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quarta-feira, 12 de junho de 2013

Ser Cristão – é preciso mudar mentalidades

Ontem dia 11 de Junho de 2013, ficará na nossa memória como o dia em que o Papa Francisco reconheceu haver corrupção no Vaticano e um lóbi gay. Não é novidade, foi essa a razão da renúncia de Bento XVI. O reconhecimento confirma a razão invocada. O Papa Francisco confessa-se incapaz de reformar a Cúria do Vaticano, porque é muito desarrumado, tal tarefa fica a cargo da comissão de cardeais nomeados para tal. Oxalá que esta graça aconteça para bem da Igreja e da propagação do Evangelho de Jesus de Nazaré, que aparece andar um pouco esquecido no meio deste imbróglio em que estamos mergulhados.   
Ficará também para os anais da Diocese do Funchal, que na celebração do seu 499 Aniversário, a presença na Madeira do Arcebispo de Braga, D. Jorge Ortiga, que proferiu uma conferência na Igreja do Colégio (11 de Junho de 2013), disse uma série de coisas bastante oportunas quanto à necessidade da mudança da Igreja. Disse, que é «preciso mudar as mentalidades», que «há padres secularizados, mas também há leigos clericalizados», que «antes os problemas eram os mesmos, as soluções eram as mesmas, agora não é assim, a vida e o mundo não se apresentam em tudo da mesa forma e com os mesmos contornos», mais ainda assinalou a necessidade de fazer-se a aposta no que já existe e apelou à criatividade para que surjam novas formas de evangelização da Igreja e do mundo. Todos são chamados a este trabalho, porque o tempo da Igreja piramidal determinista acabou e eis que chegou o tempo da comunhão e união fraterna com grande respeito pela pluralidade e diversidade.
Alguns acharão que estamos perante um discurso ousado. Realmente, também considero. Nem sempre foi assim este bispo. A idade e as circunstâncias fazem as pessoas. Ainda bem.   
Mudar mentalidades, foi o que disse como mote da sua comunicação. Urge hoje inventar novas maneiras de ser cristão ou de ser fiel - não só no sentido de fidelidade, mas também no sentido de ser cristão de plenos direitos e deveres na Igreja -, será a linha de fogo da Igreja em geral, mas particularmente da Igreja da Madeira que está a celebrar 500 anos de existência.
Inventar não em nome de gostos e caprichos, mas em nome da máxima fidelidade ao Evangelho de Cristo, o único a quem devemos cantar: «És a nossa fé». Não ser cristãos como quem vive de uma recordação que vai desaparecendo pouco e pouco, mas ser fiéis à responsabilidade que o estatuto de filhos de Deus confere e que São Paulo exprime: «Se somos filhos, somos também herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo» (Rom 8, 17). Quem diz herdeiro, diz continuador da missão, da vida e sujeito na transformação do mundo.
As quatro etapas devem ser esclarecidas por todos na Igreja, mas de modo especial pela hierarquia a quem compete guiar os fiéis à santidade. Deles deve vir o impulso que permitirá a muitos cristãos desestabilizados a fazerem o funeral do mundo do qual se sentem órfãos e reencontrarem o dinamismo inscrito no centro da sua fé.
Os psicólogos verificam todos os dias que os traumatismos sofridos pesam muito, mas mais grave ainda é o seu recalcamento. A dor aumenta quando a pessoa atingida não pode manifestar o seu sofrimento e não tem quem a oiça com atenção. É importante que os cristãos possam manifestar o seu descontentamento e o seu desgosto, a sua impaciência e, por vezes, a sua raiva. E os bispos e os padres não devem ficar ressentidos, porque essa manifestação saudável afinal acontece.
Por isso, renovarem-se e saírem do sofrimento faz supor que se purificaram interiormente em relação à crise, o que implica terem sido ouvidos. A hierarquia deve continuar a ver chegar-lhe esta queixa por vezes difícil de escutar. Compreende que é também sua tarefa acolher os decepcionados com a Igreja (ou os «vencidos do catolicismo» como diria Ruy Belo e tantos outros irmãos que se desencantaram com a Igreja ou que simplesmente foram esquecidos por ela). Os desencantados com os tempos, aqueles que a história recente afastou, aqueles que se inquietam com os progressos do mundo. Interessar-se-á por compreender a angústia de alguns cristãos e as suas interrogações. Preocupar-se-á com o acolhimento benevolente tanto das tentações de recuar, como das tentativas de experimentar. Sobretudo, saberão confiar na armadilha de uma atitude de defesa orgulhosa de um equilíbrio passado que se desfaz sem que a isso se possam opor.
No fundo, basta não marginalizar ninguém e centrar toda a missão evangelizadora no acolhimento de todos como irmãos, numa atitude de humildade e desprendimento. Uma Igreja interessada só em bens deste mundo não tem futuro e tem os dias contados. Por isso, requer-se uma Igreja que ponha em prática a expressão tão conhecida e badalada do Papa João XXIII, «a Igreja, deve ser Mãe e Mestra». Mais deve a Igreja toda estar ciente da palavra do Evangelho: «toda árvore boa produz bons frutos, enquanto a árvore de má qualidade produz maus frutos. Uma árvore boa não pode dar maus frutos, nem uma árvore de má qualidade pode dar bons frutos» (Mt 7, 17-18).
Para abandonar a Igreja da crise, é preciso fazer-lhe o funeral, depois é preciso também aceitar a realidade, a separação, a ausência, o desaparecimento, o desenvolvimento, as crises e os sofrimentos.
O carisma do acolhimento, da confiança, da renovação, será uma qualidade de que há-de fazer prova a Igreja dos próximos tempos, porque a Igreja tem necessidade disso. A fase que se aproxima permite-o e exige-o.

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