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terça-feira, 3 de junho de 2014

A Igreja e a sexualidade

O programa Prós e Contras conduzido pela Jornalista Fátima Campos Ferreira deontem (2 junho de 2014) foi brilhante. O tema teve como pretexto uma frase do Papa Francisco pronunciada no avião de regresso a Roma da sua recente viagem à Terra Santa. No interior do avião o Papa disse aos jornalistas o seguinte: «O celibato não é um dogma de fé, é uma regra de vida, que aprecio muito e creio que é uma oferta à Igreja». Daí o tema do Prós e Contras: «A Igreja e a Sexualidade», que se desdobrou em vários outros subtemas: O celibato dos padres não é um dogma; Um desafio humano e social; Como é que a Igreja enfrenta a sexualidade no século XXI?; A contraceção; A homossexualidade; O casamento dos padres; A Igreja e a Sexualidade.
O programa contou com um painel de excelência: Padres Anselmo Borges e Feytor Pinto, Dr. Daniel Serrão e Maria José Vilaça (Presidente da Associação de Psicólogos Católicos).
O debate foi solto e muito bem conduzido pela jornalista. Todos os intervenientes manifestaram a sua opinião sem medo e com todo o cuidado procuraram expor o pensamento com a maior simplicidade para que a mensagem fosse entendível por todos.
Conclusão, que não é novidade nenhuma, a Igreja Católica tem uma doutrina magnífica sobre a sexualidade, sobre o corpo e até sobre o prazer sexual, porém, tudo isso esbarra no muro intransponível e anacrónico de uma lista infindável de normas e ditames morais sobre o sexo. No fundo podemos dizer que a Igreja Católica, é a instituição que tem uma doutrina que mais nenhuma tem sobre a sexualidade e o amor, mas lida muito mal com o sexo e com as pessoas quando vivem como entendem a sua intimidade sexual. Daqui emanam o oceano enorme de problemas relacionados com a sexualidade, a contracepção, o celibato dos padres… Só para nomear alguns.
Ficou também claro que os problemas começaram quando a Igreja se meteu nestes aspectos da sexualidade que só lhe trouxe sarilhos. A ideia do pecado e todo o moralismo que a prática pastoral assumiu contribuiu para um divórcio enorme entre a Igreja, os seus fiéis e os não crentes (os ditos afastados da Igreja). O moralismo que a prática da Igreja implicou fez tornar incrédulos até os seus mais fiéis e levou os descrentes a pensarem o quanto a Igreja é contraditória e tantas vezes ridícula. Daí que o Dr. Daniel Serrão tenha pronunciado a frase mais importante do debate: «Se a igreja se mantivesse afastada das questões de alcofa evitaria muitos problemas». Pois...
Tudo seria muito mais fácil se a Igreja Católica se remetesse à proclamação da belíssima doutrina que apresenta sobre a sexualidade, deve purificar a linguagem e libertar as pessoas da carga de pecados que a sexualidade sempre implicou e acolher cada pessoa tal como se apresenta sem ter que esbarrar com um rol de regras que a rebaixem ou remetam à marginalização.
Ainda bem que começou um grande debate sobre a sexualidade na Igreja Católica, porque, a meu ver, todos os problemas de que se fala estão relacionados com esta questão. Urge centrar o debate aí mesmo, na necessidade de ser mudada a linguagem e a prática, com isso virá logo de seguida a perda da obsessão pelo pecado e pelo moralismo anacrónico.
O celibato, continuará a ser um valor extraordinário para Igreja Católica, mas ter-se-á de assumir sem medo de nada a ideia de uma convivência saudável com padres casados, sem que estes sejam padres de segunda e os outros padres de primeira, aliás, a meu ver, o maior risco ainda é este numa Igreja que facilmente cai no terrível pecado de fazer acepção de pessoas.
Até agora parece que o debate não está inquinado e vê-se a abertura das pessoas e a coragem com que assumem as suas posições. Que nada nem ninguém trave a lúcida acção do Espírito Santo, que sabiamente sempre conduz a Igreja para o caminho do bem.

1 comentário:

José Ângelo Gonçalves de Paulos disse...

Amigo e Irmão Padre José Luís Rodrigues o debate foi interessantíssimo. Ratifico tudo o que diz dele. A Igreja é constituída por homens e mulheres. Hierarquicamente são só homens os quais: uns são conservadores e outros são progressistas. Os conservadores agarram-se a valores que já estão ultrapassados; os progressistas avançam mais, mas no sentido também de preservarem os valores perenes de uma sexualidade responsável e não anárquica como esta, que, hoje, temos por aí. Não podemos dar o máximo enfase à animalidade que o acto sexual seduz. O amor, a ternura, e o afecto são muito importantes numa sexualidade, dita, como ontem foi dito, ecológica, livre, mas, com muita criatividade e sentido poético. Tal como disse o Padre Anselmo Borges: Eros, Filias e Agapé. E depois Jesus não condenou ninguém pq veio para o mundo doente e salvá-lo de todas as mediocridades. O pecado está em não ver a realidade triste e crua. Penso que DEUS, o de Jesus, caminha sempre connosco e de mãos dadas. Um abraço