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quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Colhe um dia de cada vez

Assim homenageio todos os que gastam algum tempo a ler este Banquete da Palavra. Sejam felizes sem prejudicar ninguém e acolham o ano novo com esperança. Semeemos a paz e tudo virá depois com valor acrescentado. Um abraço fraterno e amigo para todos... 
Trilhos novos nos dias do momento
Que se encadeiam solenemente
Um após outro no fio do tempo.

Esta hora da vergôntea podada
É o olhar e a visão do sonho novo
Redimido o que foi em cada ferida sarada.

Os olhos fixam-se no fruto maduro
Está escondido o fermento da esperança
E sem hesitar desvela destemido o futuro.

Os passos no agora são o que auguro
Mesmo com a insegurança no incerto
Cada momento fica o que somos é tudo.

É eterna a hora que não para nós já vemos
Mesmo que confesse frágil a existência nossa
Semeia e colhe no dia em que vivemos.
José Luís Rodrigues

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

O que é a Paz?

Cuidado que a azafama do final do ano velho pode perturbar o que se deseja celebrar no dia 1 de janeiro do ano novo. Por isso, não esqueçam que se trata do Dia Mundial da Paz.
A paz é uma realidade interior e exterior que toda a humanidade procura. Alguns autores separam uma paz da outra, mas outros, numa perspectiva mais conciliadora, entendem que uma não é sem a outra.
A doutrina da Igreja Católica sobre esta matéria, também entende claramente que a paz exterior é fruto da paz interior. Ou seja, uma não é sem a outra, estão ambas as dimensões da paz ligadas entre si. Santo Agostinho, no Livro 19 da «Cidade de Deus», deu-nos a primeira definição de Paz, que vai influenciar todas as definições posteriores: «A Paz de todas as coisas é a tranquilidade na ordem». Depois procurou exemplificar com nove casos, que vão desde «a paz da alma racional» à «paz dos cidadãos», passando pela «paz doméstica». Em tudo, há que fixar e lidar com dois elementos cruciais: a harmonia e a ordem.
A primeira é a tranquilidade desejada nesse estado de alma que todas as criaturas anseiam. E a ordem, como diz Santo Agostinho, é «a disposição que segundo as semelhanças e diferenças das coisas confere a cada uma o seu lugar». Assim sendo, definiremos, a paz interior como a tranquilidade do espírito individual, proveniente da ordenação das coisas do mundo e da vida. Sem deixar de mencionar que os aspectos da consciência em comunhão de amizade com Deus, com os homens e com o Universo, são elementos essenciais para esse pleno encontro com a harmonia interior da pessoa.
A segunda, que é a paz exterior (social) será a boa e tranquila convivência com todas as coisas para tal ordenadas. Esta é a paz que Deus quer oferecer a todos.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Vence a indiferença e conquista a paz

«Vence a indiferença e conquista a paz». É o título da mensagem para o quadragésimo nono dia mundial da paz, o terceiro do pontificado de Francisco, dia 1 de janeiro de 2016.
A indiferença em relação às chagas do nosso tempo é uma das causas principais da falta de paz no mundo. A indiferença hoje é muitas vezes ligada a diversas formas de individualismo que produzem isolamento, ignorância, egoísmo e, por conseguinte, falta de compromisso. 
O aumento das informações não significa por si só aumento de atenção aos problemas, se não for acompanhado por uma abertura das consciências no sentido solidário; e para esta finalidade é indispensável a contribuição que, além das famílias, podem dar os professores, todos os formadores, os agentes culturais e os meios de comunicação, os intelectuais e os artistas. 
A indiferença só pode ser vencida enfrentando juntos os desafios. A paz deve ser conquistada: não é um bem que se obtém sem esforços, sem conversão, sem criatividade e confronto. Trata-se de sensibilizar e formar ao sentido de responsabilidade relativo a questões gravíssimas que afligem a família humana, como o fundamentalismo e os seus massacres, as perseguições por causa da fé e da etnia, as violações da liberdade e dos direitos dos povos, a exploração e a escravização das pessoas, a corrupção e o crime organizado, as guerras e o drama dos refugiados e dos migrantes forçados. 
Esta obra de sensibilização e formação considerará, do mesmo modo, também as oportunidades e possibilidades para combater estes males: o desenvolvimento de uma cultura da legalidade e a educação ao diálogo e à cooperação são, neste contexto, formas fundamentais de reacção construtiva.
Quem desejar ler na íntegra o texto do Papa Francisco pode carregar a partir da AQUI...
Destaco o seguinte: «Vivendo nós numa casa comum, não podemos deixar de nos interrogar sobre o seu estado de saúde, como procurei fazer na Carta encíclica Laudato si’. A poluição das águas e do ar, a exploração indiscriminada das florestas, a destruição do meio ambiente são, muitas vezes, resultado da indiferença do homem pelos outros, porque tudo está relacionado. E de igual modo o comportamento do homem com os animais influi sobre as suas relações com os outros, para não falar de quem se permite fazer noutros lugares aquilo que não ousa fazer em sua casa».

Deus

Brilhante reflexão de Tolentino Mendonça sobre Deus. Ler AQUI
Destaque: «O que é que distingue a experiência crente? Talvez apenas isto: compreender que somos procurados, que a nossa fome de verdade é já encontro, que a nossa carência de absoluto é já contacto com o infinito. Quando falamos sobre Deus damos razão à frase do “D. Quixote” que garante: não é a estalagem quem mais nos ensina, mas sim a estrada».

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Os Santos Inocentes de ontem e os de hoje

Da boca dos pequeninos e das criancinhas de peito preparaste um louvor para ti” (Mt 21,16).
No dia 28 de dezembro, a Igreja celebra os Santos Inocentes, ou seja, o martírio das crianças de Belém e arredores, massacradas por ordem de Herodes, que desejava matar o menino Jesus (Mt 2,16-18).

I. O ódio de Herodes
Herodes, chamado “o Grande”, vê-se incomodado pela notícia do nascimento do rei dos judeus, a quem os Magos procuravam para adorar e oferecer presentes. Como os Magos não voltaram a Jerusalém para lhe dizer quem era o Menino, Herodes decreta a morte de todos os meninos de até dois anos de idade, da cidade de Belém. Hoje há tantas vítimas do ódio e da vontade de domínio de alguns que vivem  insaciáveis quanto ao poder e que não olham a meios para saciar as suas fomes pessoais, que tantas vezes são meros caprichos irrelevantes.
II. Morrem por causa de Jesus
Jesus veio para dar-nos a vida, mas ainda não era chegada a hora da sua Paixão e Morte. No lugar do Menino Jesus, que foge para o Egipto com José e Maria, morrem as crianças de Belém. Derramam o seu sangue por Cristo, que veio para derramar o seu sangue por elas. Hoje, são imensas as vítimas inocentes que morrem diariamente porque não podem ser baptizadas e nem sequer pronunciar o nome: Jesus.
III. Ainda não falam, e já proclamam Cristo
“Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos” (Jo 15,13). Os Santos Inocentes ainda não sabem falar, mas dão testemunho de Cristo pela sua morte. Nós, hoje, devemos falar de Cristo, viver como Cristo, mas sobretudo viver em Cristo e morrer com Cristo.
IV. Os sofrimentos dos pais
As crianças de Belém morreram contra a vontade dos seus pais, que deploraram a matança dos seus filhos decretada por um rei tirano. Toda a matança de inocentes é uma barbaridade. Tantas vezes as mães destes inocentes carregarão uma culpa para a vida inteira sem que nenhuma mediação humana possa purificar essa culpa. Hoje, são imensas as mães que se encontram privadas do convívio dos seus filhos, porque lhes foram tirados dos braços, para serem vítimas inocentes da loucura dos adultos perversos.

V. Os soldados executores
Herodes não matou os bebés pessoalmente. Ordenou que soldados os matassem. Estes, embora vissem a monstruosidade da ordem do rei, preferiram obedecer-lhe, talvez por receio de receberem algum castigo. Hoje não são os governantes em pessoa quem pratica abortos e outras formas de morte de inocentes que este mundo apresenta. Eles têm os seus executores. Por exemplo, os nossos hospitais que se converteram em lugares de morte por causa da irresponsabilidade, dos cortes financeiros e simplesmente porque alguém que devia cumprir o seu dever e não cumpre. Há mortes a acontecerem todos os dias e a todas as horas à nossa volta que podia ser evitadas...
VI. O valor do sangue
Nenhuma terra se envergonha de ter mártires. Roma não tem que se envergonhar por ter sido o local do martírio dos apóstolos Pedro e Paulo. A terra de Belém e seus arredores só têm que se gloriar de ter entre os seus habitantes as crianças massacradas pela crueldade de um tirano. O sangue delas é sangue de bênção e de vida. Mas, a situação muda totalmente quando se trata do sangue derramado em virtude de umas leis injustas, medidas desumanas aprovadas por parlamentares eleitos pelo povo e por governos reconhecidos pela comunidade local e internacional. Hoje há disto em quase todos os países do mundo.
VII. A inocência dos mártires
Os mártires de Belém morreram sem terem cometido qualquer pecado. Morreram na inocência própria da infância. Hoje, há fetos que são mortos deliberadamente, uma enxurrada de campanhas para corromper e roubar a inocência a tantas crianças inocentes, tantas vítimas da pedofilia de loucos criminosos que até podem ser pais, padrastos, madrastas, padres e tanto maluco que a sociedade gera por todo o lado. E não esqueçamos as tantas vítimas da fome, da guerra e da pornografia.
VIII. As crianças que sobram
Se Belém tivesse, ao tempo de Cristo, cerca de mil habitantes, talvez tenham morrido uns quarenta meninos. Na mente de Herodes, tais crianças não fariam falta. Poderiam morrer, contanto que, entre eles, estivesse o rei dos judeus, que ameaçava o seu trono. Também hoje se pensa que as crianças podem ser descartadas e que até podem ser abusadas. A mentalidade infelizmente não parece ter mudado muito quanto a este dado. A mentalidade que há gente que sobra continua a marcar a mente em todos os tempos, porque se continua a promover a morte como medida para satisfazer os caprichos de alguns, mesmo que isso implique cercear a vida dos inocentes.
IX. As crianças, imagem de Deus
O desejo supremo do demónio é matar a Deus. Como Deus é imortal, ele investe contra a imagem de Deus, que é a humanidade. Por isso, o demónio é “homicida desde o princípio” (Jo 8,44). Entre os homens, os que mais e melhor reflectem a imagem de Deus são as crianças. Isso explica o desejo insano de matá-las a qualquer custo. O que fez Herodes na época de Jesus, já havia sido feito pelo Faraó no Egipto há mais de mil anos. E hoje, o massacre repete-se em tantos lugares que deviam ser geradores de vida com dignidade, mas afinal convertem-se em antecâmaras da morte, especialmente, de inocentes crianças no mundo inteiro.

Adaptado de um texto do Pe. Luiz Carlos Lodi da Cruz

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Natal

Sejam felizes e isso basta para fazer valer a vida e o mundo…
Nasceu a paz
a inocência nos foi dada.
É Mistério da aliança
que fecunda o mundo
cria a esperança.
Diz é Natal. Diz é Festa.
Melhor ainda é o sentido,
cantem as nossas almas.
Se depende da boa vontade,
nada está perdido.

Sejam estes os sonhos teus e meus,
és crente, ateu, agnóstico, anti Deus…
Não nos importam tais definições,
se no mundo não existir matança.
Para nós basta que pulse nos corações,
o brilho comovente de uma criança.
José Luís Rodrigues

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Os pequenos nadas

Para nos ajudar a criar o «espírito natalício», que é o melhor presente de Natal...
Numa tira de banda desenhada, uma criança contava a uma amiga que, para este Natal, tinha pedido aos seus pais que não lhe oferecessem presentes, mas antes «espírito natalício», e que eles tinham ficado desconcertados, sem entender nem saber o que fazer. A pergunta deve provocar em nós a pergunta: o que é o «espírito de Natal?» - Acho que pode ser o seguinte... Feliz Natal e Boas Festas para todos os leitores do Banquete da Palavra.
Há pequenos nadas que têm grande influência sobre as pessoas: sobre os seus actos, sobre o seu relacionamento, sobre a sua vida toda.
Marta casou-se e a mãe ofereceu-lhe entre outra coisas, uma pequenina caixa vermelha, de cor desgastada pelo uso.
Colocou-a numa prateleira da cozinha e pediu várias vezes ao marido que não a abrisse porque continha umas ervas secretas oferecidas pela mãe, que davam cozinhados saborosos.
É claro que estas recomendações aguçavam imenso a curiosidade do marido, que sempre que passava junto da caixinha lhe lançava um olhar guloso de saber o que estava lá dentro.
Marta, sempre que cozinhava ou confecionava algum bolo abria a pequena caixa, metia a mão e em seguida, como arte mágica, aspergia sobre a carne ou o peixe ou a massa do doce em preparação... Mas o marido nunca via sinais de ervas sobre a comida, que era sempre esplêndida, como aliás reconhecia toda a gente que lá comia.
Certo dia, Marta adoeceu e o marido levou-a ao hospital onde ficou internada. Quando ele regressou a casa, procurou no frigorífico alguma coisa para comer. Levantou o olhar para a caixinha misteriosa. Não resistiu à tentação. Pegou nela com todo o cuidado. Abriu receosamente. E ficou espantado. Não continha ervas nenhumas, nem sinais delas. Apenas viu no fundo um papelinho dobrado.
Abriu-o cautelosamente e reconheceu logo a caligrafia da sogra.
E sentindo um calafrio de emoção leu a frase lá escrita: «Marta, a tudo o que fizeres acrescenta uma pitada de amor!»
Descobriu então o segredo que fazia saborosa e feliz a vida naquela casa humilde...
E vale a pena cada um de nós adoptar este segredo miraculoso: juntar uma pitada de amor - de devoção, de generosidade - a tudo o que fazemos: na vida familiar, na vida profissional, em todas as dimensões da nossa vida...
Mário Salgueirinho

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

O que se passa com o Banif?

Mas o que é isto mais uma vez?
Este capitalismo não nos serve e pelo que se vê não serve para nada. Chega, não suportamos mais esta indignidade. Uns fazem o que entendem: roubam, aldrabam, desviam e  etecetera. Com esta brincadeira de péssimo gosto, informa a comunicação social que os portugueses já deram cerca de 13 mil milhões para salvar a banca.
Em mais um dia tenebroso veio a prenda de Natal do sr. Capitalismo. O governo é forçado a vender o Banif por 150 milhões, o Estado terá que injectar 2,2 mil milhões que serão mais uma carga sobre os espoliados contribuintes.
Mas precisamente neste mesmo dia o mordomo mor deste mal fadado país, instalado no casulo parasitante, chamado de Presidente da República, condecora figuras que em muito devem ter contribuído para o fim Banif...
Mas o mais engraçado desta novela ainda se ouve dizer que os cidadãos têm um ódio de morte contra a banca. Pudera, o que se esperaria. A banca que espezinha até ao tutano o simples e pobre cidadão quando precisa de um singelo empréstimo ou quando faz o mais elementar deste mundo, pedir à banca que seja gestora das suas paupérrimas poupanças.
Porém, ao mesmo tempo beneficia as grandes empresas, que andam entretidas com jogos de casino ou fazer negociatas pouco transparentes predominando as artimanhas e os artifícios financeiros, que conduzem aos desfalques e às crises da banca que depois têm que ser quase incondicionalmente socorridos pelo Estado à conta do pobre cidadão. Também não se percebe porque são salvos os bancos e o oceano de empresas que têm ido pelas canas dentro ninguém salvou nem muito menos se importaram que tivessem lançado na miséria do desemprego milhares de pessoas, que por arrastam lançam na incerteza e na pobreza as famílias. Por isso, chega e não suportamos mais esta dualidade de critérios profundamente injustos.
Cuidado não se distraiam com as delícias e a magia do Natal. Enquanto isso, alguns vão fazendo o seu caminho à conta de muita distração e muita bebedeira.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

O Cântico dos Cânticos um hino à liberdade do amor

Seria pecado não partilhar neste Banquete este magnífico texto sobre o Cântico dos Cânticos que esta manhã foi proclamado nas Missas do parto. Degustem esta belíssima explicação sobre o amor magistralmente cantado pelo Cânticos dos Cânticos. Um livro marginalizado durante séculos porque cantava o amor e a sexualidade, logo, parecia ser pornográfico. Hoje não se pensa nada disso felizmente de tal forma que já entra na Liturgia. Podem saborear AQUI ESTA IGUARIA de Natal para a vida toda. Aliás, serviu para que fizesse a homilia de hoje baseando-me neste comentário.
Santo Agostinho ousa exclamar: «Ama e faz o que quiseres. Se calares, calarás com amor; se gritares, gritarás com amor; se corrigires, corrigirás com amor; se perdoares, perdoarás com amor. Se tiveres o amor enraizado em ti, nenhuma coisa senão o amor serão os teus frutos»
O texto da missa de hoje foi este: Livro de Cântico dos Cânticos (2,8-14)
Eis a voz de meu amado! Ei-lo que chega, correndo pelos montes, saltando sobre as colinas. O meu amado é semelhante a uma gazela ou ao filhinho da corça. Ei-lo detrás do nosso muro, a olhar pela janela, a espreitar através das grades. O meu amado ergue a voz e diz-me: «Levanta-te, minha amada, formosa minha, e vem. Já passou o inverno, já se foram e cessaram as chuvas. Desabrocharam as flores sobre a terra; chegou o tempo das canções e já se ouve nos nossos campos a voz da rola. Na figueira começam a brotar os primeiros figos e a vinha em flor exala o seu perfume. Levanta-te, minha amada, formosa minha, e vem. Minha pomba, escondida nas fendas dos rochedos, ao abrigo das encostas escarpadas, mostra-me o teu rosto, deixa-me ouvir a tua voz. A tua voz é suave e o teu rosto é encantador».

sábado, 19 de dezembro de 2015

O meu presépio

Para o nosso fim de semana. sejam felizes sempre sem prejudicar ninguém... 
Muito frio envolto na rocha de Deus
escavada fez a divina gruta serrana,
irregular e tosca sobre a palha frágil,
está visível um verbo em carne humana.
Repousa o Menino que os antigos creram,
os profetas anunciaram o Messias é certo
escreveram que no orvalho cairia do alto,
e o milagre das nuvens chovia a bênção.
Sobre o lajedo as miríades das estrelas,
juraram no meu presépio o justo está perto.

Somos nós espelhados no reflexo
da palavra sempre nova em pedra fria,
é o que respiram à noite José e Maria
na profunda solidão do tempo que rezo.
São sim refugiados no abrigo do pensamento
o que restou à pobreza foi um estábulo,
como é dura a vida quando resulta do desprezo.

A natureza harmoniosa constrói cristalino
o lugar dos últimos na casa dos animais,
que o mistério fez anfitriões do bafo divino.
São eles que aquecem a dádiva da esperança
nesta música é seguro o fim da guerra,
está na canção do céu entoada pelos anjos:
- «Glória a Deus nas alturas e paz na terra».

Na pedra lascada da pobre casa vejo fundo
ali vieram pastores de perto e de longe,
os vagabundos das pastagens do mundo,
da serra desceram até à porta da salvação,
são os primeiros na divina consideração.
É seguro no meu ver o presépio atesta
para os últimos de todos os tempos,
nasceu agora para sempre a alegria da festa.

Mas rezam as crónicas da catequese
que a salvação é dom universal.
Vieram do Oriente no cintilar da estrela
os Reis Magos diante do trono despojado,
viram o Deus que brilha Encarnado,
pobre no catre dos garavetos sobre panos,
é divino quem se humilha e está suspenso.
Os monarcas de joelhos em adoração
oferecem Ouro, Mirra e Incenso.
José Luís Rodrigues

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Conto de Natal

Muito bonito. Um conto a não perder e ajuda-nos a viver o verdadeiro espírito do natal. Por favor carreguem o conto por AQUI
Frase final do conto: «Gostei tanto de conhecer José e Maria e adorei ajudar Jesus, o Filho de Deus a nascer… Tive a sorte de tê-lo ao colo e de brincar com ele. Havemos de nos reencontrar e tenho a certeza que seremos grandes amigos».
O Papa Francisco há um mês alertou para o seguinte sobre o Natal: «Jesus chora também hoje porque nós preferimos o caminho da guerra, do ódio, da inimizade. Estamos perto do Natal: haverá luzes, festas, árvores iluminadas, presépios, mas é tudo falso: o mundo continua em guerra, a fazer as guerras, não compreendeu o caminho da paz... O que fica de uma guerra, desta como a que estamos agora a viver? Ruínas, milhares de crianças sem educação, tantos mortos inocentes, tantos, e muito dinheiro nos bolsos dos traficantes de armas». De facto, se o Natal não muda o mundo, não converte a humanidade e não faz surgirem atitudes que ponham fim à guerra, tudo não passa disso mesmo: luzes, presépios, árvores, flores, música, bebidas e comida... Façamos do Natal um verdadeiro acontecimento, porque nos converte para a militância na construção da justiça e ao respeito pela natureza, pelos outros e pelo bem destinado a todos os seres humanos. 
Hoje é o Dia Internacional das Migrações, ou Dia Internacional do Migrante. O que é o Migrante? - É considerado migrante a pessoa que:
- é forçada a deixar o seu país ou que o faz voluntariamente;
- procura uma vida melhor ou uma vida diferente;
- possui autorização de residência num determinado país;
- vive na clandestinidade.
O país e povo que não tem disto que atire a primeira pedra contra os milhares ou milhões de deslocados (refugiados, emigrantes, imigrantes, migrantes e todas as pessoas que se veem forçadas a ter que deixar a sua terra, a sua casa, a sua família) por esse mundo fora? - A mensagem da estupidez contra esta calamidade continua de forma tão forte e viva que nos deixa perplexos. A família de Belém também tive logo no início de se deslocar da sua terra para fugir à fúria malévola do sanguinário Herodes. Não sejamos os Herodes dos tempos de hoje... 

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

O encontro que nos livra dos desencontros

Comentário quem dispensa algum tempo para a missa no fim de semana. Este é o domingo IV do tempo do Advento...
Este encontro das duas primas, Maria de Nazaré e Isabel, é dos encontros mais comoventes da Bíblia. Imagino Maria, a jovem de Nazaré, revestida de sol como são os olhos de Deus. Vestida para significar isso mesmo, o amor e a ternura de Deus que veste os lírios do campo mais gloriosos que o rei Salomão (Cf. Mt 6, 29-30), que adorna de vestes finíssimas e ornamentos preciosos a sua esposa Israel (Ez 16, 10-13), que reveste Sião da sua magnificência (Is 52, 1). A esta mulher-sinal, Deus a veste de sol, de toda a luz da sua própria glória e poder.
Por isso, toda a devoção não poderia ser melhor cantada naquela estrofe inesquecível do poema «A Nossa Senhora» de Ruy Cinatti: «Vómitos de cera / honram-na em lágrimas / humedecidas faces / ou repentes de alegria. / Ei-la, portanto, senhora / nos espaços sederais / e na terra mãe / desamparada. / Seu olhar magoado / fere um intranquilo / raio de luz. / E entro no templo / onde milhares de mãos compadecidas / acendem círios. / Digo: Maria! / Ouço: Meu filho!» (in Corpo-Alma, p. 79-80).
Creio que foram estas as palavras, que balbuciou a prima de Maria, Isabel, que recebia de braços estendidos «a Bendita entre todas as mulheres...», porque já sabia de longe do «fruto bendito do teu ventre». Assim, todos nós estamos diante daquela que transporta a salvação.
Perante este encontro de mulheres, somos nós convidados a admirar o Mistério de Deus que cada um transporta. Daí, ser contra o Plano de Deus, todo o desrespeito pela dignidade de cada pessoa, a violência doméstica, o ódio, a ganância, a corrupção, o terrorismo, a insegurança, os palavrões que se aplicam uns contra os outros, os roubos e toda insensibilidade perante a vida e o bem para todos.
Somos desafiados a contemplar o mistério que o «sémen» do Espírito Santo derrama sobre os nossos corações. Se o Natal for exterior ao coração de cada pessoa, é puro folclore como alguns teimam em fazer crer que deva ser assim mesmo. Nós precisamos de verdadeiros encontros, porque estamos cheios dos desencontros que este mundo nos dá. Deixemos que Deus nos toque e que a nossa vida se torne numa dádiva em favor do bem que o presépio manifesta. Que o Menino Deus nos abençoe com a luz da paz e do amor.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

A origem do presépio

Em 1223, São Francisco de Assis criou em Greccio, na Itália, o primeiro presépio da história. Foi um presépio vivo, com moradores da pequena localidade representando o Menino Jesus na manjedoura, Nossa Senhora, São José, os Reis Magos, os pastores e os anjos. Os animais também eram reais: o boi, o burrico, as ovelhas…
Não demorou para que a piedosa iniciativa se espalhasse, transformando-se em costume natalino e dando origem aos presépios esculpidos, que se popularizaram nas igrejas por volta do século XVI por obra dos padres jesuítas.
Quando se monta o presépio, é costume deixar a manjedoura vazia até a noite de 24 de dezembro.
Simbolizando a Natividade do Filho de Deus, a imagem do Menino Jesus é finalmente ali colocada na noite de Natal.
Também tradicional é pôr uma estrela no topo do presépio, em lembrança daquela que guiou os três reis do Oriente até Belém para venerarem o Salvador: Gaspar, Melchior e Balthazar. Os três reis magos representam todos os povos da terra e são figurados com suas exóticas montarias: camelos ou mesmo elefantes. Há famílias que os posicionam inicialmente longe da gruta e os vão aproximando mais a cada dia, até fazê-los chegar junto ao Menino na festa da Epifania, em 6 de janeiro.
Por fim, a presença dos anjos no presépio evoca o cântico “Glória a Deus nos Céus e paz na terra aos homens de boa vontade”, mencionado nas Escrituras.
In Aleteia

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

As indulgências que o mundo e a vida precisam

Jubileu extraordinário da Misericórdia...
A misericórdia é um termo que se refere à benevolência, ao perdão e à bondade. A Misericórdia é um sentimento de compaixão, despertado pela desgraça ou pela miséria alheia. A expressão misericórdia tem origem latina, é formada pela junção de miserere (ter compaixão), e cordis (coração). «Ter compaixão do coração», significa ter capacidade de sentir aquilo que a outra pessoa sente, aproximar os seus sentimentos dos sentimentos de alguém, ser solidário com as pessoas.
Mas o que é a misericórdia de Deus? – O profeta Oséias responde: «Meu coração se contorce dentro de mim, minhas entranhas comovem-se, não executarei ao ardor de minha ira... porque sou um Deus e não um homem» (Os. 11,8). Neste sentido, o Papa Francisco na Casa Santa Marta conclui ontem a sua homilia contando um facto que ocorreu em 1992 em Buenos Aires, durante uma Missa pelos doentes. Estava confessando há muitas horas e estava a ponto de se levantar quando chegou uma mulher muito idosa, com cerca de 80 anos, «com os olhos que viam além, esses olhos repletos de esperança». «E eu disse: “Avó, a senhora quer se confessar?” Porque eu estava indo embora. “Sim”. “Mas a senhora não tem pecados”. E ela disse-me: “Padre, todos nós os temos”. “Mas, talvez o Senhor não os perdoa?” “Deus perdoa tudo!”, disse-me. Deus perdoa tudo. “E como é que a senhora sabe disso?”, perguntei. “Porque se Deus não perdoasse tudo, o mundo não existiria”. Diante dessas duas pessoas – o livre, a esperança, aquele que oferece a misericórdia de Deus, e o fechado, legalista, o egoísta, o escravo da própria rigidez – recordemos desta lição que esta idosa de 80 anos – ela era portuguesa – me deu: Deus perdoa tudo, só espera que nos aproximemos Dele».
A misericórdia de Deus é um assunto muito falado na Palavra de Deus. Realmente, a palavra «misericórdia» aparece lá mais de 250 vezes. A palavra Misericórdia é muito utilizada nas orações e pedidos. É uma palavra que está muito perto de Deus e apresenta-nos uma manifestação especial da sua graça e do seu amor para com todos os homens e mulheres. Tanto no Antigo Testamento bem como nos livros do Novo Testamento, vamos encontrar em muitas passagens esta palavra misericórdia. Para já ficamos com esta pequena achega sobre o que é e o que representa na nossa fé a misericórdia de Deus. Pode ser que tenha faltado dizer que a misericórdia de Deus percebe-se em cada pessoa que seja capaz de assumir na sua realidade concreta atitudes que demonstrem o que é a bondade, a amizade, o perdão e a compaixão. Estas sim são as verdadeiras «indulgências» que o mundo, a Igreja e a humanidade inteira precisam.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

São Tomás de Aquino e o dia em que um boi voou no convento

Eis uma breve lição sobre o dom da palavra e o que fazemos com ela. Antes acreditar no absurdo do que admitir que possa ser possível a falta de verdade prejudicar meio mundo, a partir da boca do outro meio mundo, que até às vezes se considera profundamente religioso com Nossa Senhora, Jesus, o Espírito Santo e a plêiade de santos na boca, mas com o coração cheio de maldades. Este meio mundo, com a inverdade mata a boa fama, a dignidade, rouba o pão da mesa dos outros e fere a justiça em todas as suas vertentes... Antes a fé no inverosímil do que a confirmação que pode ser possível a barbárie pela mentira comanda a vida. Vejamos...
Conta-se na ordem de São Domingos que, certa vez, estando São Tomás de Aquino em sua cela no convento de São Jacques, estudando e trabalhando sobre obscuros manuscritos medievais, entrou de repente um frade folgazão que foi logo exclamando com escândalo:
– Vinde ver, irmão Tomás, vinde ver um boi voando!
O grande doutor da Igreja, muito serenamente, ergueu-se do seu banco, saiu da cela e, dirigindo-se ao átrio do mosteiro, se pôs a olhar o céu, com a mão em pala sobre os olhos fatigados do estudo.
Ao ver a atitude do irmão Tomás, o frade jovial desatou a rir com estrépito.
– Ora, irmão Tomás, então sois tão crédulo a ponto de acreditardes que um boi pudesse voar?
– Por que não, meu amigo? – tornou o santo.
E, com a mesma singeleza, flor da sabedoria, completou:
– Eu preferi admitir que um boi voasse a acreditar que um religioso pudesse mentir.
Relato recopilado por Malba Tahan em “Lendas do Céu e da Terra”
In Aleteia

sábado, 12 de dezembro de 2015

A festa de ontem que é hoje

Par ao nosso fim de semana. E como vai lembrando que somos Natal, fica este enfeite. Sejam felizes sempre sem prejudicar ninguém...
Logo pela manhã desperta,
a voz forte a chamar a paz.
É o Natal de uma criança,
que vem de longe assaz
com ternura faz o presente,
no sorriso é dom de uma dança.

Depois juntamos as mãos,
a fraternidade naquela infância,
quando uma casa é berço
e o convívio era fragrância,
de uma festa do passado
que hoje para a felicidade peço.
José Luís Rodrigues

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

O que fazer?

Breve reflexão para o fim de semana sobre a Eucaristia... Já vamos para o 3º domingo do Advento.
Ao decorrer o Advento vamos sendo confrontados com verbos fortes, vigiar e preparar. Temos sido convidados a acolher o desafio da partilha, com o verbo repartir. Novamente um verbo forte repartir ou partilhar, que pela voz de João Baptista aponta como dimensão essencial do Natal de Jesus. Nada mais urgente e pertinente nos tempos que correm, onde somos confrontados diariamente com necessidades de trabalho, pão e sentido de realização pessoal de tanta gente, particularmente, os jovens, que se debatem com um presente sem possibilidades que lhes faça sorrir o futuro.
O apelo de João Baptista que, já no Advento de Jesus, nos convida a repartir alguma coisa com quem nada tem. O mundo está cheio de injustiça, porque são muito poucos os que têm muitos bens para viverem na abastança, no desperdício e na riqueza desmedida; mas são muitos os que nada têm para sobreviver com a mínima dignidade, a pobreza e com ela a fome alastram de forma terrível por todos os lugares. E lá vamos nós vivendo com este escândalo, habitando um mundo que produz bens suficientes para que ninguém fosse chamado de pobre, mas não há forma de acabar com a fome, com a miséria que afecta todas as sociedades.
As políticas actuais ao invés de apresentarem medidas de protecção social e mecanismos de partilha que levassem os Estados a serem solidários e a contribuírem para acabar com a exclusão e com todo o género de pobreza, fazem precisamente o contrário, o que resta de proteção dos mais necessitados está a ser cruelmente retirado ou então a sofrer investidas taxistas nesta loucura de impostos que os governantes impiedosamente estão a levar a cabo.
O que dizer face à corrupção e ao roubo que mina a política, a justiça, o bem comum e a saudável convivência da sociedade em geral. O nosso mundo enferma por causa da ganância, do egoísmo e do desejo de enriquecimento fácil. Por isso, os roubos são uma realidade do dia-a-dia e a insensibilidade em relação ao bem comum é regra que comanda a vida de muita gente. Daí a pobreza e a exclusão social de uma multidão imensa. À luz do sermão de João Baptista, Indira Ghandi, dizia: «De punhos cerrados, não se pode apertar a mão a ninguém». Que o Advento nos abra o coração e as mãos para partilhar a vida na paz, na amizade e na fraternidade.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

A corrupção em todos os domínios da vida humana

Hoje é dia Mundial Contra Corrupção. Escutemos quem nestes tempos tem denunciado de forma mais veemente este flagelo do mundo, que destrói a humanidade e a natureza (a nossa casa comum)...  
O Papa Francisco resume as principais características desta praga:
1) Imanência. A corrupção tende a gerar uma "verdadeira cultura, com capacidade doutrinal, linguagem própria, jeito próprio de agir", "o cansaço da transcendência: frente a um Deus que não se cansa de perdoar, o corrupto se levanta como autossuficiente na expressão da sua salvação: está cansado de pedir perdão".
2) Boas maneiras. A autossuficiência humana cria um culto às boas maneiras para encobrir os maus hábitos. O corrupto é um acrobata da delicadeza, campeão das boas maneiras. Enquanto "o pecador, reconhecido como tal, de alguma forma, admite a falsidade do tesouro ao qual aderiu ou adere, o corrupto, no entanto, submeteu o seu vício a um curso intensivo de boas maneiras".
3) Medida moral. "O corrupto – escreve Francisco – sempre tem necessidade de se comparar com aqueles que parecem ser coerentes nas suas vidas (mesmo quando se trata da coerência do publicano que se confessa pecador)."
4) Triunfalismo. "O triunfalismo é o terreno ideal para o comportamento corrupto." A este respeito, o teólogo Henri de Lubac fala da ambição e da frivolidade que podem esconder-se na "mundanidade espiritual", a tentação mais perversa, que concebe como ideal moral o homem e seu aperfeiçoamento, e não a glória de Deus. Segundo Bergoglio, a mundanidade espiritual "nada mais é do que a vitória daqueles que confiam no triunfalismo da capacidade humana; o humanismo pagão adaptado ao bom senso cristão".
5) Cumplicidade. "O corrupto não conhece a fraternidade ou a amizade, mas só a cumplicidade"; tende a arrastar todos à sua própria medida moral. Os outros são cúmplices ou inimigos. "A corrupção é o proselitista. Ela se disfarça de comportamento socialmente aceitável", como Pilatos, "que faz de conta que o problema não lhe diz respeito, e por isso lava as mãos, mesmo que no fundo seja para defender a sua zona corrupta de adesão ao poder a qualquer preço".
A corrupção do religioso
"Na Igreja existe sempre a tentação da corrupção. É quando a Igreja, em vez de estar apegada à fidelidade ao Senhor Jesus, ao Senhor da paz, da alegria, da salvação, está apegada ao dinheiro e ao poder.
“Não é só na política, é em todas as instituições, inclusive no Vaticano há casos de corrupção”.
“É como o açúcar: é doce, gostamos, é fácil, e depois acabamos mal. Com tanto açúcar, acabamos diabéticos ou o nosso país acaba diabético”.
“Cada vez que aceitamos um suborno e o metemos ao bolso, destruímos o nosso coração, a nossa personalidade e a nossa pátria. Por favor, não tomem o gosto a esse açúcar que se chama corrupção”.
"Jovens, a corrupção não é um caminho de vida, é um caminho de morte".
Baseado na Agência Aleteia

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

A maternidade de Maria de Nazaré e a ecologia

O grande desafio do nosso tempo é este, a ecologia. E mais concretamente as alterações climáticas ou o aquecimento global. As grandes questões da humanidade hoje têm que ver com toda a humanidade, graças às grandes vias de comunicação que a humanidade magnificamente desenvolveu. Mas, se quisermos verdadeiramente perceber o que é um problema global, concentremo-nos nesta questão sobre a ecologia, que tem que ver com toda a humanidade, com toda a natureza e com a expressão belíssima «a nossa casa comum», reforçada pelo Papa Francisco nos seus discursos e no seu grito de alerta, a Encíclica Laudato Si (Louvados Sejas). Hoje a questão de todos nós prende-se com a necessidade de salvar a nossa Gaia, a «nossa mãe terra». É o planeta terra que precisa de ser salvo, para que toda a humanidade e a natureza que a sustenta estejam a salvo. Vamos ver o que Maria de Nazaré nos pode ajudar.
Maria de Nazaré desde os primórdios do Cristianismo foi identificada como a Mãe de Deus. Em 431, o Concílio de Éfeso definiu explicitamente a maternidade divina de Nossa Senhora. Daí que tenha depois ganho grande tradição a expressão «Imaculada Conceição» aplicada a Maria de Nazaré e percebe-se tal título se considerarmos (acreditando) na sublime dádiva dada por Deus à humanidade. Maria de Nazaré, é uma mulher igual a qualquer outra mulher. O sentido e a altíssima dignidade da sua missão, ser a mãe do Filho de Deus, confere-lhe uma distinção em relação às outras mulheres. A tradição milenar deu-lhe esta dignidade sublime e apresenta-a de forma distinta. Nada de grave quanto a isso. Como todas as outras coisas do Cristianismo e de qualquer outra religião, acredita quem quer. Não deve por isso vir mal nenhum ao mundo por causa disso.
Mas vamos ao testemunho e exemplo de Maria de Nazaré para aprendermos a lidar com a vida e com a natureza. O Papa Francisco disse de Maria na sua Encíclica sobre a ecologia no nº 241 o seguinte: «Maria, a mãe que cuidou de Jesus, agora cuida com carinho e preocupação materna deste mundo ferido. Assim como chorou com o coração trespassado a morte de Jesus, assim também agora Se compadece do sofrimento dos pobres crucificados e das criaturas deste mundo exterminadas pelo poder humano. Ela vive, com Jesus, completamente transfigurada, e todas as criaturas cantam a sua beleza. É a Mulher «vestida de sol, com a lua debaixo dos pés e com uma coroa de doze estrelas na cabeça» (Ap12, 1). Elevada ao céu, é Mãe e Rainha de toda a criação. No seu corpo glorificado, juntamente com Cristo ressuscitado, parte da criação alcançou toda a plenitude da sua beleza. Maria não só conserva no seu coração toda a vida de Jesus, que «guardava» cuidadosamente (cf.Lc2, 51), mas agora compreende também o sentido de todas as coisas. Por isso, podemos pedir-Lhe que nos ajude a contemplar este mundo com um olhar mais sapiente».
Os tempos que correm precisam de uma pedagogia mariana e um sentido novo de maternidade. A Igreja Católica precisa de ter um rosto materno, seguindo o exemplo do Papa Francisco, que sem medo de nada nem de ninguém avança ao encontro de toda a humanidade, expressando como é o rosto materno de Deus, que se expressa pelo amor, a ternura e o carinho que as verdadeiras mães não se cansam de manifestar em favor dos seus filhos. No lugar da maternidade verdadeira não há lugar nem espaço nem tempo para apresentar condições. Tudo é desprendido, desinteressado e sem condições. Salvemos a maternidade em todos os seus domínios e teremos a salvo toda a humanidade e a «nossa casa comum», a mãe terra.

sábado, 5 de dezembro de 2015

A Deus diz misericórdia

Para o nosso fim de semana. Sejam felizes sempre sem prejudicar ninguém.
Naquele dia descobri que de Deus
pode ser misericórdia
cada ritual divino omnisciente
e cada pessoa indelével
que deleita o olhar sobre a planície da água.

A misericórdia de Deus não tem definição
é incomparável ao tempo e à visão
que as crianças soletram com o dedo em riste
sobre as letras desalinhadas no papel da vida.

É maior que o mundo os equívocos
diante dessa misericórdia inefável
que está sobre si mesmo
infinitamente no quadro morto
dos pintores quando fizeram uma paisagem
que vale tanto ao prazer do mundo
porque os nossos olhos lhe deram existência.

A misericórdia de Deus é como Deus
infinita e eterna.

E só Deus cria e recria a misericórdia
pela luz que se acende
à tristeza que ensombra o homem
se tantas vezes se perde no caminho
que conduz à fonte.
José Luís Rodrigues

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

As leis sempre ao serviço da justiça e do bem comum

A fidelidade aos valores e aos sentimentos não podem estar dependentes da materialidade exterior nem muito menos devem ser oprimidos com a imposição da violência da lei. Não valerá muito mais uma pessoa interiormente liberta da opressão do que uma pessoa subjugada, recalcada e vergada ao peso do sofrimento da frustração.
As consequências da imposição da letra da lei são bem notórias no rosto de muita gente. Se, por um lado, o legalismo é evidente que é responsável por muito sofrimento, por muitas frustrações e muito recalcamento. Por outro, a cegueira da lei ainda é responsável por muito compadrio, muita corrupção e por muita violação dos valores da democracia. As regras, deviam em todos os casos serem um meio e nunca um fim em si mesmas. As leis devem ser um instrumento que conduz à paz e ao bem comum.
Assim sendo, perante uma circunstância legalista que gerou indefinição, a opção é clara, tomar partido do amor e acolher a vida sempre nessa base. Esta é a verdadeira lei que liberta e que salva. Não é esta a novidade essencial da mensagem cristã? Não foi Jesus Cristo que nos ensinou que o mandamento principal da vida seria o do amor?
A cada um compete olhar as coisas da vida com sabedoria e inteligência para que a fidelidade ao amor não esbarre com a imposição da lei. Toda a lei inoportuna, ineficaz, desumana e anacrónica devia ser suprimida sem qualquer sombra de dúvida, para que à nossa volta, não exista mais gente a sofrer com problemas sérios de frustração.
Resta só dizer que quem se deixou tomar pela frieza do espírito da lei sofre e faz sofrer todos os outros que estejam à sua volta. O legalismo cria monstros insensíveis à multiplicidade e diversidade das coisas do mundo e da vida. O recalcamento do amor e da paixão mina toda a vontade própria e a saúde da liberdade.
Acima de tudo desejamos gente liberta interiormente, sem teias de aranha nas suas mentes para que vivam e ensinem a viver a paixão pela vida. As regras convivem connosco e devem existir sempre, porém, requerem inteligência para que não se tornem uma opressão e uma violência contra a riqueza do amor. É certo e muito mais que certo que é preciso mais do que nunca saber amar.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Aplanar os vales e abater as montanhas

Breve reflexão para a missa deste 2º domingo do tempo do Advento
João Baptista é a voz que clama no deserto a revolução de Deus: «Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas». A voz do Filho de Zacarias, está na senda do profeta Isaías que proclama o sonho de Deus, que consiste na grande revolução que Deus deseja levar a cabo. A nós, cabe-nos prepararmo-nos para a mudança a transformação da vida, a nossa vida e a deste mundo. Não pode ser impossível fazer do mundo um lugar de paz e de saudável convivência sem prejudicar ninguém, mas fazendo tudo para todos serem felizes à nossa volta. Se me dizem que isto é impossível, então, atraiçoamos a inteligência e o engenho que nos foram dados. Não podemos amordaçar o melhor da humanidade.
Diz assim o Profeta: «No monte Sião, o Senhor do universo prepara para todos os povos um banquete de carnes gordas, acompanhadas de vinhos velhos, carnes gordas e saborosas, vinhos velhos e bem tratados»; «Aniquilará a morte para sempre. O Senhor Deus enxugará as lágrimas de todas as faces, e eliminará o opróbrio que pesa sobre o seu povo, sobre toda a nação». É o sonho, o desejo, a vontade de Deus, que ecoa sobre os telhados dos tempos pela voz dos profetas.
Até porque Origines, o cristão do séc. II, confirmou que «cada um o que era antes de ter fé; e constatará que era um vale profundo, a pique, mergulhado nos abismos». Mais ainda adianta o pensador cristão Origines que «todos os vales podem ser aplanados. Eles podem ser aplanados com as boas obras e os frutos do Espírito Santo. A caridade não deixa subsistir em ti vale algum e, se possuíres a paz, a paciência e a bondade, para além de deixares de ser um vale, também começarás a ser uma montanha de Deus.
Esta urgência de Deus, nada tem a ver com a lógica dos poderes instalados deste mundo, porque não procuram o bem para todos. Os poderes actuais do mundo estão todos ao serviço dos interesses de grupos económicos e seguem a lógica do mercado. É o lucro e as mais-valias do dinheiro que movem os poderes. Mas logo se segue uma multidão imensa de pobres, porque esta lógica assenta na injustiça e no açambarcamento dos bens da natureza de forma desregrada, para fixar-se numa «economia que mata» (Papa Francisco). Por isso, há algo terrível, que vamos vendo através dos enormes sinais desastrosos assentes nos enormes desequilíbrios humanos, espirituais, sociais e ambientais a humanidade não tem futuro.
As várias cimeiras temáticas, não levam a conclusões nem levam as nações a compromissos sérios na construção do bem comum. Porque não se acaba com o escândalo da fome no mundo? Porque não se distribui a riqueza de forma partilhada, para que toda a humanidade pudesse sobreviver condignamente? - Faz falta mudar atitudes e deixar de criar subterfúgios comodistas. A mudança implica sempre expressar acções concretas de justiça e de fraternidade, é o único modo de nos preparamos para a vinda de Jesus.
Precisamos de um mundo justo, preocupado com o bem para todos. Só a vida doseada com alguma espiritualidade poderá levar-nos à felicidade, que implica transformação, mudança concreta.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

O fundamentalismo não é religioso, é idolatria

O Papa Francisco no avião de regresso a Roma depois da sua estadia em África… Destaco mais esta ideia das suas declarações abordo do avião aos jornalistas que o acompanharam na viagem. Trata-se desta actual e pertinente ideia relacionada com o fundamentalismo, que permitiu que o Papa colocasse os pontos nos is e definiu que ninguém, no domínio da religião, pode atirar pedras contra ninguém... Quem desejar tomar conta de todos os assuntos tratados pode ver AQUI
Eis o assunto espinhoso: o fundamentalismo religioso que ameaça todo o planeta, como demonstra os recentes ataques em Paris. O fundamentalismo, explica o Papa, é «uma coisa ruim», uma «doença» que «existe em todas as religiões». «Até nós católicos temos alguns – muitos – que acreditam que possuem a verdade absoluta e seguem em frente sujando os demais com a calúnia, a difamação, e fazem o mal». Portanto, é necessário «combater» o fundamentalismo religioso, simplesmente porque «não é religioso, falta Deus, é idolátrico».
O fundamentalismo judeu e islâmico inquieta e entristece. O cristão-católico irrita e revolta. Basta ver Jesus e o Seu Evangelho.
Neste ambiente, andou um destacado antigo bispo de Portugal a participar em celebrações tridentinas. O Tridentismo é uma forma de ressuscitar o conservadorismo anacrónico e é também fundamentalismo contra as reformas do Papa Francisco. Custa muito ver que gente inteligente, que se diz adepta da Ecclesia semper reformanda, que dizem pregar o Evangelho da inclusão de Jesus de Nazaré contra todas as formas de exclusão, afinal, também embarca no requinte e na riqueza exagerada que este conservadorismo sempre manifesta. Uma campanha perigosa.
Há cinco ou seis séculos atrás, o fundamentalismo católico fez-se com as cruzadas contra os infiéis e foi também a negra inquisição que dividia a sociedade em bons e maus, santos e bruxos e combatia esse maniqueísmo com métodos bárbaros. Eis algo que nos envergonha hoje e são sempre elementos de arremesso duro no debate sobre a história da Igreja Católica. Porém, resta salvaguardar que não eram todos os cristãos e todos os grupos de cristãos que assumiam a violência como método principal de conversão e de evangelização do mundo. São muitos os santos e mártires que nesse tempo souberam acolher a mensagem do Evangelho como semente de amor.
Mas, todas as tentativas de retrocesso revestidas de fanatismo que por aí andam, porque contradizem a vontade de Cristo, não passam de uma roupagem idolátrica e anacrónica, que não salva senão os comodismos pessoais dos interesseiros deste mundo e enche o ego de quem gosta de encher o vazio que o assiste com a roupagem da pompa e da circunstância.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

O Papa e o preservativo o eterno busilis

Hoje Dia Mundial da Luta Contra a Sida...
E continua a Igreja Católica a ter vergonha de falar do que Deus não teve vergonha de criar... 
Pode ser lida a AQUI A NOTÍCIA
No âmbito da sexualidade a Igreja Católica, tem sempre um discurso negativo que remonta a Santo Agostinho. Meteu-se por aí e face ao evoluir do mundo não sabe o que dizer e como dizer, por isso, fixa-se no mais fácil, não muda a reflexão e mantém um pensamento antigo que nada diz aos homens e mulheres de hoje. Uma posição clara no sentido de se considerar importante também o uso do preservativo como uma forma de combate a Sida faria muito bem à humanidade inteira. O Papa Bento XVI admitiu-o embora ainda timidamente. 
O Papa Francisco considera e bem que a fome, o trabalho escravo, a falta de água potável e o tráfico de armas como exemplos, são problemas mais importantes que o uso do preservativo. Sim, é certo, mas a Sida que dizima populações inteiras em África e tendo em conta que os especialistas consideram que uma das formas de combate a esta doença terrível passa pelo uso do preservativo, porque não uma posição clara nesse sentido? Que mal moral advém daí? Que mal haverá tomar uma posição clara? – As portas da misericórdia neste domínio continuam entre abertas ou melhor continuam com uma pequena fresta aberta…  

A Violência Oculta

Melhor não encontro para dizer sobre o estado de violência em que estamos mergulhados...
A primeira razão por que a violência maior actua de modo silencioso, e das poucas vezes que falamos dela falamos apenas da ponta do icebergue. Nós acreditamos que estamos perante fenómenos de violência apenas quando essa tensão assume proporções visíveis, quando ela surge como espectáculo mediático. Mas esquecemos que existem formas de violência oculta que são gravíssimas. Esquecemos, por exemplo, que todos os dias, no nosso país, são sexualmente violentadas crianças. E que, na maior parte das vezes, os agressores não são estranhos. Quem viola essas crianças são principalmente parentes. Quem pratica esse crime é gente da própria casa. 
Nós temos níveis altíssimos de violência doméstica, em particular, de violência contra a mulher. Mas esse assunto parece ser preocupação de poucos. Fala-se disso em algumas ONGs, em alguns seminários. A Lei contra a violência doméstica ainda não foi aprovada na Assembleia da República. 
Existem várias outras formas invisíveis de violência. Existe violência quando os camponeses são expulsos sumariamente das suas terras por gente poderosa e não possuem meios para defender os seus direitos. Existe uma violência contida quando, perante o agente corrupto da autoridade, não nos surge outra saída senão o suborno. Existe, enfim, a violência terrível que é o vivermos com medo. 
E existe essa outra violência maior que é considerarmos a violência como um facto normal. Existe, em suma, essa terrível aprendizagem de negarmos em nós mesmos tudo que nos ensinaram como valor humano: o ser solidário com os outros, os que sofrem. 
Mia Couto, in 'E Se Obama Fosse Africano?'