Convite a quem nos visita

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

O desejo de santidade e a nossa morte

Comentário à missa deste fim de semana, Dia de Todos os Santos e Dia dos Fiéis Defuntos, 1 e 2 de novembro de 2014
Entramos no mês das almas, novembro. E logo nos primeiros dias, os dias do pão por Deus, somos convidados a meditar um pouco sobre essa fronteira de luz e de sombras. A santidade e a morte. 
A morte gera muita hipocrisia, muita dor/sofrimento, muita vaidade e até muita fantasia. Porém, é um caminho destinado a todos, ninguém, felizmente, está livre desta caminhada. O maior tesouro da vida é este.
Nós cristãos ao olharmos os santos encontramos um manancial de liberdade perante a morte. Os verdadeiros santos souberam acolher a morte como uma graça e como um dom. São Paulo foi tão elucidativo sobre o seu desejo profundo de se libertar deste mundo para entrar na comunhão plena com Deus, quando já sentia a sua vida plenamente fundida em Cristo: «já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim».
Deste modo, a morte é o horizonte mais certo que a vida contém no que diz respeito à libertação da miséria toda desta vida. Por isso, ninguém devia fazer da vida deste mundo uma preparação para a morte, porque a morte deve ser encarada como mais um momento da existência entre os infindos momentos que a vida deste mundo contém.
A morada eterna não está no cemitério, porque este lugar é o depósito dos restos mortais (não é assim que dizemos em relação aos defuntos?), por isso, o verdadeiro culto em relação à multidão dos santos de Deus não se deve fazer aí nos depósitos dos restos mortais, mas antes e provavelmente na memória que cada pessoa guarda no seu interior, o verdadeiro lugar de Deus.
No belo livro de poesia de Pedro Tamen podemos ler: «Ela não existe – nós existimos nela. / E faço este discurso envergonhado / (mas algo hei-de dizer enquanto sinto / que não é o meu fim que ali se encontra / mas o princípio) como quem senta / o rabo na borda da cadeira e escorregando / se afunda lentamente pelo chão: a viagem / é essa, esse é o rio – ou ela». Mas também José Gomes Ferreira soube definir muito bem a fórmula que nos permite olhar a morte com o seu verdadeiro sentido: «os pássaros quando morrem caem no céu». Como aprenderam facilmente os santos a pensar assim sobre a morte.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Um discurso clarificador do Papa Francisco

As palavras do Papa Francisco ontem perante os trabalhadores precários e da economia informal, migrantes, indígenas, sem-terra e pessoas que perderam a sua habitação, foram bastante duras e vieram clarificar as coisas em muitos aspectos.
Eis algo que se sente muito aqui na pequenez madeirense: «Terra, teto e trabalho. É estranho, mas se falar disto, para alguns parece que o Papa é comunista», começou por referir, antes de recordar que «o amor pelos pobres está no centro do Evangelho».
Recorda o Papa que afinal esta realidade «Terra, teto e trabalho, aquilo por que lutam, são direitos sagrados. Reclamar isso não é nada de estranho, é a Doutrina Social da Igreja», assinalou. Bem lembrado, para que a Doutrina Social da Igreja Católica deixe de ser um somatório de palavras bonitas que só são lembradas em determinados momentos para depois ficar tudo na mesma.
O Papa pediu que se mantenha viva a vontade de construir um mundo melhor, «porque o mundo se esqueceu de Deus, que é Pai, ficou órfão porque deixou Deus de lado». Aliás muito interessante este aspecto, porque são muitos os que arrogantemente defendem que Deus não serve para nada. Daí que não se tenham feito esperar por leis que retiravam tudo o que fizesse lembrar Deus no coração das pessoas. Aí temos o resultado, um desrespeito enorme pela dignidade da pessoa humana, o desencanto das pessoas perante a vida e uma falta enorme do sentido do viver em perspectiva de futuro. Alguns admiram-se com a taxa elevadíssima de suicídios. Não devia admirar assim tanto, a perda da dimensão do transcendente conduz ao vazio e ao consequente desecanto perante a vida, daí que viver ou morrer é a mesma coisa.
No discurso de cerca de meia hora, o Papa Francisco referiu que a presença dos Movimentos Populares é um «grande sinal», porque estão no Vaticano para «pôr na presença de Deus, da Igreja, uma realidade muitas vezes silenciada». E se falada é apenas por oportunidade e com medo, para que não se levantem as vozes que acusam quem se interessa por este assunto de comunista. Os bandalhos que andaram a fazer falcatruas em bancos e nos governos deviam ler estas palavras e verem que a sua ganância e o seu egoísmo conduziu o mundo esta tragédia da injustiça que faz vítimas inocentes aos milhões. E deviam ser chamados a restituir tudo o que extorquiram contra as regras e que levou à miséria uma porção enorme de gente por todo o lado, para que viesse uma austeridade tão profundamente desigual como a que estamos viver. 
Reparemos então: «Os pobres não só sofrem a injustiça mas também lutam contra ela», precisou. Segundo o Papa, Jesus, chamaria «hipócritas» aos que abordam o «escândalo da pobreza promovendo estratégias de contenção» para procurar fazer dos pobres «seres domesticados e inofensivos». Quantas vezes, os pobres se convertem em números para alimentar os joguetes partidários? Quantas vezes, os pobres são utilizados para alguns se pavonearem na comunicação social debitando petulantemente soluções para a vida das pessoas caídas no escândalo da pobreza? Quantos se servem dos pobres para serem protagonistas de campanhas alimentares, de ações de caridadezinha barata que não resolve nada, apenas mantém os pobres na passividade subjugada ao querer de quem se apresenta com o poder de dar ou não dar? Quantos fazem os pobres são pura e simplesmente o «alimento» para saciar a fome de poder?    
O Papa também falou ainda sobre os temas da paz e da ecologia, para além das questões centrais do emprego e da habitação. Disse: «São respostas a um anseio muito concreto, algo que qualquer pai, qualquer mãe quer para os seus filhos. Um anseio que deveria estar ao alcance de todos, mas que hoje vemos com tristeza que está cada vez mais longe da maioria», denunciou o Papa Francisco.
O Papa convidou os participantes a prosseguirem com a sua luta, «que faz bem a todos». E porque faz bem a todos também nós em cada lugar da vida devemos demonstrar que estamos atentos à violência que é não ter condições para levar para casa o pão para alimentar a sua família. Não há maior pecado do que este. Não há maior escândalo do que este. Aliás, devia a humanidade inteira andar envergonhada, porque enquanto existir uma pessoa no mundo que passa fome, não devíamos nos permitir sair desse estado de vergonha.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Curioso sinal dos tempos

O que estará na cabeça deste rapaz? Será que pode a Igreja Católica no mundo inteiro servir-se do exemplo da correlação entre o altar e o poder político partidário existente na Madeira que soma quase 40 anos?
Vamos lá esclarecer. A Igreja Católica é profundamente política. Mas a Igreja não tem jeito para fazer política partidária, isto é, deve ser a Igreja profundamente política, na verdadeira acepção da palavra, mas não deve ser partidária. Não deve tomar partido por nenhum sistema político nem muitos menos, deve estar ao lado de nenhuma força partidária. Sempre que tal aconteceu o mundo perdeu e a Igreja ainda muito mais perdeu.        
Nos nossos dias, como já o foi também noutros tempos, não deixa de ser curioso e divertido ver o Papa e os textos fundamentais da Igreja a defenderem a democracia, a separação da Igreja e o Estado, e alguns representantes políticos, leigos e laicos do Estado e da vida pública, a deferem a hierarquia. Exactamente como agora se vê entre nós um deputado vir a terreiro a pedir que a Igreja «tem que recuperar o seu papel político»… Mais ainda não deixa de ser curioso que um leigo conotado como sabemos com a política partidária, mais do que bafejada com a colaboração abnegada da Igreja Católica da Madeira há tantos anos, peça à Igreja que viva o que nos meios internos da Igreja vai sendo exorcizado e foge-se da política como o diabo foge da cruz.
A mistura da Igreja com as políticas vigentes são fatais para a Igreja, porque entra mesmo sem o desejar num descrédito muito grande. Se, por um lado, não lhe falta bens materiais para erguer igrejas, fazer beatificações, realizar manifestações populistas entre tantas outras acções. Por outro, falta-lhe presença nas coisas da sociedade, presença séria nas instâncias da educação, da política e dos meios de comunicação social. A Igreja precisa de reacender a esperança no mundo, perder o medo e encontrar depois lucidez para pensar em respostas pastorais que a relancem numa pastoral séria e ousada.
A espada e o hissope não servem para evangelizar. Hoje espera o mundo que a Igreja carregue a cruz da vida das mulheres e dos homens concretos e que caminhe com todos até ao Calvário da vitória.

sábado, 25 de outubro de 2014

Paragem

Para o fim de semana... Sejam felizes sem prejudicar ninguém!
Um abandono que votou a alma
Ao caminho escuro do sem sentido de tudo.
Mas nisto consiste também o esplendor do só
Que pode ser guia na densidade do silêncio.
José Luís Rodrigues

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

O delfinário católico

Parece esquisito, mas também há um delfinário católico. Todos os organismos da Igreja Católica funcionam a partir desta forma de pensar de alguns dos seus responsáveis. Há uns criadores obcecados de delfins que logo depois lhe obedecerão e estarão sempre de acordo com o que digam e façam. Mesmo que às vezes estejam envoltos nas maiores patifarias. Neste delfinário não há lugar para o contraditório, para o diferente, para a pluralidade de opiniões e muito menos respeito pelas opções. Tudo ao contrário daquilo que o Papa Francisco vai promovendo.
Os denfinários católicos também se combatem entre si embora estejam camuflados, escondidos. A descrição é regra, porque a «guerra» não pode ser aberta, pública. Cada responsável aconchega os seus delfins, protege-os dos outros, que consideram perigosos, porque falam muito, esperneiam, são descrentes e imorais. Os delfins católicos são protegidos por uma redoma, uma auréola imaginária para que não se contaminem e fiquem sempre aí como pintos debaixo da galinha.
Contra as diferenças
Nada disto deve ser surpreendente em parte. Todas as estruturas humanas são assim mesmo. E como temos visto disto até à saciedade entre nós em vários quadrantes da sociedade madeirense. Mas, havendo na Igreja Católica, embora não surpreendendo, é grave, porque sendo uma instituição do desinteressado serviço, sabendo-se que provoca sofrimento e faz alguns serem filhos das varas verdes, não devia existir e devia ser exemplar a sua prática a este nível. Mas não é. Ponto.
Há gente aconselhada a não falar nem muito menos conviver com os outros, os que se considera «inimigos» do delfinário, aconselha-se, é um eufemismo, impõe-se como norma esta pretensa pedagogia, aliás, condição essencial para fazer parte do delfinário e continuar a ter atenção e privilégios. Qualquer delfinário é exclusivista, sectário e despreza sem piedade o diferente. E não se pense que são só os jahidistas que funcionam assim, há um mundo católico com esta prática.
Outro sinal implacável do delfinário deriva do segredo que envolve os poucos que entram nesse círculo. Porque chegados a quem manda, só eles podem saber da vida interna da instituição, só eles é que podem mexer em contas, só eles é que decidem sobre a vida de todos, só eles é que podem aconselhar, só eles é que podem tudo e os outros devem obedecer e calar, porque senão são considerados desfezados (sem fé), imorais e hereges.
Catolicismo anti evangélico
Neste domínio como pode ser credível um catolicismo que imprime uma pedagogia àqueles que se preparam para o sacerdócio a não participarem nas suas respectivas paróquias de onde são originários? Quiçá estão a cer também proibidos de  voltarem às suas famílias se por acaso nelas existir algo que não esteja de acordo com aquilo que paira na cabeça de quem promove o delfinário? – Catolicismo assim é anti evangélico e não serve para nada.
Quanto a estas proteções estranhas. A experiência vai ditando, que no passado revelaram gente emaranhada em misérias graves de teor sexual, maníacos desenfreados à caça de dinheiro e de mordomias clericais… Entre outras patifarias que são mais ou menos conhecidas da opinião pública.
As palavras do Papa Francisco têm sido duras quanto às disputas dos delfins por poder nas hierarquias da Igreja, que levam, os sacerdotes a ceder às «tentações», o que sempre resulta numa perda de sentido da fé e da fraternidade.
Por fim, fica a doutrina do Evangelho, este sim, o verdadeiro sustento do cristianismo, que reclama o Papa contra todos os delfinários cerceadores que em todos os lugares do mundo vão minando a fraternidade e a amizade como um cancro maligno contra os desígnios do Evangelho de Jesus Cristo.
Disse Francisco: «Esta é uma bela imagem. Não somos todos iguais e não devemos sê-lo. Todos somos diferentes, cada um com as próprias qualidades. E esta é a beleza da Igreja (…). A uniformidade mata a vida, os dons do Espírito Santo. Peçamos a Ele que nos torne sempre mais católicos, ou seja, universais». Tomem lá delfins de dentro e de fora da Igreja Católica.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Os ídolos, o amor a Deus e aos outros

Comentário à Missa deste domingo, XXX tempo comum, 26 outubro de 2014
Neste domingo, a liturgia deixa bem claro que a salvação do mundo ou passa pelo amor ou então andará sempre assim tão desarranjado tal como se apresenta desde sempre e mais ainda no nosso tempo. Os crentes, especialmente, têm esta tarefa essencial, dar testemunho de que se deixam conduzir pela força transformadora do amor.
O Apóstolo São Paulo dá conta à comunidade de Tessalónica a grande alegria que sente, pelo facto de a comunidade se ter tornado exemplar, pois abdicou dos ídolos e converteu-se, sob a acção do Espírito Santo, a Deus.
Esta mensagem encontra um eco muito grande no mundo de hoje, são muitos os ídolos que se fabricam por todo o lado. Por isso, este regozijo de São Paulo em relação à comunidade dos Tessalonicenses, para nós converte-se em apelo. O mundo de hoje precisa de descobrir que os ídolos que se fabricam por todo o lado, são efémeros, não salvam e muito menos conduzem à felicidade verdadeira.
As frequentes modas que a lógica mercantilista que o nosso tempo fabrica, facilmente manipulam as pessoas, especialmente, os jovens, que se encontram perdidos sem oportunidades de emprego e sem puderem dar resposto ao seu anseio de constituírem família.
A felicidade autêntica descobre-se no modo como cada um e cada qual é. O seu modo de ser, pensar e agir são únicos e cada pessoa deve procurar essa idiossincrasia que está em si mesmo e nunca fora de si. Deus criou cada pessoa única e insubstituível no modo de ser e de agir. Por isso, com esta palavra de São Paulo, nós aprendemos a procurar sermos nós próprios com a ajuda de Deus e nisso consiste já à partida o início do caminho da felicidade verdadeira. Nesta integridade de vida descobre-se o amor aos outros como valor essencial, que ajuda a completar o ser pessoa feliz.
No livro do Êxodo Deus deixa bem claro que não aceita de forma alguma que continuem as situações intoleráveis de injustiça, a violência arbitrária, a opressão e o desrespeito pelos direitos e pela dignidade dos mais pobres e dos mais frágeis, vítimas da loucura do poder que se instala nos tronos não ao serviço do bem comum, mas dos interesses familiares e dos grupos que se alaparam aos partidos políticos. Como exemplo, o texto fala dos estrangeiros, dos órfãos, das viúvas e dos pobres vítimas daqueles que só pensam em números e no lucro pelo lucro, sem olhar às pessoas concretas. Do ponto de vista deste texto qualquer injustiça ou gesto arbitrário praticado contra um pobre ou mais frágil é um crime grave contra Deus e contra a humanidade, porque viola a profundidade da existência de Deus que se manifesta no coração de cada pessoa, especialmente, se ela pertence ao rol dos mais frágeis da sociedade.
O Evangelho atesta, então, claramente, que só o amor a Deus e ao próximo faz a vida ser uma felicidade e para a salvação do mundo não há alternativa a esta. Porque pelo amor, a solidariedade vai acontecer, a partilha fará parte da vida e o serviço será condição sine qua non em todas tarefas que venham a ser realizadas.
Tudo o que venha a seguir, é conversa fiada e formas de organização social experimentadas em todos os tempos históricos que não resultaram nem resultarão outras que se inventem, enquanto todos forem geradores de pobreza e de miséria. A salvação não esteve em nenhum deles porque lhes faltou o condimento essencial: «o amor a Deus e aos outros acolhê-los também no amor como irmãos». Podem dizer que isto se trata de um sonho, um idealismo, pois que seja, o certo é que enquanto assim não for a humanidade continuará torta e tonta, porque capaz de realizar as piores atrocidades contra si mesma.    

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Ninguém pára os ventos da mudança na Igreja

O melhor dos mundos não existe. A partir do Papa Francisco, vamos ver a sério sobre o que se vai passando no mundo católico e também fora dele, porque podemos fazer as devidas adaptações se assim o entendermos. O melhor de tudo é que se pode deduzir, ninguém pára os ventos da mudança na Igreja.
É deste Papa que se escuta que a «ninguém tem o direito de sentir-se privilegiado ou pedir exclusividade. Tudo isso nos leva a superar o hábito de nos posicionar confortavelmente ao centro, como faziam os chefes dos sacerdotes e os fariseus» (Angelus, Roma, 12 de Outubro de 2014). Ainda está bem fresquinha esta advertência papal. E esta é a cereja sobre o bolo: «A Igreja não é um grupo de elite, não diz respeito somente a algumas pessoas, a Igreja não faz restrições…» (Papa Francisco, 9 de outubro de 2013).
Os que buscam mordomias e títulos honoríficos que os compensem nas frustrações e no vazio, andam numa roda viva por causa dos dogmas do catolicismo, é preciso salvar o cristianismo mesmo que isso implique o preço elevado da morte do catolicismo tal como se apresenta às vezes carregado de exclusão. Nas reflexões do Papa Francisco, os dogmas levam com o seguinte: «Nesta renovação não se deve ter medo de rever costumes da Igreja não directamente ligados ao núcleo do Evangelho, alguns dos mais profundamente enraizados ao longo da história», escreveu. É urgente perceber de verdade qual o alcance desta convicção e quanto ela nos toca profundamente a segurança do pensamento quietista e cómodo.
Com a preocupação de alterar a igreja dos privilégios que nos rodeia, a intenção do Papa radica na mudança de postura. Por isso, disse Francisco preferir «uma igreja ferida e suja por ter saído às estradas, em vez de uma igreja preocupada em ser o centro e que acaba prisioneira num emaranhado de obsessões e procedimentos»; «Precisamos de igrejas com as portas abertas» para que os fiéis que buscam Deus não encontrem «a frieza de uma porta fechada».
«Nem mesmo as portas dos Sacramentos se deveriam fechar por qualquer motivo», pontuou, antes de criticar severamente a postura adoptada por muitos sacerdotes católicos a respeito da inclusão: «A Eucaristia não é um prémio para os perfeitos, mas um generoso remédio e um alimento para os fracos».
As posturas só se alteram de verdade, quando se alterarem os ditames do pensamento fechado que séculos e séculos cimentou na cabeça de tanta gente que teima em fazer valer na Igreja e fora dela esquemas de vida que em nada servem a realidade concreta dos nossos tempos. Que o vento imparável do Espírito Santo nunca se canse de refrescar o interior das nossas almas e o nosso pensamento.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Quando predomina a incultura, a beatice e o sectarismo

Haverá por sinal uma multidão imensa de gente a quem se aplicam estes atributos. Todas as instituições têm gente deste teor. Nenhum grupo social, por mais amigos que sejam, se pode gabar de não ter no seu seio gente que merece estas atribuições.
No entanto, quando chegamos ao grupo dos cristãos e encontramos uma multidão imensa de gente com estas características, ficamos perplexos e percebemos, por um lado, que andamos sobre um mar largo, cheio de ondas tumultuosas com um vento feroz, que nada tem a ver com a brisa suave do Espírito Santo. Por outro, podemos imaginar que andamos sobre um pântano de lamas movediças, rodeados de incultos, de beatos e de sectários, muito atentos, a ver qual a hora que o pé de alguém cai em falso para logo o carregarem de pesos pesados e o afundarem até às penas do inferno que, teimosamente, desejam que exista para os outros. São os «hipócritas», «raças de víboras» que o nosso tempo ainda «bota» no mundo e que Jesus tanto repudiou quando «escreveu» o Seu Evangelho com a Sua Palavra e a Sua Ação transformadora da vida e do mundo..
Esta forma de ser cristão está nos antípodas do Evangelho. Não é em nome de Cristo que se é cristão desta forma. Mas está apenas ao serviço da lógica deste mundo, toda ela interesseira e egoísta.
Não se pode, isso sim, deixar que a Igreja se esvazie da sua riqueza, a diversidade de carismas e a multiplicidade de sensibilidades. Nem podemos deixar que a Igreja continue a ser um simples espaço onde apenas alguns mostram a sua soberba e o gosto pessoal pelo poder ou vontade de mandar uma multidão de gente adormecida.
A Igreja é o espaço livre onde o Espírito de Deus age como quer e em quem quer, no sentido de criar uma dinâmica que alimenta a fé e a esperança na salvação. Nunca nenhum dinamismo que cerceie os direitos fundamentais como o da liberdade, o de pensar e o de se expressar. A Igreja, é um espaço livre para gente livre. A religião, nunca pode ser vendida ou comprada por este ou por aquele. Na religião, não há lugar para donos. Cada um com a sua fé é senhor de si mesmo. E deixemos o resto à conta de Deus Nosso Pai/Mãe.

sábado, 18 de outubro de 2014

Interrogações

Para o nosso fim de semana. Sejam felizes sem prejudicar ninguém!
Sei onde vivo e onde estou
mas tantas vezes não sei para onde vou
porque o desequilíbrio agudo do que se deseja
chora mágoas de todos os tempos nus.

Hoje sei que este jogo indefinido não teme
a queda escura do sem sentido
por isso não digo muito
e estendo os braços como asas
no vazio da brisa
quando pé ante pé caminho
sobre o golpe do mistério
que ao longe desvela uma esperança.

Esta é a luz que vejo ao fundo
como quando Deus disse à face perplexa
de Job «Se és homem, prepara-te».

Eu respondo solene: eis-me aqui estou preparado
para todas as interrogações do mundo.
José Luís Rodrigues

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

A maior vergonha do mundo

17/Out.2014 - Dia Mundial para a erradicação da Pobreza e da Exclusão Social
Foto Jornal de Notícias
O dia internacional para a erradicação da pobreza celebra-se a 17 de outubro. A data foi comemorada pela primeira vez em 1992, com o objectivo de alertar a população para a necessidade de defender um direito básico do ser humano.
A erradicação da pobreza e da fome é um dos oito objectivos de desenvolvimento do milénio, definidos no ano de 2000 por 193 países membros das Nações Unidas e várias organizações internacionais.

Frases significativas e lapidares
1. «Há o suficiente para todos, se pararem de esbanjar tudo impensadamente nuns poucos privilegiados. Se todas as pessoas utilizassem os recursos ponderadamente, utilizariam menos do que fazem algumas pessoas a utilizarem-nos insensatamente». (Neale Donald Walsch)
2. «Na terra há o suficiente para satisfazer as necessidades de todos, mas não para satisfazer a ganância de alguns». (Mahatma Gandhi)

A pobreza no mundo
A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) já tinha reconhecido há 20 anos que "o problema não é tanto a falta de alimentos, mas a falta de vontade política". Como a pobreza é o principal causador da fome, esta diminui em países que empreendem políticas capazes de gerar empregos e renda. Em contrapartida, onde há ditaduras e despotismo, há fome e morte por inanição.
Dados revelados pela UNESCO indicam que 842 milhões de pessoas continuaram a sofrer de fome crónica entre 2011 e 2013.
A pobreza está a diminuir a uma taxa sem precedentes. Em 1990, 43% da população mundial vivia em pobreza extrema, com menos de 1,25 dólares por dia. Este número reduziu para 21%, mas há ainda muito trabalho pela frente, especialmente no continente africano. Nada nos desmente que a maior vergonha do mundo esta, a pobreza. 

A pobreza na União Europeia
O número de pobres na União Europeia subiu de 85 milhões para quase 130 milhões, entre 2010 e 2012, com mais 45 milhões de pessoas em situação de carência, divulgou esta quinta-feira, em Bragança, a Rede Europeia Anti-Pobreza (EAPN).

A pobreza em Portugal
Em Portugal, o número de pobres e de pessoas que passam fome tem vindo a aumentar, em resultado da crise. As instituições de apoio e caridade social têm registado um aumento significativo do número de pedidos de apoio por parte das famílias portuguesas.
Segundo dados revelados pela Rede Europeia Anti-Pobreza, 18% dos portugueses são pobres. De acordo com esta organização, o número europeu que serve de referência para definir a pobreza equivale a um vencimento mínimo mensal de 406 euros.

Pobreza na Madeira
Ninguém sabe do ser verdadeiro alcance. Os números oficiais continuam a apontar 2% de pobres de pobres na Madeira. A realidade desmente este número de forma categórica.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Os pratos da balança César e Deus

Comentário à Missa do domingo XXIX tempo comum, 19 outubro 2014...
Desafiado, um dia, a pronunciar-se sobre a legitimidade de pagar o tributo a César, Jesus pediu que lhe mostrassem um denário. Sabia claramente que tanto a moeda, cunhada com a efígie de (Tibério) César, como a inscrição, Tiberius Caesar divi Augusti filius Augustus, ofendiam a sensibilidade judaica de quem o interpelava.
À humilhação de ter em circulação, uma moeda duma potência estrangeira e de com ela ter de pagar imposto a um imperador gentio, havia a acrescentar a indignação religiosa provocada pelo epíteto de «divino» atribuído a outro que não ao Deus de Israel.
Jesus parece jogar todos estes elementos à cara de quem lhe colocou a questão. Por isso, Jesus pronuncia a frase que ficará célebre em todos os tempos com um rigor teológico exemplar: «Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus» (Mt 22, 21).
O desejo de poder e de domínio nada são perante a sublimidade de Deus. A escolha não tem meio-termo na frase de Jesus: ou César ou Deus. Por isso, os «casamentos» entre poderes produzem amigalhaços e subjugam a verdade a favores mútuos que cerceiam a liberdade e a dignidade. Estão fora de Deus o poder temporal que manda rezar, mas também está fora o poder religioso que manda votar tendenciosamente ou acarinha preferencialmente esta ou aquela opção política.
A afirmação de Jesus é clara e não deixa margem para dúvidas. Dar a César o que é de César, é devolver-lhe uma moeda com a sua efígie, para que o poder imperial possa manter a administração e os laços de comércio que a moeda representa. Mas, dar a Deus o que é de Deus, é recusar a César o poder absoluto que de si mesmo se atribui, mas concentrar-se também no poder da justiça e do amor de Deus.
A moeda representa tudo o que de bom se pode construir, mas também representa tudo o que de mau se implementa nas relações sociais. Com a moeda constrói-se o bem, edifica-se tudo o que o homem precisa para se promover como tal, mas também com ela nasce o que não presta: os negócios comerciais com drogas e com toda a espécie de crime. Quanta morte indiscriminada e injusta por causa do dinheiro?; Quanta desordem nas famílias e nas comunidades por causa da moeda?; Quanta luta feroz nas empresas, na política e em todas as instituições sociais por causa do vil metal? …
A religião é desafiada a centrar o seu pensar e actuar na fidelidade a Deus e na prática da construção do mundo. Tarefa nem sempre bem clara para os mais responsáveis, mas que é essencial ser praticado, para que se faça jus à clareza que Jesus. Os pratos da balança chamam-se César e Deus, é preciso que o produto de um de outro não se confundam e cada um esteja no seu devido lugar para que o serviço de um e de outro não resultem em sério perigo para o bem comum do mundo e das sociedades humanas. 

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Uma lanterna

Lembrar alguém que nos fazia pensar e rezar a vida quotidiana...
Todos sentimos algumas vezes na vida a sensação de solidão: uma solidão de abandono ou de esquecimento, uma sensação de isolamento. Mas há sempre uma luz a iluminar essas horas: um familiar, um amigo ou até alguém desconhecido. Há sempre um anjo de bondade, velho ou novo, que vem trazer um pouco de lenitivo ou de azeite à candeia da esperança. Li há tempos o relato de um acidente de automóvel. Noite escura. Um casal viajava na auto-estrada serenamente foi abalroado por um potente automóvel, que os atirou para a lama da margem, ficando os dois carros desfeitos. O condutor do carro abalroado conseguiu desprender-se e vir para a estrada pedir ajuda com uma lanterna. Os carros passavam velozmente. Outros afrouxavam, mas não paravam, não ofereciam um gesto de solidariedade.
O homem já sentia revolta pela indiferença egoísta dos que passavam. Mas corrigiu a sua ideia quando viu aproximar-se um homem com uma lanterna, a verificar se havia feridos e teria de ir buscar socorro.
Aquela lanterna, naquela hora dramática de confusão, de incerteza e perigo iluminou a alma daquelas três pessoas sinistradas. Na vida, acontece muitas vezes isto. Quantas vezes alguém é abalroado imprevistamente por uma doença, por um desgosto, por um acidente, que deixam a alma em trevas de angústia. Mas uma simples lanterna – um amigo, um familiar, alguém – são como a luz do extremo do túnel escuro. Por essa luz renasce tantas vezes a esperança, a coragem para continuar a lutar. E essa lanterna é a nossa mão estendida levando ajuda, apoio, serenidade, salvação a qualquer coração angustiado.
Mário Salgueirinho  

terça-feira, 14 de outubro de 2014

O vendaval Francisco ainda não chegou até nós

Luís Osório escreveu ontem no Jornal I o seguinte: «percebe-se o pouco entusiasmo dos bispos portugueses quando falam do sínodo de Francisco». Parece grave esta constatação, ainda mais se nos detivermos no título do artigo onde vem estampada esta frase. Reparemos: «A voz de Francisco chega sumida aos bispos portugueses».
Realmente não é preciso correr muito para não encontrarmos citações exaltadas do pensamento do Papa Francisco nos discursos dos bispos portugueses. Deve derivar tudo isto da tradição de bispos apalaçados que sempre existiram em Portugal, feitos com o poder políticos reinante até aos dentes e, pior do que isso, amedrontados com o que lhes possa acontecer se tiverem um laivo de pensamento livre e desprendido das amarras cerceadoras de quem governa. 
Mais ainda se torna grave se constatarmos que temos uma série de bispos presos à subsidiodependência. Se tomam posições contrárias ao status dominante logo lhe será cortado o subsídio para os museus, os restauros das Igrejas, as pinturas e as estátuas dos santos que enfeitam os altares. É disto que se trata. 
O vendaval chamado Francisco não chega até nós nem muito menos abana os bispos portugueses porque estão mais virados para a segurança do pensamento imutável nem muito menos estão abertos ao agiornamento que agita a Igreja a partir do Papado, que deixou de ser aquela «coisa» quase divina, que pouco ou nada desinstalava. Hoje a marca é esta: «A bondade de Deus não tem confins, não discrimina ninguém: por isso o banquete dos dons do Senhor são universais, são para todos. A todos é dado a possibilidade de responder ao seu convite, ao seu chamamento; ninguém tem o direito de sentir-se privilegiado ou pedir exclusividade» (Angelus, Roma, 12 de Outubro de 2014). O Papa mexe-se e provoca os bispos para que se mexam também, para quem prefere estar quieto, obviamente, que está preocupado e não gosta do Papa.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

O clero não é dono da doutrina sobre a família

Sínodo da família
A comunhão da missa é para pecadores e não para santos. E hoje em geral todas as pessoas se abeiram da comunhão eucarística. Neste sentido não se entende muito bem que entre cardeais e bispos que participam no Sínodo sobre a família ainda ninguém tenha dito claramente nada sobre esta situação na Igreja, especialmente, na europeia.
No entanto, não subestimo que há alguns fiéis, se quisermos, mais informados sobre as «regras» que, em reserva de consciência, se vão escudando da comunhão eucarística. Também reconheço que outros ainda, o não fazem porque alguém lhes disse que era pecado ou porque, mais grave ainda, viviam em pecado.
Por aqui não vislumbro que venha a dar-se uma hecatombe se os cardeais e bispos sinodais vierem a dizer que os casais separados, os recasados, os casados civilmente e os casais em união de facto, afinal, podem todos comungar. Não será assim uma grande novidade nem muito menos vai acontecer um tsunami, porque na realidade é já bem visível que a comunhão acontece para todos quando lhes apetece. Quase nenhum padre se atreve a dizer que não podem ou toma posições mais radicais ao ponto de negar-lhes a comunhão. Há receio das consequências e é impossível saber-se de todas as situações familiares, a não ser que seja junto de uma pequena aldeia onde todos sabem da vida de todos. Nos meios urbanos é quase impossível e se tivermos em conta o quanto as pessoas se mobilizam hoje ainda mais se torna difícil essa vigilância.
Por isso, continuo a achar que o debate em torno da família devia antes estar centrado no essencial, isto é, na importância da família para a prosperidade da humanidade, o contributo imprescindível da família para a construção das sociedades e para o futuro de todos nós. Bastava-nos alguma doutrina concisa, clara e objectiva sobre estes dados, quanto ao restante, deixemos isso à liberdade e autonomia das pessoas, dos casais e das famílias. Seria importante um dia do Sínodo ser dedicado à autonomia das pessoas e quanto prezam hoje pela sua liberdade de pensamento e de acção.
Não se entende que um enorme grupo de celibatário se tome no direito de impor regras e mais regras, metodologias sobre como levar uma família para diante, a educação dos filhos, o jeito e a forma como deve o casal conviver entre si... O que se constata é precisamente isto, é difícil à mentalidade dos nossos tempos compreender que quem não saiba nada sobre esta experiência tenha que se pronunciar sobre uma realidade que não vive nem nunca experimentou. Tanto se badala que a experiência é um posto, pois então, em que ficamos quanto a este assunto sobre a família? Sobre como ser casal, família e filhos nenhum cardeal, bispo, padre pode arvorar-se de ter experiência neste domínio...
O que vai acontecer é que perante tanta conversa se fique com tudo na mesma. Aliás, venham ou não novidades sobre estes aspectos da família, vamos ficar como os métodos contraceptivos artificiais que alguma Igreja Católica continua repetindo, que são um «pecado» e os métodos naturais é que são bons e queridos por Deus. Face a este dado os casais católicos são os primeiros a reconhecerem que não têm em conta tal apelo e que não ligam patavina ao que diz o clero.
Vá lá, membros do Sínodo, falem destas coisas e acolham o pulsar da vida dos nossos dias e não se contaminem por um passado que há muito que foi chão que deu uvas. Abram o vosso coração à enorme riqueza de Deus nos tempos concretos de hoje, que se expressa claramente nos casais crentes e não crentes. 

sábado, 11 de outubro de 2014

Malala

Para o fim de semana. Sejam felizes sempre sem prejudicar ninguém...

Texto que se faz homenagem a todas as crianças do mundo, especialmente, as que a loucura humana converte em obejcto de exploração desenfreada. Mais ainda acrescento a este sublime exemplo a lembrança de tantas crianças e adolescentes que andam para aí a gastar a sua vida no fumo, no álcool, no consumo de estupefacientes e na prostituição. Que Malala seja o nome de todas as crianças do mundo, contra a barbárie, o fanatismo, a intolerância e todas as loucuras que fazem friamente da carne humana um negócio horrendo.  
Disse Malala aos surdos ouvidos do mundo:
«Uma criança, um professor, uma caneta e um livro podem mudar o mundo. A educação é a única solução. Educação antes de tudo». E «Não podemos ser bem-sucedidos quando metade do mundo é reprimida». (Malala Yousafzai Discurso na ONU a 12 de Julho de 2013, o dia em que completou 16 anos).
A criança gigante que desponta
Malala do silêncio que anuncia a paz
mesmo que as balas terroristas
cortem a carne e os desejos
que os talibãs feriram
nos cantos das casas.
Por mais que espalhem sangue
e outras crianças feridas da fome
do amor
diz Malala ao mundo
que morreu a fraqueza
o medo
porque das cinzas molhadas do sangue
nasceu a força
o poder
e a coragem nas flores da esperança.
Brava Malala símbolo
resistente da intolerância estúpida
e do fanatismo mortífero.
ó pequenina criança
frágil que se agigantou indignada
como eco contra a injustiça de um país
e o mundo inteiro
que se descansa sereno
porque parece longe
a morte de uma criança anónima.
Pode não ser mais assim
se o mundo vencer o medo
e mesmo que debaixo das balas
Disser Malala tu és a luz da paz.
José Luís Rodrigues

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

O adulador

Numa terra indecente como é às vezes a nossa, faz valer tudo o que não presta, a sabujice, a cunha, a «bilhardice» que acusa outros perante os chefes, o jeitinho como regra para chegar ao fim os intentos egoístas e por fim a chulice mesmo que isso implique graves prejuízos para a maioria dos cidadãos pela carga terrível dos impostos. 
Tudo isto ser norma e pão quotidiano é revelador de uma terra pequena e que se chamada de ter um «povo superior», é apenas um eufemismo patético. Há um deficit de pensamento, uma grave submissão ao que vai acontecendo. Os sabujos estão em todos os lugares e fazem pensar que não temos remédio por muito tempo. Há uma ou duas gerações perdidas. Não há espírito crítico, tudo está bem como o chefe mandou, mesmo que esteja à vista de todos que mandou mal. Por onde anda a opinião pessoal, que não é regra, mas é importante e edifica a diversidade, a pluralidade? - O pensamento próprio não é valor, valor, isso sim, o que consegue agradar, o que se atinge pela bajulice e pela acusação que se fez contra os outros, tipo o fariseu do Evangelho quando reza: «Meu Deus, dou-Vos graças por não ser como os outros homens, que são ladrões, injustos e adúlteros, nem como este publicano. Jejuo duas vezes por semana e pago o dízimo de todos os meus rendimentos» (Lc 18, 11-12). Nada melhor para ilustrar este estado de coisas que nos é dado viver na nossa terra.
Quando emergiu a crise, que alguns pretendem pintar com cores alegres que disfarcem a tragédia, pensávamos que as coisas se transformassem e outra luz viesse do fundo das almas para aclarar este escuro da vida que nos rodeia, mas não, o indivíduo servil, o sabujo vilão dos quatros costados não aprende, não toma remédio que o redima e salve da letargia em que a longa hibernação alienante o votou em um determinado momento da história. Não quer ver, não quer saber, são expressões que se vão escutando. Mais grave ainda, é que fazer regra de vida a sevandija mesmo que isso custe vender a alma e atraiçoar a catequese que recebeu in illo tempore.
O que escandaliza não é o adulador, mas o calado manhoso que só fala em segredo para dizer tudo o que lhe apetece e com isso levar adiante as suas pretensões, mas o que recusa, o que esperneia, o que não alinha com a chulice e com todos os mecanismos que o sistema ainda alimenta. Tempos virão que o adulador será posto na ordem e finalmente perceberá que o mundo não gira em torno da sua palerma forma de estar na vida nem muito menos será a sua manhosice a ditar a lei e a ordem.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

A imagem do Banquete para salvar o mundo

Comentário à missa deste fim de semana
Domingo XXVIII tempo comum, 12 de outubro de 2014
A liturgia do 28º Domingo do Tempo Comum utiliza a imagem do «banquete» para descrever esse mundo de felicidade, de amor e de alegria sem fim que Deus quer oferecer a todos os seus filhos.
O Apóstolo Paulo está preso e recebe uma ajuda monetária razoável, recolhida na comunidade de Filipos. Porém, embora a ajuda seja bem-vinda, porque alivia a "aflição" de Paulo, mas não é o mais importante para ele, porque se sente preparado para viver na fartura e para passar fome, e assim, acontece, porque, "Tudo posso por Cristo, que me dá força".
Neste contexto, São Paulo apela aos filipenses que é muito importante partilhar e interessar-se pelas aflições dos outros e viver a solidariedade com os mais necessitados. Quem abre o coração à partilha, Deus provém a todas as suas necessidades. Deus não falta com tudo o que seja necessário em relação a todos os que abrem o seu coração à solidariedade e partilha. Já vem de longe o ensinamento, "quem dá aos pobres empresta a Deus".
Este texto dá-nos uma grande lição em duas vertentes. Primeira, devemos ser solidário e sempre que as necessidades à nossa volta apareçam devemos procurar ajudar na medida do possível. Segunda, devemos aprender a viver em cada circunstância com aquilo que a vida nos oferece. Quantas pessoas, encontramos revoltadas, porque não têm abundância de dinheiro e de bens materiais? Quantos vivem amargurados porque a vida não lhes acena com a sorte de ter muito? Quantos vivem a contragosto porque a vida não lhes sorri com tudo aquilo que a publicidade seduz? - O desespero é grande, porque se desaprendeu a viver com pouco e com aquilo que é absolutamente necessário para a vida.
Por um lado, para nós cristãos, o Apóstolo São Paulo é apelativo quanto à necessidade que temos em estar atentos às aflições dos outros. Muitas vezes encontramos muitas razões para não ajudar ninguém, porque ora a miséria e a aflição é o resultado de más opções e de atitudes desregradas. Mas, não é esse o princípio cristão. Ser cristão é ser solidário, amigo e fraterno mesmo que se receba todo o mal do mundo e todas as incompreensões possíveis. A partilha e a caridade (solidariedade) devem fazer parte da vida de todo o cristão. É na vida cristã que radica a visibilidade de outro ditado popular: "Fazer o bem sem olhar a quem".
Por outro, aprender a viver com aquilo que a vida nos dá é muito importante. Não digo satisfazer-se e acomodar-se absolutamente, mas antes lutar sempre mais sem desespero nem atropelos. Esta aprendizagem é importante, porque nos ajuda nos momentos menos bons, os momentos da crise. Muita da pobreza não resulta por falta de bens, mas falta de sabedoria e equilíbrio para governar-se. O cristão, deve saber viver em qualquer circunstância, tenha muito ou tenha pouco. O mais extraordinário, é que a maior generosidade não vem de quem tem muito, mas de quem do pouco sabe fazer muito.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Mergulhados na indigência política

É com muito desencanto que vejo esta perfilhação de tantos candidatos a líderes do partido maioritário na Madeira. Muitos estão interessados a chegar a líder, sabemos os motivos que movem alguns, outros ainda não tanto. Há uma nebulosa que envolve alguns deles. Pode também ser pelo facto de serem tantos e nós ainda não abarcamos o que são e o que representam alguns. Outros sabemos claramente o que os move, de onde vieram e o que fizeram durante estes anos todos.
É legítimo que em democracia qualquer cidadão alimente legítimas ambições de liderança em qualquer órgão público. Mais ainda se aplica esta constatação a qualquer militante de um partido político que, se reunir condições, aspire a ser líder desse partido onde milita.
Mas neste momento o que mais me inquieta é que não estejamos a ouvir falar naquilo que desejamos para termos uma Madeira melhor para todos, que região, queremos para que este cantinho se torne um lugar de paz e felicidade para todos os seus habitantes.
O que vemos e ouvimos não isso. Os candidatados propõem-se unicamente tirar o poder a alguém. Primeiro ao eterno líder que governa a Madeira e o partido há quase 40 anos, depois puxar o tapete aos colegas que se candidatam à liderança. Há uma confusão generalizada. Ninguém se entende. Há mercenários atirados em todas as candidaturas e atiram a torto e a direito por todo o lado. Um perigo andar na rua e abrir a boca.
O que se esperava, seria vermos com clareza o que pensam todos os candidatos sobre o que está em causa para a Madeira e para o seu futuro. Não os tachos, os negócios e os interesses que estas coisas sempre implicam. Quando assim acontece ficamos com a ideia de que o que se pretende é tirar o poder a um para dar a outro, Leonardo Boff, definiu este fenómeno assim: «Isso mostra indigência de espírito político». Na Madeira estamos realmente a viver este ambiente de «indigência» de uma forma que excede todos os parâmetros do bom senso.
Vejo com desencanto que não se tenha em conta quem melhor tem condições ganhar eleições que depois lhe permita governar com justiça e trabalhe com seriedade para o bem comum. O que vejo é uma luta de galos que não sabem de onde vieram nem muito menos para que vieram e para onde vão.
Tudo isto é triste de mais e mergulha-nos no desencanto sobre o nosso futuro. Sobre isto devíamos estar todos preocupados, para que não sejam apenas os partidos políticos envoltos na malha infinita de interesses a tomar a história que implica com a vida de todos nós. 

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

A firmeza do Papa na abertura do Sínodo sobre a família

Esperemos que esta foto não represente
senão a solidão do Papa Francisco
para escutar eficazmente a voz do Espírito Santo. 
O Sínodo sobre a família começou em Roma, no Vaticano. O Papa Francisco fez a abertura com palavras duras e com apelos bem concretos ao debate, à escuta atenta do que diz o povo de Deus e a que se deixem conduzir pela voz de Deus, que na Igreja Católica se diz ser o Espírito Santo. Neste contexto alertou o Papa: "Podemos frustrar o sonho de Deus, se não nos deixarmos guiar pelo Espírito Santo. O Espírito dá-nos a sabedoria, que supera a ciência, para trabalharmos generosamente com verdadeira liberdade e humilde criatividade." (Papa Francisco durante a Missa que abre o Sínodo extraordinário do Sínodo dos Bispos, no Vaticano).
Pediu o Papa para que ninguém "imponha fardos pesados a ninguém", que não se cale a voz de Deus nem muito menos que se deixe de escutar e ver os lamentos dos sofrimentos de tantos casais que desejam o restabelecimento da comunhão com Igreja e que lhes seja concedida a possibilidade de "acederem" à misericórdia de Deus. Para tudo o isto o Papa deseja debate sério e livre. Por aqui alguns consideram que o Papa Francisco trouxe "a liberdade de expressão" na Igreja Católica. Porém, fica esta ideia que circula no facebook que a expensas do Ministério da Justiça do Brasil sobre a liberdade de expressão: «Liberdade de expressão é o direito de manifestar livremente opiniões e ideias. Entretanto, o exercício dessa liberdade não deve afrontar o direito alheio, como a honra e a dignidade de uma pessoa ou determinado grupo. O discurso do ódio é uma manifestação preconceituosa contra minorias étnicas, sociais, religiosas e culturais, que gera conflitos com outros valores assegurados pela Constituição, como a dignidade da pessoa humana. O nosso limite é respeitar o direito do outro».
Por fim, que todos nós retenhamos esta ideia essencial de Frei Miguel Grilo: «Estarão os que defendem o SIM preparados para aceitar o NÃO que sair deste Sínodo? E os que defendem o NÃO preparados para aceitar o SIM? Defender o seu interesse e ideologias pessoais é muito fácil... mas espero agora que no final sejamos todos capazes de abdicar dos nossos interesses e ideologias para aceitar aquilo que é a orientação da IGREJA».
Rezemos pelo Papa Francisco. Nunca foi tanto necessário como agora ter em conta esta intenção especial nas nossas orações, porque as investidas dos conservadores e tradicionalistas na Igreja foram tão fortes contra o Papa. 

sábado, 4 de outubro de 2014

Bons pensamentos para administrar a vida

Comentário à missa deste domingo
Domingo XXVII tempo comum, 4 de outubro de 2014
Os pensamentos, estão para a vida na mesma medida que a vida está para os pensamentos. O grande estudioso do cérebro o cientista António Damásio, diz que a alma está no cérebro. Considero esta conclusão muito interessante e importante, porque o bem mais preciso que Deus deu à humanidade é a inteligência. Curiosamente, penso que não haverá ninguém que não considere que a inteligência está no nosso cérebro. Por isso, se este é o bem maior que Deus nos deu, então, ele faz parte da nossa alma. São Paulo, apela que se centre os pensamentos no pensar de Cristo. Quais são os pensamentos de Cristo? - Eles são: "Tudo o que é verdadeiro e nobre, tudo o que é justo e puro, tudo o que é amável e de boa reputação, e o que seja digno de virtude e de louvor, é o que deveis ter no pensamento". Aqui está a lista do conteúdo do pensamento positivo que muitas vezes se vê apregoado pelos vários mestres. Mas, que na realidade é difícil de atingir. Esta lista são valores da alma, que precisam de inteligência para serem levados à prática.
O Apóstolo quer ensinar-nos que facilmente os nossos pensamentos se perdem em ninharias e em conteúdos inúteis que não servem para nada e para ninguém.
O pensamento não se controla, é verdade. Mas pode ser conduzido e facilmente desviado, basta fazer um pequeno esforço e uma certa ginástica mental.
Assim, muitas vezes os pensamentos perdem-se com as doenças, com as artimanhas para vencer na vida da forma mais fácil, com todos os esquemas para enganar os outros, com todas as formas possíveis de vingança, com os bens materiais, com todos os medos que afectam a nossa sociedade actual, com o medo da morte, enfim, uma lista infindável de pensamentos que ocupam as nossas cabeças. E quando eles assim acontecem, tornamo-nos maus admisnitradores da vida.
O pensamento é o desbobinar de ideias. Umas muito boas e úteis à vida para todos e outras também menos boas que prejudicam a vida de todos. Mas cada coisa deve ter a sua ideia, porque "cada coisa que perde a sua ideia é como o homem que perdeu a sua sombra - ela cai no delírio onde se perde" ensinava o autor Jean Baudrielard, sob o título curioso "A Transparência do Mal".
São Paulo neste trecho aos Filipenses coloca a utilidade do pensamento e a matéria das ideias no centro Jesus Cristo. As Suas ideias, o Seu pensar, o Seu filosofar e o Seu sentir devem enformar o pensamento de cada pessoa que se faz Seu discípulo. Ele é o Mestre da Filosofia da Fraternidade. Por este âmbito encontramos eco no pensar de vários autores da Filosofia, porque a definem com as melhores expressões do cristianismo.
Nessa busca de vestígios cristãos, descobrimos no grande pensador C. Jaspers o sentido do filosofar como um "estar a caminho" e como um "despertar"; Bertrand Russell, coloca o centro dos pensamentos no verbo "interrogar", as ideias não escorrem sem esse sinal de interrogação constante; Merleau-Ponty radica-o na palavra "criticar"; Le Roy, ensina que não basta debulhar ideias, elas terão sentido quando o pensamento segue o caminho da "unidade", isto é, "unificar" é crucial para a conjugação dos pensamentos e das ideias; por fim, o nosso incontornável Antero de Quental recorre ao verbo "duvidar", que por vezes assusta alguns, mas é sempre necessário para crescer e permitir a evolução dos pensamentos e das ideias. 
O Apóstolo Paulo, porque nos apresenta o melhor dos mestres, Jesus Cristo, faz-nos um apelo para que os pensamentos de deste mestre sejam em larga medida os pensamentos de todo o Seu discípulo. Embora não se controle em absoluto os nossos pensamentos, podemos em muitos momentos da nossa vida tentar canalizar o pensamento para as ideias nobres que o Evangelho nos apresenta. Também devemos deixar que todas as boas ideias e pensamentos de outros nos deixem seduzir para o essencial, a verdade que liberta.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

O descarte dos idosos

No encontro que Papa Francisco este passado Domingo manteve com cerca de 30.000 pessoas de idade avançada na Praça de São Pedro, sendo que pelo menos uma dessas pessoas tinha mais de cem anos de idade, esteve Bento XVI, o Papa-Emérito. As fotografias que circularam sobre o encontro entre os dois papas, percebe-se a alergia e o carinho que um manifesta pelo outro. São um exemplo para o mundo e para as famílias, para que considerem os idosos com alegria e carinho.
O Papa Francisco aproveitou para falar da urgência, eclesial e social, que é de se superar os ditames de uma cultura que, muito apropriadamente, o Santo Padre tem vindo a considerar ser uma «cultura do descarte», uma realidade dolorosamente presente no mundo dos nossos dias e que urge afrontar com os instrumentos da caridade cristã, aquela que, por definição, sempre começa «por casa».
Para quem maltrata os idosos ou os considera «objecto» suscetível de descarte fiquemos com esta história: um senhor de idade foi morar com o seu filho, a nora e o netinho de quatro anos de idade. As mãos do velho eram trêmulas, a sua visão embaçada e os seus passos vacilantes. A família comia reunida à mesa. Mas, as mãos trêmulas e a pouca visão do avô o atrapalhavam na hora de comer. As ervilhas rolavam da sua colher e caíam no chão. Quando pegava no copo, o leite era derramado na toalha da mesa. O filho e a nora irritaram-se com a bagunça. - Precisamos de tomar uma decisão com respeito ao pai, disse o filho.
- Já tivemos suficiente leite derramado, barulho de gente comendo com a boca aberta e comida pelo chão.
Então, decidiram colocar uma pequena mesa num cantinho da cozinha. Ali, o avô comia sozinho enquanto a restante família fazia as refeições à mesa, com satisfação. Desde que o velho quebrara um ou dois pratos, a sua comida agora era servida numa tigela de madeira. Quando a família olhava para o avô sentado ali sozinho, às vezes escorriam-lhe lágrimas pela cara a baixo. Mesmo assim, as únicas palavras que lhe diziam eram de admoestações ásperas quando ele deixava um talher ou comida cair ao chão.
O menino de 4 anos de idade assistia a tudo em silêncio.
Uma noite, antes do jantar, o pai percebeu que o filho pequeno estava no chão, manuseando pedaços de madeira. Ele perguntou delicadamente à criança:
- O que estás fazendo?
O menino respondeu docemente:
- Oh, estou fazendo uma tigela para o pai e outra para a mãe comerem, quando eu crescer.
O garoto de quatro anos de idade sorriu e voltou ao trabalho. Aquelas palavras tiveram um impacto tão grande nos pais que eles ficaram mudos. Então as lágrimas começaram a escorre com enorme arrependimento.
Por isso, embora ninguém tivesse falado nada, ambos sabiam o que precisava ser feito. Naquela noite o pai tomou o avô pelas mãos e gentilmente conduziu-o à mesa da família.
Dali para frente e até o final dos seus dias ele comeu todas as refeições com a família. E por alguma razão, o marido e a esposa não se importavam mais quando o garfo que caía, o leite que era derramado ou a toalha da mesa que ficava suja.
E porque, verba volant, scripta manent (as palavras voam, os escritos permanecem), fica a mensagem desta a história mais os gestos importantíssimos dos Papa Francisco.