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terça-feira, 15 de janeiro de 2013

As figuras e contextos da crise

Farpas...
A crise tem vários contornos e várias camadas sociais que se encaixam aqui e ali por todos os lugares. Vejamos então alguns contextos e as pessoas que os constituem.
Primeiro, os catastrofistas. Estes olham para a crise como uma desgraça fatal. Não há ponta por onde se e tudo está irremediavelmente perdido. Daí que os anúncios do fim do mundo sejam feitos hoje com uma frequência nunca antes vista. A crise é sinónima de caos. Não há soluções nem alternativas, crise conduz ao empobrecimento, à morte e ao fim das conquistas feitas com suor e lágrimas.
Para estes catastrofistas dizia o Papa João XXIII referindo-se à Igreja mas que vale para qualquer contexto: «A vida concreta não é uma coleção de antigui­dades. Não se trata de visitar um museu ou uma academia do passado. Vive-se para progredir, embora tirando proveito das experiências do passado, mas para ir sempre mais longe.»
A estes que afirmam que a crise precisa de uma tragédia ou de um inevitável abismo o filósofo e pensador suíço diz o seguinte: «Caracterizar a crise como sinal de um colapso universal, é uma maneira subtil e pérfida dos poderosos e dos privilegiados impedirem, a priori, as mudanças, desvalorizando-as de antemão». Nem mais. Os catastrofistas sabem bem para o que vieram e anunciam ideologicamente os intentos que pretendem levar a cabo, com base no quadro da desgraça e da tragédia.
Segundo contexto é formado pelos conservadores. Olham para o passado com saudosismo e pensam que os problemas novos têm solução com as orientações do passado. Neste, encaixam-se as troicas todas deste mundo, os nossos governantes, alguma Igreja Católica, alguma parte das religiões e algumas confissões religiosas.
Estes olham a realidade de hoje e procuram manter as formas e fórmulas do passado. Nada de inovação e quanto à criatividade deve ser logo manietada ou cerceada à partida. Os que eventualmente apontam outra visão das coisas e soluções mais de acordo com o que se está a viver são logo apelidados com os pires nomes e devem ser marginalizados porque pretendem destruir o poder e as suas visões que assentam na verdade absoluta que herdaram do passado. Preocupante este contexto e este grupo.
Terceiro, os utópicos ou os idealistas. Estes são os da fuga para frente. Estão em sentido contrário dos conservadores. Por isso, o que se diz para os anteriores diz-se em sentido contrário para estes. A fuga para a frente sempre, custe o que custar ou doa a quem doer. O povo, os pobres, os fracos e os mais débeis têm já a sentença de delineada pelos idealistas, o seu fim, a morte. Seguros e cheios de si, estes, pensam, o futuro é que conta mesmo que o rasto de sangue e morte sejam a paisagem que as suas soluções provocam.
Quarto, os irresponsáveis. São os que vão escapando, porque «empurram os problemas com a barriga», fazem ouvidos moucos dos que sofrem e pouco se importam com o que vem a seguir, quem vier que faça ou resolva. Estes fizeram dívidas astronómicas, tomaram decisões irresponsáveis, fizeram da inutilidade uma mais valia para ganhar eleições e manter o seu poder. Nunca se importaram nada com os outros, quem vier que feche a porta. Agora estamos todos entalados e com uma carga de impostos às costas que nos tiram os rendimentos quase todos. As nossas propriedades deixam de ser nossas, pagamo-las anualmente a peso de ouro ao Estado, que se tornou um polícia das nossas vida, porque fez de nós cidadãos uns terroristas, que mais nada fazem senão ludibriar o Estado com falcatruas. Impressionante tudo isto, porque cruelmente factual…
Os irresponsáveis, pouco se ralam com o fim do Estado Social, para que serve a educação, a saúde e o bem estar geral da sociedade se isso não rende votos nem muito menos rende dinheiro imediato para alimentar a clientela familiar e partidária? - Estes irresponsáveis são os principais responsáveis pela tragédia que se abateu sobre o nosso povo.
Quinto, os que não vêm, não ouvem e não falam. Destes também estamos cheios. Dedicam-se a ver, ouvir e falam do que está longe, acima das nuvens. Pouco se importam com o que devem denunciar e soluções zero, porque não se deram conta que estamos em crise, no fundo do poço e numa viragem importante para uma sociedade outra. Para quê meter-se em sarilhos se a vida pode ser levada em silêncio, sem problemas com ninguém e no comodismo que lhes foi presenteado… É fugir destes. 
Sexto, os conscientes. Estes são os que vivem aqui e agora. São responsáveis perante o que vai surgindo, olham a realidade com lucidez e apontam caminhos e mudanças importantes para transformar a vida de todos. Estes podem ser chamados de responsáveis, porque estão conscientes do que é importante mudar, não temem o presente nem muito menos o futuro. Daí que a sua luta se centre na procura da justiça e do bem comum.
Estes sabem verdadeiramente quem vive ainda e viveu acima das suas possibilidades. Agora, reclamam para que os sacrifícios sejam distribuídos com justiça e que os verdadeiramente culpados pelo colapso sejam chamados à justiça para retribuírem o que roubaram. Este grupo e contexto, ganha em cada dia que passa mais adeptos e o grupo engrossa cada vez mais. Devemos estar felizes com isso e lutar todos para que a consciência dos nossos males nos torne lúcidos lutadores daquilo que verdadeiramente importa construir quanto ao bem que se deseja para a sociedade em geral.

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