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sexta-feira, 31 de maio de 2013

Em que crê quem crê na reencarnação?

São cada vez mais aqueles que acreditam na teoria da reencarnação com desprezo pela ideia cristã de ressurreição. É mais fácil, mais cómodo e aparentemente mais seguro acreditar na transmigração dos corpos ou da carne. Por isso, em que crê quem crê na reencarnação?
A palavra reencarnação, composta pelo prefixo «re» (que designa repetição) e do verbo «encarnar» (tomar corpo, carne), significa, tornar a tomar corpo. Indica uma acção do ser espiritual (espírito ou alma) que já animou um corpo no passado, foi posteriormente separado dele pela morte e agora informa ou vivifica um outro corpo.
Cumpre esclarecer, que a reencarnação não foi inventada pelos Espíritas, é uma das ideias mais antigas da Humanidade. Um papiro egípcio de 3000 A.C. já a menciona.
Na Grécia clássica, Pitágoras (580 a 496 A.C.); já divulgava o reencarnacionismo. No diálogo Phedon, Platão cita Sócrates (469 a 399 A.C): «É certo que há um retorno à vida, que os vivos nascem dos mortos». Esta mesma certeza consta da maioria das religiões antigas, como o Hinduísmo, Budhismo, etc.
Entre os romanos, Virgílio exprime a ideia dos renascimentos nestes termos: «Todas as almas, ainda que por milhares de anos tenham retornado à roda desta existência, Deus as chama em numerosos enxames ao rio Léthé, a fim de que, privadas de recordações, revejam os lugares superiores e convexos e comecem a querer voltar ao corpo».
A reencarnação está também na Bíblia. No A. Testamento, Jeremias diz: «Foi-me dirigida a palavra do Senhor nestes termos, antes que eu te formasse no ventre da tua mãe, te conheci; e, antes que tu saísses do seu seio, te santifiquei e te estabeleci profeta entre as nações» (Jer 1, 4-5). Ou, no N. Testamento: «Digo-vos, porém, que Elias já veio e não o reconheceram»; «Então os discípulos compreenderam que (Cristo) lhes tinha falado de João Baptista.» (Mt, 17, 12-13). E ainda: «Não pode ver o Reino de Deus, senão aquele que nascer de novo.» (Jo, 3, 3).
Contudo, entre os padres católicos, Orígenes é o que afirmou de forma mais precisa, em numerosas passagens do seu Princípios (livro 1°), a reencarnação ou renascimento das almas. A sua tese é esta: «A justiça do Criador deve aparecer em todas as coisas».
Alguns teólogos católicos, São Jerônimo afirma que a transmigração das almas fazia parte dos ensinamentos revelados a um certo número de iniciados. Nas Confissões, Santo Agostinho expressa dúvida em relação à reencarnação: «A minha infância não sucedeu a um idoso morto antes dela»... – Caso fosse, alguém estaria reduzido à escravidão.
Muitos mais caminhos poderíamos encontrar para justificar a teoria da reencarnação. Porém, para a fé cristã faz mais sentido acreditar na ressurreição ou na plenitude da vida. Não pode a existência senão ser uma caminhada para a eternidade, para uma vida gloriosa à maneira de Cristo ressuscitado. A vida não pode ser um castigo, mas sempre um dom.
A fé cristã, não encontra resposta satisfatória na transmigração das almas, se entendemos esse peregrinar como uma necessidade de purificação. O cristão é «outro Cristo», por isso, descobre o amor do Pai eterno, «Compassivo, justo, misericordioso e sempre pronto a perdoar» (doutrina dos Salmos), assim, basta aos filhos de Deus, uma réstia de arrependimento para acontecer de imediato a purificação. Para os cristãos, mesmo que o agora da vida seja terrível, faz sentido olhar sempre o futuro com muita esperança. O Deus revelado por Jesus Cristo não sabe castigar, mas apenas salvar eternamente. 
A meu ver, basta-me crer numa única encarnação, porque assim ocupo a minha fé a minha esperança com a ressurreição da carne não para este mundo, mas para o mundo que há vir onde a vida será plena de felicidade para sempre.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

O Corpo de Deus no coração da vida deste tempo

Mesa da Palavra
Comentário à Missa do próximo Domingo
Domingo do Corpo de Deus (Domingo IX Tempo Comum)
O Pão da Missa devia ser uma oferta adaptada a todos e cada um. Não devia ser oferta envolta com o mesmo papel, com o mesmo peso e com o mesmo volume. Não sei como fazer essa tal oferta variada para cada situação, tínhamos que pensar todos juntos. A Missa tal como nós a temos está muito igual para novos e velhos, para os de dentro e para os de fora. Como fazer da Missa a refeição onde todos se sintam participantes activos e onde todos se saciam abundantemente sobre a vida? 
Quando falo com os desencantados com a Igreja, dizem-me que a Missa está muito ritualista e muito medieval. De facto, as Missas têm pouco de encontro de irmãos. As grandes solenidades apresentam-se tão hierarquizadas que pouco têm a ver com a Ceia de Cristo. Precisamos não de muitas Missas, tal como se reduz a acção da Igreja actualmente, mas de Missas aqui e além, que sejam resposta à procura sobre o sagrado. Não precisa o mundo de Missas em quantidade, mas com qualidade.  O Papa Francisco já falou sobre isso. Obviamente, que falta reflexão séria sobre todas estas questões, mas a Igreja foge da reflexão e do pensamento como «o diabo foge da cruz». O que vejo com muita pena.
Agora é moda dizer que a Igreja não se submete às modas, assunto arrumado. É certo que o tempo da Igreja nem sempre é igual ao do mundo, mas foi esta Igreja que marcou o tempo e o ritmo da vida durante dois mil anos. O mundo mudou e a vida hoje corre a um ritmo acelerado sem precedentes na história. A Igreja ao recusar os contornos do mundo actual, limitar-se-á a ser um belo reboque, sem vez e sem voz no coração dos homens e mulheres deste tempo e do futuro. Pode vir a ser uma seita.
São vários os caminhos onde Deus não chega. Mas, sobressaem algumas experiências interessantes, onde a Missa se torna uma verdadeira festa: com as crianças, com os grupos de oração (p. ex. os grupos ditos carismáticos) as semanas de missão ou de evangelização e as novenas do Natal (as Missa do Parto) e das festas a Nossa Senhora e a alguns santos. Estes são ainda alguns oásis, falta muito mais. E acima de tudo falta coragem para fazer da Igreja o lugar do encontro dos irmãos. Falta uma revolução autêntica, para fazer da Missa o encontro de todos em igualdade de circunstâncias, sem fazer acepção de pessoas, porque, segundo São Pedro, o primeiro Papa da Igreja, todos os baptizados são sacerdotes e teólogos. Diz assim: «E vós mesmos, como pedras vivas, entrai na construção deste templo espiritual, para constituírdes um sacerdócio santo...» (1 Pe 2, 5).
A nós, Igreja, compete fazer da Missa a verdadeira oferta de Deus, que dá sentido à vida, revela o mistério, eleva a humanidade, encoraja diante da miséria e garante, absolutamente, a vitória da vida sobre a morte. Deixemos os passos da fé seguirem adiante pelos caminhos tortuosos desta vida.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Van Gogh Shadow: quadros que ganham vida

E o inimaginável acontece: as imagens eternas de Van Gogh ganham vida pela mão de Luca Agnani, especialista em mapeamento visual, 3D e iluminação digital. Belíssimo, Luca!

Belíssimo... Deliciem-se. Abram as imagens para o ecrã inteiro e deixem-se levar pelo que os olhos vêm e pelo que os ouvidos ouvem. Extraordinário.

Construir pontes

Não sei quem foi o autor. Mas a mensagem é sempre oportuna...

Olhamos à nossa volta e deparamos com situações de desavença, de desentendimento, de ódio, de relações cortadas. Isso acontece entre vizinhos, entre companheiros de trabalho, entre empregados e patrões, entre amigos, mas, pior ainda, entre membros da mesma família, como aconteceu no caso que vou apresentar.
Dois irmãos viviam pacificamente, lado a lado, trabalhando um grande terreno e terreno separado por um riacho. Houve o melhor entendimento entre eles durante muitos anos. Certo dia, por uma pequena questiúncula, brigaram: insultaram-se, dirigiram um ao outro palavras agressivas e cortaram relações.
Um dia, bateu à porta do mais velho um homem pedindo trabalho.
- Sou carpinteiro.
- Vais então trabalhar para mim. Com aquela madeira, vais construir uma cerca à volta do meu terreno, muito alta, de forma que não se veja de um lado para o outro. Nem quero ver o meu irmão, com quem briguei e com quem cortei relações.
- Muito bem! - respondeu o carpinteiro. Já compreendi.
O fazendeiro retirou-se para a cidade, deixando o artista no seu trabalho.
* Quando regressou, daí a dias, ficou espantado com o que viu. O carpinteiro, em vez da cerca, tinha construído uma pequena ponte que ligava as duas margens do riacho! Voltou-se para o carpinteiro e chamou-lhe atrevido por não ter feito o que ordenara.
* Mas houve mais surpresas: ao olhar para a ponte, viu que seu irmão mais novo se aproximava de braços abertos e disse: tu realmente fostes muito amigo, construindo esta ponte, mesmo depois do que eu te disse de ofensivo.
* De repente, num forte impulso, o mais velho correu na direcção do irmão. Abraçaram-se e choraram de alegria.
O carpinteiro preparava-se para ir embora com a sua caixa de ferramentas.
* Espera! Fica connosco, disse o mais velho. Tenho outros trabalhos para ti.
O artista respondeu: eu ficaria, mas tenho outras pontes para construir. E partiu...
Seria muito mais bela e feliz a vida, se, em vez de cercas e muros, construíssemos pontes – pequenas ou grandes – entre gente desavinda, mediando a construção da paz.
Bem-aventurados os que constroem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. 

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Chama-lhe antes que ela te chame

É mais que conhecida entre nós aquela advertência que é dirigida no meio da briga das duas comadres, que têm a mesma alcunha, Diz a amiga de uma delas: «chame-lhe antes que ela te chame». Serve esta curiosa máxima para este caso da briga, mas também serve para várias situações que estamos viver neste momento.
O descaramento é tanto que nos deixa perplexos. Como é possível dizer-se tanto perante o que se tem feito com medidas que se vai implementando que empobrecem cada vez mais as nossas famílias, que levam ao desemprego uma porção enorme de gente? Que geram pobreza e mais pobreza?
E intrigante mesmo, é termos que ver a razia de jovens (o melhor do nosso futuro) que emigram à procura de oportunidades porque a sua região bateu no fundo e não lhes garante futuro nenhum... Como é possível de manhã ser-se contra tais medidas e à tarde logo se assinar tudo por baixo de cruz para que sigam adiante? Há coisas que não encaixam e já há muito que deixou de ser poeira que nos cega os olhos, já inventamos alguma técnica contra essa poeira. Um descaramento que só pode mesmo ser isso da amiga da comadre que grita «chama-lhe antes que ela de te chame».
Neste âmbito do absurdo, inquieta e muito que aqueles que rebentaram com a autonomia regional, venham agora reclamar mais autonomia... São os mesmo que rebentaram com tudo que se acham capazes de levantar a Fénix das cinzas. Não creio nessas marotas intenções. Não passam disso, marotices para manter a ilusão de que ainda estão para dar muito futuro.
Outros falam que se acham avessos a hipocrisias, mas escondem armazéns de doações destinadas às vítimas de um determinado acontecimento que já se deu há 3 anos. Fabuloso zelo que brada aos céus. Sempre achei determinada caridade insultuosa para os pobres. Caiu a máscara e o folclore em nome da caridade, ainda bem.
Por fim, faz-se um silêncio atroz. Melhor, fala-se sem se dizer nada porque a realidade, não conta para chegar aos céus. Basta que se viva uma famigerada comunhão e unidade, que ainda ninguém percebeu o que é.
Neste quadro confrangedor, lá vamos nós assim entretidos na briga com vozes de todo o lado que vão fazendo ecoar «chama-lhe antes que ela te chame». E assim gente que devia ser responsável briga e brinca com coisas séria.

sábado, 25 de maio de 2013

A desilusão

Uma pequena coisa em poesia para ajuda no fim de semana...
Entre uma subida de alegria expectante
Pode fazer-se um passo leve de desânimo
Quando se vê um rosto que se ansiava numa tarde.
Mas disse depois não quero beber a taça
Do vinho novo nesta paz que diz a colina do sol.
Agora fico-me nesta perda de não saber
O que foi o pensamento que a alegria moldou
Nos campos verdes da serenidade
Quando no sonho as flores disseram
Toda a certeza da esperança.
Não quero... Não digo da desilusão
O sofrimento que bate do vazio
Quando o som do vento penetrou os ossos
Com o frio húmido desta certeza palpitante
Que desejei na hora daquela festa.
E há desilusão porque alguém fez ilusão
Coisa no vazio à porta do nada.
José Luís Rodrigues

sexta-feira, 24 de maio de 2013

A Santíssima Trindade


Mesa da palavra
Comentário à Missa do próximo domingo
26 de Maio de 2013
Santo Tomás, no final de seu tratado sobre a Santíssima Trindade, fala-nos das missões divinas e da habitação das três Pessoas Divinas em toda alma justa. Ele dá-nos uma certa inteligência deste mistério recordando-nos que Deus está sempre presente em todas as coisas, especificando de que maneira especial está realmente nos justos e quais são os efeitos da Sua acção neles. 
Conta-se que Santo Agostinho andava certo dia a passear na praia a meditar sobre este mistério da Santíssima Trindade: um Deus em três pessoas distintas... Enquanto caminhava, observou um menino que carregava um pequeníssimo balde com água. A criança ia até o mar, trazia a água e deitava-a dentro de um pequeno buraco que tinha feito. Após ver repetidas vezes o menino fazer a mesma coisa, resolveu interrogá-lo sobre o que pretendia. O menino, olhando-o, respondeu com simplicidade: - quero colocar a água do mar neste buraco. Santo Agostinho sorriu e respondeu-lhe: - mas tu não percebes que isso é impossível mesmo que trabalhes toda a vida? O mar é infinitamente grande. Jamais o irás conseguir colocar aí todo dentro desse pequeno buraco... Então, novamente olhando para Santo Agostinho, o menino respondeu-lhe: - ora, é mais fácil a água do mar caber neste pequeno buraco do que o mistério da Santíssima Trindade ser entendido por um homem!. É mais fácil colocar toda a água do mar aqui dentro deste buraco que o homem conseguir entender o mistério da Santíssima Trindade. 
O homem é infinitamente pequeno e Deus é infinitamente grande! A Trindade ou Santíssima Trindade é a doutrina acolhida pela maioria das igrejas cristãs que professam a Deus único preconizado em três pessoas distintas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Para os seus defensores, é um dos dogmas centrais da fé cristã, e considerado um mistério. 
É nesse mistério que acreditamos e é desse mistério que devemos dar testemunho. Este é um mistério mais para ser contemplado do que para ser dito ou mostrado. É um mistério inefável, próximo e distante ao mesmo tempo. E reconhecer isso não é fraqueza, mas abertura ao dom que Deus é e que pode fazer da nossa vida uma realidade de bem, que se vivido em plenitude fará do mundo um lugar de paz e de felicidade para todos.  Dêmos mais vida ao que somos e temos com a presença de Deus em nós!

quinta-feira, 23 de maio de 2013

A crise e o capitalismo selvagem segundo o Papa Francisco

Dada a oportunidade, não podia deixar de salientar aqui a importância da denúncia do Papa Francisco sobre as consequências do capitalismo selvagem. Um capitalismo selvagem que a humanidade viveu como se fosse já o paraíso na terra. Pois, era o tempo dos máximos dos máximos, ganhar pouco era miserabilismo, ter todos os bens materiais possíveis era a felicidade, gozar a vida o quanto mais e melhor possível era a realização pessoal mais adequada. Uma festa enorme carregada de ilusões que nos conduziu a esta desgraça da crise.
A crise, onde se sentou no trono o desemprego. Os mínimos dos mínimos é melhor que nada. Daí que se admire e se exalte alguém que tem a ousadia de criar o mínimo, porque é sempre melhor que nada.
Não é aceitável nem uma nem outra mentalidade. É condenável a mentalidade do capitalismo que não olha a meios para conseguir os fins, mesmo que para tal tenha que explorar ao máximo em função dos lucros e do bem estar de meia dúzia de privilegiados. As pessoas e a natureza, pouco ou nada contam e quando contam será para render ao máximo em função do bem estar desses alguns. A outra mentalidade que está a emergir, contenta-se com a exploração mesmo que a outro nível e teremos que aceitar que um dos países intervencionados pela troika, como é o nosso caso, apresente o maior índice de vendas de carros topo de gama no grupo dos países onde manda a troika. Inaceitável.
A maioria tem que se contentar com os mínimos, enquanto outra minoria mesmo que explore, deve ser exaltada, porque cria algum emprego, vende alguma coisa (mesmo que sejam camisolas). Tudo ao mínimo dos mínimos porque em tempos de miséria sempre é melhor ter alguma coisita, quando há bem pouco tempo se achava que nenhuma família vivia com o salário mínimo, agora já vive. Este volte face consoante as modas ou os contextos sociais, políticos e económicos são inaceitáveis e revelam as várias faces do mesmo capitalismo selvagem.
O Papa deixou duras críticas ao «capitalismo selvagem» durante uma visita à casa «Dom de Maria», dirigida pelas religiosas de Madre Teresa de Calcutá, que acolhe pessoas necessitadas, no Vaticano. Vejamos, «um capitalismo selvagem ensinou a lógica do lucro a qualquer custo, de dar algo a fim de receber, da exploração sem pensar nas pessoas ... e vemos os resultados na crise que estamos enfrentando», disse o papa.
A visita, que decorreu na tarde de terça-feira, visou assinalar o 25.º aniversário da entrega da gestão desta casa de acolhimento a Madre Teresa por João Paulo II.
Neste âmbito o Papa Francisco elogiou a hospitalidade «sem distinção de nacionalidade ou religião» que se vive na instituição, pedindo que se recupere o «sentido do dom», da gratuidade e da solidariedade.
Com olhos postos na tragédia do mundo, o Papa Francisco, releva que «na fronteira entre Vaticano e Itália, esta casa é um forte apelo a todos nós, à Igreja, à Cidade de Roma, a ser sempre mais família, abertos ao acolhimento, à atenção e à fraternidade».
Como que desejando e propondo uma alternativa ao capitalismo selvagem que conduziu à desgraça dos povos apresenta o seguinte: «já a palavra 'dom' define a identidade desta casa – pois doa acolhimento, apoio material e espiritual. Seus hóspedes, provenientes de todo o mundo, também são um dom para esta Casa e para a Igreja: vocês nos dizem que amar a Deus e ao próximo não é algo de abstrato, mas de profundamente concreto. Vocês doam a possibilidade aos que aqui trabalham de servir Jesus em quem está em dificuldade, em quem precisa de ajuda. Todos devemos recuperar o sentido do dom, da gratuidade e da solidariedade. Um capitalismo selvagem ensinou a lógica do lucro a todo custo, do dar para obter, da exploração sem olhar para as pessoas.... e os resultados nós vemos na crise que estamos vivendo. A música desta Casa é o amor».
Por fim, a última característica, se qualifica como um dom «de Maria». Maria de Nazaré, fez da sua existência um incessante e precioso dom a Deus. «Maria é um exemplo e um estímulo para aqueles que vivem nesta Casa, e para todos nós, a viver a caridade para com o próximo não como uma espécie de dever social, mas partindo do amor de Deus, da caridade de Deus». Que o Papa Francisco seja uma inspiração para os líderes mundiais, para que segundo a sua mensagem se entreguem à prática de políticas que defendam os povos, as famílias a se reconstruírem com dignidade. Que em nenhum contexto fiquemos satisfeitos com os mínimos dos mínimos, porque se assim for não faltará muito para se ouvir louvores à pobreza e ao miserabilismo. Ambos «filhos legítimos» do capitalismo selvagem em todos os tempos e contextos.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

O que sou e o que posso ser quando digo Pai-Nosso

Porque pode ser-vos útil, partilho convosco uma reflexão que realizei para um trabalho pastoral sobre uma oração que sempre nos acompanha ao longo da vida e que pode fazer parte de todos os momentos, a oração do Pai-Nosso. Na alegria esta oração ajuda-nos a darmos graças. Na tristeza e no desânimo ajuda-nos a retemperar as forças e a encontrarmos luz para seguir em frente. Na doença e na morte convida à esperança e à cura espiritual. Nos conflitos a serenar e a encontrar a paz pela força do perdão. Na desordem do mundo a encontrar equilíbrio e a certeza que Deus é maior do que tudo. Na relação com a natureza a louvar o dom que cada planta e cada animal por mais insignificantes que sejam são vestígios do poder criador de Deus. E mais e mais momentos que cada pessoa sempre encontra em cada dia onde decorre o encontro com o que somos e o que desejamos ser como alimento de que a vida pode ser uma felicidade quando sabemos conjugar a oração com as subidas e descidas nas montanhas da vida.
Na oração do Pai-Nosso estão contidas todas as coisas que se devem desejar e todas aquelas de que se deve fugir. Entre as mais desejadas estão as que se amam mais, isto é, DEUS. Por isso, a primeira que pedimos é a glória de Deus, dizendo: «santificado seja o Vosso Nome».
A Deus, fazemos três pedidos:
1) É o de poder alcançar a vida eterna, quando dizemos: «Venha a nós o Vosso Reino».
2) É para que façamos a vontade e realizemos a justiça de Deus, e pedimos isso quando dizemos: «seja feita a Vossa Vontade».
3) É para que se realizem as coisas necessárias à vida, e pedimos isso quando dizemos: «o pão nosso de cada dia nos dai hoje».
A estes três pedidos Jesus alude quando diz sobre o primeiro: «procurai antes de mais o Reino de Deus»; sobre o segundo: «a sua justiça», e sobre o terceiro: «e tudo o resto vos será dado por acréscimo» (Mt 6, 33).
Das coisas a evitar e das quais devemos escapar são aquelas contrárias ao bem. E o bem que devemos desejar é sempre o mais elevado. O primeiro é a glória de Deus. E nenhum mal é contrário a ela porque resulta quer do bem quer do mal: do mal enquanto Deus o rejeita, do bem porque o premeia. O segundo, é a vida eterna, e este é contrário ao pecado, porque ela é perdida com o pecado. Para o remover dizemos: «perdoai-nos as nossas ofensas como nós perdoamos a quem nos tem ofendido». O terceiro bem são a justiça e as boas obras, e a este bem são contrárias as tentações, porque elas impedem-nos de fazer o bem. Para remover este mal pedimos: «não nos deixeis cair em tentação». O quarto bem são as coisas necessárias à vida. Às quais se opõem as adversidades e as tribulações. Para remover pedimos: «livrai-nos do mal. Ámen».

terça-feira, 21 de maio de 2013

Conclusões da reunião do Conselho de Estado

Como habitualmente estivemos atentos às notícias sobre o que se vai passando e como não podia deixar de ser após grande expectativa na comunicação social sobre a altíssima reunião do Conselho de Estado, tomamos conta das conclusões e das reflexões que produziram os eminentes conselheiros do nosso país. Não vale a pena trazer aqui à conversa o que foi concluído. Uma infinidade de blablás que nos deixa perplexos. Estão voltados para a Europa, como se já não houvesse país ou não existisse um povo por estas bandas que precisa de ser salvo.
Agora, reparemos bem na fotografia que acompanha este texto e nas pessoas que compõem este eminentíssimo Conselho de Estado. Uma tragédia grega divertida de nulidades que não nos mereciam atenção nenhuma se não nos custasse muito caro alimentar este bando do reumático.
Se nos concentramos na fotografia que saiu deste Conselho de Estado, chegamos logo à conclusão, o que seria de nós se não fosse esta gente. Uma grande parte desta gente vive à pala do Orçamento de Estado com pensões de reforma luxuosas e insultuosas em relação à maioria dos portugueses que faz um enorme esforço mensalmente para cumprir com as suas obrigações e alimentar a sua família. Muitos deles acumulam rendimentos obscenos, em duplicado alguns deles, que bradam aos céus nestes tempos de penúria para a maioria do povo português.
Esta gente não tem vergonha e à cabeça está o Presidente da República, que legitima uma austeridade desumana e não se deixa afectar nada por isso. Este Conselho de Estado custa os olhos da cara ao país, pelo que se vai vendo é uma estrutura do Estado perfeitamente inútil e nestes tempos difíceis irritante porque nada diz e passeia-se em altas bombas e rodeia-se do maior dos luxos.
Não há um laivo de exemplo quanto a sacrifícios. Ninguém recusa nada, antes, luta para ter o que acha que tem direito, porque são «direitos adquiridos» ou estão bafejados pelo crivo da lei, como se não fossemos todos cidadãos de plenos direitos e deveres face à Constituição, que eles querem destruir. Enquanto andarmos assim com estas encenações patéticas, encabeçadas pelo mais alto representante da nação e por todos os que por aí abaixo se vão entretendo com mordomias e benesses chorudas à conta dos nossos impostos, não vamos lá.
Quem nos dera que deste Conselho de Estado tivessem vindo atitudes exemplares, palavras de ânimo para incentivar o povo português e que não se esquecessem dos alertas que têm sido feitos por tantas personalidades profundamente implantados junto do concreto do nosso povo. Quem não permite que se lhes abeire gente que grita que tem fome, que tem a água e a luz cortadas, porque não conseguiu pagar a conta entre outras contas que já não são pagas há muito tempo, não pode saber do que se passa nem mito menos ser sensível em relação às dificuldades que passa o nosso povo... Quem se anima com alguns míseros números e com palhaçadas de algumas gotas de sucesso não pode trabalhar em função daquilo que importa mesmo, está a leste da realidade.
Por isso, acordemos, vamos reflectir, lutar contra esta gente que destruiu o nosso país e por conseguinte não pode ser esta gente a levantar o país, como seria possível a raposa que papou o galinheiro todo pode depois voltar a encher o galinheiro. Venha sangue novo, que bem precisamos disso e não tenhamos medo das auroras dos tempos novos nem das pessoas que os encabeçam. É isso a democracia.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Novo Patriarca de Lisboa

Após um longo processo de um «diz-se que se diz» no Patriarcado de Lisboa e fora dele, eis que nos chegou a notícia da nomeação de D. Manuel Clemente, até agora bispo do Porto, para Patriarca de Lisboa. Foi com grande satisfação que recebi a notícia. Foi para mim um excelente professor de História da Igreja. Sempre acompanhei com interesse a sua atenção e diálogo com a cultura. A sua reflexão sobre a história da Igreja Universal, Portuguesa e a sua atenção zelosa em relação à cultura, é um dado enorme na pessoa de D. Manuel que não podemos de forma nenhuma descurar.
Agora todos dizem que era uma nomeação previsível. Após as várias peripécias quanto à saída de D. José Policarpo, não sei se seria assim tão previsível. Quem sabe se a presença do Papa Francisco não tenha agora alguma coisa que ver com o regresso de D. Manuel Clemente a Lisboa como Patriarca? - Não tenho dúvidas nenhumas que sim. Mas duvido muito que alguma claque sacerdotal de Lisboa esteja assim tão entusiasmada como nos querem fazer crer? Porém, para a Igreja portuguesa geral esta nomeação parece-me ser recebida com entusiasmo.
O Patriarca de Lisboa, não é o chefe da Igreja Portuguesa, como muita gente pensa e veicula. No entanto, por se tratar da Diocese da capital do país, o seu responsável ganha um papel relevante e todos assumem como o rosto principal da Igreja Portuguesa. O facto é esse, quer queiramos ou não. Por isso, será sempre interessante e animador para todos nós que para Lisboa seja nomeada uma figura que reúna uma dose elevada de inteligência, sabedoria e projecção nacional, exactamente, como é o caso de D. Manuel Clemente.
Desejamos os maiores sucessos para D. Manuel Clemente como Patriarca de Lisboa e que o seu saber seja um grande bem para a Diocese de Lisboa e que daí venham sinais e dinâmicas pastorais que influenciem toda a Igreja em Portugal. Bem precisamos de criatividade pastoral que coloque todas as dioceses do país na tradição profética da Bíblia e que soprem novos ventos no diálogo cultural, para que a Igreja Católica ganhe uma presença eficaz na construção dos valores na sociedade portuguesa. Que a escola do diálogo cultural levado a cabo por D. Manuel Clemente na Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais e na Diocese do Porto, seja agora fortemente concretizada em Lisboa e que daí se estenda a todo o país.

sábado, 18 de maio de 2013

A costa azul

Curto ensaio poético para o fim de semana...
Eis que um dia disseram-me tudo sobre uma costa azul
Nesse desenrolar de vales e montes
Onde as casas se encaixam cheias de medo do abismo
Como eu tomado pela vertigem quando o mais alto dita o som
De me ver dominado pela fala trémula do espanto.

Eis o que um dia disseram-me os antigos que sabem tudo sobre o azul
Dos dias calmos junto da praia do esquecimento bem-vindo
Onde se contou as pedras do marulhar constante do mar
E ai senti uma brisa fresca de desejo ardente
Do futuro radiante para todos os que anseiam a paz.

Eis o que um dia disseram-me outros que tais sobre o dia na costa azul
Uns vinham e outros iam pela terra e pelo mar
Até as nuvens o querer dos povos estava sobre o pódio
Do vivo azul do dia e da noite sem rancor
Sem que nenhum sentisse senão a vitoria imensa sobre a morte.

Eis que um dia me disseram que a costa azul se fez em volta
De todos os corações cheios do sangue da vida.
E nesta certeza não morri
Antes tu e eu ressuscitamos para sempre.
José Luís Rodrigues

sexta-feira, 17 de maio de 2013

A liberdade do amor não sabe o que é o medo

O Victor Cunha Rego dizia com a sua clarividência extraordinária que as dores, os medos, as espontaneidades, os amores, os ódios são demasiado tímidos. Pretendo com isto reflectir um pouco sobre os medos que nos invadem quotidianamente e que, por vezes, podem coarctar as nossas acções para o bem e para o mal.
O medo é um sentimento terrível. E são tantos os medos que nós podemos alimentar todos os momentos da vida, mesmo que à partida confessemos que não temos medo de nada.
Os pais têm medo de perder os seus filhos, para a droga, para álcool e para a prostituição. Os filhos podem ter medo de perder o apoio dos pais. Os trabalhadores têm medo de perder o emprego e faltar-lhes o dinheiro suficiente para gastar no fim de cada mês. Os cidadãos têm medo de sair à rua porque a insegurança social é muito grande. Ninguém quer ser roubado, espoliado ou espancado. Quase todos têm medo de serem presos, mas por isso não deixam de infringir a lei. Há também o medo de se ver nas malhas da justiça, porque implica ter que lidar com gente pouco honesta.
A doença e a morte também são aspectos da condição humana que todos querem exorcizar e o medo que provocam é incalculável, o estado da medicina também não anima nada e o que se houve dizer dos lugares da saúde, provoca-nos, para além do medo natural da doença, um terror insuportável.
Outros, talvez não muito poucos, ainda terão medo de Deus. E quantos não terão medo do diabo e das bruxas. Resumindo, todos têm medo de alguma coisa, a vida é assim mesmo.
Quanto ao medo de Deus, estamos falados. Não pode haver medo de alguém que nos acarinha, nos envolve de atenção amorosa. E ensina S. Ireneu sobre Deus e o homem: "gloria Dei, homo vivens" (a glória de Deus, é o homem vivo). A lógica de Deus é esta, promover a pessoa humana para que se salve e viva sem medo de nada deste mundo nem do outro.
Deus não pode ser uma força que nos massacra e oprime. Deus, que é nosso pai e nossa mãe, concede-nos livremente as suas graças e a gratidão é a única resposta que, a partir deste facto, pode fazer sentido. Por isso dirá S. Paulo: "Pois Deus não nos deu um espírito de medo, mas um espírito de força, de amor e de sobriedade" (2 Tm 1, 7).
Não podem coexistir a saudável visão de Deus com alguns sentimentos que mais não são senão um fardo que oprimem e matam a liberdade da pessoa humana. Deus não se cria nem se deixa criar por ninguém. Movidos pelo medo, renunciamos àquilo que Deus nos concedeu, à realidade mais profunda, à faculdade de sentir e amar, a fim de se ser aceite por aquele Deus que criamos ou pensamos existir vergado às nossas categorias mentais.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

O Pentecostes: o sonho universal continua

Pentecost Quilt, Linda Schmidt
Pentecostes (em grego antigo, pentekoste [hemera], "o quinquagésimo [dia]") é uma das celebrações mais importantes do calendário cristão, e comemora a descida do Espírito Santo sobre os Apóstolos de Jesus Cristo. O Pentecostes é celebrado 50 dias depois do Domingo de Páscoa. 
A vida não teria sabor se não fosse a dinâmica do Espírito Santo. A Igreja seria uma simples organização de homens e mulheres com interesses mundanos. As celebrações litúrgicas seriam manifestações de diversão ou para entreter os tempos livres. Os diversos grupos que formam a Igreja seriam estruturas sem alma que promoviam a rivalidade e a concorrência. Os membros da Igreja, seriam apenas hierarcas que buscavam o poder pelo poder. A sede de protagonismo ou a fama do mundo seriam as únicas motivações pelas quais todos corriam de forma desmedida e sem escrúpulos. As palavras da Igreja seriam iguais a todas as palavras pronunciadas pelas outras organizações do mundo. A caridade seria solidariedade sem alma e sem a abnegação desinteressada que só o Espírito Santo informa. O diálogo Igreja-mundo seria pura diplomacia interesseira com vista a ser pura propaganda. 
Uma infinidade de coisas que a Igreja é e faz que sem o dinamismo do Espírito Santo seriam puro activismo concorrencial mais interessado na promoção de alguns e pouco aberta ao bem-comum, isto é, sem interesse nenhum pela salvação de todos os homens. Quando tiramos o condicional das afirmações apresentadas no parágrafo anterior, descobrimos o que acontece quando a Igreja volta as costas ao Espírito Santo.
Assim, descobrimos no dia de Pentecostes, a entrega deste dom aos discípulos de Jesus, para que sejam eles os que irão continuar a obra da salvação iniciada com Jesus Cristo. São eles os principais anunciadores da Boa Nova do Evangelho, que consiste na pregação do arrependimento e do perdão dos pecados. Mediante a recepção do Espírito Santo, o Reino de Deus continua presente na história da humanidade.
Assim sendo, no dia de Pentecostes, descobre-se a universalidade do projecto de Deus e o desejo de que a humanidade se encontre numa verdadeira fraternidade universal (o relato dos Actos dos Apóstolos confirma-o de forma bastante óbvia, o famoso milagre das línguas, é uma prova bem evidente do desejo de Deus). Impossível até agora, mas o sonho continua…
O Pentecostes, é o acontecimento que quebrou as correntes da divisão, o ódio das grades da incompreensão, a violência das palavras e das atitudes de alguns, os rancores dos momentos que ninguém se livra de viver, os amuos que provocam tristeza e inimizade, a falta de abertura para o perdão, a teimosia do não arrependimento, a intolerância e o racismo entre as religiões e as comunidades humanas.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

A mulher mais influente do país realiza milagre

Fiquei atónito como uma grande parte do povo português com a revelação do presente da República Cavaco Silva. Vejam só a aliada que o sr. Presidente arranjou para defender as trapaças que os poderes governamentais do nosso país estão a fazer contra o povo português, Nossa Senhora de Fátima. O homem dixit: «Eu penso [no fim da sétima avaliação] como uma inspiração - como já a minha mulher disse várias vezes - da nossa Senhora de Fátima, do 13 de maio».
Não disse que não devemos chamar Nossa Senhora de Fátima para este «milagre». Um país como o nosso profundamente católico, terra de Santa Maria, devoto da Nossa Senhora de Fátima, porque enche o seu santuário todos os anos no 13 de maio, tinha que ser chamada a participar neste «milagre» levado a cabo pela troica e pelos governantes investidos por uma obstinação doentia pela austeridade.
Porém, será que Nossa Senhora de Fátima se não fosse apenas uma imagem com um rosto supra humano que transmite a ideia de uma pessoa acima da realidade, uma ideia de mulher que não existe neste mundo, o sr. Cavaco faria a mesma invocação? Se fosse a mulher, Maria de Nazaré, aquela mulher do Evangelho que põe e dispõe, que sonha, acompanha e intervém dizendo para o que veio como o faz claramente no seu canto, o Magnificat. Reparemos: «Derrubou os poderosos de seus tronos / E exaltou os humildes. / Aos famintos encheu de bens / E aos ricos despediu de mãos vazias» (Lc 1, 52-53). Será que esta mulher seria invocada se fosse anunciadora e denunciadora da injustiça que envolve toda esta austeridade? - Tenho sérias dúvidas...
Duvido muito que o compadecido e devoto sr. Cavaco fizesse referência se a Senhora de Fátima fosse a mulher corajosa do Magnificat e aquela Mulher sempre presente em todos os momentos, particularmente, quando eles são de sofrimento e de profunda injustiça.
Bolas! Mas tendo em conta este desígnio nacional de destruição do país, não poderia não ser convocada a mulher «mais influente do nosso país», como alguém um dia considerou. Por isso, não podemos deixar de fora desta missão a Senhora de Fátima e também não podemos esquecer todos os que estão a ser postos fora, os excluídos do desemprego que estão na pobreza e com fome, que resultam desta fatal austeridade. Não podemos pois. Querendo. Crendo.

Fica comigo, Senhor... Porque sim.


Fica, Senhor, comigo, porque é necessária a Tua presença para não Te ofender.
Tu sabes quão facilmente Te abandono.
Fica, Senhor, comigo, pois sou fraco e preciso da Tua força para não cair tantas vezes.
Fica, Senhor, comigo, porque Tu és a minha vida e sem Ti esmoreço no fervor.
Fica, Senhor, comigo, porque Tu és a minha luz e sem Ti permaneço nas trevas.
Fica, Senhor, comigo, para me dares a conhecer a Tua vontade.
Fica, Senhor, comigo, para que ouça a Tua voz e Te siga.
Fica, Senhor, comigo, pois desejo amar-Te muito e estar sempre na Tua companhia.
Fica, Senhor, comigo, se queres que Te seja fiel.
Fica, Senhor, comigo, pois embora a minha alma seja muito pobrezinha, deseja ser para Ti um lugar de consolação, um sacrário de amor.
Fica, Senhor, comigo, pois é tarde e o dia está a declinar, isto é: passa a vida, aproxima-se a morte, o juízo e a eternidade, e é necessário redobrar as minhas forças, para que não desfaleça no caminho, e, para tanto, preciso de Ti.
Faz-se tarde e avizinha-se a morte!...
Afligem-me as trevas, as tentações, as securas, as penas e as cruzes!
Tenho necessidade de Ti nesta noite de exílio.
Fica, Senhor, comigo, porque, nesta noite da vida e dos perigos, preciso de Ti.
Que eu Te conheça, Senhor, como os Teus discípulos ao partir do pão, isto é: que a união eucarística seja a luz que dissipe as minhas trevas, a força que me sustenta e a única felicidade do meu coração.
Fica, Senhor, comigo, pois, quando chegar a morte, quero estar unido a Ti; se não puder ser de modo sacramental pela sagrada comunhão, ao menos pela graça e pelo amor.
Fica, Senhor, comigo.
Não Te peço a Tua divina consolação, pois não a mereço, mas o Dom da Tua presença santíssima.
Oh!, Sim, isso Te peço.
Fica, Senhor, comigo.
Só Te procuro a Ti, o Teu amor, a Tua graça, a Tua vontade, o Teu coração, o Teu espírito, porque Te amo, e não Te peço outra recompensa além do aumento deste amor.
Amor sólido e prático.
Amar-Te de todo o coração na terra, para continuar a amar-Te perfeitamente por toda a eternidade
(Padre Pio)

terça-feira, 14 de maio de 2013

Os ânimos andam exaltados


Parece que os ânimos estão exaltados. Os meus andam tristes e algumas vezes zangados. Mas sem nunca perder a lucidez. Mau seria se fosse ao contrário para a minha felicidade e para o meu bem-estar físico e psicológico.
É preciso serenar os ânimos e não fazer escola com o desrespeito, a baixaria e o insulto. Estamos em ano de eleições, coisa que me parece perfeitamente normal, num estado democrático. Alguns, parece que não entendem assim. Mas tenham calma. Não leva a nada insultar e desrespeitar.
Mais ainda parece haver uma alegria pujante pela tragédia de tantos que entram todos os dias na maior fábrica deste país, o desemprego. No outro dia tomamos conhecimento, que o Diário de Notícias dispensou mais 35 trabalhadores para sobreviver com empresa e, especialmente, o órgão de informação impresso. À partida, pensei logo, estes trabalhadores merecem a nossa solidariedade e que seriam mais 35 famílias sem o seu rendimento mensal de sobrevivência, ganho com a sua criatividade, dignidade e empenho. Passada a notícia vieram outras, que têm a função de nos fazer esquecer uma atrás da outra, é assim a sociedade mediática em que nós vivemos. Também alguns não entendem isso, vivemos numa sociedade profundamente mediatizada, combater isso, é estupidez, fazer-se esta sociedade e conviver com este mundo tal como ele é com inteligência e lucidez parece ser o mais sensato.
Mas, há um porém ainda. Logo depois ouvi, via telemóvel, a voz da Raquel Gonçalves e da Marta Caires, duas jornalistas do rol dos dispensados. Impressionante o calafrio que me causou, quando das suas vozes tristes ecoou a palavra «dispensada». É assim, só mesmo quem não tenha sensibilidade para não ficar triste e inquietar-se com esta desgraça, este drama social que vai dispensando pessoas só porque sim.
Ao lado disto, estamos aqui para manifestar a nossa admiração pelo «contentamento» ou um certo ânimo exaltado porque estas coisas acontecem, com uma insensibilidade impressionante, sem ter em conta o que cada desempregado representa, mais pobreza e nalguns casos fome.
Mas, são governantes desta estirpe que temos hoje, a começar pelo Primeiro Ministro que precisou de ir a Espanha para falar de desemprego e de desempregados, especialmente, o jovem. Falou nisto porque o líder do governo espanhol forçou que tal acontecesse. Isto revela bem a quem estamos entregues e quem está a administrar o bem comum.
Assim, considero que devemos serenar os ânimos e mesmo que as perspectivas de alguma derrota estejam a se vislumbrar para a hegemonia que dominou e domina entre nós, não lhes concede o direito de se regozijarem com as tragédias alheias, nem saltarem à praça com insultos e desrespeitos desnecessários. É preciso serenar os ânimos. 

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Péguy: ler Jesus e a Sua mensagem nas Parábolas

Um percurso magnífico realizado por um dos grandes católicos franceses. A não perder.

Havia uma grande procissão; à cabeça avançavam as três Semelhanças:
a parábola da ovelha perdida;
a parábola da dracma perdida;
a parábola do filho perdido.
Ora tanto um filho é mais caro que uma ovelha,
E infinitamente mais caro que um dracma,
Tanto um filho é mais caro ao coração do pai,
(Do seu pai que é ao mesmo tempo, que é já, antes, que é primeiramente seu pastor),
Do que mesmo uma ovelha e cara ao coração do (bom) pastor,
Tanto a terceira Semelhança,
Tanto a parábola do filho pródigo
É ainda mais bela se possível e mais cara,
É ainda maior do que as duas Semelhanças antecedentes,
Do que a parábola da ovelha perdida,
E do que a parábola da dracma perdida.
Todas as parábolas são belas, minha filha, todas as parábolas são grandes, todas as parábolas são caras.
Todas as parábolas são a palavra e o Verbo,
A palavra de Deus, a palavra de Jesus.
São todas elas por igual, são todas elas ao mesmo tempo
A palavra de Deus, a palavra de Jesus.
No mesmo pé.
(Deus pôs-se neste caso, minha filha,
Neste caso mau,
De ter necessidade de nós)
Todas elas vêm do coração, por igual, e vão direitas ao coração,
Falam ao coração.
Mas as três parábolas da esperança entre todas
Vão à frente,
E entre todas são grandes e fiéis, entre todas são piedosas e afectuosas, entre todas são belas, entre todas são caras e próximas ao coração.
Entre todas estão próximas do coração do homem, entre todas são caras ao coração do homem.
Têm não se sabe que lugar à parte.
Têm talvez nelas sabe-se lá o quê que não há, que não haverá nas outras.
É talvez porque têm em si como que uma mocidade, como que uma infância ignorada.
Insuspeitada alhures.
Entre todas são jovens, entre todas são frescas, entre todas são crianças, entre todas estão por gastar.
Não envelhecidas.
Não gastas, não envelhecidas.
Desde treze ou catorze séculos que elas servem, e desde há dois mil anos, e pelos séculos dos séculos jovens como no primeiro dia.
Frescas, inocentes, ignorantes,
Crianças como no primeiro dia,
E desde há treze vezes cem anos que há cristãos e catorze vezes cem anos,
Essas três parábolas, (que Deus nos perdoe),
Têm um lugar secreto no coração.
E que Deus nos perdoe enquanto houver cristãos,
Por tanto tempo ou seja eternamente,
Pelos séculos dos séculos haverá para essas três parábolas
Um lugar secreto no coração.
E todas as três são as parábolas da esperança.
Em conjunto.
Jovens por igual, por igual caras.
Entre elas.
Irmãs entre elas como três crianças novinhas.
Por igual caras, por igual secretas.
Secretamente amadas. Igualmente amadas.
E como que mais interiores do que todas as outras.
Dando resposta a uma voz interior mais profunda.
Mas entre todas; entre todas três eis que vem à frente a terceira parábola.
E essa, minha filha, essa terceira parábola da esperança,
Não só está nova como no primeiro dia.
Como as duas outras
Suas irmãs.
E pelos séculos será nova,
Tão nova até ao último dia.
Mas desde há catorze séculos, desde há dois mil anos que ela serve,
E que foi contada a homens inumeráveis,
A menos que tenha um coração de pedra, minha filha, quem a ouvirá sem chorar?
Desde há catorze séculos, desde há dois mil anos tem ela feito chorar homens inumeráveis.
Pelos séculos e pelos séculos.
Cristãos inumeráveis.
Ela tocou no coração do homem um ponto único, um ponto secreto, um ponto misterioso.
(Ela tocou no coração.)
Um ponto inacessível às outras.
Sabe-se lá que ponto como que mais interior e mais profundo.
Homens inumeráveis, desde que ela serve, cristãos inumeráveis têm chorado com ela.
(A menos de terem um coração de pedra.)
Têm chorado por ela.
Chorarão homens pelos séculos fora.
Só de pensar nela, só de a ver quem poderia,
Quem conseguiria reter as lágrimas.
Pelos séculos fora, pela eternidade com ela hão-de chorar homens; por ela,
Fiéis, infiéis.
Na eternidade, até no juízo.
Quando do juízo, no juízo. E
É esta a palavra de Jesus que teve maior alcance, minha filha.
É ela a que teve melhor sorte Temporal. Eterna.
Ela despertou no coração sabe-se lá que ponto de correspondência
Único.
Por isso tem tido uma sorte
Única.
É célebre até entre os ímpios.
Entre eles achou, até aí, um ponto de entrada.
Talvez só ela tenha ficado cravada no coração do ímpio
Como um cravo de ternura.
Ora ele disse: Um homem tinha dois filhos:
E quem a ouve pela primeira vez,
É como se fosse pela primeira vez.
Que a ouvisse.
Um homem tinha dois filhos. É bela em Lucas. É bela em toda a parte.
Não está senão em Lucas, está em toda a parte.
É bela na terra e no céu. É bela em toda a parte.
Só de nela pensar, um soluço nos sobe à garganta.
É a palavra de Jesus que tem tido maior ressonância no mundo.
Que achou a ressonância mais profunda
No mundo e no homem.
No coração do homem.
No coração fiel, no coração infiel.
Que ponto sensível e que ela encontrou
Que nenhuma outra encontrara antes dela,
Que nenhuma encontrou, (tanto), desde então,
Que ponto único,
Ainda insuspeito,
Nunca obtido depois.
Ponto de dor, ponto de aflição, ponto de esperança.
Ponto doloroso, ponto de inquietude,
Ponto de tortura no coração do homem.
Ponto em que não se deve carregar, ponto de cicatriz, ponto de costura e de cicatrização.
Em que não é bom que alguém se apoie.
Ponto único, sorte única, força única de apego.
Aderência única, vínculo do coração fiel.
E do coração infiel.
Todas as parábolas são belas, minha filha, todas as parábolas são grandes.
E designadamente as três parábolas da esperança.
E todas essas três parábolas da esperança além do mais são jovens, minha filha.
Mas com esta centenas e milhares de homens têm chorado.
Centenas de milhares de homens.
Por esta.
batidos pelos mesmos soluços chorado as mesmas lágrimas.
Fiéis, infiéis, Umas revezando-se com as outras. As mesmas.
Desfeitos pelos mesmos soluços.
Numa comunhão de lágrimas.
Deitados, inclinados, soerguidos pelos mesmos soluços chorado as mesmas lágrimas.
Fiéis, infiéis.
Sacudidos dos mesmos soluços.
Chorado como crianças.
Um homem tinha dois filhos. De todas as parábolas de Deus
É a que despertou o eco mais profundo.
O mais antigo.
O mais velho, o mais novo.
O mais recente.
Fiel, infiel.
Conhecido, desconhecido.
Um ponto de eco único.
É a única que o pecador jamais forçou a calar no coração.
Quando alguma vez esta palavra mordeu o coração
O coração infiel e o coração fiel,
Nenhuma volúpia já apagará
A marca dos seus dentes.
Tal é esta palavra. É uma palavra que acompanha.
Segue-nos como um cão
Que se enxota, mas fica.
Como um cão maltratado, que volta sempre.
Fiel fica, volta como um cão fiel.
Por mais que lhe demos com um pé e com um pau.
Fiel ela mesma de uma fidelidade,
Única, Assim ela acompanha o homem nos seus maiores
Excessos.
É ela que ensina que nem tudo está perdido.
Não cabe na vontade de Deus
Que um só destes pequeninos pereça.
É um cão fiel
Que morde e que lambe
E as duas coisas prendem
O coração inconstante.
Quando o pecador se afasta de Deus, minha filha,
À medida que se afasta, à medida que se afunda em regiões perdidas, à medida que se perde,
Vai deitando para a borda do caminho, no mato e nas pedras
Coisas inúteis e embaraçantes e que o atrapalham os bens mais preciosos. Os bens mais sagrados.
A palavra de Deus, os tesouros mais puros.
Mas há uma palavra de Deus que ele nunca rejeitará.
Com a qual qualquer homem tantas vezes chorou.
Com a qual, pela virtude da qual. Pela qual
E ele é como os outros, também ele chorou.
Há um tesouro de Deus, quando o pecador se afasta
Nas trevas em aumento.
Quando as trevas
Crescentes
Lhe velam os olhos há um tesouro de Deus que ele não lançará, não, aos matos da estrada.
Porque é um mistério que acompanha, é uma palavra que acompanha
Nos maiores
Distanciamentos.
Não há necessidade de tratar dela, de a trazer.
É ela.
Que trata de nos e de trazer e de se fazer trazer.
É ela que segue, é uma palavra de sequência, é um tesouro que acompanha.
As outras palavras de Deus não ousam acompanhar o homem.
Nos seus maiores
Excessos.
Mas na verdade esta é uma descarada.
Ela agarra o homem pelo coração, num ponto que ela sabe, e não o larga mais.
Não tem medo. Não tem vergonha.
E por mais longe que vá o homem, esse homem que se perde,
Em qualquer região,
Em qualquer obscuridade.
Longe do lar, longe do coração,
E quaisquer que sejam as trevas em que ele se afunde,
As trevas que lhe velam os olhos,
Sempre o luar vigia, sempre uma chama vigia, uma ponta de chama.
Sempre uma luz vigia que jamais há-de ser posta debaixo do alqueire. Sempre uma lâmpada.
Sempre uma ponta de dor queima. Um homem tinha dois filhos. Um ponto que ele bem conhece.
Na falsa quietação um ponto de inquietação, um ponto de esperança. Todas as outras palavras são pudicas. Não se atrevem a acompanhar o homem nas vergonhas do pecado.
Não são suficientemente avançadas.
No coração, nas vergonhas do coração.
Mas esta em verdade não é envergonhada.
Pode-se dizer que é destemida.
É uma irmãzinha dos pobres que não tem medo de manejar um doente ou um pobre.
Por assim dizer ela
E mesmo realmente ela fez um desafio ao pecador.
Disse-lhe assim: Por toda a parte aonde fores, irei eu.
Havemos de ver.
Comigo não terás paz.
Não te vou deixar em paz.
E é verdade, e ele bem o sabe. E no fundo ele ama o seu perseguidor.
Bem lá no fundo, muito secretamente.
Porque bem lá no fundo, no fundo da sua vergonha e do seu pecado ele gosta (mais) de não ter paz. Isso dá-lhe uma certa garantia.
Permanece um ponto doloroso, um ponto de pensamento, um ponto de inquietação. Um rebentinho de esperança.
Um luar não se extinguirá nunca e vem a ser
a Parábola terceira,
a terceira palavra da esperança. Um homem tinha dois filhos.
Charles Péguy

A rir é que a gente se entende

Quando Deus fez o mundo, para que os homens prosperassem decidiu dar-lhes apenas duas virtudes.
Assim:
- Aos Suíços os fez estudiosos e respeitadores da lei(?)
- Aos Ingleses, organizados e pontuais..
- Aos Argentinos, chatos e arrogantes (?)
- Aos Japoneses, trabalhadores e disciplinados.
- Aos Italianos, alegres e românticos.
- Aos Franceses, cultos e finos (?)
- Aos Portugueses, inteligentes, honestos
e políticos.

O anjo anotou, mas logo em seguida, cheio de humildade e de medo, indagou:
- Senhor, a todos os povos do mundo foram dadas duas virtudes, porém, aos portugueses foram dadas três! Isto não os fará soberbos em relação aos demais povos da terra?

- Muito bem observado, bom anjo! exclamou o Senhor.
- Isto é verdade!
- Façamos então uma correção! De agora em diante, os portugueses, povo do meu coração, manterão estas três virtudes, mas nenhum deles poderá utilizar mais de duas simultaneamente, como os demais povos!

- Assim, o que for político e honesto, não pode ser inteligente.
- O que for político e inteligente , não pode ser honesto.
- E o que for inteligente e honesto, não pode ser político.!!!!!!

Palavra do Senhor! 
Recebi por mail de um amigo

domingo, 12 de maio de 2013

Mãe infusa

Para ajudar a celebrar Nossa Senhora de Fátima por estes dias... A incontornável e grande Natália Correia...

Ainda estão por dizer
as púdicas confidências
do tempo em que era possível
ouvir as hortênsias.

No quintal de incontinente
o maracujá enlanguescia
e pedra a pedra se reconstruía
a casa infinitamente.

Teu rosto ainda não vagueava
na noite fria do retrato.
Em que desmemoriada candeia
derramaste oh mãe o azeite intacto?

Dispunhas as jóias do inverno
para a festa cálida do verão.
Por certo alguma levaste
passando-a ao fisco da morte
para que uma pérola te assinalasse
no caso que o vento espalhasse
o pólen da tua mão.

Eis-te todavia sem ossos
mas mais do que nunca infusa
em teu ovular desvelo
e eu carnalmente intrusa
pressinto que para tocar-te
enfermo de longos cabelos.

Natália Correia, Poesia Completa, O Vinho e a Lira, 1966
Publicações Dom Quixote, 1999

sábado, 11 de maio de 2013

Manifesto contra a generalização do mal

Nota: Pode servir para alguém. Aqui está o documento na íntegra, que resultou de uma reunião de 10 padres da Diocese do Funchal. Após uma aturada reflexão e diálogo achamos por bem distribuir à comunicação social este texto. Não é contra nada nem muito menos contra ninguém. A única razão que nos move prende-se com silêncios ensurdecedores, para que fique claro e conste para a história da nossa terra que nem todos alinharam no encolher de ombros e na demissão dos problemas que estamos a viver. 
Facilmente o pensamento humano se permite enfermar deste vírus cancerígeno, quando surge uma mazela ou mancha negra em qualquer instituição ou numa camada humana e social, o perigo da generalização imediatamente nos toma de assalto. Para mais se for a instituição Igreja Católica quando se trata de qualquer escândalo de teor sexual que afecte membros do clero.
A sociedade madeirense acordou no dia 8 de Maio de 2013 com uma notícia horrível e triste para a Igreja da Madeira. Em altas parangonas a fundo negro anuncia meia primeira página de alto a baixo um jornal diário da nossa terra que um padre que manteve um «relacionamento íntimo», foi vítima de extorsão de dinheiro após chantagem e que o caso entraria em julgamento no dia seguinte no Tribunal do Funchal.
Esclareça-se que não nos move o facto da notícia em si nem o seu conteúdo, porque misérias e pecados há em todo o lado. Não haverá ninguém totalmente puritano que possa atirar pedras a quem quer que seja. A humanidade está por todo o lado e com ela estão todas as virtudes e misérias. Neste sentido, vimos a público manifestar total repúdio por qualquer pecado levado a cabo por um padre ou por outra pessoa qualquer, mas salvaguardamos a pessoa em si e continuamos a estar disponíveis para compreender e acolher o pecador. Mais ainda se manifestar público arrependimento e disponibilidade para redimir-se da sua conduta imprópria.
Cada pessoa é um caso, um universo que deve ser visto como tal e se a definição de pessoa nos revela desde logo o quanto há de individual e intransmissível em cada ser humano, não nos permite a lucidez ajuizar com dois pesos e duas medidas, nas virtudes tomados assim como se descreve, mas nos erros todos tomados pela mesma bitola e vítimas de um julgamento sumário como se todos tivessem que assumir e responder pelas mazelas de cada um. Não embarcamos por aí. A serenidade permite-nos ver mais longe, com profunda vergonha e humildade compreendemos todo o mal, repudiamos todo o pecado e acolhemos sob o dom do perdão todo o ser humano entregue às malhas da miséria, não fosse cada pessoa criação absoluta do amor de Deus.

Nós, grupo de sacerdotes da Diocese do Funchal, sentindo que haverá o risco de ser tomada uma generalização grave na tentativa de colocar tudo no mesmo saco, queremos publicamente manifestar, que a nossa Igreja Diocesana do Funchal, que conta já uma memória histórica de 500 anos, sai profundamente abalada de mais este caso, por isso, nós consideramos que não podíamos deixar passar só e unicamente a primeira notícia, para que fique claro com a nossa posição que os sacerdotes continuam a dedicar-se com total disponibilidade ao povo da Madeira e que repudiam todas as manchas deste teor ou de outros que ferem a nossa terra e especialmente a nossa Igreja.
Mais ainda desejamos relevar todo o trabalho que a Igreja realiza em prol das populações nos vários domínios humanos, sociais e espirituais... O que seria das imensas famílias sem a caridade da nossa Igreja - ainda mais agora no contexto de pobreza avassalar que estamos a viver - levada a cabo pelos diversos organismos paroquiais sob a alçada dos padres? O que seria da educação ligada à Igreja Católica, do acompanhamento espiritual e psicológico das populações e de todo o bem realizado pela Igreja da Madeira que nunca é notícia nem precisa que assim seja?
Saliente-se então que esta porção de clero da Madeira demarca-se destas manchas negras, manifestam total disponibilidade para continuar a servir as pessoas sem as instrumentalizar e com transparência, deseja continuar ao lado das populações administrando com verdade os bens a si confiados. Nada mais desejamos senão contribuir para uma Igreja ao lado de toda a população, especialmente, dos mais pobres, fazendo jus ao ensinamento e testemunho do Papa Francisco.
Por isso, diz o Papa: «Peçamos ao Senhor que o Espírito Santo nos defenda da tentação de nos tornar, talvez, puritanos, no sentido etimológico da palavra, de buscar uma pureza ‘para-evangélica’.» (Papa Francisco, Homilia de 2 de Maio de 2013). Mais ainda reforçamos a nossa oração por todas as vítimas de todas manchas, pecados que cerceiam a dignidade e o bem no coração de tanta gente, dentro e fora da Igreja Católica.

Neste sentido, escutemos a oração do papa Francisco que nos engrandece e retempera a alma na busca da verdade e de todo o bem no coração da humanidade inteira. Diz o Papa: «Peçamos ao Senhor a graça de nos tornarmos baptizados corajosos e certos de que o Espírito que temos em nós, recebido no baptismo, nos estimula a anunciar sempre Jesus Cristo com a nossa vida, com o nosso testemunho e também com as nossas palavras», referiu, na homilia da celebração que decorreu na capela da Casa de Santa Marta, a 17 de Abril de 2013.
Por fim, resta reafirmar que nos move a causa do Evangelho de Jesus de Nazaré e que não serão os pecados de membros da Igreja nem muito menos as nossas falhas e limitações, que nos travam ou ofuscam o bem que desejamos para todos. Porque entendemos melhor do que ninguém a natureza humana, no que tem de bem e de mal, não embarcamos na cegueira do juízo que hipocritamente generaliza nem no puritanismo falso,  mas sempre compreendendo e acolhendo todos os nossos semelhantes que caiem na tragédia do pecado.
A Deus encomendamos o nosso trabalho e dedicação, na esperança que a opinião pública encare com serenidade e compreensão as manchas do clero, exactamente, como nós compreendemos e acolhemos as imensas misérias e limitações humanas que quotidianamente encontramos no trabalho pastoral que realizamos em prol das nossas comunidades.
Funchal, 10 de Maio de 2013
Padres signatários
Padre Rui de Sousa
Padre José Pascoal Freitas Gouveia
Padre Francisco Caldeira
Padre Bernardino Andrade
Padre António Paulo de Ponte Sousa
Padre Paulo Jorge Catanho Silva
Padre Ricardo Freitas
Padre Miguel Lira
Padre José Luís Rodrigues
Padre Silvano Gonçalves

sexta-feira, 10 de maio de 2013

A Ascensão de Jesus e a nossa elevação

Mesa da Palavra
Comentário à missa deste domingo
Domingo da Ascensão de Jesus
A Ascensão de Jesus, é outra manifestação solidária do amor de Deus, que confirma plenamente o desejo de Deus Pai através do Seu Filho Jesus Cristo. Ele é o Messias que veio ao mundo manifestar o Plano de Salvação de Deus em relação a toda a humanidade. Embora seja também este o Messias que «havia de sofrer» o tormento da Paixão e da Morte, mas sempre com total abnegação ao serviço de uma causa de vida sempre ressuscitada.
O sofrimento, está profundamente aliado à ressurreição dos mortos, porque não tinha sentido a vontade de Deus situar-se perante o abismo do sofrimento e da morte. Este cálice, foi apenas a ocasião de passagem, também ela redentora, para a glória da Ascensão ou da Ressurreição ao Terceiro Dia. E tudo isto se manifesta na Pessoa de Jesus Cristo.
Jesus, considera-nos testemunhas da sua acção redentora em favor dos pecadores e dos marginalizados deste mundo. A penumbra que parece levantar-se perante o mistério do fim, é apenas uma aparência sem sentido. Devemos saber olhar o mistério da Ascensão com alegria, à maneira dos Apóstolos que depois das palavras de Jesus «voltaram para Jerusalém com grande alegria». Também escutamos Jesus e partimos depois com muita alegria para a Jerusalém da nossa vida quotidiana e aí podemos testemunhar a eficácia da acção redentora da mensagem de Cristo.
Agora vejamos uma curta história da vida, que pode ajudar-nos muito na condução da nossa vida.
Era uma vez um pobre velho que, num dia de inverno, se dirigiu a uma floresta à procura de lenha para a fogueira. O caminho era áspero e o velho, carregando com um feixe de lenha, maldizia a sua sorte: - Que vida tão difícil! Que venha a morte para me levar!
Já sem forças, caiu ao chão, continuando a suspirar pela morte. Esta, armada com uma foice e envolta num lençol, apareceu-lhe. O velho, ao vê-la, a tremer, balbuciou: - De facto, chamei por si! Ela perguntou: - E que queres, infeliz? Disse ele: - Apenas que me leve o feixe de lenha! 
Após a leitura desta história proponho as seguintes questões para nos fazer pensar:
* A vida tem destas coisas. Muitas vezes as pessoas pedem para si e para os outros o que na realidade não querem. Não devemos por isso desejar a morte para ninguém quando se está com raiva e com revoltas. A morte é uma coisa muito séria que requer respeito.
* Nos momentos de sofrimento, não se deve desesperar e desejar a morte. Devemos sempre manter um grande amor à vida e lutar com muita coragem até ao fim.
* Quantos testemunhos de pessoas que souberam lutar até ao fim, suspirando sempre pela vida e pela cura interior? O que nos afecta mais o medo ou a coragem para enfrentar a dureza da vida?
Por fim deixo-vos um pensamento que no pouco diz muito sobre o perigo do medo que muitas vezes nos ataque quando somos confrontados com a ideia de que vamos morrer um dia. Diz assim: «O medo da morte impede-nos de viver, não de morrer». Paul C. Roud