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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

A transfiguração de Jesus é um convite ao essencial

Comentário à missa domingo II tempo da Quaresma, 1 de março de 2014
Transfigurar-se significa modificar-se ou passar por alguns poucos instantes por uma outra pessoa ou figura; significa passar por uma breve mudança instantânea. Seja essa mudança consciente ou inconsciente.
Ao tratar-se de seres divinos ou místicos a transfiguração é frequente na revelação do divino aos humanos. A ideia comum sobre a questão é de que durante o dia passamos por muitas mudanças físicas e mentais. Por isso, em cada minuto não somos a mesma coisa. Nós somos fruto do tempo e das circunstâncias. O ambiente quotidiano vai fazendo muito daquilo que somos e responsabiliza em muito as nossas atitudes. Quer dizer, somos fruto do momento. Assim se pode explicar um pouco o que é a transfiguração.
No texto do Evangelho de São Marcos que será lido neste próximo domingo nas missas, a transfiguração de Jesus, literariamente, a narração da transfiguração é uma teofania – quer dizer, uma manifestação de Deus. Portanto, o autor do relato vai colocar no quadro todos os ingredientes que, no imaginário judaico, acompanham as manifestações de Deus (e que encontramos quase sempre presentes nos relatos teofânicos do Antigo Testamento): o monte, a voz do céu, as aparições, as vestes brilhantes, a nuvem e mesmo o medo e a perturbação daqueles que presenciam o encontro com o divino. Isto quer dizer o seguinte: não estamos diante de um relato fotográfico de acontecimentos, mas de uma catequese (construída de acordo com o imaginário judaico) destinada a ensinar que Jesus é o Filho amado de Deus, que traz aos homens um projeto de salvação que vem de Deus, que convida à prática do amor incondicional.
A humanidade do nosso tempo não está virada para a transfiguração daquilo que impede a felicidade e a fraternidade, porque continua dominada pela lógica que este mundo impõe que viola a vida plena, porque não tem em conta o amor como dom total levado até às últimas consequências. As preocupações egoístas na base dos interesses pessoais continuam em força, não importa nada o serviço simples e humilde pelos outros, especialmente, os débeis, os marginalizados, os infelizes, os sem sorte, sem lugar e vez no banquete da vida. Importa assegurar para si o poder interesseiro, o domínio sobre os outros, que alimente o prazer de estar do lado dos vencedores, porque não importa a vida vivida como um dom, com toda a simplicidade e humildade, mas uma vida «enorme» a encher a vista, mesmo que emaranhada no jogo complexo de conquistas, de honras, elogios, palmas, glórias e sucessos a qualquer preço.
São Paulo, ensina-nos, afinal, que nada pode estar contra nós, porque Deus é por nós. Mas, o que mais há neste mundo é medo de Deus. A presença de Deus provoca medo a este mundo, porque os corações desta geração estão ocupados com coisas desnecessárias em relação à fé, isto é, em vez de acreditarmos de verdade no Seu amor e na Sua misericórdia, concebemos um Deus todo-poderoso que castiga e se vinga de nós. Esta visão de Deus é totalmente destorcida e não tem sentido diante das palavras e gestos amorosos de Jesus.
Neste sentido, chega de anunciar um Deus contra o que quer que seja. Vamos proclamar e viver um Deus simples e amigo de todos. Um Deus que não se compadece com a violência, a maldade, a inveja, a exploração, a fome e a nudez.
Neste meu singelo manifesto, quero proclamar um Deus que detesta e vomita, todas as formas de alienação ou ópio, todos os ritualismos desumanos que ainda subsistem na nossa Igreja, todos os apelos aos sacrifícios ou promessas, que mais não são exploração desenfreada dos fracos e dos pobres, todos os caminhos que levam à luta do poder pelo poder, todas as formas de dominação religiosa sem Evangelho, todos os caminhos que estão pejados de escárnio, de discriminação e ostracismo dentro da nossa Igreja e no mundo. Por fim, vamos estar com Deus, para que nada nos impeça de viver com felicidade, realizando a Sua vontade.

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