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quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Carta aberta a um incendiário

Não te saúdo. Porque, humanamente, estou revoltado e cheio de raiva contra ti…
Não é só o teu gesto irrefletido, maldoso e irresponsável que te leva a acender um isqueiro (ou outra coisa qualquer, porque, parece, que as formas para atear fogo estão a revelar-se bem criativas) e fazê-lo propositadamente pegar fogo na mata numa ocasião de calor tórrido e ventos fortes, aliás, fortíssimos, mas resulta a minha revolta depois de ver casas reduzidas a cinza, o pulmão verde que nos rodeia, que nós precisamos tanto para respirar saudavelmente, todo preto, famílias jogadas para fora do seu lar só com a roupa que tinham no corpo, crianças em pânico, velhinhos a tremer de medo e com dificuldades em respirar, o pior de tudo pessoas que já não estão no convívio da vida neste mundo, morrem queimadas cercadas pelo lume bravo. É disto que falo, porque é tudo isto que vi e senti passar diante dos meus olhos, que por várias vezes já não podia abrir, ardiam e estavam vermelhos como pimentas.
Não me vou alongar com muitos considerandos nem te vou fazer citações do Papa Francisco nem muito menos da Bíblia, porque será inútil fazer isso, porque os energúmenos como tu, não sabem ler o que olhos te revelam, a natureza, por exemplo, muito menos deves saber ler a grandeza das letras devidamente harmonizadas formando palavras e frases.
Por isso, quero apenas e só dizer-te que não gostamos de ti. As crianças não gostam de ti. Os velhinhos estão tristes contigo. A população em geral está revoltada contigo. Não imploramos caridade para ti, mas justiça e uma pequena réstia de bom senso para te entregares à justiça humana, para que te aplique uma pena na proporção do teu crime dentro do espírito das leis que nós temos em vigor. É essa a caridade que reservamos para ti.
O teu gesto é mau de mais. Não tens consciência. Não tens um pingo de respeito pela vida alheia. Não sabes o que é a dádiva da natureza. Não pensas. Se o fazes é só para fazer maldades como esta. Não sabes viver em sociedade. Por isso, sempre que começa o Verão deves ser engavetado, tirado do convívio social. 
Nesta hora de dor e tristeza, imploramos força e coragem para o rol das imensas vítimas que criastes com o teu gesto maldoso e ainda assim, para ti, rezamos para que Deus providencie o que for da Sua vontade. Quanto a nós, humanamente falando, já que o mal está feito, desejamos que algum dia os remorsos de consumam eternamente. Adeus. Não perco mais tempo contigo…

5 comentários:

Margarida P. V. disse...

Sr. Padre, por favor...o incendiário não merece benevolência, mas não consigo deixar de sentir pena de uma criatura sem noção e que, com a cabeça rebentada pelo álcool e pelas drogas já aos 23 anos, faz tamanha monstruosidade. Mas não podemos dirigir a raiva toda a ele, temos de fazer um exame de consciência e ver qual a nossa culpa nisto também.

José Luís Rodrigues disse...

Não me refiro só e apenas a este incendiário, mas a todos.
Nada justifica a barbaridade, sobretudo, quando ela faz vítimas. Porque quando as há devemos colocar-nos sempre do lado delas e contra os algozes. Nesta coisas coloco-me sempre do lado das vítimas contra quem acha que é dono disto tudo. Era assim que Jesus fazia, procuro à minha medida tentar imitar o meu Mestre. Abraço e obrigado pela sua partilha.
Quanto ao perdão para quem semeia o mal, Deus, que é Todo Poderoso, vai encarregar-se dele. Obviamente, que rezo por eles e confio na infinita Sabedoria de Deus que no devido momento se vai manifestar.

José Luís Rodrigues disse...

Algumas mentes após a leitura desta carta a um incendiário, dizem que sou padre e que como tal estou a "semear o ódio" e que devia ter pena dele porque é um "perturbado". Digam-me o que devo sentir perante as centenas ou milhares de desalojados, as três pessoas que morreram, a paisagem negra onde antes era verde deslumbrante, o caos que semeou o medo, o terror e a insegurança durante vários dias... Sim, o que devo sentir perante a destruição que implica agora muitos milhões para recontruir e trazer à normalidade milhares de pessoas? Digam-me lá...
Dever ser então que um "perturbado", pelo facto de o ser, pode fazer tudo o que entender e depois deve ter toda a minha consideração e admiração, porque sou padre? Se assim é, repito com toda frontalidade o que já disse, seja entregue à misericórdia de Deus e à justiça humana para responder pelo seu crime hediondo, este e todos os terroristas que há no mundo.
Mas ainda, aconselho a que se leia com olhos de ver o texto escrito ao incendiário (ao da Madeira e aos outros) e hão-de reparar que nenhuma palavra incita ao ódio e à vingança. Pelo contrário, coloca onde devem ser colocados todos os perturbados deste mundo quando recusam porque sim aprender a viver em comunidade.

Margarida P. V. disse...

Sr. Padre, Já queria ter voltado aqui mas ainda não tinha tido oportunidade. Eu penso que entendi perfeitamente o sentido da sua carta e o que o moveu a escrevê-la. Não imagino, porque não estava lá, tudo o que presenciou nos incêndios e todas as situações de autêntica desgraça que acredito que ainda lhe esteja a bater à porta a pedir ajuda.
Mas sabe (e agora vou falar de um modo geral), desde o primeiro momento em que se suspeitou de um incendiário, e então depois de ser divulgada a foto dele, tenho assistido a um autêntico linchamento na praça pública. É uma coisa horrorosa de se assistir. De repente, toda a gente se esqueceu de todos os outros factores para se concentrarem só no incendiário. Haver um incendiário, retira-nos assim como que por magia, a culpa que temos por não termos prestado atenção ao estado das nossas matas e florestas, não termos limpado os nossos próprios terrenos, termos permitido que os nossos governantes plantassem a vegetação errada à volta das nossas casas e se calhar nem reparamos nisso, termos construído as nossas casas em áreas de acesso difícil, furando PDM´s e oferecendo luvas a políticos inconscientes para nos permitirem tal coisa. Preocupa-me esta perseguição ao incendiário porque desvia-nos do real problema, podemos prender e castigar este incendiário, mas e os outros?
Atenção, o incendiário deve ser punido exemplarmente, disso não tenho a menor dúvida. Mas também sei que não é essa punição que vai desincentivar outros, pois estou convencida que é quase como uma doença.
Enfim, não sou especialista em nada disto, apenas dou a minha opinião. Encontrei a sua carta partilhada nas redes sociais com comentários acrescentados inflamados de ódio e que, francamente, me assustam.
Não vim comentar, porque o Sr. Padre é padre, nem achei que devia ser mais ou menos misericordioso do que qualquer um de nós. Está mais próximo de Deus do que eu, mas é humano. Apenas comentei porque não gostei de ver a sua carta a servir de apoio para posts de ódio e que não servem para nada senão para encorajar maus sentimentos.
Posto isto, arregaçar mangas e mãos à obra: há muito para reconstruir e há muita prevenção para fazer. Gosto muito de "conversar" consigo!

José Luís Rodrigues disse...

Obrigado Margarida pelo sue comentário.
Pertinente e certeiro.
De facto um incendiário preso concentra as atenções e até cega o público. Deixamos de ver outras pontas igualmente importantes para avaliar a situação. Por isso, o seu comentário pôs o dedo na ferida. Mais uma vez muito fico-lhe agradecido.