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quinta-feira, 12 de junho de 2014

500 anos Diocese do Funchal – vamos pedir perdão

Há muita coisa bonita que não pode ser descurada em 500 anos de Diocese do Funchal. Há a grandeza da Diocese que foi a maior do mundo, mesmo que por pouco tempo. Tudo isso está mais que reafirmado. Repare-se: «Nestes 500 anos quantas histórias maravilhosas de santidade nos iluminam; quantas obras inflamadas de misericórdia e do génio da caridade: no impulso do Evangelho fundaram-se hospitais, trataram-se os doentes da peste, socorreu-se a fome, atendeu-se aos órfãos e aos idosos; quanto serviço silencioso e apaixonado no campo da educação: criaram-se escolas e dinâmicas pedagógicas, numa aposta clara na pessoa humana. O Cristianismo, podemos dizer, tem sido entre nós uma constante sementeira de cultura, cidadania e solidariedade» («Igreja em Missão», D. António Carrilho, Bispo do Funchal).
Muito importante que se saliente tudo isto. Faz parte da história da Diocese, é inegável. Todos os diocesanos devem sentir orgulho nesse passado e fica o exemplo de que a dedicação, a entrega inteira ao serviço dos outros, surtem frutos de salvação para todos os povos. E o povo da Madeira, muito provavelmente, teria sido ainda mais infeliz se não fosse muita da acção da Igreja Católica.
Porém, não devíamos descurar o sofrimento experimentado por tanta gente ao longo destes 500 anos. Por exemplo, o Sistema da Colonia que gerou uma plêiade de escravos e de gente submissa aos poderosos donos da Madeira. Falta fazer um estudo sobre a pregação da Igreja perante esse sistema desumano que vigorou durante quase estes 500 anos Madeira.
Sobre as revoltas que a Madeira sentiu em alguns momentos, o apoio da Igreja do Funchal foi quase nulo ou em vários momentos colocou-se ao lado dos sistemas dominadores contra o povo simples espezinhado. O Padre Teixeira da Fonte é um exemplo que devia ser falado nestes dias. Foi ele que encabeçou a conhecida Revolta do Leite em 1936. Uma figura ímpar do século passado da Madeira. Um homem interessante que soube ler a vontade do seu povo e que por ele sofre a miséria das prisões da «velha senhora», isto é, os calaboiços inumanos da ditadura de Salazar. Um padre livre no pensar e sem dúvida nenhuma quanto às opções a fazer. Não pondera o que pensará o poder político e religioso. Diante das necessidades do seu povo coloca-se ao lado dos injustiçados e com eles vai até às últimas consequências. Dizem os seus familiares que por causa do sofrimento e da injustiça que passou nunca mais pronunciou o nome Salazar, porque lhe sujava boca.
Hoje fala-se muito no diálogo com a cultura e ainda bem. Mas notamos que os vários sacerdotes que a essas lides se dedicaram quase todos na sua maior não tiveram apoio nenhum da Igreja oficial da Madeira. Alguns até sofreram e muito o crivo da ostracização.
O sofrimento de muito clero foi enorme. Quantos sacerdotes eram literalmente desterrados e abandonados à sua sorte por esses montes e vales que a orografia da Madeira acusa? – Quantos foram desprezados, porque eram diferentes, porque divergiam do pensamento dominante ou simplesmente tinham tido a má sorte de ter caído no pecado ou então dito uma palavra que fosse contra os poderes políticos dominantes da Madeira? – É enorme também o rol de gente que dominava e outra dominada em nome de Deus e da santa obediência.
No domínio da perseguição há o século XIX, o período negro da Diocese do Funchal, com a perseguição contra o Protestantismo. Mais ainda se juntarmos à segunda metade do séc. XX, a perseguição contra o comunismo e os comunistas que «comem crianças ao pequeno-almoço», para que esta «pastoral» impusesse a hegemonia política do partido dominante que coloriu de laranja a Madeira há quase 40 anos.
Há uma outra face da moeda na história da Diocese do Funchal que é negra, onde sobressai a intolerância, o fundamentalismo, a corrida atrás do vil metal e uma vontade de domínio hegemónico que bradam aos céus.
Em todo o caso, alegramo-nos muito com o passado da Igreja Católica da Madeira, mas até certo ponto, não queremos ser zarolhos, vendo só que importa ser visto, mas honestamente tomar tudo o que nos revela o passado de 500 anos. Os momentos bons e os menos bons.
Hoje deviam ser pensados estes «pecados pastorais», para que no meio da festa se fizesse um tempo de penitência e de reconhecimento do menos bom desta história de 500 anos, para que aos olhos da sociedade a Igreja da Madeira se apresentasse virtuosa, mas também com manchas que a envergonham e a colocam diante de Deus e do seu povo de joelhos para pedir o perdão. Não há futuro saudável sem que se remedeie o passado menos bom. A consciência de que fizemos mal é importante para que amanhã atitude seja outra perante a diversidade e a pluralidade que o nosso mundo hoje apresenta.

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