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terça-feira, 5 de março de 2013

A despedida sem fim

Alta literatura do «nosso» pensador e ensaísta Eduardo Lourenço para analisar a resignação do Papa Bento XVI... A não perder.

 - Desta vez, e literalmente, a ficção ultrapassou a realidade. Não houve profecia ou perspectiva racional que a antecipasse. 

Caiu do céu mediático, fascinou-o como o raio que feriu o templo de Bramante de Miguel Ângelo. Tudo isso, porque um Papa decidiu, com surpresa universal, abandonar um trono que não tem outra realidade que a de uma fé milenária num Poder sem outro poder que o da crença num Deus sem Poder. Como se não bastasse, o último Papa canónico, por decisão própria, encenou a sua retirada de cena com uma mestria consumada. A imagem do helicóptero sobrevoando o Vaticano podia ser a versão pós-moderna da ascenção de Jesus num mundo sem transfigurações propriamente divinas.
Para a memória cinéfila de um século cinéfilo e agora em versão discreta, este passeio celeste pelos céus romanos lembra irresistivelmente uma das aberturas mais espectaculares do cinema italiano da idade de ouro. Uma abertura às avessas desta mística retirada para um silêncio simbólico e real de quem não menos simbolicamente e como herança milenar representava na terra a incarnação de um poder transcendente ainda seguro da sua missão e da sua perenidade. Refiro-me à soberba abertura de La Dolce Vita genial e sacrílega versão da mesma transcendência representada no filme pela estátua de Cristo suspensa do helicóptero e em busca de um sítio onde pousar ou descansar o seu peso sacro convertido em divertimento para os pilotos que sobrevoam a cidade eterna e namoram dos altos céus as soberbas lollobrigidas da terra mais reais que todas as transcendências. Quem pode esquecer esta memorável e perdurável desertificação do sagrado no centro mesmo da cidade que “eternamente” o representava a nossos olhos e lembrança ocidental?
No fundo, foi esta cena, de uma transcendência convertida em espectáculo, e com ele tudo o que ele significava, aquilo que o antigo Papa desertou para melhor preservar a eterna nostalgia do sagrado que humana e simbolicamente encarnava trocando o ruído do mundo pelo seu silêncio como forma mais alta de fidelidade ao “único necessário”, essência desse sagrado. Não será por acaso que o seu gesto teve lugar num momento de uma crise geral do sentido para uma civilização baptizada de “ocidental” de que o cristianismo era (ou ainda é em termos de fé morta...) a referência histórica. E, em particular, a de uma Europa, sua expressão mítica ou mitificada que, em múltiplos sentidos, já não sabe o que é, o que quer e que utopia, sacra ou profana, a move ou seduz.
Inesperado foi que a mais espectacular expressão desse désarroi quase palpável nos viesse do centro espiritual e histórico da mesma Europa, consciente da sua agonia política e cultural. E talvez mais do que tudo ética, e por assim dizer, metafísica. E, sobretudo, que a sua encarnação e a sua figura não fossem as de um Sansão sobre-humano  capaz de abanar as colunas do templo, mas as de uma criatura de aspecto frágil e delicado, apenas mais consciente do que o comum dos mortais da espécie de noite ou da clara agonia de um velho mundo que ninguém pode salvar senão assumindo-as, descendo silenciosamente ao seu próprio túmulo e deitando-se nele esperando aí uma profética ressurreição. Em suma, unindo paradoxalmente a versão redentora do Cristianismo e a sua versão nietzschiana: “só os túmulos conhecem as ressurreições”. (Quem diria melhor do que isto senão um filósofo...).
Mais prosaicamente a sua despedida deste mundo e neste mundo é, ao mesmo tempo, uma despedida real e uma recusa de um mundo que não tem mais futuro que o seu presente sem futuro, resignado ao culto idólatra do seu poder e da sua glória. Quer dizer, uma despedida sem fim por conta de uma esperança e de um outro mundo — o nosso— em perpétua busca de si mesmo, como virtualmente eterno.
Eduardo Lourenço, com a devida vénia, in Público 5 de Março de 2013.
ensaísta 

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