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quarta-feira, 1 de julho de 2015

Solidariedade com o povo grego e demais povos explorados

Péricles, governante de Atenas no século V a.C., enaltecendo as glórias da democracia ateniense, declarou: «O poder está nas mãos não da minoria, mas de todo o povo, e todos são iguais perante a lei» (Tucídides, «Guerra do Peloponeso»). Não saber disto, não apreciar isto e não levar à prática este valor da democracia nos tempos que correm viola o que há de mais nobre na organização da vida dos povos.
Os mercenários que centraram a vida dos povos e das sociedades na loucura do dinheiro, na finança não sabem disto e entraram em pânico porque o poder legitimante sufragado em eleições livres pelo povo grego, o Syriza, resolveu devolver ao povo, por referendo, a decisão de continuar ou não com a barbaridade da austeridade, essa coisa que suga o sangue aos cidadãos mais vulneráveis e os faz mergulhar na desgraça da pobreza.
Por isso, vi com muito interesse o que Alexis Tsipras disse ao seu povo quando anunciou o referendo: «Ao autoritarismo e à dura austeridade, responderemos com democracia, calmamente e de forma decisiva. A Grécia, o berço da democracia, irá enviar uma ressonante resposta democrática à Europa e ao mundo». É muito bonito e interessante que nos fique esta saudável lição de democracia e de uma opção clara pelos valores democráticos. Os líderes da Europa inteira que estão a tomar medidas duras contra os seus povos, deviam seguir este exemplo e lutar, isso sim, contra os mercenários que pretendem conduzir o mundo sentados sobre montanha de dinheiro contra a dignidade e contra a dos cidadãos.
Em janeiro, quando o Syriza venceu claramente as eleições na Grécia, surpreendentemente, o jornal do Vaticano,  L'Osservatore Romano, numa reportagem de Francesco Peloso, comentara: «Com a vitória do Syriza nas eleições gregas, certamente abre-se uma nova fase na Europa, uma fase que passa pela expansão de um espaço social, em reação às políticas de austeridade. Quanto mais os cidadãos europeus pedem para ser envolvidos para além das lógicas dos mercados, mais o trabalho da política deve ser o de acolher as reivindicações que partem da sociedade». Nada disto está a ser escutado, mas mantem-se a lógica do autoritarismo e a ideia de que a salvação do mundo e, parituclarmente, da Europa, radica na austeridade cega que empobrece os povos, os cidadãos.
Os líderes actuais da Europa, tristemente, governam um espaço sem valores, sem princípios que imponham a bandeira da dignidade dos cidadãos. No discurso mais desafiante até agora, dito no Parlamento Europeu, o Papa Francisco recolou a visão cristã na dimensão humanista, porque vê a Europa a ser governada obsessivamente pelas burocracias ou pelos obscuros mercados. Daí que o bispo de Roma se tenha concentrado num importnate sinal dos tempos, a solidão, que afecta muitos cidadãos europeus neste momento. O Papa explicava deste modo: «A solidão foi agravada pela crise económica, cujos efeitos ainda perduram, com consequências dramáticas do ponto de vista social. Pode-se constatar que, ao longo dos últimos anos, ao lado do processo de alargamento da União Europeia, foi crescendo a desconfiança por parte dos cidadãos em relação a instituições consideradas distantes, comprometidas a estabelecer regras percebidas como distantes da sensibilidade dos povos individuais, se não até prejudiciais».
Porém, depois, o Papa Francisco dava o seu golpe mais forte talvez sobre toda a questão, explicando como a democracia, na sua essência, está a ser posta em questão pela prevalência das finanças, manobradas, em última análise, por forças obscuras ou desconhecidas, que decidem o destino de milhões de pessoas: «Manter viva a realidade das democracias – afirmava – é um desafio deste momento histórico, evitando que a sua força real – força política expressiva dos povos – seja removida diante da pressão de interesses multinacionais não universais, que as enfraqueçam e as transformem em sistemas uniformizadores de poder financeiro ao serviço de impérios desconhecidos. Esse é um desafio que hoje a história coloca diante de nós».
Há, felizmente, alguém que não canta louvores ao capitalismo global, e a política europeia devia começar a se dar conta disso.
Não podendo ser de outro modo, a nossa maior solidariedade hoje vai para o povo grego e radica mais ainda o nosso pensamento nas admiráveis e corajosas opções que estão a  fazer. Assim deve ser e quem nos dera que tomassem de exemplo os bandalhos que noutras partes da Europa governam contra os seus povos, à conta da salvação de bancos e outros mecanismos cegos perante a dignidade dos cidadãos. Canta o poema de Paul Éluard, em Atena, com o qual fazemos nosso o sentimento solidário com o povo grego e com todos os povos vítimas da obsessão doentia daqueles que impõem o fardo terrível da austeridade, mas que nem com a ponta de um dedo querem saber desse fardo para si:
«Povo grego povo rei povo desesperado
Nada tens a perder senão a liberdade
Teu amor pelo livre pelo justo
E o infinito respeito que sentes por ti próprio».

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