Convite a quem nos visita

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Oração pelas férias


Também somos gente. Férias. Fecha-se o blogue por uns tempos. Descansem as hostes. Porém, não se convençam muito regressaremos retemperados se Deus quiser. Um abraço amigo a todos os meus leitores. Deixo esta oração magnífica que faço por vós e por mim...

Dá-nos, Senhor,
depois de todas as fadigas
um tempo verdadeiro de paz.

Dá-nos,
depois de tantas palavras
o dom do silêncio
que purifica e recria.

Dá-nos,
depois das insatisfações que travam
a alegria como um barco nítido.

Dá-nos,
a possibilidade de viver sem pressa,
deslumbrados com a surpresa
que os dias trazem pela mão.

Dá-nos
a capacidade de viver de olhos abertos,
de viver intensamente.

Dá-nos
de novo a graça do canto,
do assobio que imita
a felicidade aérea
dos pássaros,
das imagens reencontradas,
do riso partilhado.

Dá-nos
a força de impedir que a dura necessidade
esmague em nós o desejo
e a espuma branca dos sonhos
se dissipe.

Faz-nos
peregrinos que no visível
escutam a melodia secreta
do invisível.

José Tolentino Mendonça

domingo, 19 de agosto de 2012

Fretes de alguma igreja da Madeira aos poderosos desta terra

Conta Jean Delumeau no seu magnífico livro, «Aquilo em que acredito» que numa das visitas do Papa João Paulo II a um país da América Latina, dominado por uma ditadura sanguinária, o protocolo tinha achado por bem retirar da oração de Maria o Magnificat, que ia ser rezado no final de uma das missas onde estaria presente o ditador, os seguintes versículos: «Manifestou o poder do seu braço / E dispersou os soberbos. / Derrubou os poderosos de seus tronos / E exaltou os humildes». Obviamente, que o Papa perguntou ao chefe do protocolo o que se estava a passar para que não constasse a oração de Maria por inteiro, responderam que não queriam ferir susceptibilidades  diz-se que João Paulo II ficou triste (ou irritado, até acredito que tenha sido mais isso mesmo, irritação…) e obrigou que fossem colocados os versículos em causa e que a oração seria rezada por inteiro.
Serve esta introdução para enquadrar o que vou dizer sobre alguns fretes que a Igreja da Madeira neste Verão está fazer aos poderosos do nosso burgo, vulgo, da Madeira nova, falida, endividada até ao pescoço, com a sua «autonomia» morta e enterrada. Não presto vassalagem nenhuma aos cangalheiros da «nossa» Autonomia. Não me merecem qualquer réstia de simpatia, mesmo que tenham feito muito de muito bom, mas também falharam e temos que o dizer claramente. Por isso, são eles que empurraram um povo inteiro para a vergonha de não terem sabido governar-se e isso não me parece que devamos ter qualquer simpatia com gente deste teor que não admite os erros e nem muito menos é capaz de arrepiar caminho, reconhecer que podemos chegar lá mas sem arrogâncias nem prepotências. Uma Igreja que se submete a isto viola os mais elementares princípios da democracia e está totalmente contra o Evangelho que nos ensina a estar ao lado dos fracos, denunciando as injustiças e apelando à conversão dos poderosos. Vamos lá a dois aspectos deste Verão relacionados com os fretes que se prestam à Madeira Nova.
Primeiro frete. O Padre Martins Júnior celebrou 50 anos de vida sacerdotal juntamente com outro colega, que se humilhou tanto ao ponto de celebrar o seu jubileu o mais discreto possível para não ferir suscetibilidades. O «nosso» bispo actual inaugurou celebrações com a sua distinta presença para tudo o que mexe na Igreja Católica madeirense. Todos os anos celebrava com os aniversariantes de bodas sacerdotais uma solene celebração com pompa e circunstância na Sé Catedral. Um gesto bonito. Sinal de amizade para com os sacerdotes. Mas, este ano, nada. Pois, esqueceu-se que o «rebelde» Padre Martins um dia também passaria por uma celebração do género, aí o embaraço seria tremendo. O quê celebrar na Sé com este «comuna», ressabiado da Madeira Velha? E gora, celebrar com ele ou sem ele? - Um embaraço... Vamos ferir susceptibilidades? – Não, e os subsídios, as igrejas que estão para pagar e as capelas e capelinhas e ainda mais uma ou outra igreja que está para ser feita? – Esqueceram-se de uma coisa, o governo está falido, duvido muito que seja possível o regabofe para continuar o festim da subsidiodependência. Para não ferir suscetibilidades, melhor celebrar para nenhum. E foi o que aconteceu. Nada para ninguém. O «verdadeiro» aniversariante, resolvemos com uma conversinha e remetemo-lo à maior das discrições para que não se ateiem mais incêndios, porque já não há mais nada para arder… Mas, sobram dúvidas.
Vamos lá então. Se o Padre Martins Júnior está despadrado porque não se fez a celebração com o colega do mesmo dia de ordenação, porque este que se saiba está muito bem padrado, até faz parte do cabido da Diocese? Mais ainda, há algo que me faz confusão. Um padre, uma vez padre, padre para sempre, é isso que é dito à boca cheia na classe eclesiástica. Alguns despadram-se por sua conta, casam, geram filhos e educam-nos, sempre são chamados de padres, alguns até fazem parte de organizações de padres casados, reconhecidas pela Igreja Católica Universal… Então, em que ficamos, o Padre Martins Júnior não se despadrou e apenas sofreu injustamente, um acto dos mais desumanos que se possa imaginar, uma suspensão «a divinis», (ainda por cima metem Deus nesta coisa absurda). Não acatou tal prepotência de homens que deveriam respeitar um povo, uma comunidade que expressa a sua vontade. O Evangelho foi enviado às urtigas que é sempre inclusivo… O exemplo de Jesus nada serve, Ele que convive com o pior da sociedade (prostitutas, publicados, pecadores, doentes, pobres…). Qual o crime do Padre Martins Júnior, digam lá, levem o homem a um tribunal eclesiástico, vá sejam consequentes, julguem-no… Tem esse direito. Simples, hipócrita e doentio alimentar a teimosia que não é padre… Nada disto faz sentido, e revela a maior das contradições.
Mas, vamos a outro frete. A sacristia da Igreja do Monte, a mais famosa das igrejas da Madeira, este ano esteve vedada a reles jornalistas, ressabiados e comunas indignos de estarem no interior de igrejas quanto mais de sacristias onde se paramentam altos dignatários da Igreja Católica e onde se reúnem políticos da Madeira nova para cavaquearem sobre banalidades. Bem-feita. Não entra quem tem o dever de perguntar e o dever de informar. Mas, face ao ambiente, até acho que os jornalistas deviam estar mais que satisfeitos e considerarem este escorraço como uma distinção e nós cidadãos que queremos ser informados estamos agradecidos porque não recebemos este ano bacoradas patéticas da Madeira Nova. Todos ficamos a ganhar com tudo isto.
No entanto, há aqui mais um frete para a agradar a alguém. Andamos desejosos de construir uma nova capela nas Babosas, vá lá que não se impressiona quem se pensa ter poder e dinheiro para desembolsar alguns trocos para levantar do chão outro mamarracho religioso.
Umas babuseiradas talvez ajudem as Babosas. Acorde-se, um governo falido, sem dinheiro para comprar sequer papel higiénico para as escolas e para os hospitais, dominado pelo Governo Central e pela Troika, como pode arranjar mais dinheiro para obras inúteis. Não chegam os exemplos que temos por aí, padres aflitos com dívidas horríveis às costas. Tudo actos irresponsáveis, que são um ultraje ao nosso povo pobre e que diariamente luta incansavelmente para cumprir os seus deveres familiares. Tudo isto é insuportável, ofensivo e merece o nosso repúdio.
Senti pena pela atitude que se tomou contra os jornalistas, pois manifestou mais um gesto para agradar e para não ferir susceptibilidades. Se veio única e exclusivamente do Pároco, o que não me parece ter sido, porque não se espera isto de alguém ligado à comunicação social e com formação nesta área. A ele coube-lhe o trabalho sujo que alguém mandou executar escondido debaixo das saias e da sua vil importância. Mais, a haver proibição devia ser para toda a gente. A sacristia das igrejas serve para a paramentação dos sacerdotes para o serviço na liturgia e para pequenos diálogos com os fiéis que procuram os sacerdotes para resolver pequenos assuntos da vida.   
Finalmente, outro frete. As queixas do «nosso» prelado contra a RTP-Madeira, que não transmitiu a celebração deste ano de Nossa Senhora do Monte, são um frete aos poderosos desta terra que andam em guerra constante contra a linha editorial de alguns meios de comunicação social. Serve-lhes esta lamúria como uma luva, porque os reforça nas suas lutas e investidas. Uma pena que não se vislumbre isso, que mais não se perceba que o terreno é pantanoso entre nós e que qualquer sinal alimenta mais o frenesim do poder insaciável que nos domina. A Igreja é uma educadora, uma lutadora e deve sempre que necessário não se coibir de ferir susceptibilidades, exactamente, como o fez o saudoso Papa João Paulo II no episódio que refiro no início deste texto.
José Luís Rodrigues

sábado, 18 de agosto de 2012

São Roque


Neste fim de semana celebramos solenemente na Paróquia de São Roque, padroeiro desta comunidade, sita nas zonas altas da cidade do Funchal. Aqui reproduzimos uns pensamentos sobre o que representa esta figura que inspira tantos à solidariedade e partilha. Nada mais actual para os tempos que vivemos. Bom fim de semana para todos. Desfrutem na paz as imensas festas que por aí andam... 

Este que elege ser pobre contra o berço da riqueza paterna
Deixou-se levar pela moda do tempo que chamavam peregrinar
E nessa condição errante fruto da procura da fé
Faz o bem sem ver quem 
Só pelo amor ardente de servir te move
Os doentes da lepra, os pobres e os sem lugar na mesa do pão.
Nessa prática da amizade eis que a doença o toma como prova
Nisto o milagre do pão do fiel amigo do homem salva o santo
Da fome, da solidão e da mais devotada penúria.
Agora nos dias de hoje diante do altar de São Roque
Eu vejo a inamovível imagem da devoção sentida
De um passado grande de serviço na beira dos caminhos
Para que no hoje da estrada sintamos coragem
De olhar os doentes, os pobres e os simples
Com o mesmo zelo do amor cristão
Para que neste tempo e em cada tempo a vida tenha sentido
E a dignidade humana não seja uma miragem utópica
Mas um gesto, um sorriso, um afago, um olhar profundo...
Eis a água viva que deu saciedade à sede inquieta do santo
Ou antes o bastão do peregrino andante que semeia a esperança
Nos corações afogados no escuro do esquecimento e da solidão.
É esta mensagem que se toma do nosso santo Roque
Para que no peregrinar desta nossa vida
Os outros sejam a graça de Deus 
E o impulso para o nosso abraço.
José Luís Rodrigues

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Coisas que nos fazem perder a fé


Há dias assim. Por momentos perdemos o chão. Parece que tudo se esvai ou porque o céu caiu-nos em cima ou porque nada se encaixa no que nos parece inverosímil acontecer. A fé, deixa de existir porque nem sempre nos damos conta do que se vai passando e damos relativa importância a muitas coisas que nos rodeiam. Mas neste mês de Agosto tive um dia em que o vivi sem fé nenhuma em nada nem em ninguém. Que me perdoe Deus por este dia e por este vazio que se instalou dentro da alma.
Alguns poderão aferir e perguntar, se acontece isto a um padre quanto mais ao comum dos fiéis… Acontece a todos independentemente da sua condição, da sua vocação e profissão. Mas que raio de dia foi esse? Aqui vai. Dia 10 de Agosto de 2012, uma notícia.
A Notícia em altas parangonas anuncia que 16 festeiros gastam 310 mil euros num arraial ao Santíssimo Sacramento na Paróquia da Boaventura. Está a decorrer por estes dias. Onde se afere que o mais importante que apraz salientar é o seguinte: «É uma festa que ficará nas bocas do Mundo». Pelas piores razões e se ficar será negativamente. Sem dúvida que ficará nas bocas do mundo, mas entalado na garganta do Santíssimo Sacramento, que se engasga com tudo o que seja injustiça e caridade barata. Ou quiçá profanação de alto grau. Seria possível a sobriedade e ninguém se indignaria com tamanhas barbaridades.
Porém, grave, em tudo isto são duas coisas. Primeira existir um povo «superior» que se amarfanha, corre atrás da pimbalhada e profanação que tudo isto representa. Segundo, alguns indignaram-se com isto, outros apontam que resulta de uma promessa e que o dinheiro pertence aos 16 cavalheiros, que podem fazer com aquilo que é seu o que muito bem entendem e que quem se indigna está invejoso.
Sim, pode até ser uma promessa, mas por favor, sejamos coerentes e não se indignem com as pernas a escorrer sangue quando vemos pessoas a se arrastarem no Santuário de Fátima. Também cumprem uma promessa e fazem-no porque acreditam, em nome da fé, dizem.
Uma ressalva. Sou literalmente contra esta forma de pagamento de promessas, mas também o sou com as outras que implicam gastos exorbitantes, em qualquer tempo e contexto, especialmente nestes, onde se sabe de gente a passar fome. Um arraial com este gasto astronómico é um ultraje a quem se alimenta com a caridade dos outros, porque está no desemprego e não tem o suficiente para matar a fome dos seus filhos. Mais ainda, escute-se o que diz o Catecismo da Igreja Católica: «Os bem da criação são destinados a todo o género humano. O direito à propriedade privada não abole a destinação universal dos bens» (nº 2452). Nem mais.
Alguns poderão ainda crucificar o padre ou os padres das paróquias onde se realizam estes exageros. Não é tarefa fácil educar ou travar estas megalomanias. Porque a maioria do povo aceita e aproveita à brava estes momentos. E quando se trata de comezainas e festanças bastam alguns para incendiar o povo contra os padres e contra a igreja. Aos padres nestas situações, reza a experiência, que o melhor é «deixar andar», são apenas dois ou três dias, no caso 5 dias de glória para as vaidades e os abusos. É uma atitude para alguns que revela medo, covardia, mas considero estar cheia de sabedoria, porque se não se ganha amigos com tal atitude, também não se ganha inimigos. Por isso, deixa andar. Nós lá teremos o ano inteiro para cumprir o nosso dever e tentar «educar» o povo para o essencial. Porém, não devemos ser coniventes com os abusos e na medida do possível não participar ou selecionar muito bem em quais as ramboiadas é que devemos participar. O exemplo vindo de cima nestas coisas ajuda e muito.
José Luís Rodrigues

Pai da Mafalda fez 80 anos

Banda desenhada
Completou 80 anos – no registo consta 17 de agosto mas nasceu a 17 de julho – Joaquín Lavado, desenhador argentino, melhor conhecido como Quino e ainda mais famoso como o criador da banda desenhada cómica centrada no personagem da terrível menina Mafalda e dos seus pequenos amigos.
Quino não tem filhos mas a maneira como trata o universo das crianças mostra uma paternidade profunda e gratuita. As suas histórias são pequenas apologias para mostrar os desastres do mundo dos adultos, mas com delicadeza para o mundo da infância! E com que acutilância.
Diferentemente da banda desenhada norte-americana Peanuts – Charlie Brown, Linus e amigos – os quadradinhos da Mafalda não são fechados sobre si próprios: são abertos ao mundo, com os seus problemas sociais, e permitem a entrada dos adultos.
Quino teve a simplicidade de manter as suas histórias durante um tempo limitado, entre 1963 e 1973: quando sentiu que havia esgotado o que tinha a dizer com Mafalda, simplesmente mudou de género, sem forçar o prolongamento da série.
Há muita sabedoria sobre o mundo da infância nos seus quadradinhos, de tal modo que algumas histórias podem ser usadas como manual de vida. Como quando a professora manda declinar os verbos e, quando chega a vez do futuro de “amar”, a pequena Susanita responde: “Crianças!”; ou quando Mafalda, ouvindo de sua mãe que nasceu depois de muitos anos de casamento, grita: "E quem diabo disse que eu podia esperar?"; ou quando Miguelito se insurge contra as recomendações dos pais – "Não correr com sapatos novos, não saltar no sofá, não arrastar pelo chão!" - e conclui: “Para que serve ser criança, se não te deixam exercitar?”.
Mas Mafalda é também uma contestadora social, simultaneamente delicada e áspera. Reivindica o papel da mulher na sociedade; rebela-se contra as imposições sociais – simbolizadas na história em que é obrigada a comer a sopa – a interferência dos mercados e das corporações, bem como contra a superficialidade e a tentação da escalada social.
O que é realmente surpreendente é a delicadeza: não são adultos em miniatura mas crianças reais, que participam nos jogos infantis, que discutem, que levam palmadas dos pais; e que têm um pai e uma mãe que muitas vezes vivem as tensões do seu papel, como quando os pais de Mafalda se olham aterrorizados porque a sua menina "já vai à escola!".
Vale a pena os adultos relerem a Mafalda.
L'Osservatore Romano
Condensado e adaptado por SNPC

SNPC | 17.08.12 

Carlos Drummond de Andrade

Completam-se hoje 25 anos sobre a morte do poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). «Acho que a literatura, tal como as artes plásticas e a música, é uma das grandes consolações da vida, e um dos modos de elevação do ser humano sobre a precariedade da sua condição». Dois poema para assinalar a efeméride.


Visões

O Apóstolo São João foi realmente
um poeta extraordinário como igual
não houve depois –
nem Dante
nem Blake
nem Lautréamont.

Teve todas as visões antes da gente.
Viu as coisas que são e as que serão
no mais futuro dos tempos, e que resta
a prever, a como –ver, aos repetentes míopes
que somos e não vemos o Dragão
e nem mesmo o besouro?

Viu animais cheios de olhos em volta e por dentro,
glorificando Alguém no trono, semelhante
ao jaspe e à sardônica.
Viu a mulher, sentada na besta escarlate
de sete cabeças e dez chifres
e na fronte da mulher leu a inscrição: Mistério.
Viu o Nome que ninguém conhece
nem saberia inventar, pois se inventou a si mesmo.
Os surrealistas não puderam com ele.
Viu a chave do abismo
que Mallarmé não logrou levar no bolso.
Viu tudo.
Viu principalmente o supertrágico, a explosão nuclear, e nisto me afasto dele.

Não, não gostaria de predizer o fim do mundo,
como sete taças de ouro repletas da ira de Deus
despejando-se sobre a Terra.
Quero ver o mundo começar
a cada 1.º de janeiro
como o jardim começa no areal
pela imaginação do jardineiro.

Desculpe, São João, se meu Apocalipse
é revelação de coisa simples
na linha do possível.
Anuncio uma lâmpada, não Setembro(e nenhuma trombeta)
a clarear o rosto amante:
são dois rostos que, se contemplando,
um no outro se vêem transmutados.
Pressinto uma alegria
miudinha, trivial, embelezando
em plena via pública o passante
mais feio, mais deserto
de bens interiores.

Profetizo manhãs para os que saiba,
haurir o mel, a flor, a cor do céu.
O mar darei a todos, de presente,
junto à praia, e o crepúsculo sinfônico
pulsando sobre os montes. Um vestido
estival, clarocarne, passará,
passarino, aqui, ali, e quantos ritmos
um pisar de mulher irá criando
na pauta de teu dia, meu irmão.
Oráculo paroquial, a meus amigos
e aos amigos de outros ofereço
o doce instante, a trégua entre cuidados,
um brincar de meninos na varanda
que abre para alvíssimos lugares
onde tudo que existe, existe em paz.
E mais não vejo, e calo, que as pequenas
coisas são indizíveis se fruídas
no intenso sentimento de uma vida
(são 20 ou 70 anos?)
limitada e perene em seu minuto
de raiz, de folha dançarina e fruto.


Ausência 

Por muito tempo achei que a ausência é falta. 
E lastimava, ignorante, a falta. 
Hoje não a lastimo. 
Não há falta na ausência. 
...
A ausência é um estar em mim. 
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, 
que rio e danço e invento exclamações alegres, 
porque a ausência, essa ausência assimilada, 
ninguém a rouba mais de mim. (in 'O Corpo')

Carlos Drummond de Andrade 

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Nomes de Nossa Senhora

Será que Nossa Senhora sabe que tem estes nomes todos?  - Deve estar um pouco confusa... Não deixem de reparar no «etc»...

É a Senhora da Ajuda, da Alegria, do Amparo, das Angústias, dos Anjos, da Anunciação, da Apresentação, de Belém, da Boa Hora, da Boa Morte, da Boa Nova, da Boa Viagem, do Bom Despacho, do Bom Sucesso, das Brotas, da Cadeira, do Calhau, da Candelária, do Carmo, da Conceição, da Conceição do Ilhéu, da Consolação, do Descanso, do Desterro, das Dores, da Esperança, da Estrela, da Fátima, da Fé, da Glória, da Graça, da Incarnação, de Jesus, do Livramento, do Loreto, da Luz, da Mãe de Deus, da Mãe dos Homens, das Maravilhas, das Mercês, dos Milagres, do Monserrate, do Monte, da Natividade, da Nazaré, das Neves, da Paz, da Pena, da Penha de França, do perpétuo Socorro, da Piedade, do Pilar, do Pópulo, dos Prazeres, das Preces, da Quietação, dos Remédios, dos Remédios e Amparo, do Rosário, da Salvação, da Saúde, da Saúde do Monte Olivete, do Socorro, do Terço, do Vale, dos Varadouros, da Vida, das Virtudes, da Vitória, das Vitórias, etc.

Quando se perde

Só porque os tempos são sombrios e de perdas essenciais, são poucos os que se importam com isso. Uma pena. Mas também como dizia o poeta António Ramos  Rosa já se percebeu que assim é e sempre será: «A graça da salvação é para poucos»...

Quando se perde uma parte do sonho
Faz-se luto neste aqui de tristeza e vazio.

Quando se perde uma amizade
Faz-se lembrança do ideal que não morre.

Quando se perde um rosto
Faz-se espelho do sorriso da primeira hora.

Quando se perde uma voz
Faz-se som de Deus que no silêncio nunca engana.

Quando se perde a presença
Faz-se da solidão a fiel companheira de sempre.

Quando se perde o que nos engana
Faz-se festa em nome da libertação da verdade.

Quando se perde passos em vão
Faz-se redenção e vontade de seguir outros caminhos.

Quando se perde uma obsessão
Faz-se paz na descoberta do sentido.

Quando se perde afinal o que não tínhamos
Faz-se uma sensação de amor-próprio na certeza da paz.

Quando se perde um nada que nos oprime
Faz-se vida ainda mais vida na busca das mãos.

Quando se perde o rol multifacetado
Faz-se luz no amor que dizem não conjugar com o nada.

Quando se perde o vazio
Faz-se esplendor o horizonte que rogo neste futuro que recomeça.

Quando se perde a máscara
Só sei que nada se perde e basta isso para a alegria.

José Luís Rodrigues

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

O Padre de barbas


Texto sobre o Padre Martins Júnior, publicado no livro que aqui se apresenta na imagem.  Tenho a honra de participar neste interessante livro com um leque muito variado e grande de testemunhos sobre esta figura incontornável da nossa terra. Fica hoje este registo de parabéns ao padre Martins Júnior e que o seu testemunho mesmo que esteja ostracizado ou na margem faz jus ao Evangelho de Jesus de Nazaré que toma a peito todos os que não têm lugar nem vez na sociedade e no mundo. Os poderosos desta vida lá vão singrando por algum momento no alto do seu poder, mas também é neste dia que rezamos com Maria, Nossa Senhora: 
«Manifestou o poder do seu braço *
E dispersou os soberbos.
Derrubou os poderosos de seus tronos *
E exaltou os humildes.»

Os meus parabéns pelo 50º aniversário de vida sacerdotal do padre Martins Júnior... E à comunidade da Ribeira Seca, estendo o meu abraço e que Jesus de Nazaré vos anime na fé e na coragem de serem sempre Igreja à luz de Jesus o único Mestre. É essa vibração que nos anima na esperança de que um dia veremos o desejo de Deus (e o nosso), «todos somos Igreja», concretizado historicamente. Parabéns à comunidade também, por estar a assinalar este dia de forma tão intensa e amiga em relação ao vosso padre. 

A primeira vez que falei com o padre Martins Júnior, já lá vão alguns anos, impressionou-me a avantajada barba, coisa rara de se ver entre nós. Foi junto da «sua» igreja na Ribeira Seca, por ocasião de um interessante passeio organizado pelo Padre Mário Tavares Figueira, que na altura era o meu pároco no Jardim da Serra. Ali estava o homem de quem tanto se falava.
Hoje cabe-me esboçar algumas palavras sobre a nossa amizade e admiração pelo trabalho a favor do povo da Madeira, a propósito da celebração dos seus 50 anos de vida sacerdotal. Eis o homem, José Martins Júnior, mais conhecido por Padre Martins, uma personagem incontornável nos últimos 50 anos, quer a nível político e quer a nível religioso da Ilha da Madeira. Figura controversa no panorama político e religioso regional, amado por uns e visceralmente detestado por outros. É assim a vida.
Entre as muitas coisas que aprendi com este homem destaco aquela que mais me tocou e que considero de elevada sabedoria: «o sangue do padre é o povo». Será por isso que podemos dizer que lhe corre nas veias um sangue que se chama povo. Será esse afinal o sentido, o único sentido para a vida, o sentido para tanta entrega ao povo.
Seguindo este pensar os dissabores são infindáveis. As perseguições um pão nosso quotidiano, porque o sacerdócio-serviço ao modo do Evangelho do «nosso» Jesus de Nazaré irrita solenemente os que fazem do povo o objecto da «vã glória de mandar». Este modo de ser ao jeito do «nosso» Cristo que não tinha assento no Sinédrio nem entre os Sumos-sacerdotes do Templo de Jerusalém, não trás benesses nem muito menos títulos honoríficos. Pelo contrário, quem toma o exemplo Daquele que acompanhava publicamente com os excluídos, tratados por pecadores, tem um destino traçado, a censura dos senhores do mundo, os do tempo e do templo, que se aliançam sempre contra aqueles que tomam o partido dos mais fracos desta vida.
O Padre Martins revela-nos uma história de vida onde fica claro que a mensagem cristã não é serviço a nenhum poder mas bem o contrário, é indignação com uma sociedade que tem os pobres como legitimação do poder e da vontade de dominar, ele é revolta de todo género de subjugação e exploração do homem pelo homem, ele é luta pela justiça, ele é inconformismo perante o pensamento único, ele sempre foi acção e compromisso, ele é convicção de ideais e valores que sabe serem os únicos que produzem a paz e a felicidade para todos.
Uma voz lúcida perante as imensas vozes caixas-de-ressonância, que só sabem ser voz do pensamento único, do chefe, das hierarquias e dos ditames partidários e da nomenclatura religiosa. Muitas vezes uma voz isolada, solitária a «pregar» no deserto do vazio de ideias, de pensamento e de verdade. Mas necessária e importante como sinal de que vale muito a luta contra séculos de alianças e manipulação dos poderes face aos mais fracos e indefesos da sociedade. Esse conluio encontrou um «guerreiro» vigoroso na pessoa do Padre Martins. 
No auge da sua entrega ao povo que amava, quiçá a precisar de apoios de quem o devia dar por dever de função, intenta antes retirar-lhe a legitimidade por decreto (só papeis) para fazer sangrar-lhe das veias o «sangue». Não chegou, porque a fidelidade ao povo (o seu «sangue») ditou a força e a coragem para continuar ao seu lado com maior determinação. É nisto que se faz hoje o sentido da Páscoa de Jesus Cristo.
José Luís Rodrigues

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Pérolas da Madeira Nova em tempo de penúria

Porque é Terça-feira, dia de farpas no menu do Banquete... Divirtam-se.
1. Mais uma loucura. Tantas capelas que por aí andam parcial ou totalmente degradas, votadas ao abandono e outras que funcionam a tempo inteiro ou a meio gás a criarem sérios problemas... Teima-se em erguer mais uma capela em tempos de penúria, quando se sabe de gente a passar fome. Neste panorama há vontade de gastar para quê mais 400 mil euros para erguer uma capela feia, sem justificação plausível só pela vaidade de se erguer mais um mamarracho para perpetuar um momento histórico, a celebração dos 500 anos da Diocese do Funchal e que ficará para receber mortos,  sim, porque será um espaço para a celebração de missas aos defuntos...
Serão feitos peditórios para este fim. Repare-se na joia que relata o catolicíssimo Jornal da Madeira de hoje: «Nesse sentido, e aproveitando a grande afluência de peregrinos nestes dias da Festa de Nossa Senhora do Monte (principalmente hoje e amanhã) serão solicitados donativos, ofertas, no Largo das Babosas, num espaço devidamente identificado pela paróquia, confirmou ao JM o Pe. Giselo Andrade. Com a mesma intenção tem-se promovido também a “devoção dos primeiros sábados”, com uma procissão entre a igreja do Monte e as Babosas. O custo total das obras está orçado em 400 mil euros. O projecto de arquitectura, em traços gerais, representa simbolicamente uma “vela ou chama”, sempre ”acesa”, enquadrada no ambiente natural. A “novidade” está centrada numa espécie de «triângulo», em referência às três Pessoas da Santíssima Trindade: «Pai, Filho e Espírito Santo.» A comunidade espera receber alguns apoios institucionais e outros dos católicos madeirenses em geral, uma vez que aquela capela está relacionada com o empenho de toda a Diocese no 50.º aniversário (em 1904) da proclamação do Dogma da Imaculada Conceição» (Jornal da Madeira, 14 de Agosto de 2012). 
A maior parte dos templos erguidos pela Madeira Nova ainda não foram pagos - lembram-se do mausoléu Igreja do Livramento?- Pois é, mas a sede de inaugurações tem de ter resposta, por isso, para que o burro não morra à beira do poço de sede, então a Igreja Católica da Madeira ajuda à festa, dá um empurrão, inventa capelas e outras obras para encher a vista dos incautos «patas rapadas» que alimentam a Madeira Nova com o seu voto. Façam-me um favor, moderem-se, porque os tempos são de penúria e sejam solidários com os padres que estão aflitos para pagar as dívidas astronómicas que a Madeira Nova lhes colocou nas costas. 
2. Mas a Madeira Nova no seu melhor continua. Sabe bem ouvir e ler isto tendo em conta «o céu aberto» em que os nossos «queridos» governantes tornaram a Madeira.
«Há aqui algo misterioso que não sei se envolve a influência americana nos Açores e ser uma zona que por razões estratégicas é exigido um certo recato». «É uma situação nebulosa, sobretudo por uma certa omissão que se nota neste período pré-eleitoral», disse, mostrando-se convicto de que os Açores não vão sofrer os mesmos ataques de que a Madeira foi vítima. (Alberto João Jardim, Jornal da Madeira, 13 de Agosto de 2012).
3. Mais uma pérola:
Num título a gordas, o jovem padre Giselo, pároco do Monte em festa, afirma que a «crise não se nota tanto quando se fala de fé».
Mas, também se a crise é só material, então, estamos bem, muito bem quanto à fé. Sim pelo restauro que de chãos que deram uvas antes do Concílio Vaticano II, realmente, é para crer de verdade que a fé está viva, forte e recomenda-se. Basta apreciar como a «nossa» igreja católica está tão forte de militância católica, tão atenta aos sinais dos tempos, tão empenhada na renovação à luz do Concílio Vaticano II, tão sofredora e quase mártir porque tremendamente profética na opção preferencial pelos pobres, na denúncia das injustiças, despojada de bens porque os coloca ao serviço de todos, tão transparente nas contas e no património que pertence a todos os fiéis da Madeira, um clero dos mais cultos do mundo, uma vibração espiritual que faz inveja a todas as igrejas particulares do mundo, uma igreja cheia de coragem que não descansa no trabalho que tem tido a resolver o grave problema que é o Jornal da Madeira, que passou de Jornal Católico a órgão oficial de um partido político e ao serviço da perpetuação de um homem no poder político e também religioso, por sinal. Finalmente, agora na efeméride da celebração dos 50 anos de vida sacerdotal do Padre Martins Júnior, com mais de metade suspenso ad divinis, encontramos uma igreja católica a fazer jus ao seu nome, incansável a resolver este problema e a reintegrar uma comunidade ostracizada pela loucura de antístes e governantes de Madeira Nova… Um quadro fantástico, que nos ajuda imenso a compreender a frase do Padre Giselo.  
4. Outra pérola está na manchete do Dnotícias de hoje 14 de Agosto de 2012. «A reformulação do concurso internacional para a construção do novo Cais do Funchal vai ficar três milhões mais caros. O valor da obra passou dos 15 milhões (valor previsto) para os 18 milhões».
Perguntamos nós: de onde virão mais estes milhões… Será que «o céu aberto» que é a Madeira fará cair do céu esta dinheirama toda? - Mais uma loucura em tempos de penúria…
5. Depois de muita rega de palavras e «muita água perdida, Pimenta de França, mesmo com os ânimos exaltados, esteve a explicar aos agricultores o que está a ser feito pelo IGA para resolver os problemas do abastecimento da água de rega».
Rebentaram com o sistema da água de «giro» que congregava as populações, que se juntava para organizar entre si a melhor forma de rega, de cuidar dos poços e das levadas. Estes sabotadores do melhor que as nossas populações tinham, em nome da ganância, do lucro e da criação de mais tachos desrespeitaram o nosso povo e mandaram às urtigas essas formas espontâneas de amizade e solidariedade que acompanharam o povo da Madeira desde os primeiros séculos. Mas em nome da Madeira Nova, era preciso rebentar e rebentou-se com tudo o que fazia a alma de um povo. Os ânimos já se exaltaram e será a meu ver apenas um cheirinho do que virá a seguir em todos os sectores da nossa sociedade. Aguardemos…
José Luís Rodrigues

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Perdão


Miguel Torga
-Sim...Perdão...Sim...Mas não posso:
Murmurou o padre-nosso
E tenho medo e vergonha
Sim...Perdão, Padre...Perdão...
É pecado...
Pedir!...Pedir o meu pão!
Uma boca não pede o que lhe é dado!
Sim!...Prometo e comprometo
A minha Fé...
Mas, ó Padre, quem é...?!
Ah! Não...Não, Padre...Perdão...
- E vem a morte...
- Pois vem...
- E o inferno...
- Também...
- Vai pedir perdão a tua Mãe
E a teu Pai...
Vai...
- Ninguém me perdoou, Padre, ninguém!
Nem meu Pai, nem minha Mãe!
Dizem no mesmo tom
Que nem sou mau nem sou bem.
Não me aceitam disforme,
Mas conforme...
- Pecador, faz penitência!...
- Já fiz sangue nos joelhos...
- Faz penitência!
- Já tenho os olhos vermelhos,
Já dei murros nos ouvidos,
Já matei os sentidos...
- Faz penitência!
- Perdão, Padre, perdão,
Mas não,
Já fiz tudo o que podia...
- Tem paciência,
Faz penitência
Mais um dia...

O PRINCIPEZINHO, Saint Exupéry

Boa semana e boas férias se for o caso!

Que quer dizer "cativar"? 
- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços "
(..)
Por favor cativa-me! Disse ela.
(..)
 Que é preciso fazer? Perguntou o Principezinho.
-É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu vais te sentar primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu vou-te olhar com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos"
(...)
Que é um ritual? Perguntou o Principezinho.
- É uma coisa muito esquecida também, disse a raposa. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas.
(...)
- Adeus, disse a raposa. Vou-te contar o tal segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.

domingo, 12 de agosto de 2012

Um olhar para dentro porque é domingo


“Bem-aventurados os misericordiosos
porque alcançarão misericórdia”

Os que compreendem e perdoam de coração as falhas dos outros.
Os que estendem a mão ao abandonado,
ao pobre, ao doente e ao que sofre.
Os que respeitam o ignorante, o idoso, o deficiente, o drogado…
Os que se pegam mais ao que nos une do que ao que nos separa.
Os que rezam com sinceridade:
«…como nós perdoamos a quem nos tem ofendido»
Os que compreendem e perdoam de coração as falhas dos outros.
Os que estendem a mão ao abandonado,
ao pobre, ao doente e ao que sofre.
Os que respeitam o ignorante, o idoso, o deficiente, o drogado…

Para recitar com frequência

Pai de misericórdia que salvas todas as dores, escuta os gemidos dos homens que Te clamam com um choro tão profundo. Pai bom e acolhedor, que perdoas as minhas culpas e os meus erros, escuta a minha humilde prece e concede-me o Teu perdão. Pai amoroso e optimista, que, apesar de todos os nossos males, confias em nós e nos dás a conhecer a alegria que nasce da conquista apaixonada da justiça. Já conheces as minhas condenações, já conheces a minha impaciência e a minha intolerância, vem salvar a minha impotência e animar a minha esperança. Já vives no meu coração debilitado e sofres com o meu pecado constante, enche-me do teu amor e dá-me forças para lutar. Já choras as minhas dores e doem-te as minhas maldades, deixa-me partilhar os suores e as penas dos peregrinos. Pai bondoso, que sempre nos dás oportunidades, torna o nosso coração generoso  para que sempre comecemos a caminhar…

sábado, 11 de agosto de 2012

Quando a Igreja vira circo


Onde é que eu já vi isto?
José Lisboa Moreira de Oliveira
Filósofo. Doutor em teologia. Ex-assessor do Setor Vocações e Ministérios/CNBB. Ex-Presidente do Inst. de Past. Vocacional. É gestor e professor do Centro de Reflexão sobre Ética e Antropologia da Religião (CREAR) da Universidade Católica de Brasília

In Adital

Era o mês de julho do ano de 1963 e eu não tinha ainda completado sete anos de idade. Em Araci (Bahia), minha cidade natal, celebrava-se uma festa de arromba: o Jubileu de Ouro do Apostolado da Oração da paróquia. Naquela época Araci era uma cidade pequenina formada apenas por três praças e menos de uma dezena de ruas. O município, com população quase toda rural, não passava de alguns milhares de habitantes. A cidade não tinha pároco e o padre vinha de vez em quando de Serrinha, a paróquia vizinha, situada a 36 quilômetros de distância. A região estava sendo assolada por uma seca que já durava quase três anos. Mesmo assim a festa aconteceu e o povo acorreu numeroso para participar, apesar de todo o sofrimento.
A abertura da festa se deu com a chegada do bispo diocesano de Feira de Santana (BA). Era a primeira vez que eu ia ver um bispo e nem sabia naquela época o que isso significava exatamente. Como toda criança, corri curioso, ao lado de meu pai, para a Praça da Matriz para ver a chegada de Sua Excelência. Fiquei impressionado. Uma figura imponente e vestida solenemente; usava luvas e sapatilhas e carregava atrás de si uma longa cauda, que era mantida suspensa a certa altura do chão por alguns caudatários. Entre esses caudatários estava um jovem seminarista, filho da minha terra e meu parente.
O bispo fez um discurso inflamado, rebuscado de frases em latim. Todos os presentes aplaudiram o "bom pregador”, embora quase ninguém tenha entendido nada, especialmente aquelas frases ditas na "língua da missa” que só o sacristão Zequinha, seu ajudante Agenário e a professora Dona Marieta – a mulher que tocava o harmônio da igreja – entendiam um pouco. Depois disso, o bispo deu a bênção do Santíssimo Sacramento, rebuscada com mais latim, o "Tantum Ergo Sacramentum”. A festa continuou por uma semana inteira: missas, pregações, confissões, batismos, casamentos e muito foguetório. Depois o bispo voltou para a sede da diocese, os missionários foram embora e o povo retornou para as suas casas. A vida voltou ao normal: luta contra a seca, fome, sede e miséria. "Seja o que Deus quiser”, repetia conformado o povo dos pobres.

A pergunta que nós somos


Também para mim é assim:

São Justino expressava assim, há tantos séculos: “Magna quaestio factus sum me”. (“Tornei-me para mim mesmo uma grande pergunta!”).

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Mãe negra que me olha


Mãe negra que me vês daqui para aí e vice-versa
O que penso dizer-te não sei
Mas se me vês já tudo foi dito na ternura
Com que me olhas nesses olhos negros da solidão.
Negro se torna saber de ti antes da fome
Que vistes nos filhos teus de África minha
Quando nesse lugar me fostes dada com carinho de mãe
Só por isso fiz-te negra mãe dos pobres
Na proteção que me devotas neste quarto desamparado.
Só o teu olhar pode ser festa de luz
Que busco nos recantos desta enxerga
Da memória que se esforça face à cruel lembrança.
E mais não direi deste segredo que se revela
No cruzamento deste filho ante a mãe negra que de longe
Me afagou no coração que me hospeda desde sempre.
Ser mãe esguia como esta chega o tempo e a hora
Em que nos olhamos no vértice desta curta distância
Que o meu chão suporta e esta mãe me abraça com o olhar apenas.
José Luís Rodrigues
Nota. Só mesmo Nossa Senhora para nos valer, já que o Santíssimo Sacramento, «está cansado», porque, profanado com o desrespeito e a bebedeira da falta de juízo. Confio-me a Maria já que estamos próximos da celebração da Assunção, entre nós, Senhora do Monte. Rogai por nós Santa Mãe de Deus.
Imagem Google...

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Eliminar tudo o que não presta

Comentário à missa do próximo domingo  XIX Tempo Comum
dia 12 de Agosto de 2012
O acontecer de Deus dá-se na história de cada um, não apenas num determinado momento mas na vida toda e em toda a vida. Se assim não fosse como teria razão São Paulo quando nos ensina que mesmo até antes da nossa concepção materna, Deus já pensava em nós…
O encontro com Deus tem a ver com todos os nossos projectos e com todos os nossos planos assumidos na história concreta da existência. Por isso, descobre-se a presença da vinda do Filho de Deus em todos os momentos em que somos capazes de viver a verdade cima de tudo e do domínio da roupagem dos contravalores que a carta aos Efésios nos aponta: «Azedume, irritação, cólera, insulto, maledicência e toda a espécie de maldade». 
Na nossa casa Deus acontece, em todas as ocasiões em que correspondemos com o amor para não criar misérias e contribuímos assim para a paz familiar tão necessária para a felicidade de todos. No trabalho, Deus está presente todas as vezes que soubemos assumir a responsabilidade no sentido em que aquilo que fazemos é um serviço elementar para a construção da sociedade. Em todos os momentos em que não nos inibimos de lutar contra a maldade, a inveja e a mentira, o Filho de Deus nem precisa de bater à porta porque já se faz realidade plena através das nossas acções... Como vemos o acontecer de Deus é sempre muito mais simples do que aquilo que nós somos capazes de imaginar.
Afinal, descobre-se que são tantos os momentos em que Deus vem para a nossa vida. Em cada gesto amigo e fraterno, está o reflexo do amor de Deus. Em cada sinal de partilha, Deus manifesta a Sua presença solidária. O acontecer de Deus está em todos os sinais onde o amor escorre. Daí Jesus se apresentar como «pão da vida», alimento que se enforma no coração, para ser vida que escorre pelas atitudes e palavras que dizemos uns aos outros. Se o alimento material se faz carne para manter o nosso corpo físico, Jesus faz-se alimento do céu, para manter-nos com vida em abundância, existência espiritual cheia de sentido, firme na esperança da vida em plenitude e eterna. Eis a felicidade que nos confere a descoberta de Jesus de Nazaré como «alimento».  
O cristão não deve temer nada e deve enfrentar toda a vida com a maior das liberdades. Porque viver toda uma vida cheio de medo e com desconfiança parece impossível, mas muitas vezes encontramos pessoas profundamente inquietas com o coração oprimido pelo medo e pelo desespero em relação ao futuro. 
A roupagem dos valores que São Paulo nos apresenta, liberta-nos e faz de nós homens e mulheres livres, prontos para a acção no mundo, porque acreditamos no Deus de Jesus Cristo, um Deus que é a total liberdade e não se deixa aprisionar por nada deste mundo. A Sua acção está sempre envolta em mistério e bate no coração de todos sem antecipação de espera e sem aviso prévio. A Sua liberdade é total e está dentro daquilo que dizemos sobre o Espírito Santo, que age onde quer, quando quer e em quem quer. Por isso, não façamos cerimónia e deixemos que a porta do nosso coração esteja sempre aberta para a chegada da visita tão ilustre, que é Deus e a Sua mensagem salvadora. A alma vigilante é aquela que está sempre preparada, para a surpresa da chegada do amor de Deus. Assim, a vida torna-se saborosa para todos os que semeiam no terreno dos dias os valores que Paulo nos aponta. Sejamos «imitadores de Deus».
José Luís Rodrigues

Novenas e festa de São Roque - ano 2012

NOVENAS DE SÃO ROQUE - ANO DE 2012
CELEBRAÇÃO DOS 50 ANOS DO CONCÍLIO VATICANO II

Dia 9 de Agosto às 20 horas
Novena da Alegria, Terça, Bugiaria e Igreja Velha
QUINTA: 1. O CONCÍLIO VATICANO II. O QUE É? 
Dia 10 de Agosto às 20 horas
Novena da Achada
SEXTA: 2. OS TEXTOS DO CONCÍLIO
Dia 11 de Agosto às 20 horas
Novena da Quinta
SÀBADO: 3. A MUDANÇA NA LITURGIA
Dia 12 de Agosto às 20 horas
Novena dos Emigrantes
DOMINGO: 4. O MUNDO COMO LUGAR DA SALVAÇÃO
Dia 13 de Agosto às 20 horas
Novena da Água de Mel
SEGUNDA: 5. A IGREJA COMO LUZ DOS POVOS
Dia 14 de Agosto às 20 horas
Novena da Cruz
TERÇA: 6. TODOS SOMOS IGREJA
Dia 15 de Agosto às 20 horas
Novena da Mocidade
QUARTA: 7. O DIÁLOGO ENTRE AS RELIGIÕES 
Dia 16 de Agosto às 20 horas
Novena da Paz
QUINTA: 8. A IMPORTÂNCIA DA PALAVRA DE DEUS
Dia 17 de Agosto às 20 horas
Novena dos Aliados
SEXTA: 9. A PAZ E A ESPERANÇA NA ACÇÃO DA IGREJA
Dia 18 de Agosto às 20 horas
SÁBADO: VÉSPERA DA FESTA EM HONRA DE SÃO ROQUE 
Dia 19 de Agosto às 12.30 horas
DOMINGO: SOLENE CELEBRAÇÃO EM HONRA DE SÃO ROQUE

- Começam hoje dia 9 de Agosto as novenas em honra de São Roque. São momentos litúrgicos de preparação para a solene celebração da festa em honra do padroeiro desta Paróquia sobranceira à cidade do Funchal. Apresentamos aqui os temas de reflexão para os vários momentos celebrativos destes dias. Quanto ao programa de diversão exterior à Igreja não precisa de divulgação. Haverá alguma animação e os tradicionais comes e bebes típicos dos arraiais madeirenses. Desejo uma boa festa a todos os que quiserem e tiverem vontade de participar nestes momentos. Com muita paz, alegria e convívio fraterno, convidamos para a festa.  

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Morreste-me, Salém


Sim foi o teu último dia nesta casa
No convívio que imprimias no latir.
Está vazia a tua cama
Está vazio o meu coração
Que não pensou nunca que se perdia
Com a tua perda.
Foste Salém nesta casa uma vida nobre
Deste-me alegrias e despesa.
Mas sempre compensaste tudo
Com a tua presença.
É tudo, o teu nome de Salém cidade da paz.
Com meiguice afiançavas sempre sim ou não
Com o teu faro reconhecido dizias
Quanto valeu a pena ser-te dono.
Foste amigo fiel
Companheiro sincero
Guardião zeloso.
Tudo numa amizade cúmplice.
Agora choro-te a partida
A morte que te levou de mim.
Mas guardo-te para sempre
Até ao dia em que te afagarei eternamente.
(Por favor, permitam-me mais este mistério).
Por fim morreste-me, Salém
E deixas-me em silêncio
Porque me espeta nunca mais poder ouvir-te latir.
Onde estiveres agora fica sereno e dorme
O sono do teu nome que te dei na hora primeira
Salém, Salém, Salém... Paz, paz, paz para ti e para mim
Na tristeza que me deu ver-te definhar na doença e na morte.
Salém para não esquecer nunca...
José Luís Rodrigues

Nota: também me lembrei do livro de Manuel Alegria «Cão como nós» escrito em memória do seu cão. Nele é dito, o que desejo também dizer agora a propósito do meu «grande amigo» Salém. Fiquem com as palavras que faço minhas em memória do meu inesquecível boxer: «Cão bonito, dizia eu, em momentos raros. E era um acontecimento lá em casa. Os filhos como que se reconciliavam comigo, minha mulher sorria, o cão começava por ficar surpreendido e depois reagia com excesso de euforia, o que por vezes me fazia arrepender da expressão carinhosa. Cão bonito. E ei-lo aos pulos, a dar ao rabo, a correr a casa toda. Digamos que aquele cão era quase um especialista nas relações com os humanos. Tinha o dom de agradar e de exasperar. Mas assim que eu dizia – Cão bonito – ele não resistia. Deixava-se dominar pela emoção, o que não era vulgar num cão que fazia o possível e o impossível para não o ser». 
Mais ainda: «Zanguei-me com toda a gente, não me deixes agora, é em momentos assim que um homem precisa do seu cão.» (pág. 93) «Estou a escrever o livro e quase sinto a respiração dele. Agora que acabei, posso fazer-lhe uma festa e dizer-lhe: - Cão bonito.» (pág.113) «(…) talvez para ele a cadeira não estivesse assim tão vazia. – ele está a sentir o avô, disse o meu filho mais velho.» (pág.70) «Podes correr comigo pela praia for, aqui ninguém nos vê, somos só nós e o mar, saltas a meu lado como se fosses um pedaço de areia e vento, uma estátua movente, cão de água, anda daí comigo por esta noite dentro.» (pág.67). 
In Cão Como Nós, Manuel Alegre