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domingo, 10 de fevereiro de 2013

O culto a Baal nos nossos dias

José Luís Rodrigues
Texto de opinião que saiu hoje no Diário de Notícias do Funchal, 10 de Fevereiro de 2013, Seção Sinais dos Tempos...
 
No Antigo Testamento, é frequente encontrarmos o nome Baal para designar o deus de uma região vizinha de Israel, Ugarit. Em Ugarit, Baal era conhecido por diversos títulos: «rei dos deuses», «o altíssimo», «príncipe Baal» e «o cavaleiro das nuvens». Nomes que alguns deste tempo não assumem, mas sonham com eles.
A posição de Baal como «rei dos deuses» em Ugarit, ajuda a explicar o «problema de Baal» no Antigo Testamento. A religião de Jeroboão o reino do norte absorveu o culto de Baal, e em pouco tempo parecia não haver diferença entre os dois cultos ou, se ele existia, era tão ténue que venerar um ou o outro era apenas uma questão teológica. Com este tipo de problemas os profetas como Elias tiveram que lidar. O povo não tinha textos da Sagrada Escritura, apenas os profetas e a sua mensagem. Quando não havia um profeta por perto para esclarecer o assunto, era mais fácil seguir o que os vizinhos faziam, especialmente, se o seu rei não se importasse, ou até mesmo preferisse isso mesmo para fazer valer o seu poder e os seus intentos dominadores.
A idolatria é reincidente na história da humanidade. Todos os povos sempre se perderam bastante na adoração de deuses falsos e sempre idolatraram os seus chefes quanto mais eles se tornavam todo poderosos e auto convencidos como sendo eternos.
Nós mergulhamos nesta fatalidade e estamos como que amarrados a esta desgraça que subjuga um povo inteiro, habituado ao silêncio, a comer calado o prato que lhe era serviço, mesmo que fossem raízes, semilhas a bico de ombro, milho sem peixe, massa com couves com carne de porco a acima de palmo de gordura, cargas enormes sem molhelha, pão que o diabo amassou com a colonia de antes e da agora - não é menos feroz que a do antigamente chamada de ingleses ou de gente tomada de sangue azul das farsantes tias celibatárias - todos obrigados a sofrer com a paciência de santo, porque é pecado reclamar, dizer nem que seja um ai, pecado ter prazer com as coisas boas da vida, pecado dar um beijo de carinho, ser feliz no matrimónio e ter um trabalho onde se expresse a inteligência e se coloque as capacidades ao serviço da liberdade, da justiça e do bem comum. A lógica é não pensar, comer e calar. Porque Baal, no novo Israel com Jeroboão, assim o determina e pensa por todos.
Os poderes mascarados de Palavra de Deus foram ditando as regras e subjugando tudo quanto puderam, porque assim devia ser. O dinheiro de Baal providenciava, ajudava a calar, a não trabalhar, a não ter dignidade. Bastava rezar, rezar muito adorando quem tudo podia e sabia da verdade que interessava fazer passar.
O culto a Baal cresceu e deixou marca. Agora que reina a fome consequência do drama do desemprego, os idosos na maior solidão votados ao abandono, as crianças sem escolas com condições essenciais para aprenderem, os jovens sem oportunidades quanto ao seu futuro… Mesmo que tudo esteja na pior das desgraças, Baal apresenta-se idolatricamente à cidade e ao mundo com uma auréola requintada de nada, santos deste mundo cheios de coisa nenhuma para serem adorados sem mácula e para redimir coisa nenhuma.
Israel segue Jeroboão os caminhos do tempo à conta de migalhas e também de presença fotográfica como se disso se pudesse fazer pão para alimentar os esfomeados. Os profetas desta Jerusalém calam-se e deixam o medo suspirar em ais que se reduzem a singelos apelos a caridadezinha barata, a oração sem militância e ao silêncio calculado a metro e a peso de ouro. Os cultos estão de tal maneira confusos que os poderes reduzem-se aos ínvios caminhos que salvam a auréola do santo sem se importarem nada com a sua mensagem. Dito e feito, eis o culto a Baal neste tempo.

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