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segunda-feira, 13 de maio de 2013

Péguy: ler Jesus e a Sua mensagem nas Parábolas

Um percurso magnífico realizado por um dos grandes católicos franceses. A não perder.

Havia uma grande procissão; à cabeça avançavam as três Semelhanças:
a parábola da ovelha perdida;
a parábola da dracma perdida;
a parábola do filho perdido.
Ora tanto um filho é mais caro que uma ovelha,
E infinitamente mais caro que um dracma,
Tanto um filho é mais caro ao coração do pai,
(Do seu pai que é ao mesmo tempo, que é já, antes, que é primeiramente seu pastor),
Do que mesmo uma ovelha e cara ao coração do (bom) pastor,
Tanto a terceira Semelhança,
Tanto a parábola do filho pródigo
É ainda mais bela se possível e mais cara,
É ainda maior do que as duas Semelhanças antecedentes,
Do que a parábola da ovelha perdida,
E do que a parábola da dracma perdida.
Todas as parábolas são belas, minha filha, todas as parábolas são grandes, todas as parábolas são caras.
Todas as parábolas são a palavra e o Verbo,
A palavra de Deus, a palavra de Jesus.
São todas elas por igual, são todas elas ao mesmo tempo
A palavra de Deus, a palavra de Jesus.
No mesmo pé.
(Deus pôs-se neste caso, minha filha,
Neste caso mau,
De ter necessidade de nós)
Todas elas vêm do coração, por igual, e vão direitas ao coração,
Falam ao coração.
Mas as três parábolas da esperança entre todas
Vão à frente,
E entre todas são grandes e fiéis, entre todas são piedosas e afectuosas, entre todas são belas, entre todas são caras e próximas ao coração.
Entre todas estão próximas do coração do homem, entre todas são caras ao coração do homem.
Têm não se sabe que lugar à parte.
Têm talvez nelas sabe-se lá o quê que não há, que não haverá nas outras.
É talvez porque têm em si como que uma mocidade, como que uma infância ignorada.
Insuspeitada alhures.
Entre todas são jovens, entre todas são frescas, entre todas são crianças, entre todas estão por gastar.
Não envelhecidas.
Não gastas, não envelhecidas.
Desde treze ou catorze séculos que elas servem, e desde há dois mil anos, e pelos séculos dos séculos jovens como no primeiro dia.
Frescas, inocentes, ignorantes,
Crianças como no primeiro dia,
E desde há treze vezes cem anos que há cristãos e catorze vezes cem anos,
Essas três parábolas, (que Deus nos perdoe),
Têm um lugar secreto no coração.
E que Deus nos perdoe enquanto houver cristãos,
Por tanto tempo ou seja eternamente,
Pelos séculos dos séculos haverá para essas três parábolas
Um lugar secreto no coração.
E todas as três são as parábolas da esperança.
Em conjunto.
Jovens por igual, por igual caras.
Entre elas.
Irmãs entre elas como três crianças novinhas.
Por igual caras, por igual secretas.
Secretamente amadas. Igualmente amadas.
E como que mais interiores do que todas as outras.
Dando resposta a uma voz interior mais profunda.
Mas entre todas; entre todas três eis que vem à frente a terceira parábola.
E essa, minha filha, essa terceira parábola da esperança,
Não só está nova como no primeiro dia.
Como as duas outras
Suas irmãs.
E pelos séculos será nova,
Tão nova até ao último dia.
Mas desde há catorze séculos, desde há dois mil anos que ela serve,
E que foi contada a homens inumeráveis,
A menos que tenha um coração de pedra, minha filha, quem a ouvirá sem chorar?
Desde há catorze séculos, desde há dois mil anos tem ela feito chorar homens inumeráveis.
Pelos séculos e pelos séculos.
Cristãos inumeráveis.
Ela tocou no coração do homem um ponto único, um ponto secreto, um ponto misterioso.
(Ela tocou no coração.)
Um ponto inacessível às outras.
Sabe-se lá que ponto como que mais interior e mais profundo.
Homens inumeráveis, desde que ela serve, cristãos inumeráveis têm chorado com ela.
(A menos de terem um coração de pedra.)
Têm chorado por ela.
Chorarão homens pelos séculos fora.
Só de pensar nela, só de a ver quem poderia,
Quem conseguiria reter as lágrimas.
Pelos séculos fora, pela eternidade com ela hão-de chorar homens; por ela,
Fiéis, infiéis.
Na eternidade, até no juízo.
Quando do juízo, no juízo. E
É esta a palavra de Jesus que teve maior alcance, minha filha.
É ela a que teve melhor sorte Temporal. Eterna.
Ela despertou no coração sabe-se lá que ponto de correspondência
Único.
Por isso tem tido uma sorte
Única.
É célebre até entre os ímpios.
Entre eles achou, até aí, um ponto de entrada.
Talvez só ela tenha ficado cravada no coração do ímpio
Como um cravo de ternura.
Ora ele disse: Um homem tinha dois filhos:
E quem a ouve pela primeira vez,
É como se fosse pela primeira vez.
Que a ouvisse.
Um homem tinha dois filhos. É bela em Lucas. É bela em toda a parte.
Não está senão em Lucas, está em toda a parte.
É bela na terra e no céu. É bela em toda a parte.
Só de nela pensar, um soluço nos sobe à garganta.
É a palavra de Jesus que tem tido maior ressonância no mundo.
Que achou a ressonância mais profunda
No mundo e no homem.
No coração do homem.
No coração fiel, no coração infiel.
Que ponto sensível e que ela encontrou
Que nenhuma outra encontrara antes dela,
Que nenhuma encontrou, (tanto), desde então,
Que ponto único,
Ainda insuspeito,
Nunca obtido depois.
Ponto de dor, ponto de aflição, ponto de esperança.
Ponto doloroso, ponto de inquietude,
Ponto de tortura no coração do homem.
Ponto em que não se deve carregar, ponto de cicatriz, ponto de costura e de cicatrização.
Em que não é bom que alguém se apoie.
Ponto único, sorte única, força única de apego.
Aderência única, vínculo do coração fiel.
E do coração infiel.
Todas as parábolas são belas, minha filha, todas as parábolas são grandes.
E designadamente as três parábolas da esperança.
E todas essas três parábolas da esperança além do mais são jovens, minha filha.
Mas com esta centenas e milhares de homens têm chorado.
Centenas de milhares de homens.
Por esta.
batidos pelos mesmos soluços chorado as mesmas lágrimas.
Fiéis, infiéis, Umas revezando-se com as outras. As mesmas.
Desfeitos pelos mesmos soluços.
Numa comunhão de lágrimas.
Deitados, inclinados, soerguidos pelos mesmos soluços chorado as mesmas lágrimas.
Fiéis, infiéis.
Sacudidos dos mesmos soluços.
Chorado como crianças.
Um homem tinha dois filhos. De todas as parábolas de Deus
É a que despertou o eco mais profundo.
O mais antigo.
O mais velho, o mais novo.
O mais recente.
Fiel, infiel.
Conhecido, desconhecido.
Um ponto de eco único.
É a única que o pecador jamais forçou a calar no coração.
Quando alguma vez esta palavra mordeu o coração
O coração infiel e o coração fiel,
Nenhuma volúpia já apagará
A marca dos seus dentes.
Tal é esta palavra. É uma palavra que acompanha.
Segue-nos como um cão
Que se enxota, mas fica.
Como um cão maltratado, que volta sempre.
Fiel fica, volta como um cão fiel.
Por mais que lhe demos com um pé e com um pau.
Fiel ela mesma de uma fidelidade,
Única, Assim ela acompanha o homem nos seus maiores
Excessos.
É ela que ensina que nem tudo está perdido.
Não cabe na vontade de Deus
Que um só destes pequeninos pereça.
É um cão fiel
Que morde e que lambe
E as duas coisas prendem
O coração inconstante.
Quando o pecador se afasta de Deus, minha filha,
À medida que se afasta, à medida que se afunda em regiões perdidas, à medida que se perde,
Vai deitando para a borda do caminho, no mato e nas pedras
Coisas inúteis e embaraçantes e que o atrapalham os bens mais preciosos. Os bens mais sagrados.
A palavra de Deus, os tesouros mais puros.
Mas há uma palavra de Deus que ele nunca rejeitará.
Com a qual qualquer homem tantas vezes chorou.
Com a qual, pela virtude da qual. Pela qual
E ele é como os outros, também ele chorou.
Há um tesouro de Deus, quando o pecador se afasta
Nas trevas em aumento.
Quando as trevas
Crescentes
Lhe velam os olhos há um tesouro de Deus que ele não lançará, não, aos matos da estrada.
Porque é um mistério que acompanha, é uma palavra que acompanha
Nos maiores
Distanciamentos.
Não há necessidade de tratar dela, de a trazer.
É ela.
Que trata de nos e de trazer e de se fazer trazer.
É ela que segue, é uma palavra de sequência, é um tesouro que acompanha.
As outras palavras de Deus não ousam acompanhar o homem.
Nos seus maiores
Excessos.
Mas na verdade esta é uma descarada.
Ela agarra o homem pelo coração, num ponto que ela sabe, e não o larga mais.
Não tem medo. Não tem vergonha.
E por mais longe que vá o homem, esse homem que se perde,
Em qualquer região,
Em qualquer obscuridade.
Longe do lar, longe do coração,
E quaisquer que sejam as trevas em que ele se afunde,
As trevas que lhe velam os olhos,
Sempre o luar vigia, sempre uma chama vigia, uma ponta de chama.
Sempre uma luz vigia que jamais há-de ser posta debaixo do alqueire. Sempre uma lâmpada.
Sempre uma ponta de dor queima. Um homem tinha dois filhos. Um ponto que ele bem conhece.
Na falsa quietação um ponto de inquietação, um ponto de esperança. Todas as outras palavras são pudicas. Não se atrevem a acompanhar o homem nas vergonhas do pecado.
Não são suficientemente avançadas.
No coração, nas vergonhas do coração.
Mas esta em verdade não é envergonhada.
Pode-se dizer que é destemida.
É uma irmãzinha dos pobres que não tem medo de manejar um doente ou um pobre.
Por assim dizer ela
E mesmo realmente ela fez um desafio ao pecador.
Disse-lhe assim: Por toda a parte aonde fores, irei eu.
Havemos de ver.
Comigo não terás paz.
Não te vou deixar em paz.
E é verdade, e ele bem o sabe. E no fundo ele ama o seu perseguidor.
Bem lá no fundo, muito secretamente.
Porque bem lá no fundo, no fundo da sua vergonha e do seu pecado ele gosta (mais) de não ter paz. Isso dá-lhe uma certa garantia.
Permanece um ponto doloroso, um ponto de pensamento, um ponto de inquietação. Um rebentinho de esperança.
Um luar não se extinguirá nunca e vem a ser
a Parábola terceira,
a terceira palavra da esperança. Um homem tinha dois filhos.
Charles Péguy

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