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quinta-feira, 3 de março de 2016

Estar morto e voltar à vida

Comentário à missa deste fim de semana. Domingo IV Quaresma
O texto do Filho Pródigo é sempre daqueles textos da Sagrada Escritura que nos comovem profundamente. Porque nos apresenta a infinita misericórdia de Deus (o papel do Pai), a dimensão do arrependimento (o filho que cai em si) e a tendência humana para o egoísmo (o Filho mais velho). Nesta tríplice dimensão circula a nossa vida.
Esta parábola conta a história de um homem que tinha dois filhos. O filho mais novo resolve pedir ao pai a sua parte da herança e vai para uma terra distante viver a vida como achava que deveria viver. Nessa terra distante ele vai gastar cada centavo do seu dinheiro com todos os prazeres desta vida, até que todo o dinheiro acaba e ele termina a mendigar. Mesmo assim ainda consegue um trabalho como cuidador de porcos, tamanha era a fome que sentia, que desejava alimentar-se com a comida dos porcos. Mas, bate em si o arrependimento e lembra-se da casa do pai e resolve voltar. É recebido com uma festa pelo pai e rejeitado pelo o irmão mais velho.
O essencial da história do Filho Pródigo está que a nossa fé deve crer de verdade que a misericórdia de Deus existe e que serve para nos reconduzir à profundidade da vida em liberdade. Nenhuma pessoa deve abdicar desta graça maravilhosa que Deus nos concede, mesmo que as quedas para o erro sejam uma circunstância inevitável de toda a vida e da vida de cada pessoa. Devemos saber que o grande amor de Deus não falha nunca e que mesmo errando nos montes e vales que preenchem a existências neste mundo, somos depois abraçados e convidados para festa do grande amor de Deus.
O Papa Francisco na Bula «O Rosto da Misericórdia», o texto da proclamação do Ano da Misericórdia, encontramos as seguintes ideias sobre a misericórdia de Deus. Aliás com frases profundamente marcantes: «Quanto desejo que os anos futuros sejam permeados de misericórdia para ir ao encontro de todas as pessoas levando-lhes a bondade e a ternura de Deus». Feita proclamação do sonho daqueles que se assumem cristãos, define qual é a ideia da Misericórdia de Deus: «A misericórdia de Deus não é uma ideia abstrata mas uma realidade concreta, pela qual Ele revela o seu Amor como o de um Pai e de uma Mãe que se comovem pelo próprio filho até o mais íntimo das suas vísceras».
Mas perguntamos, onde ver claramente a ser vivida essa ideia tão bonita de Deus? – A resposta pronta emana por aqui: «A Pessoa de Jesus não é senão Amor, um Amor que se dá gratuitamente. O seu relacionamento com as pessoas, que se abeiram d’Ele, manifesta algo de único e irrepetível. Tudo n’Ele fala de Misericórdia. Nele, nada há que seja desprovido de compaixão».
Esta passagem Bíblica, a Parábola do Filho Pródigo, descobrimo-la magnificamente pintada num dos quadros de Rembrandt. Deus é Pai e Mãe, «...encheu-se de compaixão, correu e lançou-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos».
O verdadeiro alvo da pintura de Rembrandt são as mãos do pai. Um dado de uma extraordinária riqueza simbólica e teológica da obra é que as mãos com que o pai acolhe e abraça o filho são diferentes uma da outra. Nelas se concentra toda a luminosidade, a elas se dirigem os olhares dos que estão próximos, nelas a misericórdia se personifica; nelas se unem perdão, reconciliação e cura e, através delas, não somente o filho cansado, mas também o pai abatido, encontra repouso.
A mão esquerda do pai tocando o ombro do filho é forte, larga, viril, musculosa. Os dedos estão bem abertos e cobrem o ombro direito e parte das costas do filho. Sem deixar de expressar ternura e delicadeza na maneira com que o pai toca o filho, sua mão esquerda protege e fortalece, dá segurança e oferece comunhão.
Nesta parábola é essencial descobrir-se Deus em quem o masculino e o feminino, a paternidade e a maternidade estão totalmente presentes. Mais nenhuma entidade por mais bíblica que seja supera esta magnífica descoberta. Para ser crente Cristão bastará seguramente este conteúdo para a sua fé.

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