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segunda-feira, 30 de novembro de 2015

O Planeta Terra está moribundo

É assim. O mundo está em mutação rápida de mais. Não é que o mundo e a natureza estarem em mudança constante que me faça surpreender. Está em alteração climática, porque se implementou um sistema de desenvolvimento humano todo ele baseado na exploração predatória das matérias primas que a natureza fornece.
Por isso, reparemos na ironia desta notícia: «A Cimeira do Clima que está a decorrer em Paris obrigou a deslocar à capital francesa cerca de 50 mil pessoas, entre participantes oficiais e outros colaterais (empresários, activistas, estudantes, jornalistas, etc.), de 195 países. Esta gente toda deslocou-se sobretudo de avião, o que representa uma "pegada de carbono" da ordem das 300 mil toneladas de CO2 em emissões para a atmosfera». Dá muito que pensar... Todo o sistema está mal, porque sacrifica o planeta e coloca sobre ele um elevado custo.
Mais adiante a mesma notícia refere que «Ao serem queimados, cada um destes 102 milhões de litros de combustível libertou para a atmosfera 9,5 quilos de dióxido de carbono (CO2). Tudo somado, os aviões que voaram para Paris por causa da Cimeira do Clima terão libertado cerca de 287,5 mil toneladas de CO2 para a atmosfera, calcula o especialista.
A isto ainda há que juntar as emissões de hotéis, restaurantes, espaços de lazer e as deslocações de carro e táxi entre aqueles estabelecimentos e os locais das reuniões.
Ainda que pareça uma enormidade, o número calculado é apenas uma gota nas emissões anualmente produzidas pelo mundo inteiro: representa apenas 22 segundos do total das emissões globais». São impressionante estes cálculos.
Neste sentido, embora ajudem nalguma coisa o rol de cimeiras que já conta o mundo sobre as alterações climáticas, que pouco ou nenhuns efeitos têm produzido para travar a desgraça, mais importante seria investir forte nas energias renováveis e fazer uma aposta muito acérrima e séria na educação de todos os cidadãos do mundo. E a par de tudo  isto, seria necessário fazer uma mudança de paradigma quanto ao desenvolvimento que temos vindo a seguir.
O problema é universal, o remédio tem que ser nesse âmbito. E não basta pensar e ficar à espera que a solução venha dos governantes, não virá seguramente, estão amarrados pelos grandes interesses económicos e pelas políticas consumistas que têm que levar a cada em cada um dos seus países para saciarem a fome do lucro cego da alta finança que os sustenta. A solução tem que vir dos cidadãos, dos povos e da humanidade inteira. A pressão tem que vir daí e a mudança de comportamentos também fará o seu caminho. Assim, deverá ser, porque está provado que o desenvolvimento baseado no consumo desenfreado não faz bem ao Planeta Terra e está mais que provado que não faz a humanidade ser mais feliz..
Obviamente, que o progresso humano tem que continuar. Mas que seja todo ele baseado na educação para a paz contra todas as formas de violência que têm conduzido a humanidade para o absurdo da barbárie. E também deve ser importante cada pessoa por si ganhar uma consciência ecológica, que a faça respeitar o meio ambiente, poupar os recursos naturais e usá-los com medida, recusar o consumo cego e lutar pela paz, suscitando à sua volta um clima de saudável convívio para que a vida se desenvolva com a qualidade desejada, porque conduz à alegria da felicidade e à festa da fraternidade.
Todos somos responsáveis pela situação moribunda do Planeta Terra e todos devemos ser também o remédio para salvarmos da morte «a mãe terra» que nos sacia o corpo e alma. É disso que se trata quando falamos de uma «casa comum» a ficar em ruínas.

sábado, 28 de novembro de 2015

A vingança

Para o fim de semana. Sejam felizes sempre sem prejudicar ninguém.
é um sopro incandescente
asa veloz que não pensa
nunca foi nobre
todas vezes é inútil
encegueira todo o horizonte
quando cospe copiosamente
em chama o ódio feio
dando conta que o sujeito
dessa tenebrosa ação já morreu
para sempre.
José Luís Rodrigues

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

A vigilância e a vinda

COMENTÁRIO O A MISSA NO 1º DOMINGO DO TEMPO DO ADVENTO - ANO C
É este o Tempo do Advento, aquele tempo que nos prepara para o encontro com o homem, empoeirado, de barbas raladas e grandes, passando ao lado de um rio, que está ali diante de todos nós. E Ele da outra margem faz-nos um aceno afetuoso, certo que em nós existe abertura suficiente para acolher uma graça, um dom ou uma possibilidade de redenção. É isso o Natal.
O Tempo do Advento, são as quatro semanas que antecedem o Natal. Uma das palavras fortes deste tempo, é a palavra vigiar e de preparação para uma vinda, uma chegada de alguém que vem aos nosso encontro, revelar-nos a salvação e o caminho melhor que nos conduz à felicidade.
As palavras «vigiar e vinda» são interessantes, porque nos convidam a olhar a realidade da vida e do mundo com esperança, como algo seguro que nos mostra uma luz verdadeira, nem que seja ao fundo túnel desta existência carregada de tantos pesadelos difíceis de encarar. Eles são a crise, a austeridade, o desemprego, o empobrecimento, a fome, a guerra/terrorismo e tudo o que nos rodeia de menos bom que não abre horizontes razoáveis para o futuro de todos nós, especialmente, as crianças e os jovens. Porém, nada pode ser o fim, está sempre lá no fundo a luz da salvação, basta confiar e acreditar na pessoa que nos aponta nessa direção, Jesus Cristo.
Este é o tempo da expectativa do «ainda não», mas que nos remete para a certeza do «já» presente na história. Neste contrabalançar expectante, descortinamos vias de possibilidades sempre novas que nos conduzem ao nascimento da vida em cada pessoa que não hesita em abrir-se ao sublime da vida transcendente. Essa é a vida revelada pelo nascimento do Filho de Deus.
Neste tempo de preparação vigilante, somos chamados a dizer não a tudo o que ofusca a luz. Não a todo o género de violência, a todo o desrespeito pelos outros, às crises que nos cerceiam a liberdade e nos remetem para o medo do futuro, não aos gastos desnecessários para o Natal, não ao individualismo e ao carreirismo tolo que gera muita injustiça, não à veneração do ego como valor da atividade frenética que caracteriza o nosso tempo, não à espiritualidade privatizada e solitária...
Eis o tempo em que devemos procurar uma luz que nos torne mais solidários, mais amigos uns dos outros, para que o nosso contributo de mundo melhor seja um desafio que tomamos a peito todos os dias. Porque, o Natal, ou faz da humanidade uma família ou nunca passará de uma festa que enche o olhos e nada mais. Que este tempo nos faça tomar a sério a sabedoria africana que diz: «Uma pessoa torna-se pessoa através de outras pessoas». A vigilância e a espera da vinda devem levar-nos sempre à construção do Bem-Comum.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

A profanação da Eucaristia

Não me lembro qual foi o professor que nas aulas do curso de Teologia insistia que as hóstias consagradas estavam acima de qualquer profanação. O Santíssimo Sacramento, pelo seu altíssimo valor, supera qualquer desrespeito ao elemento do pão usado na Eucaristia. Por isso concluo que a profanação da Eucaristia só acontece se alguém proclamar que há profanação. Só há profanação quando alguém admite que tal aconteceu.
Daí o meu espanto perante esta proclamação do arcebispo de Pamplona: «Profanação gravíssima que ofende a fé, sentimentos e prejudica a liberdade religiosa», porque um «artista» utilizou 240 hóstias consagradas para executar uma «obra de arte». E vai mais longe o Arcebispo de Pamplona e bispo de Tudela, Francisco Perez, convocou para esta quarta-feira (hoje) duas missas de reparação em resposta à exposição sacrílega «Desenterrados» do artista Abel Azcona, que utilizou mais de 240 hóstias consagradas para escrever a palavra «pederastia» num projeto denominado «Amém».
Melhor publicidade não podia ter a «dita profanação», a exposição. Obviamente, que os promotores da exposição não esperavam outra coisa senão mesmo uma reação acutilante e empolgante da entidade eclesiástica. Daí que a publicação da ofensa veio dar mais projeção e contribuir para que mais público venha ver a exposição. A coisa religiosa quando dá polémica vale ouro. Neste caso não será diferente.
Alguns dirão que quem não se sente não é filho de boa gente. É verdade. Mas não será melhor fazer valer outra atitude diante de uma realidade que se pretende ser divina? – Porque se trata de uma realidade divina deve estar muito acima de qualquer profanação ou ofensa deste mundo. Bastava dizer isso. Assim, mantenho a ideia de que em relação à Eucaristia e em relação a todas as coisas consideradas sagradas ou consagradas, o que isso é e representa está muito, mas mesmo muito acima de qualquer desrespeito que alguém entenda infligir. Até porque em cada missa podem estar as piores pessoas do mundo, mas não deve isso significar que a dimensão divina que esse gesto representa venha a ser beliscado. 
Deus é maior do que tudo e a ninguém designou para definir o que O ofende a partir de elementos materiais. Até porque o «corpo de Deus» é profanado todos os dias nas vítimas da violência, no desrespeito das crianças inocentes, nos indefesos marginalizados que este mundo todos os dias profana votando ao sofrimento e à morte, só porque se organizou de forma injusta e não se importa nada com o bem comum. É por causa destas profanações que eu gostava que se organizasse missas de reparação. 
O mais interessante desta suposta profanação, era saber se a ofensa está verdadeiramente no facto de terem sido roubadas (profanadas) hóstias ou se a ofensa a advém da denúncia que a «obra» do «artista» pretende escarrapachar? – Tomou-me esta dúvida.   

terça-feira, 24 de novembro de 2015

A felicidade

Para ler saboreando... Deus compensa sempre as falhas da natureza e as contrariedades que a vida deste mundo oferecem.
Nada tem mais impacto e mensagem do que um facto real e vivo. A vida oferece-nos momentos de angústia, de dúvida, de dor e de desespero. Algumas vezes sentimo-nos sós, desanimados, pensando ter perdido “o endereço da esperança”. 
São momentos de sofrimento que atingem todas as pessoas, mesmo as mais poderosas, as mais ricas, as mais belas. Encontramos este estado de alma num dos maiores compositores musicais de todos os tempos: Luís Beethoven, nascido em Bonn, na Alemanha.
A sua infância e adolescência cresceram num ambiente de carência afectiva. Sua mãe morreu muito jovem e seu pai morreu de alcoolismo.
Beethoven começou muito cedo a sentir uma surdez progressiva, que o deixava abatido e irritado. Usava umas cornetas acústicas aplicadas nos ouvidos para conseguir ouvir. Trazia consigo um caderno de anotações em que as pessoas escreviam o que desejavam comunicar-lhe.
Mas, notando que as pessoas não o acolhiam nem o ajudavam, o compositor passou a isolar-se completamente. Caiu em profunda depressão, quer pela doença que avançava, quer pela morte de um príncipe seu benfeitor, que lhe pagara os estudos. Chegou mesmo a redigir um testamento, dizendo que iria suicidar-se. 
A ajuda que mais o encorajou veio-lhe de uma moça cega que morava na mesma pensão modesta para onde Beethoven se transferira. Mas ela o comovia quando lhe gritava repetidamente: “eu daria tudo para ver uma noite de luar”. Beethoven emocionava-se e reflectia : “afinal eu posso ver. Posso escrever as minhas pautas musicais “. A vontade de viver renasceu e, para dar alegria àquela moça amiga, criou uma das suas mais belas composições: “Sonata ao luar!” Já completamente surdo compôs o “Hino à alegria”, exprimindo a sua gratidão a Deus por não ter caído na tentação do suicídio e pela graça de encontrar aquela jovem invisual. Quantas vezes a infelicidade de outros poderá ser alavanca da nossa alegria, da nossa realização, da nossa felicidade!                                           Mário Salgueirinho

Tenho medo do homem de um só livro

 Admirável figura...
Tomás de Aquino: 
Dê-me, Senhor,
agudeza para entender,
capacidade para reter,
método e faculdade para aprender,
sutileza para interpretar,
graça e abundância para falar.
Dê-me, Senhor,
acerto ao começar,
direção ao progredir
e perfeição ao concluir.
Quem foi
São Tomás de Aquino foi um importante teólogo, filósofo e padre dominicano do século XIII. Foi declarado santo pelo papa João XXII em 18 de julho de 1323. É considerado um dos principais representantes da escolástica (linha filosófica medieval de base cristã). Foi o fundador da escola tomista de filosofia e teologia.
Tomás de Aquino buscou utilizar a filosofia grecolatina clássica (principalmente de Aristóteles) para compreender a revelação religiosa do cristianismo.
Nascimento
São Tomás de Aquino nasceu na cidade de Roccasecca (Itália) em 1225.
Morte
São Tomás de Aquino morreu na cidade de Fossanova (Itália) em 7 de março de 1274.
Principais obras
- Scriptum super sententiis
- Summa contra gentiles (Suma contra os gentios)
- Summa theologiae (Suma Teológica)
Frases
- "O primeiro degrau para a sabedoria é a humildade."
- "Tenho medo do homem de um só livro."
- "Para aqueles que têm fé, nenhuma explicação é necessária. Para aqueles sem fé, nenhuma explicação é possível."

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Quando o fundamentalismo é católico

Pois, já não deveria existir... Mas existe. O fundamentalismo também às vezes vem dos meios católicos. Vamos a vinte momentos onde podemos considerar quando o fundamentalismo é católico.
1. Quando há gente pretensamente com muita fé e anunciar que têm Jesus no coração, considerando-se por isso melhores que toda a gente. Tudo inventam para menosprezar o trabalho dos outros e alimentam-se da intriga ou da maledicência irresponsavelmente sem que tenham em conta o mais elementar princípio de educação, que é respeitar os outros;
2. Quando só esses tais consideram que só o que fazem é que está bom e serve a fé, o que os outros fazem e vivem, porque não lhes permitiu brilharem, não serve para nada;
3. Quando há gente que se convenceu que só eles é que sabem o que é a fé e podem por isso designar onde está ou não Jesus, pois, se outra coisa lhes escapou e sai do seu fechado pensamento, deve ser banido;  
4. Quando vemos que a prática religiosa não corresponde nada com a prática da vida social, profissional e familiar;
5. Quando não há lugar para o diferente e para a diversidade;
6. Quando semeiam o medo face ao mundo e às suas sempre plurais nuances;
7. Quando não temos lugar para refugiados. Já temos pobres e sem abrigo que chegue;
8. Quando só dizem obedecer ao Papa quando Ele fala de fé, mas reagem negativamente se o Papa desafia à militância contra a injustiça e à luta pelo bem comum da humanidade;
9.Quando são compassivos e quase compreensivos perante o terrorismo que resulta do fundamentalismo islâmico;
10. Quando apontam que a religião deve ser folclore e sentimentalismo apenas;
11. Quando fazem das igrejas por onde saltitam redutos do proselitismo;
12. Quando não há espaço e momento nenhum para descortinar vestígios de Deus nas expressões culturais da humanidade;
13 Quando se faz verdade absoluta as mentiras que proclamam em nome das fezadas que alimentam para ganharem dinheiro e darem nas vistas;
14. Quando já são santos aureolados e se convenceram que lhes nasceu asas nas costas, não passam pelo pecado, porque pecadores são só os outros;
15. Quando passam a vida a dizer mal de tudo e de todos os que não fazem parte do seu grupo;
16. Quando consideram que as asneiras que fazem e dizem é a suprema sabedoria e que estão sempre inspirados pelo divino;
17. Quando descobriram que sem eles o mundo não avança e alimentam-se da inveja que se expressa no dizer por dizer asneiras contra o trabalho dos outros;
18. Quando fazem da religião uma pastilha elástica, enquanto dura o doce aguentam bem e os que proporcionam o doce são postos nos cornos da lua, mas quando o doce acaba, são remetidos ao inferno como se fossem os piores diabos;
19. Quando a vida deixa de ser um prazer para ser vivido na liberdade, sem que nenhuma mediação de Deus oprima;
20. Quando a «misericórdia deixou de estar na base do ser cristão» (Papa Francisco) e vivem dominados pelo pensamento único e, por isso, não permitem a criatividade ou a ousadia do Evangelho que é sempre Nova para cada tempo novo que a história sempre nos vai revelando;
Desventurados sejam todos aqueles e aquelas que se alimentam desta massa tenebrosa. Mesmo assim... Rezemos e lutemos contra o fundamentalismo, que não luta com bombas e balas, mas luta contra as palavras do rancor e do ódio. O veneno que continua a destruir o mundo e a humanidade.

sábado, 21 de novembro de 2015

A paz

Para o nosso fim de semana. Sejam felizes sempre sem prejudicar ninguém...
Na subida branca nesta lembrança
no meio do pensamento fresco sobre a água
nos sentamos sobre uma pedra dura
alisada e arredondada pela brisa dos séculos
que a firme e disponível paisagem
foi testemunhada por esta visão nebulosa
mas que hoje se escreve neste poema
que pelas letras conjugadas anuncia a paz.

Nesse descanso intemporal
vimos a linha ténue
de um horizonte longe
mas que foi presente
nas multicolores mãos
que nas sementes brota pão
e vinho sangue novo redimido.
sorte a nossa que nos fizeram ver e crer
numa tarde divinal suavizada pela brisa.
e foi ela que fez cintilar o amor
pela ponta dos pinheiros densos
que quando abraçados como irmãos
dizem tudo a toda a gente que
se somos união entrelaçada
o mundo inteiro diz sim
ao tempo e ao futuro reencontrado.
porém no verde viçoso das folhas verdes
comprovamos o sémen fecundo
que desde o princípio
nos disseram ser o sinal da esperança.
por fim percebi o melhor do absurdo
só morre quem se deixa morrer.
José Luís Rodrigues

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Vocês não terão o meu ódio

A grande lição para mundo inteiro... 
Hélène Muyal, 35 anos, foi uma das 129 vítimas dos atentados de dia 13 de novembro em Paris. Estava no concerto no Bataclan. O seu corpo foi identificado dias depois pelo marido, Antoine Leiris. Na profunda dor de ter perdido a mulher e a mãe do filho de 17 meses, o jornalista na rádio France Bleu escreveu uma carta aberta aos que mataram Hélène e às restantes vítimas dos ataques. “Vocês não terão o meu ódio”, escreve Antoine, num post publicado na sua conta no Facebook.

"Vocês não terão o meu ódio,
Na noite de sexta-feira vocês roubaram a vida de um ser excepcional, o amor da minha vida, a mãe do meu filho, mas vocês não terão o meu ódio. Não sei quem são e não quero sabê-lo, vocês são almas mortas. Se esse Deus pelo qual vocês matam cegamente nos fez à Sua imagem, cada bala no corpo da minha mulher foi uma ferida no Seu coração.
Por isso eu não vos darei o prazer de vos odiar. Vocês procuraram-no, mas responder ao ódio com a cólera seria ceder à mesma ignorância que vos fez ser quem são. Querem que eu tenha medo, que olhe para os meus concidadãos com um olhar desconfiado, que sacrifique a minha liberdade pela segurança. Perderam. Continuamos a viver da mesma maneira.
Eu vi-a esta manhã. Finalmente, depois de noites e dias de espera. Estava ainda tão bela como quando partiu na noite de sexta-feira, tão bela como quando me apaixonei perdidamente há mais de 12 anos. Claro que estou devastado pela dor, concedo-vos essa pequena vitória, mas será de curta duração. Sei que ela nos acompanhará todos os dias e que nos vamos reencontrar nesse paraíso das almas livres ao qual vocês nunca terão acesso.
Somos dois, eu e o meu filho, mas somos mais fortes do que todos os exércitos do mundo. Não tenho mais tempo a dar-vos, quero juntar-me a Melvil que acorda da sua sesta. Tem só 17 meses, vai comer como todos os dias, depois vamos brincar como todos os dias e durante toda a sua vida este rapaz vai fazer-vos a afronta de ser feliz e livre. Porque não, vocês nunca terão o seu ódio."

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

O Reino de Deus está presente no meio de nós

Reflexão para quem dedica um bocadinho do fim de semana para participar na missa dominical. Este será o domingo XXXIV. Domingo de Cristo Rei...
Jesus, por fim, assume que é Rei, como diz Pilatos. Não um rei dos jogos do poder, da corrupção e do domínio sobre os demais. É o Rei da verdade, da beleza e da bondade só isso diz tudo. Quem segue estes valores, pertence ao Seu reinado.
De que se trata esta realeza? - Trata-se de uma realeza ao contrário. É um reinado do avesso. Nada tem a ver com a realeza dos reis deste mundo. Não se trata de um Jesus Rei, rodeado de gente importante, exércitos ávidos de combate e de poder. O Reino de Jesus é antes dos famintos, dos que têm sede e fome de justiça, dos peregrinos, dos sem roupa, dos desempregados que são tantos entre nós e que é a pior das tragédias que se abateu sobre as nossas famílias, dos doentes e dos prisioneiros, das vítimas do terrorismo e de todos os que neste mundo mergulharam no oceano imenso do medo...
Jesus é rei da possibilidade da justiça e do amor que deve ser dado gratuitamente a quem a vida devotou à desgraça, ao sofrimento. Porque são estes de quem ninguém quer saber. Os habitantes da margem são as multidões abandonados pelos poderes deste mundo que se plantam em poltronas douradas para dominar, servir-se e servir os seus familiares e amigos.
Nietzsche, no seu "Anticristo", proclamará que o "Reino de Deus" é uma "lastimável mentira", que serviu para a Igreja fixar os seus valores que chama "vontade de Deus". Nisso consistia o domínio e o poder da Igreja. Neste sentido, para este autor o Cristianismo é uma religião da "decadência" e não da libertação da humanidade. Em muitos momentos da história da Igreja e ainda nalguns meios da Igreja Católica na actualidade, leva-nos a dar razão ao autor de "Assim falou Zaratrusta". Mas, de acordo com o sentido do Evangelho e a postura de Jesus, descobre-se um sentido cheio de libertação no Reino de Jesus. Por esta verdade, Jesus estende os braços na Cruz, como um derrotado humanamente falando, mas do ponto de vista espiritual, Ele vai até ao fim pela verdade que salva. Uma coisa é Jesus outra muito distinta são os seus seguidores.
A aparente derrota de Jesus é a lógica do poder posta do avesso. Jesus é um Rei que não se coaduna com as injustiças sociais, pessoais e institucionais. A sua morte na Cruz é o resultado da sua acção contra tudo o que não promove a dignidade da vida e do amor. É o preço a pagar pela sua radical preferência pelos desafortunados deste mundo. Na escola de Jesus, só se ensina uma única matéria: o Reino! Este Reino que se aprende da vida e do exemplo do Mestre. O exemplo de Jesus e a Sua vida radicam na partilha que resulta na fraternidade, na amizade e no amor ao próximo. É este Reino que sonhamos para o mundo, o nosso mundo. Urge acabar com a lógica do domínio do forte sobre o mais fraco, é preciso acabar com a ganância geradora de pobreza. Urge semear a vida para todos. Urge considerar cada um como um ser único e digno de ser amado, como fazia Jesus.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

A minha explicação do terrorismo às crianças

A minha tentativa para explicar às crianças o que é o terrorismo.
Caros amigos… O terrorismo é um grande mal que resulta daquilo que a humanidade às vezes é. Mas, nunca esqueçam que a humanidade, que somos todos nós, é o melhor que existe no mundo. Nada ultrapassa a beleza que a humanidade representa. Basta olhar para que um de vocês para percebermos logo isso.
Porém, esta mesma humanidade, capaz de tanta beleza, às vezes tem comportamentos feios, muito feios que nos levam à tristeza. Todas as manifestações feitas de propósito para levar ao sofrimento, à morte de pessoas inocentes é terrorismo, porque revela o pior que é capaz de fazer aquela realidade que vos dizia ser o que há de mais bonito neste mundo, a humanidade.
Estes atentados de Paris e todos os outros que vão acontecendo em todo o mundo, matam imensas pessoas inocentes (homens, mulheres, jovens, velhinhos e crianças), as famílias tocadas pela tragédia ficam muito tristes e nós ficamos com medo que também aconteça aqui onde vivemos.
A comunicação social tem dito que estes atentados terroristas são provocados por causa da religião, por causa de Deus. Verdade que é, mas esta não é a verdade toda. Ora vejamos.
Por um lado, é verdade que a religião ande misturada com esta desgraça, porque no mundo existem pessoas e grupos que conceberam uma ideia errada de Deus e da sua mensagem. Estão a ler de forma errada a mensagem de Deus, que sempre deseja a paz e a felicidade de todas as pessoas. Estas pessoas criaram um Deus ao seu jeito, um deus pequenino porque cabe dentro do seu pensamento e das suas ideias pessoais, então porque têm sede de vingança, alimentam-se do ódio e toca a deitar bombas e a dar tiros sobre quem não pensa como eles ou não aceita o deus que eles criaram.
Por outro lado, também temos que dizer que o terrorismo é resultado da injustiça que existe neste mundo. Enquanto a violência gerar violência vamos ter sempre terrorismo por todo o lado. O negócio das armas entre os países também continua a ser uma grande vergonha. Os países por causa de ganharem dinheiro não se importam de vender armas a qualquer um, pode até ser um grande criminoso.
O mundo está feio. Há muita violência. Há desigualdade. Há pobreza e desemprego. Há grupos de pessoas e povos inteiros que por causa da sua raça, religião e tradições culturais são marginalizados. Há uma infinidade de misérias que criam marginais e pessoas (jovens especialmente) que não tendo nada não se importam com a sua vida nem muito menos com a dos outros. Por isso, em vez de morrerem para dar vida aos outros, morrem tirando a vida ao maior número possível de pessoas.
O mundo é feio às vezes, unicamente por causa da humanidade. Mas não podemos ter medo. Vamos confiar no melhor que está dentro de nós e vamos saborear a alegria que a vida nos proporciona. Como já vimos há um Deus que nos ama e que quer que sejamos muito felizes, vamos fazer tudo para que nunca nos passe pela cabeça nenhuma ideia errada acerca de Deus para que com ela façamos mal aos outros. Vamos todos juntos pensar de forma sempre positiva, orientarmo-nos por grandes valores que nos tornam sempre pessoas boas e generosas. É nisso que está Deus é com isso que manifestamos que não temos uma fé errada, mas uma fé que nos dignifica e nos inspira a procurarmos a felicidade para todos.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Não baixar os braços

Porque é sempre mais importante as ideias do que as armas, eis uma reflexão brilhante de José Vítor Malheiros no Público de hoje sobre os acontecimentos trágicos que assolam o nosso mundo. 
Destaco o seguinte: «Não é possível defender a humanidade prescindindo da humanidade, não é possível defender a liberdade prescindindo da liberdade e não é possível atacar o terror escolhendo o terror como arma»: «Uma palavra de sobreaviso contra os que nos querem convencer de que os inimigos são os que vêm de fora e são tão diferentes de nós que os podemos reconhecer à vista desarmada. Uma palavra de sobreaviso contra os que dizem que não nos podemos dar ao luxo de preservar a liberdade, contra os que nos dizem que a preocupação com a igualdade nos enfraquece, contra os que nos dizem que a fraternidade é demasiado arriscada, que a compaixão é uma fraqueza, que os estrangeiros que nos pedem asilo são uma ameaça.
Uma palavra de estupefacção porque a verdade é que não conseguimos perceber o que move estes jovens, árabes há séculos ou europeus de segunda geração, muçulmanos de sempre ou recém-convertidos, dispostos a sacrificar as suas vidas, a sacrificar as suas famílias, em nome da fanática leitura literal de um velho texto religioso que os incita a nunca pensar por si próprios e a obedecer sempre, a amar a morte acima de todas as coisas e a ver no apocalipse que um dia irá destruir o mundo a razão de ser da sua vida.
Uma palavra de incompreensão porque muitos destes jovens se sentem excluídos e odiados pelas sociedades democráticas onde vivem mas integrados e reconhecidos por uma sociedade esclavagista, ditatorial, sanguinária, sexista e assassina».
Ler o restante AQUI

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

O meu credo no Deus criador e sou ateu dos deuses criados

Perante todas as formas de terrorismo que está minando o mundo, só existe apenas uma palavra para definir as pessoas que o provocam e se alimentam dele: assassinos. Ponto.
E lembremo-nos que o terrorismo não é só o que se pratica com balas e bombas e que terroristas são só os que seguem a religião islâmica à sua medida. Não sejamos redutores e injustos.
Um jovem muçulmano entrevistado por um jornalista português, cujo nome de um e de outro não fixei, confessava a sua perplexidade diante da barbárie, dizendo claramente com amargura e tristeza que nada podia justificar isto. O Islão é paz, é amor, é vida, é respeito pelos outros. Ficou tudo dito e serve para calar quem anda para aí a tentar remediar a nossa fraqueza com bodes expiatórios e identificando os culpados com uma tremenda ligeireza, fazendo outras vítimas sem culpa nenhuma. Ai como ficamos desconcertados com a notícia que nos dá conta de que um terrorista dos atentados de França tinha sangue português... Já disse e redigo, bandidos há-os em todo o lado, em todos os povos e em todos os lugares do mundo.  
Não falo de refugiados. Este é outro assunto e sobre ele já está tudo dito. Aos governos europeus exige-se responsabilidade e respostas humanitárias à desumanidade que nos rodeia.
Também será preciso não esquecer que as vítimas de Paris não são seres humanos melhores que as crianças, os jovens, as mulheres e os homens que morrem diariamente no Médio Oriente à mão de assassinos desenfreados que não respeitam a dignidade das pessoas. Lembremo-nos que todos os dias há massacres horrendos contra vítimas tão inocentes como as de Paris.
Mas voltando ao credo ou aos credos. Mais uma vez aprendemos que faz bem o credo cristão pôr-nos a rezar desta maneira: «Creio em um só Deus, / Pai todo-poderoso, / Criador do céu e da terra / De todas as coisas visíveis e invisíveis». Basta apenas isto para dizer tudo em relação à fé, que deve estar radicada em um Deus que cria e nunca na sua pretensa capacidade de criar um deus à medida de uma pessoa e de um grupo.
A criação de deuses à medida da vontade e do querer humano sempre foi uma constante ao longo da história da humanidade. Não se pretenda agora fazer do Cristianismo o bonzinho e o exemplar na prática religiosa, todas as vezes em que os cristãos se desviarem do «Deus não criado» cometeram as piores atrocidades. hoje como ontem há grupos que criam o «seu deus» e em nome dele pretendem um impor o seu poder e o seu domínio.
Para a verdadeira fé Deus é o «não criado». Não se deixa criar, «Por Ele todas as coisas foram feitas». Deixando claro, que até mesmo o filho enviado, Jesus Cristo para os cristãos, é o «gerado, não criado...». Por isso, fica claro que o terrorismo religioso resulta de uma «fabricação» de deuses à medida e nunca na verdadeira doutrina que apresenta sempre em todas as religiões o caminho da fé num Deus mistério que não se deixa nem nunca se deixou criar. Ele é o criador. Assim, terá que ser para que em nenhuma parte do mundo nenhuma fé seja pretexto para infligir balas na carne de seres humanos nem muito menos gatilho que faz rebentar bombas.

sábado, 14 de novembro de 2015

Hoje somos todos de Paris

Não há nada para dizer
Se os meus olhos viram
A morte inocente
A ferida inesperada
E rasgada a frio
No chão do tempo
Pintado pelo sangue do ódio.

Porquê derramar o terror?
Ainda mais em nome
De deuses pequeninos
Que se regem pela lei da bala
E dormem no fio cortante das facas.

Não creio em deuses assim
Não creio na humanidade
Criadora de deuses.
Creio no amor
Creio na paz
Creio na liberdade
Creio na fraternidade
Creio na igualdade…
Creio, se preferirem,
No Deus que todos os dias
Que passando adiante deles
Serve à mesa dos corações humanos
Estes saborosos ingredientes.
Não digo mais nada. Porque o silêncio
É a melhor palavra para dizer o luto.  
José Luís Rodrigues

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

De que Serve a Bondade

Hoje é o Dia Mundial da Bondade...
1
De que serve a bondade
Quando os bondosos são logo abatidos, ou são abatidos
Aqueles para quem foram bondosos?

De que serve a liberdade
Quando os livres têm que viver entre os não-livres?

De que serve a razão
Quando só a sem-razão arranja a comida de que cada um precisa?

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Em vez de serdes só bondosos, esforçai-vos
Por criar uma situação que torne possível a bondade, e melhor;
A faça supérflua!

Em vez de serdes só livres, esforçai-vos
Por criar uma situação que a todos liberte
E também o amor da liberdade
Faça supérfluo!

Em vez de serdes só razoáveis, esforçai-vos
Por criar uma situação que faça da sem-razão dos indivíduos
Um mau negócio!

Bertold Brecht, in «Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas» 
Tradução de Paulo Quintela

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Os sinais no horizonte

Para reflexão da missa do fim de semana que se advinha...
Os tempos correm tristes. A depressão toma conta de muita gente. A situação económica e política do nosso país contagia os estados de alma de toda a gente. As medidas de austeridade, provocam sobressaltos em muitos sectores e pouco ou nada parecem resultar. Ninguém escapa a um certo desânimo e parece não ter lugar o sentido da esperança. E mais grave ainda, parece, que a violência começa a ganhar adeptos e expressão muito forte nas ruas das nossas cidades. Fatalmente, nada que já não estivéssemos à espera. Vamos, apesar de tudo, ao reacender daquilo que é muito importante na vida, a esperança. É o que nos convida a fazer os textos da missa deste próximo domingo. Neste ambiente triste, cabe-nos recordar que em cada manhã a vida volta a ressuscitar e a dádiva de sabermos que os nossos olhos se reabrem para a luz da manhã deve ser um dom maravilhoso que todos devemos saber contemplar.
Vamos ver os sinais. Os nossos tempos ainda estão tristes, não só porque continuamos a ouvir palavras sobre austeridade, cortes nos salários, desemprego, terrorismo, violência, miséria, fome, desemprego, droga, corrupção, refugiados, morte por todo o lado...
Mas também, eles há sinais por todo o lado, nas palavras ofensivas, nos palavrões de pessoas que se esperaria elevação e dignidade. As ofensas roçam a linguagem do calhau e poucos se importam ou inquietam com isso. Parece já não existirem pessoas que merecem respeito.
A linguagem estalou com o verniz dos tempos que correm, porque a mentira vale muito mais, mas mesmo muito mais do que qualquer verdade. São poucos os que são "escravos" da palavra e muitos os que se limitam a dizer palavras ocas que depois não induzem à fidelidade do seu compromisso.
O povo é o bombo da festa. Algumas vezes parece satisfeito até certa medida. Basta-lhe muitas vezes vegetar à sombra da ignorância e comprazer-se com os arrotos da abundância de festas, quiçá, migalhas que caiem da mesa dos corruptos ou dos ditos democratas que este mundo vai gerando para nos desbaratarem a vida. Os tempos andam tristes. Dessa evidência nada nos livra. Ainda estou para crer na crise que inventaram, para fazer de pretexto para as piores artimanhas contra a vida e a dignidade das pessoas. Por isso, só acredito na crise dos bolsos vazios da generalidade das pessoas.
As dificuldades tomaram conta de muitas das nossas famílias. As faltas são muitas, porque a organização da vida social hoje, não está centrada nas pessoas, mas nos interesses dos grandes grupos económicos, os ditos mercados. Há-de renascer a esperança das cinzas da tristeza em que vida de tantas pessoas e famílias tinha sido mergulhada. Não é pecado sonhar isso, é um dever moral sentir e anunciar essa luz para todas as manhãs da vida.   
Agora, apesar de tudo fica-nos a garantia de Jesus que, num futuro sem data marcada, o mundo velho do egoísmo, da ganância e do poder pelo poder vai cair e que, no seu lugar, Deus vai fazer aparecer por todos nós e com todos nós, um mundo novo, de vida e de felicidade sem fim. A nós seus discípulos, Jesus pede que estejamos atentos aos sinais que preanunciam essa nova realidade e disponíveis para acolher os projectos, os apelos e os desafios de Deus, que se assumidos com honestidade conduzem à justiça e à felicidade.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

A partilha está nas mãos

A partilha é a manifestação mais bela quando o coração se deixou irrigar por um sorriso de amor diante da necessidade do outro que se impõe na passagem do quotidiano da vida.
Às vezes não é fácil rasgar a veste que nos cobre o corpo e deixar-se ficar pela metade, depois de ter oferecido a outra metade ao pobre ou ao amigo que pede um sinal de partilha. A vida será mais fecunda se todos nós permitirmos que a partilha se expresse não apenas pelas vestes e pelos géneros alimentares ou outros. A partilha expressa-se pelo sorriso e pela palavra de saudação que se oferece no face a face que passa pelo caminho. Nesse entrecruzar de rostos diariamente podemos e devemos manifestar que é possível a partilha, que nessa medida se torna alimento essencial para a fraternidade e melhor ainda para percebermos que somos semelhantes, carne e osso da mesma massa. Esta luz iluminará o mundo, a vida e será o remédio seguro para a paz.
Um certo dia uma jovem estava à espera da hora do seu voo numa sala de embarque de um aeroporto. Como tinha várias horas para esperar, resolve comprar um livro para ler e não sentir tanto o tempo que tinha de espera. Também comprou um pacote de biscoitos.
Num recanto da sala de espera, encontrou uma poltrona onde podia estar reservada e em paz a ler o seu livro. Ao seu lado sentou-se também um homem. Entre os dois estava o pacote de biscoitos, ele tirou o primeiro, o homem também tirou. Ficou indignada, não disse nada e pensou para si: «este homem é um sem vergonha. Se eu tivesse mal disposta, enfiava-lhe um soco na cara que ele nunca mais esqueceria do seu atrevimento».
A cada biscoito que ela tirava, lá ia ele também e tirava um. Aquilo deixava-a cada fez mais furiosa, mas não conseguia reagir. Por fim, restava apenas um biscoito, ela pensou: «o que será que este sem vergonha vai fazer agora?». O homem delicadamente dividiu ao meio o último biscoito, deixando a outra metade para ela. Aquele gesto deixou-a ainda com mais raiva. Chegada a hora de embarque, dirigiu-se para o seu voo, quando estava sentada confortavelmente no seu assento, para surpresa sua, o seu pacote de biscoitos estava dentro da sua bolsa.
A jovem ficou muito envergonhada, pois quem estava errada era ela e já não tinha mais tempo para pedir desculpas. O homem dividiu os seus biscoitos sem se sentir indignado, enquanto ela tinha ficado fora de si. Tomei conhecimento desta história há tempos. Não tinha autor que a assinasse, achei curiosa e importante para nos ensinar que a partilha faz-se no silêncio sem nos indignarmos com o que os nossos olhos vêm, mesmo que seja uma realidade que não nos agrada.
Quantas vezes na nossa vida andamos a comer os biscoitos dos outros e não temos consciência disso? – Há sempre pessoas que procedem de modo diferente daquele que nós pensamos e esperamos. Isso até pode tirar-nos a calma e dar-nos a impressão de que ninguém gosta de nós. Quando tal acontece, manifesta que estamos ainda muito fechados sobre nós mesmos, loucos para ter o ego satisfeito e nada mais importa. Se assim andamos, é preciso transformação pessoal.
É preciso dar mais e estar menos preocupado em receber mais. Quem dá receberá cem vezes mais. O receber por acréscimo é uma realidade que está garantida naturalmente e transcendentalmente. Só assim podemos transformar o mundo, se essa mudança começar antes por nós mesmos. Partilhar é fácil. Basta que se tenha a certeza de que a alma da vida e do mundo está dentro desse simples valor. Para isso é preciso que tenhamos o coração dos outros na palma das nossas mãos.  

terça-feira, 10 de novembro de 2015

A natureza da bondade e da compaixão

Não acredito que se a humanidade não fosse naturalmente boa já teria desaparecido há muito tempo. Todos dizem e eu sei, vemos e sentimos muito mais todo o mal que existe no mundo. As coisas estão todas organizadas nesse sentido, para que o mal se propague, a maldade seja regra quotidiana. Mas no meio do oceano imenso do mal, no epicentro da tragédia, no eixo da fúria e no círculo do ódio emerge uma alma boa, um homem ou uma mulher que se destacam e, por isso, nos admiramos e comovemos com a sua heroicidade ou com a luz de um gesto, de uma palavra e uma atitude que deixou de pensar em si para dar lugar ao outro.
É disto que nos esquecemos tantas vezes. Mas é com isto que podemos afirmar seguramente, a humanidade é boa. Cada pessoa pode ser desconcertantemente boa se der lugar à bondade e à compaixão.
Obviamente que o que dói nunca mais se esquece. O que é erro sobressai com mais evidência e corre veloz como uma gazela nos prados de janeiro debaixo do sol ofuscado e irrelevante pelo frio do inverno.
Sempre nos falta alguma serenidade para nos segurarmos no pensamento próprio, na convicção das ideias e dos ideais pessoais para que nos salte à vista o que está lá, mesmo que num pequeno ponto, num pequeno sinal, num gesto que entra por uma brecha por uma porta que se entre abriu.
Nada está perdido. Dizemos milhentas vezes. Mas milhentas vezes somos fracos e milhentas vezes nos contaminados com o veneno do absurdo que é a vida e o mundo. Mas nada nos é mais certo do que isso, a humanidade há muito que teria desaparecido se fosse a sua propensão naturalmente boa, mesmo que seja apenas e só naquela criança que verteu uma lágrima de emoção e sorriu, porque alguém veio ao seu encontro deitou-lhe nas mãos uma estrela que tinha apanhado com amor. Sejamos então reanimados na esperança sempre.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

A luz de São Francisco Xavier para início da semana

Perante a inquietação que nos rodeia, que até conduz a uma certa solidão e desencanto, descubro entre os livros esta mensagem de São Francisco Xavier. Apreciem com prazer e rezemos juntos isto que ele nos segreda interiormente:
«Diz à Igreja que o seu coração, a sua luz e a sua força é Jesus Crucificado Ressuscitado, Deus Feito Homem, o Vivente, o Vencedor da morte e do pecado. E que, por isso, o segredo da vida em santidade, da comunhão fraterna, do entusiasmo apostólico, da coragem para estar no mundo sem ser do mundo vem de dentro: da experiência do encontro com Jesus; e não de fora: da idade e número dos fiéis, da força do dinheiro, do poder ou da técnica.
Diz à Igreja que tem uma missão bela e imprescindível: a de mostrar a todos o rosto de Deus-Amor e de ajudá-los a deixarem-se envolver no mistério do amor de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Diz às pessoas, sedentas de sucesso, que o encontro com o Ressuscitado, em vez de diminuir o encanto da vida, é condição essencial para que o homem descubra e viva em toda a beleza e grandeza a existência humana, como o testemunharam S. Paulo e Santo Agostinho.
Diz aos cristãos que deixem um cristianismo medíocre e rotineiro; que aspirem como S. Paulo a estar-com-Cristo-sempre-mais; e que sirvam e amem Cristo nos pobres e nos pecadores.
Diz aos sacerdotes que louvem o Senhor pela sua vocação e se deixem enamorar e marcar pela Cruz de Jesus. Assim perceberão a grandeza da sua missão e a urgência de, para evangelizar, cultivarem, entre outras, 'as virtudes da obediência, castidade, humildade, paciência, amor ao próximo'.
Diz aos jovens que tenham a lucidez e a coragem de abrir o seu coração a Jesus, procurando-o na comunhão da Igreja, que é o seu Corpo, certos que o resto virá por acréscimo». (In Rostos de Esperança, Paulinas 2010).

sábado, 7 de novembro de 2015

A terra que nos fez

Para o nosso fim de semana. Sejam felizes sempre sem prejudicar ninguém.
Quanto desejo rasgar-te para plantar
A força do poema nas tuas entranhas.
Andam a remover torrões na hora solar
E neles as tenras raízes sem artimanhas,
Advinham a fome saciada do desejo
Que é o fruto da colheita nas palavras
Que nos meus singelos versos antevejo.

No pomar maduro suculento e doce
Não tem dono o aroma sobre o monte,
Vem como respiro de Deus sem posse.
Nas manhãs as folhas são uma fonte,
Do sereno frio da noite quanto sofre
O abandono de cada um à sua sorte
E o insecto sobre a fruta nunca dorme.

Nos sonhos sem sentido,
Um poema à luz encante
É dom e amor repartido.
Sobre as árvores se levante
Esta fé naquele dia ferido
É força que à uva o vinho se adiante.

Veio depois o amigo aliado
Em cada imagem sempre vem
Um bago doce que foi dado
Desse mistério do prado
Resta o poema que este sabor tem.

Agora sei da terra que nos fez
A palavra veio e eu resolvo
Na criação fecunda talvez
Seja seguro o chão do povo
Esta é a hora de um mundo novo.
José Luís Rodrigues

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Os livros a Avareza e Via Sacra do Vaticano

A partir desta quinta feira (5 de novembro) estão nas bancas em Itália dois livros que rapidamente serão bestsellers. Tratam de assuntos confidenciais violados, de misérias e de pecados de ordem financeira que campeiam a mais alta estrutura da Igreja Católica, o Vaticano.
Todo o esforço do Papa Francisco para credibilizar a Igreja e para fazer passar a ideia de que a Igreja Católica retoma o seu verdadeiro espírito do Evangelho, sofrem um duro rombo com este ambiente de escândalo e pecado. Para quem tem os pés bem assentes na terra, nada disto é surpresa nem muito menos se deixará abalar se considerar que onde há humanidade há pecado, onde há dinheiro há corrupção e onde falta fé Deus não entra para dar lugar ao mundanismo absoluto. Porém, esperemos que as forças de Francisco e a certeza de que pode ser possível uma Igreja outra, onde reine a seriedade e os valores do Evangelho, não esmoreçam com as misérias agora postas a nu. A história da Igreja Católica está cheia de miséria, mas também cheia de virtude, que apesar de tudo sempre foi capaz de superar a tragédia que parecia vir a acontecer.
O livro «Avareza», de Emiliano Fittipaldi, fala de fundações criadas para fins caritativos transformadas em sucursais económicas para aquisições de luxo e divulga o vasto património imobiliário do Vaticano espalhado não só por Roma, mas também em Itália, França, Grã-Bretanha e Suíça.
Num outro livro, «Via Sacra», de Gianluigi Nuzzi (que em 2012 divulgou os documentos roubados pelo mordomo de Bento XVI), são revelados relatórios secretos e gravações não autorizadas do próprio Papa durante uma reunião em que Francisco lamenta o aumento de funcionários na estrutura vaticana e mostra-se irritado pela derrapagem nas contas.
Lembro que na segunda-feira passada, o Vaticano anunciou a detenção de monsenhor Lucio Angel Vallejo Balda e de Francesca Chaouqui, respetivamente secretário e membro da Comissão relativa ao estudo e orientação sobre a organização das estruturas económico-administrativas da Santa Sé (COSEA), instituída pelo Papa em julho de 2013 e posteriormente dissolvida, após cumprir o seu mandato.
Sabendo da publicação dos dois livros o porta-voz de Santa Sé, padre Federico Lombardi, afirmou em comunicado à Comunicação Social o seguinte sobre as novidades bibliográficas: «Seria necessário ter a seriedade de aprofundar as situações e os problemas específicos, para reconhecer o muito que é completamente justificado, normal e bem administrado, incluindo o pagamento dos devidos impostos», refere o padre Federico Lombardi.
A seguir considerou que, «o caminho da boa administração, da correção e transparência, continua e avança sem incertezas. Esta é, evidentemente, a vontade do Papa e não falta no Vaticano quem colabore com ela, em plena lealdade e com todas as suas forças», refere o porta-voz.
Também considero que fazem falta livros e trabalhos aturados sobre o imenso trabalho que a Igreja faz em favor dos pobres em todo o mundo. A seriedade que a assiste em tantos dos seus membros que honestamente canalizam para os fins a que estão destinados os donativos que lhe são confiados. Há uma enorme preocupação nos milhares ou milhões de católicos preocupados em serem cidadãos de pleno direito, pagando os seus devidos impostos a tempo e a cumprirem todas as leis dos países onde vivem. 
A miséria está espalhada por todo o lado. Mas à máquina administrativa da mais alta instância da Igreja Católica, exige-se seriedade e honestidade, para que daí venha o exemplo para toda a Igreja e para todas as estruturas do mundo inteiro onde há necessidade de serem administrados os bens monetários ou outros.
Que Deus nos ajude e que o Espírito Santo nos guie.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Mais importante do que dar pode ser dar-se

Pequena reflexão para ajudar a interiorizar quem vai à missa no fim de semana...
Dar coisas é fácil. Mas, mais importante do que dar é preciso dar-se. Este é o grande desafio que as leituras da missa deste domingo nos lançam. O que dá do que lhe sobeja, nada lhe custa, o que dá nas suas necessidades, é mais custoso e parece que diante de Deus tem mais valor. Os escribas de antes e de agora, gostam de destaque social e de muitas palmas, depois das benesses que vão fazendo. Nada disso Jesus valoriza, para grande desconcerto destes.
Perante esses desejos de louvores, Jesus faz sobressair a atitude do pobre que dá, embora dê pouco, mas fá-lo com interioridade e discretamente. Quantos exemplos destes encontramos pela vida fora. Não vamos deixar de salientar que felizmente encontramos pessoas que têm muitos bens e praticam dádivas com generosidade e discretamente, mas outros há que desejam ser bajulados e paparicados porque deram alguma coisa.
O desprendimento não é um valor fácil de se viver. Muita gente, na sua penúria sabe governar a sua vida de tal forma que chega para si, para os seus e ainda lhes sobra para partilhar com os outros. Uma certeza há, a quem muito dá, nada lhe falta. Com Deus é assim.
O primeiro texto da missa deste domingo prova que Deus dá à humanidade, especialmente, os simples, os humildes e os pobres vida em abundância. Todos os dias somos confrontados com propostas de vida fácil e de felicidade garantida para sempre, mas, quase sempre tais aliciamentos nos conduzem ao desencanto, à frustração, à escravidão, à dependência, à desilusão… Não é à volta de muito dinheiro, do carro, da casa, do tacho que conseguimos sabe Deus como, menos à volta do currículo académico que ostentamos, das palmas e honras que nos são atribuídas que devemos construir o que queremos ser. Só a descoberta do sentido da vida e a verdadeira felicidade nos liberta de toda a forma de escravidão.
Neste sentido, o Papa Francisco deu-nos esta frase maravilhosa: «Quantos desertos tem o ser humano de atravessar ainda hoje! Sobretudo o deserto que existe dentro dele, quando falta o amor a Deus e ao próximo, quando falta a consciência de ser guardião de tudo o que o Criador nos deu e continua a dar».
Tudo o que é deste mundo se não está ao nosso serviço faz de nós criaturas submissas e vergadas à vontade alheia. Escravos mesmo. Deus não deseja isso para nós, porque não nos quer desgraçados, mas libertos e felizes.

O conservadorismo contra a Igreja de portas abertas

Destaque de um extraordinário artigo de Francesco Peloso no site DOMTOATAL: «As tropas ultratradicionalistas não aguentam: o papa que veio do fim do mundo não as agrada, nunca lhes agradou, para dizer a verdade, só que agora o ruído de fundo, o descontentamento que se sentia como um rumor à distância, explodiu.
O papa não é católico, acusam elas, é quase um herege, melhor; elas se aproximam, assim, das clássicas posições sedevacantistas dos lefebrvianos, a Fraternidade São Pio X, que continua sendo, para muitos deles, um ponto de referência.
O ponto de inflexão foi o Sínodo sobre a família ou, melhor, os dois Sínodos: por muito tempo, a ala conservadora mais intransigente cultivou o objetivo de frustrar o projeto reformista do papa que colocava fora de jogo a doutrina concebida como ideologia: quem está em regra está dentro; todos os outros estão fora. Nada de misericórdia, nada de amor de Deus, nada de acolhida: portas fechadas, e não se fala mais disso». LER AQUI
Mas, no entanto, «Além disso, não há revolução que não crie conflitos, e o papa sabe muito bem disso. Assim, o próximo Sínodo poderia ter como tema – sugeriu o cardeal Óscar Rodríguez Maradiaga, próximo do pontífice – a descentralização da Igreja, ou seja, a potencialização do papel das Conferências Episcopais nacionais, das dioceses individuais, dos sínodos continentais. Uma Igreja capaz de discutir sobre tudo, portanto, em que o papa seria a garantia da unidade. Em tal projeto certamente há pouco espaço para os ditames da Cúria vaticana».
E mais ainda, melhor do que ninguém sabe o Papa Francisco do que se está a passar e denuncia-o com clareza: «Por fim, o papa deu um golpe indireto, mas bem mirado, nos seus detratores, falando de Dom Óscar Arnulfo Romero, o bispo assassinado por grupos armados de extrema direita em El Salvador em 1980 e que se tornou símbolo da luta evangélica contra a opressão dos mais pobres.
O seu martírio, disse o papa, continuou até mesmo depois da morte: "Uma vez morto – eu era um jovem sacerdote e fui testemunha disso – ele foi difamado, caluniado, sujado. O seu martírio continuou até mesmo por parte dos seus irmãos no sacerdócio e no episcopado. Eu não falo por ter ouvido falar. Eu ouvi essas coisas."
Em suma, Bergoglio começa a tirar algumas pedras dos sapatos e se prepara, enquanto isso, para o Jubileu da Misericórdia». 
Nota da redação: Quanto a nós, continuemos firmes na esperança e que a convicção da oração nos anime na certeza que a «revolução» do Papa Francisco está no caminho de Deus e que se alimenta do Seu Espírito. É esta a luz da nossa oração pelo Papa.