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quinta-feira, 11 de abril de 2013

O velho e o seu neto

As informações que vão circulando sobre as carências nos nossos hospitais são deveras preocupantes e lançam na consciência colectiva uma inquietação sombria que conduz ao medo de ficar doente e de ter que bater ao hospital de onde se pode sair mais rapidamente dentro de um caixão. A saúde e a educação devem ser bem geridas, mas não devia nos lugares da saúde e da educação faltarem pessoas devidamente qualificadas e bem pagas. Devem ter à sua disposição todos os materiais necessários para que a qualidade dos serviços não seja beliscada e em todos nós possa existir uma segurança e garantias de qualidade de vida seguros quanto ao presente e ao futuro. Ao ver esta manchete no Dnotícias de hoje, lembrei-me desta fábula que vos apresento adiante....
  
(Irmãos Grimm
 tradução de Ana Maria Machado)
Era uma vez um velho muito velho, quase cego e surdo, com os joelhos a tremerem. Quando se sentava à mesa para comer, mal conseguia segurar a colher. Derramava a sopa na toalha e, quando, afinal, acertava na boca, deixava sempre cair um bocado pelos cantos.
O filho e a nora dele achavam que era uma sujidade e ficavam com repugnância. Finalmente, acabaram por fazer com que o velho se sentasse num canto atrás do fogão. Levavam-lhe a comida numa tigela de barro e – o que era pior – nem lhe davam o bastante.
O velho olhava para a mesa com os olhos compridos, muitas vezes cheios de lágrimas.
Um dia, as suas mãos tremeram tanto que ele deixou cair no chão a tigela e ela quebrou-se. A mulher ralhou com ele, que não disse nada, só suspirou.
Comprou depois uma gamela de madeira muito barata e era aí que ele tinha de comer.
Um dia, quando estavam todos sentados na cozinha, o neto do velho, que era um menino de quatro anos, estava a brincar com uns pedaços de pau.
— O que é que estás a fazer? – perguntou o pai.
O menino respondeu:
— Estou a fazer uma gamela, para o pai e a mãe poderem comer quando eu crescer.
O marido e a mulher olharam-se durante algum tempo e desataram a chorar. Depois disso, trouxeram o avô de volta para a mesa. Desde então passaram a comer todos juntos e, mesmo quando o velho derramava alguma coisa, ninguém dizia nada.
William J. Bennett
O Livro das Virtudes
 Editora Nova Fronteira, 1995
(adaptação)

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