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segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Os fazedores da injustiça

Não posso ignorar. Não posso deixar de ver. Não posso calar. Por isso, digo com clareza, estamos diante da pior injustiça e diante dos piores insultos contra as famílias que têm que fazer uma enorme ginástica aos míseros euros que vão caindo mensalmente sobre a mesa, resultantes da caridade alheia. Os sem vergonha aí estão seguros daquilo que querem e impõe o melhor para si, mesmo que a ética seja enviada à urtigas. São tantos. Os que beneficiam da falta dela e os que consentem o descalabro vergonhoso. Tudo descaradamente diante da fome e da pobreza de muitos. Fiquemos então com António Aleixo e o Papa Francisco…

Acho uma moral ruim
trazer o vulgo enganado;
mandarem fazer assim
e eles fazerem assado.

Sou um dos membros malditos
dessa falsa sociedade
que, baseado nos mitos,
podem roubar à vontade.

Esses por quem não te interessas
produzem quanto consomes:
vivem das tuas promessas
ganhando o pão que tu comes.

Não me dêem mais desgostos
porque sei raciocinar...
Só os burros estão dispostos
a sofrer sem protestar!

Esta mascarada enorme
com que o mundo nos aldraba,
dura enquanto o povo dorme,
quando ele acordar, acaba.
António Aleixo

Mas lembremos também o Papa Francisco na Exortação Apostólica «Evangelii Gaudium», para que se leia sem interpretações, com os olhos de ver claro o que está escrito. Diz o Papa:
1. «Hoje, tudo entra no jogo da competitividade e da lei do mais forte, onde o poderoso engole o mais fraco. Em consequência desta situação, grandes massas da população vêem-se excluídas e marginalizadas: sem trabalho, sem perspectivas, num beco sem saída. O ser humano é considerado, em si mesmo, como um bem de consumo que se pode usar e depois lançar fora. Assim teve início a cultura do «descartável», que aliás chega a ser promovida. Já não se trata simplesmente do fenómeno de exploração e opressão, mas duma realidade nova: com a exclusão, fere-se, na própria raiz, a pertença à sociedade onde se vive, pois quem vive nas favelas, na periferia ou sem poder já não está nela, mas fora. Os excluídos não são «explorados», mas resíduos, «sobras»» (E. G. nº 53).
2. «Para se poder apoiar um estilo de vida que exclui os outros ou mesmo entusiasmar-se com este ideal egoísta, desenvolveu-se uma globalização da indiferença. Quase sem nos dar conta, tornamo-nos incapazes de nos compadecer ao ouvir os clamores alheios, já não choramos à vista do drama dos outros, nem nos interessamos por cuidar deles, como se tudo fosse uma responsabilidade de outrem, que não nos incumbe. A cultura do bem-estar anestesia-nos, a ponto de perdermos a serenidade se o mercado oferece algo que ainda não compramos, enquanto todas estas vidas ceifadas por falta de possibilidades nos parecem um mero espectáculo que não nos incomoda de forma alguma» (E. G. nº 54).
3. «Enquanto os lucros de poucos crescem exponencialmente, os da maioria situam-se cada vez mais longe do bem-estar daquela minoria feliz» (E. G. nº 56).
4. «Por detrás desta atitude, escondem-se a rejeição da ética e a recusa de Deus» (E. G. nº 57).
5. «O dinheiro deve servir, e não governar!» (E. G. nº 58).
6. «Mas, enquanto não se eliminar a exclusão e a desigualdade dentro da sociedade e entre os vários povos será impossível desarreigar a violência. Acusam-se da violência os pobres e as populações mais pobres, mas, sem igualdade de oportunidades, as várias formas de agressão e de guerra encontrarão um terreno fértil que, mais cedo ou mais tarde, há-de provocar a explosão. Quando a sociedade – local, nacional ou mundial – abandona na periferia uma parte de si mesma, não há programas políticos, nem forças da ordem ou serviços secretos que possam garantir indefinidamente a tranquilidade» (E. G. nº 59).
Por fim, digo eu, inspirando-me no documento do Papa, não se admirem que venha aí séria violência. Porque a intranquilidade já pode ser vista claramente a olho nu… Os fazedores da injustiça não podem vencer sempre, é da natureza que assim seja, é da vontade de Deus que este pecado por si mesmo tenha a devida punição.

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