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quinta-feira, 19 de junho de 2014

Quando Deus é «comida»

Comentário à missa do Domingo do Corpo de Deus, 22 junho de 2014
De que falamos quando se diz Esse Corpo de Deus, que ao mesmo tempo é Corpo e não é também? – Confuso, mas é disso que se trata.
S. Paulo dirá que a sua realidade é da ordem do invisível (cf. Rom. 1, 20). Santo Tomás de Aquino ensinará que “não podemos saber o que são estas realidades espirituais” e citando Dionísio confirmará: “O raiar da luz divina ilumina-nos mas envolta numa multidão de santos véus... Delas sabemos que existem, e não o que são” (Expositio Super Librum Boetii de Trinitate). O Concílio Vaticano II também pronunciará que diante do Corpo de Deus, pelo Espírito Santo, caminhamos na fé, não na claridade” (Cons. Dogm. De Fide Catholica, cap. IV). A inteligência nada pode dizer sobre aquilo que à partida é por essência da ordem do indizível. Como vemos, as realidades de Deus e, acima de tudo, a que se refere a um Corpo, que à partida não se trata de corpo físico, mas de corpo espiritual, porque dele não temos outro conhecimento senão o da contradição? - Estamos perante Aquele que é e não é ao mesmo tempo. O Copo de Deus em cada Eucaristia, é a presença constante do amor de Deus que se manifesta na mais crua invisibilidade para saciar a alma inquieta no banquete mais «esquisito» que alguma vez a humanidade viveu. É como os mais altos sentimentos das nossas relações humanas, vivem-se sem serem tocados nem vistos. O nosso tempo também está marcado pela inquietação da procura da definição do indefinível. A clarividência de Fernando Pessoa, é sintomática: “Ele, a que, por indefinido, não podemos dar atributos, é, por isso mesmo, o substantivo absoluto”(o Livro do Desassossego).
Em outro momento deste tempo, descobrimos a fé na transcendência absoluta do Espírito Santo, lembro-me de Sophia de Mello Breyner Anderson, quando diz de uma forma tão sublime: “Não te tocam nem as almas, / Pois não te vemos nem Te imaginamos”. Mas Fernando Pinto do Amaral dirá que sempre estaremos “mais próximos de uma obscura verdade” (A assinatura de Deus, in Ler). A nossa vida é sempre um caminho de espera com esperança, assim o desejamos, mas previne-nos Herberto Hélder que “esperamos na obscuridade”, e nesse lugar da errância, o grito inevitável levanta-se à procura do inominável: “Vinde, ó Vós, mostrar-nos o caminho” (- Extraordinário este pedido do poeta, pois, esta é a principal tarefa do Espírito Santo: guiar-nos no caminho certo da vida).
Miguel Torga mostrou ser mais explícito nos seus sentimentos, por isso, pronuncia estas palavras com uma densidade de sentido fundamental para a nossa aposta de fé. “Amo o que me foge”; “Namoro-O na distância”; “Vi-O junto de mim e fiquei mudo. / Neguei-lhe o coração. / E então, perdi-O, como perco tudo” (M. Torga, Antologia Poética). Tudo o que é realidade do coração é invisível e muito difícil de ser dito de forma clara.
Vitorino Nemésio procurava resposta num som distante, num eco que vinha de longe, que apenas consola um pouco a inquietação: “Puro eco de Alguém...”. E Virgílio Ferreira, no livro Na Tua Face, provar-nos-á que o rosto do indefinido existe, embora na distância do sem sentido humano e material. E embora de forma escondida, Ele está lá no fundo da existência. O autor faz o seu desabafo deste modo: “... a face lisa de esplendor e imprevistamente era aí que eu repousava, na tua face, na imagem final do meu desassossego”.
Também foi S. Paulo que nos ensinou que se Cristo não ressuscitasse a nossa fé seria vã. Na mesma ordem de ideias, se não fosse o alimento da Missa, sinal-sacramento que Cristo ressuscitado nos oferece toda a nossa vida seria um inferno, porque, sem esperança no amanhã de uma vida sempre melhor. É este sonho que comanda a vida dos crentes.

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