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sexta-feira, 4 de março de 2016

Manifesto contra uma certa anarquia à volta da morte

A morte é uma realidade inevitável para todas as pessoas, para todas as famílias. Mais tarde ou mais cedo somos todos confrontados com um acontecimento desses, é a morte de um familiar, um amigo, um colega, um conhecido, um vizinho, um chefe, um patrão, um funcionário, uma pessoa que por qualquer razão passou por nós várias vezes ou algumas vezes no mundo terreno. Quando esse falecimento nos toca, ficamos tristes e muito sensíveis. Precisamos de apoio e de palavras que nos consolem e que nos façam voltar à vida concreta com ânimo e esperança.
Após a morte consomada necessitamos de um cemitério, para que seja prestado o serviço específico que dê o destino final à evidência da morte e possamos dar sepultura digna ao defunto. No caso de São Martinho, realizar uma cremação.
No Funchal, temos vários cemitérios, todos eles tutelados pela Câmara Municipal do Funchal. Há uma política de cemitérios que serve pouco ou nada as pessoas, os descuidos são confrangedores. Será que se organiza os cemitérios para servir alguns que lá mandam ou trabalham?
Vejamos então. Os pobres trabalhadores (vulgo cangalheiros) trabalham que se fartam a virar terras, tábuas (barrotes) mal amanhadas, que lá virá o dia em que se partem e trambolharão para o fundo das valas comuns. Estes homens de quem se fala, carregam que se fartam e ao fim do mês recebem uma ninharia de salário. Assim sendo, mal pagos o serviço não pode ser melhor e pouca gente pensa nisso.
Em São Martinho e São Gonçalo, os enterramentos são em valas comuns, como se estivéssemos em guerra permanente ou como se todos os dias houvesse entre nós um massacre que resulta em centenas de mortos. Toda a envolvência revela uma imagem apocalíptica, cratera ao cumprido e montanhas de terras removidas. No mínimo um cenário dantesco.  
Os funerais nunca são marcados em hora mais conveniente para os sacerdotes e famílias, a não ser que venham familiares do estrangeiro, para essa circunstância há alguma tolerância, de resto é como a administração do cemitério entende. Não pode, arranjem outro. Às famílias não lhes convém, não venha. Não deve ser isso que se diz abertamente, mas é o que se pensa e diz às escondidas.
As marcações de funerais funcionam assim, só podem ser entre as 13 horas e as 15 horas de meia em meia hora, tipo um pacote, podem ir além dessas horas quando o pacote já esteja completo ou quando há cremações, que até há pouco tempo eram feitas dois dias por semana, uma às 10 horas e outra ao 12.30 horas. Mas, consta que essas regras já foram quebradas e as cremações passaram a ser todos os dias, inclusive ao domingo a qualquer hora. Esta anarquia prejudica a vida das pessoas e revela o quanto andamos distraídos quanto à dignidade e respeito que nos devem merecer os defuntos. Esta (des)organização, parece beneficiar alguém. Uma sociedade desorganizada na morte, como não será com as coisas da vida?
Toda esta desordem acontece perante o descuido e o silêncio dos eleitos, que o povo pôs a mandar durante quatro anos estes serviços públicos. Mas, acontece também esta bandalheira perante os olhos das Agência Funerárias, que se calam completamente, mesmo que isso prejudique o serviço que prometeram cumprir convenientemente, por isso, deviam exigir pessoal qualificado, bem remunerado, limpeza como deve ser em todo o espaço por onde passa o funeral, desde a capela até à sepultura. Às taxas cobradas e aos nossos impostos, devia corresponder um serviço impecável a todos os níveis.
Por fim, convido os eleitos da Câmara do Funchal, os responsáveis dos cemitérios do Funchal e todo o pessoal trabalhador a participarem num funeral em qualquer cemitério de Câmara de Lobos. Pode não ser o serviço ideal, mas muito melhor que o serviço nos cemitérios do Funchal. O ambiente dentro do cemitério é completamente diferente, a limpeza, o asseio dos terrenos, dos passeios e das campas, a forma como sepultam os féretros, revelam bem como estamos em mundos diferentes.
Não posso deixar este texto terminar sem que faça uma pequena salvaguarda em relação aos cemitérios do Monte e de Santo António. As sepulturas no terreno são individuais, não têm valas comuns, no geral estão um pouco melhores que os outros, por isso, algumas coisas aqui ditas não se aplicam a estes.
E término deste manifesto, faço um apelo, é preciso acabar com esta insensibilidade geral. Este funcionalismo puro e duro não se conjuga com um momento tão confrangedor na vida das pessoas, que as deixa em lágrimas e com os nervos à flor da pele. Por isso, todos os que estão envolvidos neste serviço da sepultura dos defuntos, devem colocar-se totalmente ao serviço das pessoas. Não querem, não sabem… Digo-vos o que frequentemente dizem sobre os padres, quando não pode fazer o funeral na hora que vossas excelências impõem, procurem outro trabalho, porém, se aceitam este, qualifiquem-se especificamente para servirem como deve ser um serviço tão sensível e delicado. 

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