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segunda-feira, 22 de abril de 2013

E se não fosse a Madeira uma terra de turismo?

A 26 de Abril de 2001, a Conferência Episcopal Portuguesa escreveu um documento com este título: «Crise de Sociedade – Crise de Civilização», era um documento precioso do ponto de vista da denúncia certeira sobre aspectos políticos dos últimos tempos e era uma reafirmação convicta sobre a doutrina fundamental da vida humana em todos os seus aspectos.
Na altura acordaram os bispos que estávamos indo mal com a lei da pílula do dia seguinte, as uniões de facto, as salas de chuto, a generalizada violência e insegurança, a marginalização social, a falta de confiança no sistema judicial, a toxicodependência e a delinquência juvenil, a falta de apoios e protecção da família, a confusão generalizada no sistema de saúde e na educação, os riscos da globalização, a mediatização da vida, os novos poderes, o poder político está fragmentado e enfraquecido, a perda de confiança nas instituições, a margem cada vez maior para a ilegalidade e desorganização legal, etc. O que terá mudado para dizermos que este rol de problemas já não consta da leitura que fazemos da sociedade? - Não mudou nada, tudo está diferente para pior. Aumentou isso sim, a multidão de gente vítimas de cada um destes aspectos. Mais ainda se acrescentarmos as vítimas sem-abrigo e os esfomeados que deambulam por todo o lado à procura de clemência e de alguma esmola. Mais ainda se acrescenta a insensibilidade política e a irresponsabilidade dos líderes políticos.
Choca-me que a «nossa» Igreja Católica, também não se sinta responsável por esta tragédia. Choca que diante da reportagem do Diário de Notícias do Funchal sobre a multidão dos sem-abrigo que calcorreiam as ruas da nossa cidade, uma instituição da Igreja Católica, vocacionada para a Caridade e a ajuda aos mais pobres, escarrapache que os sem-abrigo não são da sua alcança, não está esta organização vocacionada para os sem-abrigo. É o que dá transformar as instituições de caridade e de solidariedade verdadeiras empresas. Mas, dado que nos falta a paciência para instituições que fazem dos pobres matéria-prima, não perco mais tempo nem muito menos lhes presto atenção nem lhes faço mais publicidade.
Tantos sem abrigado dizemos em relação a estes dos números oficiais, manipulados pelas instituições. E os outros tantos, que não estão contabilizados, os que se escondem com vergonha, os que estão fora das ruas da cidade? E os que andam já cansados de bater à porta das instituições, a Segurança Social, o Instituto de Habitação, as Câmara Municipais, entre outros, que ao que dizem têm casas fechadas nos bairros que estão à sua responsabilidade? – São imensas famílias que andam de Anás a Caifás, mergulhadas na imensa burocracia ouvindo as piores respostas baseadas na tecnicidade e ao abrigo da frieza das leis…
Não contam as pessoas para nada, os seus anseios, as suas necessidades prementes. Assim se acomoda uma sociedade com a multidão de esfomeados e com a multidão dos sem-abrigo, os sem casa, os sem voz e sem vez no lugar da dignidade em cada canto do mundo e em cada rua das nossas cidades. Não podemos dormir descansados com esta fatalidade. Nem muito menos permitir que a pobreza, a fome, os sem-abrigo se transformem em paisagem. Meu Deus, se não fossemos uma terra de turismo, o que não seria. É preciso acordar…  
A nós que somos Igreja cabe-nos denunciar e anunciar em todos os tempos e contextos históricos esta radicalidade da esperança como sinal do Reino do amor e da paz que Cristo nos deixou. E não devemos esquecer que foi nos ambientes mais adversos à Igreja que ela foi mais útil e mais rica na vivência espiritual. Mas, entre nós o pecado da omissão tem muitos adeptos, infelizmente. Até quando, vai durar aquilo que faz consistir esta denúncia: «Cristãos mornos são aqueles que querem construir uma igreja à sua medida, mas esta não é a igreja de deus.» Francisco, Papa No Correio da Manhã e citado no Dnotícias de hoje (22 de Abril de 2013).

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