessante que a facção mais "conservadora" confiou na ala mais "liberal", impondo uma só condição: "Que não se esquecessem dos pobres." Como acentua o teólogo catalão J. I. González Faus, a causa dos pobres passou assim a ser critério da verdadeira liberdade e factor de unidade para a Igreja.
Recentemente, os cristãos foram despertando para uma consciência ecuménica global e, consequentemente, para a urgência do diálogo inter-religioso. Neste contexto, fez história o encontro entre 130 líderes religiosos mundiais, há 25 anos, em Assis, a convite do papa João Paulo II. Lembrando esse acontecimento, Bento XVI juntou, de novo em Assis, em Outubro passado, 300 líderes das principais religiões, numa "jornada de reflexão, diálogo e oração pela paz e pela justiça no mundo". Tema central: precisamente a paz e a justiça. Não foi por acaso que nessa semana o Conselho Pontifício Justiça e Paz publicou um documento, pedindo a criação de uma autoridade financeira mundial e criticando asperamente "o liberalismo económico sem regras e sem controlo". "A situação actual é como uma guerra por causa da injustiça no mundo."
Entre os responsáveis religiosos, de mais de 50 países, havia shintoístas, sikhs, budistas, confucianos, hindus, taoístas, jainistas, baha'is, zoroastrianos, iorubas, animistas, judeus, muçulmanos, católicos, ortodoxos, luteranos, anglicanos, baptistas... A novidade: também agnósticos e ateus.
Neste autêntico mosaico das religiões, todos se comprometeram a trabalhar pela paz no mundo e a acabar com a violência, a guerra e o terrorismo. Um dos quatro intelectuais agnósticos, o filósofo G. Hurtado, sublinhou que "estão comprometidos na busca da verdade e dispuseram-se a participar na jornada como um sinal do seu desejo de trabalhar juntos para construir um mundo melhor". E Julia Kristeva lembrou que as palavras de João Paulo II - "não tenhais medo" - não foram dirigidas só a crentes, mas a todos, e insistiu na necessidade de procurar cumplicidades entre o humanismo cristão e o que surgiu do Iluminismo e da Revolução Francesa. "Para que o humanismo possa desenvolver-se e refundar-se, chegou o momento de retomar os códigos morais do curso da História, renovando-os para as novas situações."

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Por um momento…

Nota do autor do blogue:
Estavas lá, naquele recanto do sonho, onde a vida sempre plantou uma esperança para que o nosso tempo, não fosse a cruz, a sombra. Mas antes a certeza de um agora feliz, mesmo que seja um sinal, um pequeno sinal, desse mar futuro. Nada pode acabar para quem sonha na esperança...
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Não me mostrem o que esperam de mim, porque vou seguir meu coração.
Não me façam ser quem não sou.
Não me convidem a ser igual,
porque sinceramente sou diferente.
Não sei amar pela metade.
Não sei viver de mentira.
Não sei voar de pés no chão.
Sou sempre eu mesma,
mas com certeza não serei
a mesma pra sempre.
(Clarice Lispector)
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quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

O Reino de Deus

Comentário à Missa do Próximo Domingo, 22 Janeiro 2012, III Tempo Comum
O Reino de Deus, na Bíblia, designa um governo ou domínio em que tem Deus por soberano ou governante. É sinónimo de teocracia. Segundo o Gênesis, os primeiros humanos rebelaram-se deliberadamente contra a soberania de Deus. O Reino Milenar de Cristo é subsidiário do Reino de Deus. Entre os teólogos existe conceitos divergentes quanto ao que é concretamente o Reino de Deus, que podemos sintetizar em três pontos: 1. um governo real estabelecido no Céu; 2. uma condição mental existente nos verdadeiros cristãos; 3. a Igreja Cristã.
Segundo uma outra interpretação teológica, o Reino de Deus é o Projecto Criador de Deus a realizar neste Mundo e que consiste na plena rea-lização da Criação de Deus, finalmente liberta de toda a imperfeição e compenetrada por Ele. É interpretado também como o estado terminal e final da salvação, onde os homens irão transcender-se e viver eternamente com Deus. Lá, a lei do amor incondicional a Deus e ao próximo é finalmente instaurada definitivamente.
Não haverá mais tempo, mais sofrimento, mais conflitos, mais ódio, e o céu e a terra unem-se finalmente. Embora Deus seja Todo-Poderoso, Ele quer que nós, humanos, dotados de inteligência e razão, participemos de um modo recíproco, livre e voluntário no Projecto Criador de Deus, o maior de todos os projectos que o mundo jamais viu, englobando todos os tempos, todos os povos e todos os seres do Universo. Seguindo este pensamento, esta missão torna-nos verdadeiros parceiros de Deus, com muita liberdade e simultaneamente muita responsabilidade. Isto quer dizer que nós temos o poder e a capacidade de acelerar a vinda do Reino de Deus com a nossa fé em Jesus Cristo e com as nossas boas acções.
Os valores principais do Reino de Deus são a verdade, a justiça, a paz, a fraternidade, o perdão, a liberdade, a alegria e a dignidade da pessoa humana. "Arrependei-vos, porque está próximo o Reino dos Céus" era o tema da pregação de João, o Baptizador (Mateus 3:2). O prometido Messias chegara, isto é, quando Jesus de Nazaré foi baptizado e Ungido (Lucas 3:30,31).
Todo o ministério de Cristo girou em torno do Reino de Deus. Ele instruiu os seus apóstolos dizendo: "Pregai que está próximo o Reino dos Céus". Essas instruções seriam repetidas a todos os seus discípulos, a todos os cristãos (Mateus 10:7; 24:14; 28:19-20; Atos 1:8). A Bíblia inteira gira em torno da vinda do Messias e do Reino de Deus. Por conseguinte, o Reino de Deus tinha um sentido profético e missionário na vida da Igreja Cristã dos primeiros tempos.
José Luís Rodrigues
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terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Cada tiro cada coelho

Há muito tempo que venho falando do estado degradante a que chegou a "nossa" Assembleia Regional da Madeira. Até acho que degradante, é pouco para qualificar o que lá se passa. Estas coelhadas são os frutos de anos e anos de desrespeito a que os deputados se sujeitam uns contra os outros. Todos os partidos são responsáveis por isto e até uma boa camada de votantes, que sempre votam no escuro... E neste domínio temos que buscar à luz da reflexão também até os que se demitem em todos os actos eleitores, porque preferem o comodismo a assumirem uma atitude participativa na vida democrática.
Assim, fomos de alarido constante enquanto o adversário falava, de piropo em piropo, de alcunha em alcunha, de aparte em aparte, de boca em boca, de praguejadela em praguejadela... Até a estas coelhadas exageradas e ridículas. Agora, todos se indignam e manifestam-se hipocritamente virgens ofendidas como se nada disto tivesse também que ver com eles e que não resultasse também das suas acções.
Tudo isto em menor escala, são consequência de cada um daqueles que recorrem frequentemente ao insulto e à boca rasteira para fazer valer os seus propósitos. O ar de praça de peixe que o Plenário da Assembleia faz valer, redundou nisto e irá sempre de mal a pior, tendo em conta que os protagonistas destes lamentáveis episódios lá estão para dar e durar.
Mais ainda esta degradação, advém de quem irresponsavelmente vota na ignorância e no escuro. Neste sentido, a Assembleia Regional, é o espelho de muita coisa e reflexo da sociedade pouco letrada, muito pouco culta que ainda é a comunidade madeirense. Não é com alegria que digo isto, mas com profunda tristeza, dado que precisamos como de pão para a boca de passar uma imagem de sociedade responsável, equilibrada e unida à volta de uma causa.
Os tempos que vivemos são duros, muito duros. O que mais precisamos é de não dar uma imagem de que somos uns palhaços irresponsáveis e que o melhor que sabemos fazer são festanças e carnavais.
Posto isto, meus amigos, deputados, ponham-se nos vossos devidos lugares e deixem-se de malcriação e vamos fazer valer os argumentos com respeito e com dignidade. Caso não consigam, ao menos pensem, que a casa onde «nós» vos colocamos para serem nossos representantes, está a ser observada por graúdos e crianças que merecem respeito. Em todos os momentos do vosso digníssimo trabalho, eles vos pedem alguma réstia de serenidade e exemplo.
José Luís Rodrigues

A Pátria é a Família Amplificada

O sentimento que divide, inimiza, retalia, detrai, amaldiçoa, persegue, não será jamais o da pátria. A Pátria é a família amplificada.
E a família, divinamente constituída, tem por elementos orgânicos a honra, a disciplina, a fidelidade, a benquerença, o sacrifício. É uma harmonia instintiva de vontades, uma desestudada permuta de abnegações, um tecido vivente de almas entrelaçadas. Multiplicai a célula, e tendes o organismo.
Multiplicai a família, e tereis a pátria. Sempre o mesmo plasma, a mesma substância nervosa, a mesma circulação sangüínea. Os homens não inventaram, antes adulteraram a fraternidade, de que Cristo lhes dera a fórmula sublime, ensinando-os a se amarem uns aos outros: “Diliges proximum tuuum sicut te ipsum”.
Dilatai a fraternidade cristã, e chegareis das afeições individuais às solidariedades coletivas, da família à nação, da nação à humanidade. Objetar-me-eis com a guerra!
Eu vos respondo com o arbitramento. O porvir é assaz vasto para comportar esta grande esperança. Ainda entre as nações, independentes, soberanas, o dever dos deveres está em respeitar nas outras os direitos da massa.
Aplicai-o agora dentro das raias desta: é o mesmo resultado; benqueiramo-nos uns aos outros, como nos queremos a nós mesmos. Se o casal do nosso vizinho cresce, enrica e pompeia, não nos amofine a ventura, de que não compartimos. Bendigamos, antes, na rapidez de sua medrança, no lustre da sua opulência, o avulsar da riqueza nacional, que se não pode compor da miséria de todos.
Por mais que os sucessos nos elevem, nos comícios, no foro, no parlamento, na administração, aprendamos a considerar no poder um instrumento de defesa comum, a agradecer nas oposições as válvulas essenciais da segurança da ordem, a sentir no conflito dos antagonismos descobertos a melhor garantia da nossa moralidade.
Não chamemos jamais de inimigos da pátria aos nossos contendores. Não averbemos jamais de traidores à pátria os nossos adversários mais irredutíveis.A pátria não é ninguém: são todos; e cada qual tem no seio dela o mesmo direito à idéia, à palavra, à associação.
A pátria não é um sistema, nem é uma seita, nem um monopólio, nenhuma forma de governo: é o céu, o solo, o povo, tradição, a consciência, o lar, o berço dos filhos e o túmulo dos antepassados, a comunhão da lei, da língua e da liberdade. Os que a servem são os que não invejam, os que não inflamam, os que não conspiram, os que não sublevam, os que não desalentam, os que não emudecem, os que não se acobardam, mas resistem, mas ensinam, mas esforçam, mas pacificam, mas discutem, mas praticam a justiça, a admiração, o entusiasmo. Porque todos os sentimentos grandes são benignos e residem originariamente no amor. No próprio patriotismo armado o mais difícil da vocação, e a sua dignidade não está no matar, mas morrer. A guerra, legitimamente, não pode ser o extermínio, nem a ambição: é, simplesmente, a defesa. Além desses limites, seria um flagelo bárbaro, que o patriotismo repudia...

(Rui Barbosa, 1903)
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segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

CÃO

Cão passageiro, cão estrito,
cão rasteiro cor de luva amarela,
apara-lápis, fraldiqueiro,
cão liquefeito, cão estafado,
cão de gravata pendente,
cão de orelhas engomadas,
de remexido rabo ausente,
cão ululante, cão coruscante,
cão magro, tétrico, maldito,
a desfazer-se num ganido,
a refazer-se num latido,
cão disparado: cão aqui,
cão além, e sempre cão.
Cão marrado, preso a um fio de cheiro,
cão a esburgar o osso
essencial do dia a dia,
cão estouvado de alegria,
cão formal da poesia,
cão-soneto de ão-ão bem martelado,
cão moído de pancada
e condoído do dono,
cão: esfera do sono,
cão de pura invenção, cão pré-fabricado,
cão-espelho, cão-cinzeiro, cão-botija,
cão de olhos que afligem,
cão-problema...
Sai depressa, ó cão, deste poema!
Alexandre O'Neill, Poesias Completas. 1951-1986Lisboa, INCM, 1990 (3ª ed.)

domingo, 15 de janeiro de 2012

Os escravos do Estado

A nossa terra entrou no ano de 2012 com a maior das incertezas. Um turbilhão de foguetes rebentou sobre a cabeça dos madeirenses. Uma tristeza tomou conta de todos nós. Não sabemos o que pensar, não sabemos como viver, não sabemos como esticar mais os nossos magros rendimentos… Acordamos de uma abundância que não passava de um engano bem construído sobre uma bebedeira de créditos e de dinheiro que caía de um céu qualquer que não o de Deus, mas do descalabro de empréstimos e mais empréstimos que resultou num inferno terrível de dívidas que temos que pagar com mais pobreza, fome, suor e lágrimas.
No meio de tudo isto, resulta ainda a inconsciência, a mentira, a irresponsabilidade, as ameaças e a agressividade das palavras. Neste patamar, são estonteantes, os silêncios estudados por quem tem a responsabilidade de falar e de denunciar as injustiças. São preocupantes as mentiras que ainda fazem crer que é possível a ilusão, desmentidas com a gravidade de não haver dinheiro para pagar remédios, coisa que ninguém compra por prazer, mas por elementar necessidade. Temo que nos próximos tempos falte dinheiro para outros bens essenciais para o bem-estar dos cidadãos.
Ora, chegados a este estado de coisas, perdura a agressividade das palavras e a caça às bruxas, coisa que acentua ainda mais o fosso da divisão, porque não permite o diálogo e a serenidade para que se encontre uma solução que seja benéfica para os cidadãos. Os discursos deviam estar centrados na convocação de todos, para, juntos, suportarmos esta carga que nos impuseram. Não é isso que se vê, impera um clima de agressividade, um empurrar de culpas e uma insensibilidade face às pessoas/cidadãos. Os cidadãos foram convertidos em escravos do Estado ou de políticas cegas que não resolvem nada.
Mais ainda impera a injustiça da austeridade. A maioria empobrece todos os dias e contempla boquiaberta a minoria que se pavoneia nas mordomias que lhes conferem os cargos públicos que os camuflados sufrágios eleitorais lhes atribuíram. Os amigalhaços dos eleitos são colocados em lugares estratégicos para saborearem salários brutais e outras tantas regalias que a maioria do nosso povo nunca saberá o que é. Tudo errado. Não se vê uma réstia de sobriedade, de lucidez e de renúncia. A lei confere, então, o consequente direito. Que mundo cão que nós criamos…
Face a este estado de coisas, deveríamos ser chamados todos à serenidade e a sermos conduzidos para a conjugação das forças em prol do bem comum, com sacrifícios, com certeza, mas distribuídos por todos e de mãos dadas adiante concentrados naquilo que importa ser feito no interesse comum, estabelecendo prioridades e com toda a responsabilidade aplicar os nossos dinheiros não em acções que beneficiam meia dúzia de entidades, mas a população inteira. É disto que se trata o nosso futuro. As necessidades são tantas que não permitem mais acções que não se encaixem em critérios de prioridades bem estudados.
Por fim uma palavrinha sobre nós que somos o povo. O povo colhe o que semeou e todos comemos o pão que o diabo amassou. Mais responsabilidade deveria ter existido. Ninguém se deveria ter deixado embebedar com facilitismos e com todo o bailinho da Madeira dançado ao som da música paga à conta de dívidas. Ou então pior do que isto, dinheiro para dança nunca faltou, falta agora sim para os bens essenciais à sobrevivência do povo. Uma tristeza demais que deveria fazer chorar a cântaros se não tivéssemos de nos revoltar com tamanha vergonha.
Nada melhor para explicar isto do que as lições tiradas do quotidiano. Um jovem meu amigo da nossa cidade, vendedor ambulante, que face à minha reclamação pelo facto de estar a vender saleiros sem tampa e esferográficas sem carga, me dizia a rir desalmadamente: «Não se preocupe, o povo é tonto».
José Luís Rodrigues
Nota: Texto publicado no Dnoticias de 15 de Janeiro de 2012, na secção Sinais dos Tempos...

sábado, 14 de janeiro de 2012

Poema à boca fechada

Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.
..
Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.
..
Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.
..
Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.
..
Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.
..
José Saramago
..
Imagem Google

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Ser invejoso

A inveja, segundo o dicionário, é o desejo de possuir o bem de outrem; pesar ou desgosto ante o bem alheio; ciúme... Onde estará uma pessoa que possa proclamar que nunca teve em si este sentimento? Ainda está para nascer aquele ou aquela que se diz sem qualquer sombra de inveja.
O que me fere mais é saber que muita gente procura justificar a sua desgraça com a desgraça dos outros. Porém, a justificação do seu mal com o mal dos outros é a pior das atitudes e manifesta estupidez. Esta teimosia já há muito foi comprovada com a mito de Sófocles, na magnífica «Antígona», ao proclamar no ponto alto do diálogo o seguinte: «A teimosia merece o nome de estupidez». E Hémon, um dos personagens da Antígona dirá alto e bom som: «Quem julga que é o único que pensa bem, ou que tem uma língua ou um espírito como mais ninguém, esse, quando posto a nu, vê-se que é oco». Toda a inveja merece esta resposta e não pode ser senão a pior coisa que os homens criaram.
O estado de inveja acontece nas coisas mais corriqueiras da vida. As relações profissionais estão cheias desta realidade. As famílias alimentam-se deste sentimento como do pão para a boca. As religiões ou as igrejas também vivem esta condição com a mesma frequência que pronunciam orações. E dos invejosos digo o mesmo que disse Ambrose Bierce, são uns cobardes. E cobarde para este autor era alguém que, numa situação perigosa, pensa com as pernas.
É a inveja o sentimento que mais inimigos produz. Os rancores que muitas vezes as pessoas expressam uns contra os outros estão associados à inveja. Mas sobre os inimigos Oscar Wilde ensinou que a melhor resposta consiste em perdoar-lhes sempre, porque nada os aborrece tanto.
A inveja não pode ter qualquer base de inteligência porque a inteligência é um dado essencial do ser pessoa e do ser homem. Porque é muito mais fácil a uma sociedade ou às autoridades lidarem com a inteligência, por mais perversa que ela seja. Com a estupidez, é muito mais difícil, pois tudo o que se diga aos estúpidos entra-lhes por um ouvido e sai pelo outro. Não é fácil de modo nenhum conviver com as diversas situações onde a inveja comande as atitudes das pessoas, porque facilmente tudo se reduz a estupidez e a pior coisa do mundo é ter que aturar estúpidos invejosos.
José Luís Rodrigues
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quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

O chamamento

Comentário à Missa do próximo Domingo
15 de Janeiro de 2012
Os textos da missa deste domingo, falam-nos da disponibilidade para acolher os desafios de Deus e para seguir Jesus.
A primeira leitura apresenta-nos a história do chamamento de Samuel. O texto reflecte que o chamamento é sempre uma iniciativa de Deus, que vem ao encontro de cada pessoa, chama-a pelo nome e convoca-a para uma missão. A cada um é pedido que coloque a sua vida ao serviço dos desafios de Deus. Escutar a voz de Deus, será sempre uma certeza de felicidade e de realização da vida em favor do bem para todos. Os nossos tempos precisam de muita gente que se deixe levar pelo desejo de Deus, que sonha com um mundo mais justo, mais fraterno e mais de acordo com a verdade que faz da vida um bem extraordinário e não um fardo provocado pela injustiça, pela ganância e pela violência da mentira que destrói as pessoas, as famílias e as sociedades.
Somos chamados a ser discípulos. Quem é o discípulo? - É aquele que reconhece Jesus que «passa», o Messias libertador, que o admira e o segue com todas as forças e convicções. A partir daí envolve-se na vida e no mundo numa luta constante contra tudo o que ponha em causa o Reino da amizade e fraternidade proposto por Jesus.
Por isso, segundo São Paulo, no crente que vive em comunhão com Cristo deve manifestar-se sempre a vida nova de Deus. Este que radica a vida em Jesus, deve procurar banir de si hábitos e atitudes desordenadas que ferem a dignidade de si e dos outros. Nesta perspectiva, o mundo tornar-se-ia beleza e bondade, porque, os cristãos, em primeiro lugar, seriam esse sinal no meio da massa.
José Luís Rodrigues
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quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

A Maçonaria e as sociedades secretas

O cardeal Martini (ex-Cardeal de Milão) fez a seguinte denúncia: «A queda das grandes ideologias causou desorientação, um pensamento fraco, dificuldade em imaginar os cenários que nos esperam». A desorientação que fala o Cardeal, ataca todos quadrantes da sociedade e mesmo até a própria Igreja. Esta visão leva o Cardeal Martini a concluir que o mundo actual está profundamente marcado por incertezas.
Neste contexto de desorientação descobrimos uma sociedade marcada pelo medo e muito boa gente emaranhada até aos dentes em sociedades secretas, Maçonaria, sujeita a confusos e esotéricos ritos de iniciação, vergada a uma submissão cega a trâmites perigosos que conduzem à violação do bem comum, quando se descobrem figuras públicas claramente ligadas a tais sociedades.
Estes tempos têm sido profícuos em notícias vindas a lume sobre figuras governamentais e outras com cargos de relevância pública com ligações a sociedades secretas ou maçónicas. A Igreja Católica sempre manifestou profunda inquietação com sociedades secretas, embora também legitime o secretismo no seu interior e até tenha reconhecido alguns grupos que se alimentam do secretismo (por ex. o Opus Dei…).
A Maçonaria, podemos dizer, nasceu na Igreja Católica. Eram os construtores, os maçons que passavam longo tempo a construir catedrais e mosteiros. Estes pedreiros, homens simples, ignorantes e rudes, recebiam, dos frades e clérigos, com quem viviam em estreito relacionamento, instrução e evangelização. Além de ler e escrever, aprendiam a dar graças, a caridade e os princípios morais do cristianismo. Tinham alguns ritos, a prece na abertura dos trabalhos, era um deles.
Porém, os conflitos aparecem quando os maçons se organizam e formam grupos mais ou menos secretos, legais e institucionalizados totalmente fora do domínio do poder eclesiástico, alguns movimentos com princípios claramente contra a Igreja Católica e, particularmente, anticlericais. As desconfianças e os conflitos são inevitáveis.
Neste sentido, repare-se na seguinte doutrina Católica. Em 27 de Maio de 1917 é promulgado por Bento XV, o primeiro Código de Direito Canônico, também chamado de Pio Beneditino onde se refere a Maçonaria da seguinte forma, no Cânon 2335: «Os que dão o seu próprio nome à seita maçónica ou a outras associações do mesmo género, que maquinam contra a Igreja ou contra os legítimos poderes civis, incorrem Ipso Facto, na excomunhão simplificter reservada à Sé Apostólica». E mais recomendava noutros Cânones o seguinte: «Que as católicas não se casassem com maçons; que seriam privados de sepultura eclesiástica; privados da missa de exéquias; não seriam admitidos em associações de fiéis; não poderiam ser padrinhos de casamento; não fariam a confirmação do baptismo (crisma); não teriam direito ao patronato, etc».
Bom, face a tudo isto vimos repudiar tudo o que sejam sociedades secretas em qualquer domínio da sociedade e a Igreja Católica como instituição para as denunciar a sério devia, a meu ver, assumir a transparência a todos os níveis como o valor principal da sua acção e não permitir no seu interior nenhuma sociedade secreta, por mais religiosa que se queira fazer.
Tudo isto, porque, nos tempos que correm e em democracia tudo o que sejam sociedades secretas provocam desconfiança e inevitavelmente tais grupos implantam-se nos campos de decisão para benefícios próprios e dos grupos a que estão associados secretamente. Nos tempos da crise e de austeridade não podíamos estar mais preocupados com notícias deste calibre que nos fazem pensar o pior no que diz respeito à procura do bem comum e da fraternidade.
José Luís Rodrigues
Imagem in andreia-andreiavieira.blogspot.com

sábado, 7 de janeiro de 2012

Ver e acreditar

1.
Vi o sol andando sobre a água do mundo
Acreditei no tempo que dita a alegria.
2.
Vi o rosto da sabedoria de uma palavra
Acreditei na voz dita em amor.
3.
Vi as flores em festa despontarem no dia
Acreditei na beleza dita na ternura.
4.
Vi os pinheiros na floresta ávidos de vento
Acreditei na esperança dita sopro no hálito da luz.
5.
Vi os rios abraçados nas entranhas da terra
Acreditei no carinho dos dias feitos no nome da paz.
6.
Vi o mar e a linha do horizonte na imensidão azul do céu
Acreditei no encanto da partilha na hora da festa.
7.
Vi uma pedra inquebrável na margem da memória
Acreditei na segurança do sentido da vida.
8.
Vi a solidão da erva no campo nas colinas de Deus
Acreditei no dom dito na certeza da criação.
9.
Vi os pássaros no canto gélido da manhã
Acreditei na humildade inominável da fé.
10.
Vi os picos tocando o céu azul da penumbra do além
Acreditei na simplicidade dita no valor do trabalho.
11.
Vi que só vale tanto a pena saber de nós no círculo dos outros
Acreditei no melhor do mundo dito em fraternidade.
12.
Vi porque cheguei ao fundo nesta hora feliz
Acreditei que o tudo fez de tudo na abundância do silêncio.
José Luís Rodrigues
Nota: Votos de bom fim de semana para todos os meus leitores...

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Dia dos Reis Magos

Os Três Reis Magos ou simplesmente "Os Magos", a que a tradição deu os nomes de Melchior, Baltazar e Gaspar, são personagens da narrativa cristã que visitaram Jesus após o seu nascimento (Evangelho de Mateus). A Escritura diz "uns magos", que não seriam, portanto, reis nem necessariamente três mas, talvez, sacerdotes da religião zoroástrica da Pérsia ou conselheiros. Como não diz quantos eram, diz-se três pela quantia dos presentes oferecidos.
Talvez fossem astrólogos ou astrónomos, pois, segundo consta, viram uma estrela e foram, por isso, até a região onde nascera Jesus, dito o Cristo. Assim os magos, sabendo que se tratava do nascimento de um rei, foram ao palácio do rei Herodes em Jerusalém. Perguntaram-lhe sobre a criança mas ele disse nada saber. No entanto, Herodes alarmou-se e sentiu-se ameaçado e pediu aos magos que, se encontrassem o menino, o informassem, pois iria adorá-lo também, embora suas intenções fossem a de matá-lo.
A estrela, conta o evangelho, precedia-os e parou sobre o local onde estava o menino Jesus. "E vendo a estrela, alegraram-se eles com grande e intenso júbilo" (Mt 2, 10). Os Magos ofereceram três presentes ao menino Jesus, ouro, incenso e mirra, cujo significado e simbolismo espiritual é, juntamente com a própria visitação dos magos, um resumo do evangelho e da fé cristã, embora existam outras especulações respeito do significado das dádivas dadas por eles: o ouro pode representar a realeza (eles procuravam o "Rei dos Judeus"); o incenso pode representar a fé, pois o incenso é usado nos templos para simbolizar a oração que chega a Deus; a mirra, resina antiséptica usada em embalsamamentos desde o Egipto antigo, remete-nos para o género da morte de Jesus, o martírio, sendo que um composto de mirra e aloés foi usado no embalsamamento de Jesus (João 19, 39 e 40).
"Sendo prevenidos em sonhos a não voltarem à presença de Herodes, regressaram por outro caminho a sua terra" (Mt 2, 12). Nada mais a Escritura diz sobre essa história cheia de poesia, não havendo também quaisquer outros documentos históricos sobre eles.
A melhor descrição dos reis magos foi feita por São Beda, o Venerável (673-735), que no seu tratado “Excerpta et Colletanea” assim relata: “Melchior era velho de setenta anos, de cabelos e barbas brancas, tendo partido de Ur, terra dos Caldeus. Gaspar era moço, de vinte anos, robusto e partira de uma distante região montanhosa, perto do Mar Cáspio. E Baltazar era mouro, de barba cerrada e com quarenta anos, partira do Golfo Pérsico, na Arábia Feliz”.
Quanto aos nomes, Gaspar significa “Aquele que vai inspecionar”, Melchior quer dizer: “Meu Rei é Luz”, e Baltazar traduz-se por “Deus manifesta o Rei”.
Como se pretendia dizer que simbolizavam os reis de todo o mundo, representariam as três raças humanas existentes, em idades diferentes. Segundo a mesma tradição, Melchior entregou-Lhe ouro em reconhecimento da realeza; Gaspar, incenso em reconhecimento da divindade; e Baltazar, mirra em reconhecimento da humanidade.
Devido ao tempo passado até que os Magos chegassem ao local onde estava o menino, por causa da distância percorrida e da visita a Herodes, a tradição atribuiu à visitação dos Magos o dia 6 de Janeiro. Algumas Conferências Episcopais decidiram, contudo, celebrar a festa da Epifania no primeiro domingo de Janeiro (quando não coincide com o dia 1).
Devemos aos Magos a troca de presentes no Natal. Dos presentes dos Magos surgiu esta tradição em celebração do nascimento de Jesus. Em diversos países a principal troca de presentes é feita não no Natal, mas no dia 6 de Janeiro, e os pais muitas vezes disfarçam-se de reis magos.
Aniceto Morgado
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quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Onde está o Rei dos judeus?

Comentário à Missa do Próximo Domingo
Domingo da Epifania
8 de Janeiro 2012
O dia da Epifania, é, tradicionalmente chamado, o Dia de Reis. A Epifania, é o reconhecimento dos direitos messiânicos de Jesus de Nazaré por não-judeus, é a manifestação de Jesus ao mundo pagão. Uma tradição mais tardia falou de Reis Magos, aplicado a estes sábios que vieram do Oriente adorar o Menino, e pretendeu com isso, provavelmente, reforçar a glória de Jesus Cristo.
Este menino, que nasceu não tem dono. Foi enviado por Deus ao mundo por meio de uma mulher, para toda a humanidade.
A Epifania é este momento do acontecer de Deus, que se abre para além das fronteiras do nosso pensamento limitado. O nome de Deus na frieza da gruta de Belém extravasa os nossos esquemas limitados pelas fronteiras do egoísmo e do espírito de vingança que frequentemente nos atacam.
A grande mensagem que nos fica deste Dia dos Reis, resume-se a esta novidade: Deus nasce não apenas para alguns mas para todos os homens. O Deus Menino é a luz celeste (Ouro) que se abaixa até ao mais fundo da humanidade para a elevar para o alto (Incenso); e é o Deus santo e fonte de santidade (Mirra) que pretende santificar não apenas um povo mas todos os homens do mundo.
É surpreendente e quase comovedora esta abertura de Deus e arrasa todas as tentativas de apropriação de uma realidade que não pertence a ninguém, porque não é deste mundo. Vem do lugar santo de Deus para elevar e divinizar todos os homens.
Que a Epifania seja um outro nome pelo qual se redescobre o acontecer de Deus e que essa luz nos ilumine a fé e a esperança como únicos caminhos que nos levem à relação de amor com todos os irmãos. A mensagem da paz e do amor, sinal do presépio, são ecos de Deus que ressoam do seu coração para todos os recantos deste mundo sedento de salvação. Deixemos, pois, Deus acontecer e manifestar a sua graça a todo o mundo.
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José Luís Rodrigues

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Soy hombre de esperanza...

Nota do autor do blogue: Ano novo tomado a sério, pareceu-me muito sugestivo, para estes tempos da Igreja Católica que vivemos, a expressão do Cardeal Suenes, que faço minha totalmente e quero partilhar convosco. Adiante cheios de esperança…

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"Soy hombre de esperanza porque creo que Dios es nuevo cada mañana.

Porque creo que Él crea el mundo en este mismo instante.

No lo creó en un pasado lejano, ni lo ha perdido de vista desde entonces.

Lo crea ahora: es preciso, pues, que estemos dispuestos a esperar lo inesperado de Dios.

Los caminos de la Providencia son habitualmente sorprendentes.

No somos prisioneros de algún determinismo, ni de los sombríos pronósticos de los sociólogos.

Dios está aquí, cerca de nosotros, imprevisible y amante.

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Soy hombre de esperanza, y no por razones humanas o por optimismo natural, sino simplemente, porque creo que el Espíritu Santo actúa en la Iglesia y en el mundo, incluso allí donde es ignorado.

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Soy hombre de esperanza porque creo que el Espíritu Santo es siempre Espíritu creador.

Cada mañana da, al que sabe acoger, una libertad fresca y una nueva provisión de gozo y de confianza.

Yo creo en las sorpresas del Espíritu Santo.

El Concilio fue una, y el Papa Juan también. Era algo que no esperábamos.

¿Quién osaría decir que la imaginación y el amor de Dios se han agotado?

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Esperar es un deber, no un lujo. Esperar no es soñar.

Es el medio de transformar los sueños en realidad.

Felices los que tienen la audacia de soñar y están dispuestos a pagar el precio para que sus sueños puedan hacerse realidad en la historia de los hombres."

(Card. Suenens, ¿Hacia un nuevo Pentecostés?, Bilbao, 1968).

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Natal na crise

Nota: ainda vai a tempo. Não dizem que o Natal não deve ser apenas um dia, mas todos os dias... Ao menos na expressão dos seus valores quem nos dera que fosse todos os dias do ano.
Mário Salgueirinho
O medo – o pânico da “crise” - não pode diminuir mais a espiritualidade do nosso Natal.
Há muito tempo que este aspecto fundamental está em crise: crise de reflexão sobre o mistério da Encarnação oferecido pelo amor de Deus, doando-nos seu Filho Unigénito como Salvador e Redentor.
O Natal é o aniversário dessa dádiva incomensurável de Deus à Humanidade.
A crise pode ajudar-nos a viver melhor este nosso Natal, projectando-o em cada dia do ano, em expressões de amor: de serviço, de ajuda, de perdão, de justiça e paz.
Desejo aos meus leitores um bom Natal: que será bom se crescermos, como sugere Bento XVI na simplicidade, na justiça, na paz e na solidariedade.
O egoísmo que atinge também numerosos cristãos, atingidos pelo consumismo avassalador, faz esquecer os marginalizados os injustiçados os excluídos.
Para ajudar esta reflexão natalícia, ofereço este meu poema:
FELIZ NATAL!
..
Se o teu Natal for um sentar egoísta
à mesa lauta da Ceia,
de costas cruelmente voltadas
para as lágrimas dos que sofrem
sem pão, sem paz e sem nada -
teu Natal não é
o nascimento de Jesus de Nazaré.
..
Se o teu Natal for uma celebração
morna e doce,
como bafo tépido dos animais do presépio,
sem aquecer tua vida, sem agitar teu mundo,
esse Natal não é
o de Jesus de Nazaré!
..
Mas se o teu Natal for
um repensar da tua fé,
um grito ousado de libertação
contra a injustiça, contra a miséria,
um reabastecer pleno de amor
para amar pelo ano além,
teu Natal será feliz,
porque será eco vivo
do Amor nascido em Belém!
Imagem Google...

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Poema pouco original do medo, por Alexandre O'Neil

O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos
..
O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
ótimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projetos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles
..
Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentese angustiados
..
Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)
..
O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos
..
Nota: Está aí o ano 2012. Veio carregado de más notícias. Porém, o que não mata fortalece-nos. Deve ser o que devemos pensar nesta hora. Deixo-vos este poema de Alexandre O'Neil, para que esse sentimento terrível que é o medo não nos arrebate nem tome conta da vida, porque mantemos a dignidade e a esperança. Isto ninguém nos pode tirar. Vamos adiante, convíctos na esperança e firmes na coragem...